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domingo, 10 de novembro de 2024

Gabriel G Márquez - O Amor nos Tempos de Cólera: A ideia lhe veio de repente

O Amor nos Tempos de Cólera


Gabriel García Márquez
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continuando...

      A ideia lhe veio de repente quando jantavam na sala privada. O comandante estava inquieto devido a um problema que há tempos queria discutir com Florentino Ariza, mas que ele afastava sempre com o argumento usual: "Dessas amolações Leona Cassiani cuida melhor que eu." Contudo, esta vez escutou. O caso é que os navios transportavam carga de subida, mas desciam vazios, enquanto ocorria o contrário com os passageiros. "A vantagem está com a carga, que paga mais e além disso não come", disse. Fermina Daza jantava de má vontade, aborrecida com a enervada discussão dos dois homens quanto à conveniência de estabelecer tarifas diferenciais. Mas Florentino Ariza chegou ao final, e só então soltou uma pergunta que ao capitão pareceu o anúncio de uma ideia salvadora:

— Falando por hipótese — disse — seria possível fazer uma viagem direta sem carga nem passageiros, sem tocar em porto nenhum, sem nada?

     O comandante disse que só era possível por hipótese. A C.F.C. tinha compromissos trabalhistas que Florentino Ariza conhecia melhor que ninguém, tinha contratos de carga, de passageiros, de correio, e muitos mais, incontornáveis em sua maioria. A única coisa que permitia saltar por cima de tudo era um caso de peste a bordo. O navio se declarava de quarentena, içava-se a bandeira amarela e se navegava numa emergência. O comandante Samaritano tinha tido que fazê-lo várias vezes devido aos muitos casos de cólera aparecidos no rio, embora as autoridades sanitárias obrigassem logo os médicos a expedir certificados de disenteria comum. Além disso, muitas vezes na história do rio içava-se a bandeira amarela da peste para burlar impostos, para não recolher um passageiro indesejável, para impedir buscas inoportunas. Florentino Ariza encontrou a mão de Fermina Daza por baixo da mesa.

— Pois bem — disse — façamos isso.

     O comandante se espantou, mas em seguida, com seu instinto de raposa velha, viu tudo claro.

— Eu mando neste navio, mas o senhor manda em nós — disse. — De maneira que se está falando sério, me dê a ordem por escrito, e poremos mãos à obra.

     Era sério, é claro, e Florentino Ariza assinou a ordem. No fim das contas todo mundo sabia que os tempos do cólera não haviam terminado, apesar dos alegres informes das autoridades sanitárias. Quanto ao navio, não havia problema. Transferiu-se a pouca carga embarcada, aos passageiros se disse que havia um percalço de máquinas, e foram passados de madrugada para um navio de outra empresa. Se coisas assim se faziam por tantas razões imorais, e até indignas, Florentino Ariza não via por que não seria lícito fazê-las por amor. A única coisa que o capitão suplicava que se fizesse era uma escala em Porto Nare, para recolher alguém que o acompanharia na viagem: também ele tinha seu coração escondido. 
     Assim, o Nova Fidelidade zarpou ao amanhecer do dia seguinte, sem carga nem passageiros, e com a bandeira amarela do cólera flutuando com júbilo no mastro maior. Ao entardecer recolheram em Porto Nare uma mulher mais alta e robusta que o comandante, de uma beleza descomunal, à qual só faltava a barba para ser contratada por um circo. Chamava-se Zenaida Neves, mas o comandante a chamava Minha Energúmena: uma antiga amiga sua, que costumava pegar num porto para deixar em outro e que subiu a bordo tocada pela ventania da ventura. Naquele morredouro triste, onde Florentino Ariza reviveu as saudades de Rosalba quando viu o trem de Envigado subindo a duras penas pela antiga cornija de mulas, desabou um aguaceiro amazônico que havia de continuar com muito poucas pausas até o fim da viagem. Mas ninguém se incomodou: a festa navegante tinha seu teto próprio. Aquela noite, como uma contribuição pessoal à pândega, Fermina Daza desceu às cozinhas, entre as ovações da tripulação, e preparou para todos um prato inventado ao qual Florentino Ariza deu como nome de batismo: berinjelas ao amor.
     Durante o dia jogavam cartas, comiam até rebentar, faziam sestas de granito que deixavam todos exaustos, e mal baixava o sol, davam livre curso à orquestra, e bebiam aguardente de anis com salmão até muito além da saciedade. Foi uma viagem rápida, com o navio leve e águas boas, melhoradas pelas cheias que se precipitavam das cabeceiras, onde choveu tanto aquela semana quanto em todo o trajeto. De alguns povoados lhes disparavam canhonaços de caridade para espantar o cólera, que eles agradeciam com um bramido triste. Os navios de qualquer companhia com que cruzavam no caminho mandavam sinais de condolências. Na povoação de Magangué, onde nasceu Mercedes, carregaram lenha para o resto da viagem.
     Fermina Daza se assustou quando começou a sentir a sereia do navio dentro do ouvido são, mas no segundo dia de anis ouvia melhor com ambos. Descobriu que as rosas cheiravam mais que antes, que os pássaros cantavam ao amanhecer muito melhor que antes, e que Deus tinha feito um peixe-boi e o pusera na praia de Tamalameque só para que a acordasse. O comandante o ouviu, fez desviar o navio, e viram por fim a matrona enorme amamentando sua criança nos braços. Nem Florentino nem Fermina perceberam o quanto se haviam amalgamado: ela o ajudava com os clisteres, se levantava antes dele para escovar a dentadura postiça que ele punha no copo enquanto dormia, e resolveu seu problema dos óculos perdidos, pois os dele lhe serviam para ler e cerzir. Certa manhã, ao acordar, viu-o na penumbra pregando um botão de camisa, e se apressou a pregá-lo, antes que ele repetisse a frase ritual de que precisava de duas esposas. Em compensação, a única coisa que ela precisou dele foi que lhe aplicasse uma ventosa para uma dor nas costas.
     Florentino Ariza, de sua parte, se pôs a revolver saudades com o violino da orquestra, e em meio dia já era capaz de executar para ela a valsa da Deusa Coroada, que tocou durante horas até que o fizeram parar à força. Uma noite, pela primeira vez em sua vida, Fermina Daza despertou de repente afogada num pranto que não era de raiva e sim de pena, pela lembrança dos anciãos do bote mortos a pauladas pelo remeiro. Em compensação, a chuva incessante não a comoveu, e achou demasiado tarde que talvez Paris afinal não tivesse sido tão lúgubre quanto lhe parecera, nem Santa Fé tivesse tido tantos enterros pelo meio da rua. O sonho de outras viagens futuras com Florentino Ariza se ergueu no horizonte: viagens loucas, sem tantos baús, sem compromissos sociais: viagens de amor.
     Na véspera da chegada fizeram uma festa grande, com grinaldas de papel e lanternas coloridas. Estiou ao entardecer. O comandante e Zenaida dançaram muito juntos os primeiros boleros que naqueles anos começavam a estilhaçar corações. Florentino Ariza se atreveu a sugerir a Fermina Daza que dançassem sua valsa confidencial, mas ela se negou. No entanto, a noite inteira marcou o compasso com a cabeça e os saltos, e houve até um momento em que dançou sentada sem perceber, enquanto o comandante se confundia com sua terna energúmena na penumbra do bolero. Bebeu tanto do anis que foi preciso ajudá-la a subir as escadas, e sofreu um ataque de riso com lágrimas que chegou a alarmar a todos. Não obstante, quando conseguiu dominá-lo no remanso perfumado do camarote, fizeram um amor tranquilo e são, de serenos avós, que se fixaria em sua memória como a melhor lembrança daquela viagem lunática. Não se sentiam mais como noivos recentes, ao contrário do que o comandante e Zenaida supunham, e menos ainda como amantes tardios. Era como se tivessem saltado o árduo calvário da vida conjugal, e tivessem ido sem rodeios ao grão do amor. Deixavam passar o tempo como dois velhos esposos escaldados pela vida, para lá das armadilhas da paixão, para lá das troças brutais das ilusões e das miragens dos desenganos: para lá do amor. Pois tinham vivido juntos o suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte.
     Acordaram às seis. Ela com a dor de cabeça perfumada de anis, e com o coração aturdido pela impressão de que o doutor Juvenal Urbino tinha voltado, mais gordo e mais moço que quando escorregou da árvore, e estava sentado na cadeira de balanço, esperando-a à porta da casa. Contudo, estava bastante lúcida para perceber que não era efeito do anis, mas da iminência da volta.

