quinta-feira, 5 de setembro de 2019

O Segundo Sexo - 49. Fatos e Mitos: Breton ou a Poesia (1)

Simone de Beauvoir



49. Fatos e Mitos






IV




BRETON OU A POESIA 






Apesar do abismo que separa o mundo religioso de Claudel do universo poético de Breton, há uma analogia no papel que designam à mulher: ela é um elemento de perturbação; ela arranca o homem do sono da imanência; boca, chave, porta, ponte, é Beatriz iniciando Dante no além. "O amor do homem pela mulher, se nos dedicamos um minuto à observação do mundo sensível, persiste em atapetar o céu de flores gigantes e selvagens. Permanece o mais terrível obstáculo ao espírito que sente sempre a necessidade de se acreditar em lugar seguro." O amor a outra conduz ao amor ao Outro. "É no mais alto período do amor eletivo por determinado ser que se abrem inteiramente as comportas do amor pela humanidade..." Mas, para Breton, o além não é uma céu estranho: existe aqui mesmo; desvenda-se a quem sabe afastar os véus da trivialidade quotidiana; o erotismo, entre outras coisas, dissipa a ilusão do falso