— Vai ser como morrer — disse.

     Florentino Ariza se surpreendeu porque era a adivinhação de um pensamento que não o deixava viver desde o início da volta. Nem ele nem ela conseguiam se ver numa casa que não fosse o camarote comendo de modo diferente do que o faziam no navio, incorporados a uma vida que lhes seria alheia para sempre. Era, com efeito, como morrer. Não pôde mais dormir. Permaneceu deitado de costas na cama, as mãos entrelaçadas na nuca. A um certo momento, a pontada de América Vicuña fez com que se retorcesse de dor, e não pôde protelar mais a verdade: trancou-se no banheiro e chorou à vontade, sem pressa, até a última lágrima. Só então teve a coragem de confessar a si mesmo quanto a amara.
     Quando se levantaram já vestidos para desembarcar, tinham deixado para trás os canais e pântanos da antiga passagem espanhola, e navegavam entre os escombros de navios e os tanques de óleos mortos da baía. Erguia-se uma quinta-feira radiante sobre as cúpulas douradas da cidade dos vice-reis, mas Fermina Daza não pôde suportar do tombadilho a pestilência de suas glórias, a arrogância de seus baluartes profanados pelas iguanas: o horror da vida real. Nem ele nem ela, sem nada dizerem, sentiram-se capazes de se render de maneira tão. fácil.
     Encontraram o comandante na sala de jantar, num estado de desordem que não estava de acordo com a pulcritude de seus hábitos: a barba por fazer, os olhos injetados pela insônia, a roupa suada da noite anterior, a fala transtornada pelos arrotos de anis. Zenaida dormia. Começavam a tomar o café em silêncio quando um bote a gasolina da Saúde do Porto mandou parar o navio. 
     O comandante, da sua ponte de comando, respondeu aos gritos às perguntas da patrulha armada. Queriam saber que tipo de peste grassava a bordo, quantos passageiros vinham, quantos estavam doentes, que possibilidades havia de novos contágios. O comandante respondeu que só traziam três passageiros, e todos tinham o cólera, mas se mantinham em reclusão estrita. Nem os que deviam embarcar na Dourada, nem os vinte e sete homens da tripulação, tinham tido qualquer contato com eles. Mas o chefe da patrulha não ficou satisfeito, e mandou que saíssem da baía e esperassem no pântano das Mercês até as duas da tarde, enquanto se preparavam os trâmites para que o navio ficasse de quarentena. O comandante soltou um palavrão de carroceiro e com um gesto da mão mandou o prático dar a volta completa e voltar aos pântanos.
     Fermina Daza e Florentino Ariza tinham ouvido tudo da mesa, mas pouco pareciam importar ao comandante. Continuou comendo em silêncio, e seu mau humor era visível na maneira por que violava as leis de urbanidade que sustentavam a reputação legendária dos capitães do rio. Arrebentou com a ponta da faca os quatro ovos fritos, arrebanhou-os para seu prato com patacões de banana verde que enfiava inteiros na boca e mastigava com um deleite selvagem. Fermina Daza e Florentino Ariza o olhavam sem falar, esperando a leitura das notas finais num banco da escola. Não tinham trocado uma palavra enquanto durou o diálogo com a patrulha sanitária, nem tinham a menor ideia do que ia ser de suas vidas, mas ambos sabiam que o comandante estava pensando por eles: via-se pelo pulsar das suas têmporas. 
     Enquanto ele despachava a ração de ovos, a bandeja de rodelas de banana, o bule de café com leite, o navio saiu da baía com as caldeiras sossegadas, abriu caminho nos canais através dos lençóis de tarulla, o lótus fluvial de flores de púrpura e grandes folhas em forma de coração, e voltou aos pântanos. A água era furta-cor devido ao mundo de peixes que boiavam de costas, mortos pela dinamite dos pescadores furtivos, e os pássaros da terra e da água voavam em círculos sobre eles com guinchos metálicos. O vento do Caribe se meteu pelas janelas com o alarido dos pássaros, e Fermina Daza sentiu no sangue as batidas desordenadas de seu livre-arbítrio. À direita, turvo e parcimonioso, o estuário do rio Grande da Madalena se espraiava até o outro lado do mundo.
     Quando não havia mais nada que comer nos pratos, o comandante limpou os lábios com o canto da toalha, e falou num jargão procaz que acabou de uma vez por todas com o prestígio do bom falar dos capitães do rio. Pois não falou por eles nem para ninguém, mas apenas tentando pôr-se de acordo com a própria raiva. Sua conclusão, ao fim de uma réstia de impropérios bárbaros, foi que não descobria como sair da embrulhada em que se metera com a bandeira do cólera. 
     Florentino Ariza o escutou sem pestanejar. Depois olhou pelas janelas o círculo completo do quadrante da rosa náutica, o horizonte nítido, o céu de dezembro sem uma única nuvem, as águas navegáveis para sempre, e disse:

— Sigamos em linha reta, reta, reta, outra vez até a Dourada. 

     Fermina Daza estremeceu, porque reconheceu a antiga voz iluminada pela graça do Espírito Santo, e olhou o comandante: ele era o destino. Mas o comandante não a viu, porque estava anonadado pelo tremendo poder de inspiração de Florentino Ariza. 

— Está dizendo isso a sério? — perguntou.
— Desde que nasci — disse Florentino Ariza — não disse uma única coisa que não fosse a sério. 

     O comandante olhou Fermina Daza e viu em suas pestanas os primeiros lampejos de um orvalho de inverno. Depois olhou Florentino Ariza, seu domínio invencível, seu amor impávido, e se assustou com a suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites. 

— E até quando acredita o senhor que podemos continuar neste ir e vir do caralho? — perguntou. 

     Florentino Ariza tinha a resposta preparada havia cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites.  

— Toda a vida — disse.

Fim...
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Leia também:

O Amor nos Tempos de Cólera: A ideia lhe veio de repente
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O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA. Gabriel García Márquez
Tradução Antônio Callado
Título original El amor en los tiempos del cólera. Record Rio de Janeiro. 1985.

"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

sábado, 9 de novembro de 2024

Gabriel G Márquez - O Amor nos Tempos de Cólera: Levou-o para o quarto

O Amor nos Tempos de Cólera


Gabriel García Márquez
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continuando...

      Levou-o para o quarto e começou a se despir sem falsos pudores com as luzes acesas. Florentino Ariza se estendeu de costas na cama, procurando recobrar o domínio, de novo sem saber o que fazer com a pele do tigre que tinha matado. Ela disse: "Não olhe." Ele perguntou por que sem afastar a vista do teto baixo. 

— Porque você não vai gostar — disse ela.

     Então ele a olhou, viu-a nua até a cintura, tal como a imaginara. Tinha os ombros enrugados, os seios caídos e as costelas forradas de um pelame pálido e frio como o de uma rã. Ela tapou o peito com a blusa que acabava de tirar, e apagou a luz. Ele então se refez e começou a se despir na escuridão, jogando nela cada peça de roupa que tirava e que ela devolvia morta de rir.
     Permaneceram deitados de costas um longo tempo, ele mais e mais aturdido à medida que o abandonava a embriaguez, e ela tranquila, quase abúlica, mas rogando a Deus que não a deixasse rir sem razão, como sempre que exagerava um pouco com o anis. Conversaram para entreter o tempo. Falaram de si mesmos. De suas vidas diferentes, do acaso inverossímil de estarem nus no camarote escuro de um navio encalhado, quando o justo era pensar que já não tinham tempo senão para esperar a morte. Ela jamais ouvira dizer que ele tivesse tido uma mulher, uma que fosse, numa cidade em que tudo se sabia até mesmo antes de acontecer. Disse isso de um modo casual, e ele respondeu de pronto sem o mais leve tremor na voz:

— É que me conservei virgem para você.

     Ela não teria acreditado nisso de maneira alguma, ainda que fosse verdade, porque suas cartas de amor estavam cheias de frases como essa que não valiam pelo seu sentido mas pelo seu poder de deslumbramento. Mas gostou da coragem com que ele falou. Florentino Ariza, de sua parte, perguntou de repente a si mesmo o que jamais teria ousado perguntar: que classe de vida oculta tinha tido ela à margem do casamento. Nada o teria surpreendido, por saber muito bem que as mulheres são iguais aos homens em suas aventuras secretas: os mesmos estratagemas, as mesmas inspirações súbitas, as mesmas traições sem remorsos. Mas fez bem em não lhe perguntar. Numa época em que suas relações com a igreja já andavam bastante avariadas, o confessor lhe perguntou sem que viesse à baila se alguma vez tinha sido infiel ao marido, e ela se levantou sem responder, sem terminar, sem se despedir, e nunca mais voltou a se confessar com esse confessor nem com nenhum outro. Por outro lado, a prudência de Florentino Ariza teve uma recompensa inesperada: ela estendeu a mão no escuro, acariciou-lhe o ventre, os flancos, o púbis quase sem pelos. Disse: "Você tem uma pele de neném." Depois deu o passo final: buscou-o onde não estava, tornou a buscá-lo sem ilusões, e o encontrou inerme. 

— Está morto — disse ele.

     Acontecia amiúde da primeira vez, com todas, desde sempre, de modo que tinha aprendido a conviver com aquele fantasma: a cada vez tinha que aprender de novo, como se fosse a primeira. Pegou a mão dela e a colocou no próprio peito: Fermina Daza sentiu quase à flor da pele o velho coração incansável batendo com a força, a pressa e a desordem de um adolescente. Ele disse: "Amor demais é tão mau para isto como falta de amor." Mas disse sem convicção: estava envergonhado, furioso consigo mesmo, ansiando por um motivo para culpá-la do seu fracasso. Ela sabia, e começou a provocar o corpo indefeso com carícias de brinquedo, feito uma gata terna folgando na crueldade, até que ele não aguentou mais o martírio e foi para o seu camarote. Ela continuou pensando nele até o amanhecer, convencida por fim de seu amor, e à medida que o anis a abandonava em lentas ondas, ia sendo invadida pela aflição de que ele se tivesse revoltado e não voltasse nunca mais.
     Mas voltou no mesmo dia, à hora insólita de onze da manhã, fresco e restaurado, e se desnudou na frente dela com uma certa ostentação. Foi um prazer vê-lo a plena luz tal como o imaginara no escuro: um homem sem idade, de pele escura, lúcida e tensa como um guarda-chuva aberto, sem pelos além dos muito escassos e espichados das axilas e do púbis. Estava de guarda alta, e ela percebeu que não deixava ver a arma por acaso e sim que a exibia como um troféu de guerra para se dar coragem. Nem lhe deu tempo de tirar a camisola que tinha posto quando começou a brisa do amanhecer, e sua pressa de principiante provocou nela um arrepio de compaixão. Que não a afetou, porque em casos como aquele não lhe parecia fácil distinguir entre a compaixão e o amor. No fim, porém, se sentiu vazia.
     Era a primeira vez que fazia amor em mais de vinte anos, e o fizera embargada pela curiosidade de sentir como podia ser, em sua idade e depois de um recesso tão prolongado. Mas ele não tinha lhe dado tempo de saber se seu corpo também estava querendo. Tinha sido rápido e triste, e ela pensou: "Agora está tudo fodido." Mas se enganou: apesar do desencanto de ambos, apesar do arrependimento dele pela sua bisonhice e do arrependimento dela pela loucura do anis, não se separaram um instante nos dias seguintes. Mal saíam do camarote para as refeições. O comandante Samaritano, que descobria por instinto qualquer mistério que quisessem manter em seu navio, mandava-lhes a rosa branca todas as manhãs, armou-lhes uma serenata de valsas do seu tempo, e mandava preparar para eles comidas de brincadeira com ingredientes alentadores. Não tentaram de novo o amor até muito depois, quando a inspiração chegou sem que a buscassem. Bastava-lhes a ventura simples de estar juntos.
     Não teriam sequer pensado em sair do camarote se o comandante não lhes comunicasse numa nota que depois do almoço chegariam a Dourada, o porto final, ao fim de onze dias de viagem. Fermina Daza e Florentino Ariza avistaram do camarote o promontório de casas iluminadas por um sol pálido, e acreditaram descobrir a razão do seu nome, mas já acharam a razão menos evidente quando sentiram o calor que resfolegava como as caldeiras, e viram ferver o asfalto das ruas. Além disso, o navio não atracou ali e sim na margem oposta, onde ficava a estação terminal da estrada de ferro de Santa Fé.
     Abandonaram o refúgio logo que os passageiros desembarcaram. Fermina Daza respirou o bom ar da impunidade no salão vazio, e ambos contemplaram da amurada a multidão alvoroçada que identificava as bagagens nos vagões de um trem que parecia de brinquedo. Alguém poderia pensar que chegavam da Europa, sobretudo as mulheres, cujos abrigos nórdicos e chapéus do século anterior eram um contrassenso na canícula poeirenta. Algumas traziam os cabelos enfeitados com formosas flores que começavam a fenecer com o calor. Acabavam de chegar da planície andina depois de um dia de trem através de uma savana de sonho, e ainda não tinham tido tempo de mudar de roupa para o Caribe.
     Em meio à algazarra de feira, um homem muito velho de aspecto inconsolável tirava pintos dos bolsos do capote de mendigo. Tinha aparecido de repente, abrindo caminho entre a multidão com um sobretudo em farrapos que pertencera a alguém muito mais alto e corpulento. Tirou o chapéu, que pôs de abas para cima no cais caso alguém quisesse arremessar urna moeda, e começou a tirar dos bolsos punhados de pintinhos frágeis e descoloridos que pareciam proliferar entre seus dedos. Num momento estava o cais atapetado de pintos inquietos piando por todos os lados, entre os viajantes apressados que pisavam neles sem saber. Fascinada pelo espetáculo de maravilha que parecia executado em sua homenagem, pois só ela o contemplava, Fermina Daza não percebeu em que momento começaram a entrar no navio os passageiros da viagem de volta. Acabou sua festa: entre os que chegavam notou logo muitas caras conhecidas, algumas de amigos que fazia pouco a haviam acompanhado em seu luto, e se apressou em refugiar-se outra vez no camarote. Florentino Ariza encontrou-a consternada: preferia morrer a ser descoberta pelos seus numa viagem de prazer, pouco tempo depois da morte do marido. Florentino Ariza ficou tão afetado pelo seu abatimento que prometeu pensar em algum modo de protegê-la que não fosse o cárcere do camarote.

continua na página 253...
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O Amor nos Tempos de Cólera: Levou-o para o quarto
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O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA. Gabriel García Márquez
Tradução Antônio Callado
Título original El amor en los tiempos del cólera. Record Rio de Janeiro. 1985.

"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Gabriel G Márquez - O Amor nos Tempos de Cólera: Florentino Ariza

O Amor nos Tempos de Cólera


Gabriel García Márquez
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continuando...

      Florentino Ariza previra que essa noite as coisas aconteceriam assim, e se retirou. Já à porta do camarote procurou se despedir com um beijo, mas ela lhe ofereceu a face esquerda. Ele insistiu, já com a respiração entrecortada, e ela ofereceu a outra face com uma coqueteria que ele não vira nela quando colegial. Então insistiu pela segunda vez, e ela o recebeu nos lábios, recebeu-o com um tremor profundo que procurou sufocar com um riso esquecido desde sua noite de núpcias.

— Deus meu — disse — que louca que eu fico nos navios! 

     Florentino Ariza estremeceu: com efeito, e ela própria dissera, tinha o cheiro azedo da idade. No entanto, enquanto andava para seu camarote, abrindo caminho entre o labirinto de redes adormecidas, consolava-se com a ideia de que ele devia ter o mesmo cheiro, só que quatro anos mais velho, e que ela sem dúvida o sentira com a mesma emoção. Era o cheiro dos fermentos humanos, que ele percebera nas amantes mais antigas, e que elas tinham sentido nele. A viúva de Nazaret, que não guardava nada para si, tinha dito a ele de modo mais cru: "Já temos cheiro de urubu." Cada um suportava o cheiro do outro, porque estavam à mão: meu cheiro contra o seu. Em compensação, muitas vezes pensara no caso de América Vicuña, cujo cheiro de fraldas despertava nele os instintos maternais, enquanto o inquietava a ideia de que ela não pudesse aguentar o seu: seu cheiro de velho verde. Mas tudo isso pertencia ao passado. O importante era que pela primeira vez desde aquela tarde em que tia Escolástica deixara o livro de missa no balcão do telégrafo, Florentino Ariza não tornara a sentir uma felicidade como a dessa noite: tão intensa que lhe causava medo.
      Começava a adormecer quando o contador do navio o despertou às cinco no porto de Zambrano para lhe entregar um telegrama urgente. Estava assinado por Leona Cassiani, com data do dia anterior, e todo seu horror cabia numa linha: América Vicuña morta ontem motivos inexplicáveis. Às onze da manhã soube dos pormenores através de uma conferência telegráfica com Leona Cassiani, na qual ele mesmo operou o equipamento transmissor como não voltara a fazer desde seus dias de telegrafista. América Vicuña, presa de uma depressão mortal por ter sido reprovada nos exames finais, tinha tomado um vidro de láudano roubado na enfermaria do colégio. Florentino Ariza sabia no fundo de sua alma que a notícia estava incompleta. Mas não: América Vicuña não deixara nenhuma nota explicativa que permitisse culpar quem quer que fosse de sua resolução. A família estava chegando de Porto Pai nesse momento, avisada por Leona Cassiani, e o enterro seria às cinco da tarde. Florentino Ariza respirou. A única coisa que podia fazer para continuar vivo era não permitir o suplício daquela lembrança. Apagou-o da memória, embora de vez em quando pelo restante de seus anos fosse senti-lo reviver de repente, sem qualquer razão, como a pontada súbita numa cicatriz antiga.
     Os dias seguintes foram calorentos e intermináveis. O rio ficou turvo e se foi estreitando cada vez mais, e em vez do emaranhado de árvores colossais que assombrara Florentino Ariza na primeira viagem, havia planícies calcinadas, destroços de selvas inteiras devoradas pelas caldeiras dos navios, escombros de povoados abandonados de Deus, cujas ruas permaneciam inundadas mesmo nas épocas mais cruéis da seca. Durante a noite não eram despertados pelos cantos de sereia dos peixes-boi nas pontas de areia, e sim pela baforada nauseabunda dos mortos que passavam boiando rumo ao mar. Pois já não havia guerras nem pestes mas os corpos inchados continuavam passando. O capitão foi sóbrio por uma vez: "Temos ordens de dizer aos passageiros que são afogados acidentais." Em lugar da algaravia dos louros e do escândalo dos micos invisíveis que em outros tempos aumentavam o bochorno do meio-dia, só restava o vasto silêncio da terra arrasada.
     Havia tão poucos lugares onde fazer lenha, e estavam tão separados entre si, que o Nova Fidelidade ficou sem combustível no quarto dia de viagem. Permaneceu atracado quase uma semana, enquanto membros da tripulação se internavam por pântanos de cinzas em busca das últimas árvores dispersas. Não havia outras: os lenhadores tinham abandonado suas veredas fugindo à ferocidade dos senhores da terra, fugindo ao cólera invisível, fugindo das guerras larvadas que os governos se empenhavam em ocultar com decretos de distração. Enquanto isso, os passageiros, enfadados, faziam torneios de natação, organizavam expedições de caça, voltavam com iguanas vivas que abriam ao meio e tornavam a costurar com agulhas de ensacamento depois de extrair delas as pencas de ovos, translúcidos e moles, que punham a secar enfileirados nos parapeitos do navio. As prostitutas pobres dos povoados próximos seguiram a trilha das expedições, improvisaram tendas de campanha na barranca da margem, trouxeram música e cantina, e plantaram a pândega diante do navio encalhado.
     Desde muito antes de ser presidente da C.F.C., Florentino Ariza recebia informes alarmantes da condição do rio, e mal os lia. Tranquilizava os sócios: "Não se preocupem, quando a lenha acabar já haverá navios de petróleo." Nunca se deu o trabalho de pensar no assunto, obnubilado pela paixão por Fermina Daza, e quando percebeu a verdade já não havia nada a fazer, a menos que se arranjasse um rio novo. À noite, mesmo nas épocas de melhores águas, era preciso atracar para dormir, e então se tornava insuportável o mero fato de estar vivo. A maioria dos passageiros, sobretudo os europeus, abandonavam o podredouro dos camarotes e passavam a noite andando pelas cobertas, espantando toda classe de insetos com a mesma toalha com que secavam o suor incessante, e amanheciam exaustos e inchados de picadas. Um viajante inglês de princípios do século XIX, referindo-se à viagem combinada em canoa e mula, que podia durar até cinquenta dias, tinha escrito: "Esta é uma das peregrinações piores e mais incômodas que um ser humano possa realizar." Isto deixara de ser verdade nos primeiros oitenta anos da navegação a vapor, e depois tinha voltado a ser para sempre, quando os jacarés comeram a última borboleta, e acabaram os peixes-boi maternais, acabaram os louros, os micos, as povoações: acabou tudo.

— Não há problema — ria o comandante. — Dentro de uns anos viremos pelo leito seco em automóveis de luxo.

     Fermina Daza e Florentino Ariza estiveram protegidos durante os três primeiros dias pela suave primavera do mirante fechado, mas quando racionaram a lenha e começou a falhar o sistema de refrigeração, o camarote presidencial se converteu numa cafeteira a vapor. Ela sobrevivia às noites com o vento fluvial que entrava pelas janelas abertas, e espantava os mosquitos com uma toalha, pois a bomba de inseticida era inútil com o navio encalhado. A dor de ouvido tinha ficado insuportável, e certa manhã quando ela acordou cessou de repente e por completo, feito o canto de uma cigarra arrebentada. Mas até a noite não percebeu que tinha perdido a audição do ouvido esquerdo, quando Florentino Ariza lhe falou por esse lado, e ela precisou virar a cabeça para ouvir o que dizia. Não disse nada a ninguém, resignada diante de mais um dos tantos defeitos sem remédio da idade.
     No entanto, a demora do navio tinha sido para eles um percalço providencial. Florentino Ariza tinha lido certa vez: "O amor se torna maior e mais nobre na calamidade." A umidade do Camarote Presidencial afogou-os num letargo irreal em que era mais fácil amar sem perguntas. Viviam horas inimagináveis de mãos dadas nas poltronas da amurada, beijavam-se devagar, gozavam a embriaguez das cadeias sem o estorvo da exasperação. Na terceira noite de torpor ela o esperou com uma garrafa de aguardente de anis, daquela que tomava às escondidas com a malta da prima Hildebranda, e mais tarde, já casada e mãe dos filhos, trancada com as amigas do seu mundo de empréstimo. Precisava de um certo aturdimento para não pensar na própria sorte com demasiada lucidez, mas Florentino Ariza acreditou que era para se dar coragem no passo final. Animado por essa ilusão, atreveu-se a explorar com a ponta dos dedos seu pescoço flácido, o peito encouraçado de varetas metálicas, as cadeiras de ossos carcomidos, as coxas de corça velha. Ela o aceitou com agrado e de olhos fechados, mas sem arrepios, fumando e bebendo aos goles espaçados. No final, quando as carícias deslizaram para seu ventre, já tinha bastante anis no coração.

— Se temos de fazer safadezas, vamos a elas — disse — mas que seja como gente grande.


continua na página 253...
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Leia também:

O Amor nos Tempos de Cólera: Florentino Ariza
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O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA. Gabriel García Márquez
Tradução Antônio Callado
Título original El amor en los tiempos del cólera. Record Rio de Janeiro. 1985.

"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Gabriel G Márquez - O Amor nos Tempos de Cólera: Soube

O Amor nos Tempos de Cólera


Gabriel García Márquez
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continuando...

      Soube. Fermina Daza deu instruções ao camareiro para que a deixasse dormir a seu gosto, e quando acordou havia na mesa da cabeceira um jarro com uma rosa branca, fresca, ainda suada de orvalho, e com ela uma carta de Florentino Ariza com tantas folhas quantas conseguira escrever depois de se despedir dela. Era uma carta tranquila, que procurava apenas exprimir o estado de ânimo que o embargava desde a noite anterior: tão lírica quanto as outras, tão retórica como todas, mas apoiada na realidade. Fermina Daza leu-a um tanto envergonhada de si mesma com os descarados galopes do seu coração. Acabava com o pedido de que avisasse ao camareiro quando estivesse pronta, pois o capitão os esperava no posto de comando para mostrar o funcionamento do navio.
     Estava pronta às onze, banhada e recendente a sabonete de flores, com um vestido de viúva muito singelo de étamine cinzenta, e inteiramente refeita da tempestade da noite. Pediu um café sóbrio ao camareiro de branco impecável, que estava no serviço pessoal do comandante, mas não mandou o recado de que viessem buscá-la. Subiu só, deslumbrada pelo céu sem nuvens, e encontrou Florentino Ariza conversando com o comandante no posto de comando. Pareceu-lhe diferente, não só porque ela o via agora com outros olhos, como porque havia de fato mudado. Em lugar da fúnebre indumentária da vida inteira usava sapatos brancos muito cômodos, calça e camisa de linho de colarinho aberto e manga curta e seu monograma bordado no bolso do peito. Usava além disso um gorro escocês, também branco, e um dispositivo de vidros escuros superposto a seus eternos óculos de míope. Via-se logo que era tudo de primeiro uso e acabado de comprar com o propósito da viagem, salvo o cinto de couro marrom, muito gasto, que Fermina Daza notou ao primeiro golpe de vista como uma mosca na sopa. Ao vê-lo assim, vestido para ela de um modo tão ostensivo, não pôde impedir o rubor de fogo que lhe subiu ao rosto. Perturbou-se ao cumprimentá-lo, e ele se perturbou mais ainda com a perturbação dela. A consciência de que se comportavam como noivos perturbou-os ainda mais, e a consciência de estarem ambos perturbados acabou de perturbá-los a tal ponto que o comandante Samaritano notou tudo com um trêmulo de compaixão. Tirou-os do apuro explicando o manejo dos comandos e o mecanismo geral do navio durante duas horas. Navegavam muito devagar por um rio sem margens que se dispersava entre praias áridas até o horizonte. Mas ao contrário das águas turvas da desembocadura, aquelas eram lentas e diáfanas, e tinham um resplendor de metal debaixo do sol impiedoso. Fermina Daza teve a impressão de um delta povoado de ilhas de areia.

— É o pouco que nos vai restando do rio — disse o comandante.

     Florentino Ariza, com efeito, estava surpreendido com o que havia de mudado, e mais ainda estaria no dia seguinte, quando a navegação ficou mais difícil, e percebeu que o rio pai, o Madalena, um dos maiores do mundo, não passava de uma ilusão da memória. O capitão Samaritano explicou como o desmatamento irracional tinha acabado com o rio em cinquenta anos: as caldeiras dos navios tinham devorado a selva emaranhada de árvores colossais que Florentino Ariza sentia como uma opressão na primeira viagem. Fermina Daza não veria os bichos de seus sonhos: os caçadores de peles dos curtumes de Nova Orleans haviam exterminado os jacarés que fingiam de mortos com as fauces abertas durante horas e horas nos barrancos da margem para surpreender as borboletas, os louros com suas algaravias e os micos com seus gritos de doidos tinham ido morrendo à medida que acabavam as frondes, os peixes-boi de grandes tetas de mãe que amamentavam as crias e choravam com vozes de mulher desolada nas pontas de areia eram uma espécie extinta pelas balas blindadas dos caçadores de prazer.  
     O capitão Samaritano tinha um afeto quase maternal pelos peixes-boi, porque lhe davam a impressão de senhoras condenadas por algum extravio de amor, e tinha como certa a lenda de que eram as únicas fêmeas sem machos no reino animal. Sempre se opunha a que disparassem de bordo como era costume, apesar de existirem leis que o proibiam. Um caçador da Carolina do Norte, com sua documentação em regra, tinha desobedecido as suas ordens e destroçado a cabeça de uma mãe de peixe-boi com um disparo certeiro de sua Springfield, e a cria tinha ficado enlouquecida de dor chorando aos gritos sobre o corpo estendido. O comandante tinha feito subir para bordo o órfão, para cuidar dele, e deixou o caçador abandonado na praia deserta junto do cadáver da mãe assassinada. Passou seis meses no cárcere, devido a protestos diplomáticos, e quase perdeu sua licença de navegante, mas saiu disposto a repetir o feito sempre que houvesse ocasião. Contudo, aquele passou a ser um episódio histórico: o peixe-boi órfão, que cresceu e viveu muitos anos no parque de animais raros de São Nicolau das Barrancas, foi o último que se viu no rio.

— Cada vez que passo por essa praia — disse — rogo a Deus que aquele gringo volte a embarcar no meu navio, para que eu volte a deixá-lo.

     Fermina Daza e Florentino Ariza permaneceram nos postos de comando até a hora do almoço, e pouco depois passaram diante do povoado de Calamar, que uns poucos anos antes vivia em festa perpétua, e agora era um porto em ruínas de ruas desoladas. O único ser que se avistou do navio foi uma mulher vestida de branco que fazia sinais com um lenço. Fermina Daza não entendeu por que não a recolhiam, se parecia tão aflita, mas o comandante explicou que era a aparição de uma afogada que fazia sinais de engano com o intuito de desviar os navios para os perigosos remoinhos da outra margem. Passaram tão perto dela que Fermina Daza a viu em todos os detalhes, e não duvidou de que na realidade não existisse, mas seu rosto lhe pareceu conhecido. 
     Foi um dia longo e calorento. Fermina Daza voltou ao camarote depois do almoço, para sua sesta inevitável, mas não dormiu bem com a dor de ouvido, que ficou mais intensa quando o navio trocou as saudações de rigor com outro da C.F.C. com o qual cruzou algumas léguas acima de Barranca Velha. Florentino Ariza cochilou um sonho instantâneo sentado no salão principal, onde a maioria dos passageiros sem camarote dormia como à meia-noite, e sonhou com Rosalba muito perto do lugar em que a vira embarcar. Viajava só, com suas modas da Mompox do século anterior, e era ele e não a criança que dormia a sesta na gaiola de vime pendente da viga. Foi um sonho ao mesmo tempo tão enigmático e divertido que ele guardou seu sabor durante toda a tarde, enquanto jogava dominó com o comandante e dois passageiros amigos.
     O calor cessava ao pôr-do-sol, e o navio revivia. Os passageiros emergiam como de um letargo, recém-banhados e de roupa limpa, e ocupavam as poltronas de vime do salão à espera do jantar, anunciado às cinco em ponto por um copeiro que percorria o convés de um extremo ao outro fazendo soar entre aplausos de brincadeira uma sineta de sacristão. Durante o repasto, começava a banda sua música de fandango, e a dança não cessava até a meia-noite.
     Com a dor de ouvido, Fermina Daza não quis jantar, e assistiu ao primeiro embarque de lenha para as caldeiras, numa barranca pelada onde nada havia além dos troncos amontoados, e um homem muito velho que atendia ao negócio. Não parecia haver nada mais em muitas léguas. Para Fermina Daza foi uma escala lenta e tediosa, inimaginável nos transatlânticos da Europa, e o calor era tanto que se podia sentir mesmo dentro do mirante refrigerado. Mas quando o navio zarpou de novo soprava um vento fresco recendente a entranhas de selva, e a música ficou mais alegre. Na povoação de Sítio Novo havia uma única luz numa única janela de uma única Casa, e no escritório do porto não fizeram o sinal combinado de que havia carga ou passageiros para o navio, de maneira que este passou sem saudar.
     Fermina Daza estivera toda a tarde perguntando a si mesma de que recursos ia valer-se Florentino Ariza para vê-la sem chamar à parte do camarote, e por volta das oito não aguentou mais as ânsias de estar com ele. Saiu ao corredor na esperança de encontrá-lo de um modo que parecesse casual, e não precisou andar muito: Florentino Ariza estava sentado num banco do corredor, calado e triste como na pracinha dos Evangelhos, há mais de duas horas se perguntando como ia fazer para vê-la. Fizeram ambos o mesmo gesto de surpresa que ambos sabiam fingido, e percorreram juntos o convés da primeira classe atulhado de gente jovem, a maioria estudantes ruidosos que se esfalfavam com certa ansiedade na última pândega das festas. Na cantina, Florentino Ariza e Fermina Daza tomaram um refresco de garrafa sentados como estudantes ao balcão, e ela se viu de repente numa situação temida. Disse: "Que horror!" Florentino Ariza perguntou em que pensava para ter semelhante impressão. 

— Nos pobres velhinhos — disse ela. — Os que mataram a golpes de remo no bote.

     Foram dormir quando acabou a música, depois de uma longa conversa sem tropeços no mirante escuro. Não houve lua, o céu estava nublado, e no horizonte explodiam relâmpagos sem trovões que os iluminavam por um instante. Florentino Ariza enrolou os cigarros para ela, que não fumou mais de quatro, atormentada pela dor que se aliviava por momentos e recrudescia quando o navio bramia ao cruzar com outro, ou ao passar na frente de um povoado adormecido, ou quando navegava devagar para sondar o fundo do rio. Ele lhe contou com que ansiedade a vira sempre nos Jogos Florais, no vôo em balão, no velocípede de acrobata, e com quanta ansiedade esperava as festas públicas durante todo o ano só para vê-la. Também ela o vira muitas vezes, e nunca teria imaginado que ele ali estivesse só para vê-la. Contudo, há apenas um ano, ao ler suas cartas, se perguntara de repente como explicar que ele jamais houvesse competido nos Jogos Florais: sem dúvida teria ganho. Florentino Ariza mentiu: só escrevia para ela, versos para ela, e só ele os lia. Então foi ela quem buscou sua mão no escuro, não a encontrou esperando-a como esperara a dele na noite da véspera, e pegou-a de surpresa. Gelou-se o coração de Florentino Ariza.

— Como são curiosas as mulheres — disse. 

     Ela deu uma risada profunda, de pomba jovem, e tornou a pensar nos anciãos do bote. Estava escrito: aquela imagem havia de persegui-la sempre. Mas nessa noite podia suportá-la, porque se sentia tranquila e bem, como poucas vezes na vida: limpa de toda culpa. Teria ficado assim até o amanhecer, calada, a mão dele suando gelo em sua mão, mas não pôde suportar o tormento do ouvido. De modo que quando se apagou a música, e depois cessou a bulha dos passageiros comuns pendurando redes no salão, ela compreendeu que sua dor era mais forte que o desejo de estar com ele. Sabia que o simples dizer isso a ele ia aliviá-la, mas não o fez para não preocupá-lo. Pois já tinha então a impressão de conhecê-lo como se tivesse vivido com ele toda a vida, e acreditava que ele era capaz de mandar o navio voltar ao porto se isso pudesse curar sua dor.  

continua na página 250...
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O Amor nos Tempos de Cólera: Soube
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O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA. Gabriel García Márquez
Tradução Antônio Callado
Título original El amor en los tiempos del cólera. Record Rio de Janeiro. 1985.

"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Gabriel G Márquez - O Amor nos Tempos de Cólera: Foi uma noite esplêndida

O Amor nos Tempos de Cólera


Gabriel García Márquez
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continuando...

      Foi uma noite esplêndida, que o comandante Diego Samaritano condimentou com relatos suculentos de seus quarenta anos no rio, mas Fermina Daza teve que fazer um grande esforço para parecer entretida. Apesar de haver soado às oito o último aviso e de terem feito descer a essa hora os visitantes e recolhido a passarela, o navio não zarpou até que o comandante acabasse de jantar e subisse ao posto de comando para dirigir a manobra. Fermina Daza e Florentino Ariza ficaram debruçados na amurada do salão comum, confundidos com os passageiros ruidosos que disputavam entre si o jogo de identificar as luzes da cidade, até que o navio saiu da baía, meteu-se por canais invisíveis e pântanos salpicados de luzes ondulantes de pescadores, e resfolegou afinal a plenos pulmões no livre ar do rio Grande da Madalena. Então a banda irrompeu numa peça popular da moda, houve um alarido de prazer dos passageiros, e a dança começou em tropel.
     Fermina Daza preferiu se refugiar no camarote. Não tinha dito uma palavra durante toda a noite, e Florentino Ariza a deixara perdida em suas cavilações. Só a interrompeu para se despedir diante do camarote, mas ela não estava com sono, só um pouco de frio, e sugeriu que se sentassem um pouco para olhar o rio do mirante privado. Florentino Ariza rodou duas poltronas de vime até a amurada, apagou as luzes, pôs nos ombros dela uma manta de lã e se sentou ao seu lado. Ela enrolou um cigarro da caixinha que ele lhe trazia de presente, enrolou-o com uma habilidade surpreendente, fumou-o devagar com o fogo dentro da boca, sem falar, e depois enrolou mais dois em seguida e os fumou sem pausas. Florentino Ariza tomou gole a gole duas garrafas térmicas de café forte.
     O resplendor da cidade tinha desaparecido no horizonte. Vistos do mirante escuro, o rio liso e silente, e as pastagens das duas margens debaixo da lua cheia, se converteram numa planície fosforescente. De vez em quando se via uma choça de palha perto das grandes fogueiras que anunciavam que ali se vendia lenha para as caldeiras dos navios. Florentino Ariza conservava lembranças esbatidas de sua viagem de juventude, e a visão do rio fazia com que revivessem em rajadas deslumbrantes, como se fossem de ontem. Contou algumas a Fermina Daza, achando que podia animá-la, mas ela fumava em outro mundo. Florentino Ariza renunciou às suas lembranças e deixou-a só com as dela, e enquanto isso enrolava cigarros e os ia dando já acesos, até que a caixa acabou. A música cessou depois da meia-noite, o bulício dos passageiros se dispersou e se desfez em sussurros sonolentos, e os dois corações ficaram sozinhos no mirante em sombras, vivendo ao compasso do resfolegar do navio.
     Depois de um longo tempo, Florentino Ariza olhou Fermina Daza ao fulgor do rio, viu-a espectral, o perfil de estátua suavizado por um tênue resplendor azul, e viu que chorava em silêncio. Mas em vez de consolá-la, ou esperar que esgotasse suas lágrimas, como queria ela, deixou-se invadir pelo pânico.

— Você quer ficar só? — perguntou.

— Se quisesse não diria a você que entrasse — disse ela. 

     Então ele estendeu os dedos gelados na escuridão, buscou tateante a outra mão na escuridão, e a encontrou à espera. Ambos foram bastante lúcidos para perceber, num mesmo instante fugaz, que nenhuma das duas era a mão que tinham imaginado antes de se tocar, e sim duas mãos de ossos velhos. Mas no instante seguinte já eram. Ela começou a falar do marido morto, no tempo presente, como se estivesse vivo, e Florentino Ariza soube nesse momento que também para ela soara a hora de se perguntar com dignidade, com grandeza, com desejos incontidos de viver, o que devia fazer com o amor sem dono que lhe havia ficado.
     Fermina Daza parou de fumar para não soltar a mão que ele guardava na sua. Estava perdida na ansiedade de compreender. Não podia conceber marido melhor que tinha sido o seu, e no entanto encontrava mais tropeços do que complacências na evocação de sua vida, demasiadas incompreensões recíprocas, brigas inúteis, rancores mal solucionados. Suspirou de repente: "É incrível como se pode ser tão feliz durante tantos anos, no meio de tanto bate-boca, tantas chateações, porra, sem saber de verdade se isso é amor ou não." Quando acabou de desabafar, alguém tinha apagado a lua. O navio avançava com os passos contados, pondo um pé antes de pôr o outro: um imenso animal à espreita. Fermina Daza tinha voltado da ansiedade.

— Agora vá — disse.

     Florentino Ariza lhe apertou a mão, se inclinou para ela, e procurou beijá-la na face. Mas ela o afastou com sua voz rouca e suave.

— Ainda não — disse: — estou com cheiro de velha.

     Ouviu-o sair na escuridão, ouviu seus passos nas escadas, ouviu-o deixar de ser até o dia seguinte. Fermina Daza acendeu outro cigarro, e enquanto o fumava viu o doutor Juvenal Urbino com seu terno de linho imaculado, seu rigor profissional, sua simpatia deslumbrante, seu amor oficial, fazendo-lhe de outro navio do passado um aceno de adeus com seu chapéu branco. "Nós homens somos uns pobres criados dos preconceitos", ele tinha dito certa vez. "Em compensação, quando uma mulher resolve dormir com um homem não há barreira que não salte, nem fortaleza que não derrube, nem consideração moral nenhuma que não esteja disposta a varar de lado a lado: não há Deus que valha." Fermina Daza continuou imóvel até a madrugada, pensando em Florentino Ariza, não como o sentinela desolado da pracinha dos Evangelhos cuja lembrança já não lhe suscitava sequer uma luzinha de saudade, e sim como era agora, decrépito e descadeirado, mas real: o homem que estivera sempre ao alcance de sua mão, sem que ela o admitisse. Enquanto o navio a carregava resfolegante rumo ao fulgor das primeiras rosas, só rogava a Deus que Florentino Ariza soubesse por onde começar outra vez no dia seguinte. 

continua na página 244...
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O Amor nos Tempos de Cólera: Foi uma noite esplêndida
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O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA. Gabriel García Márquez
Tradução Antônio Callado
Título original El amor en los tiempos del cólera. Record Rio de Janeiro. 1985.

"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."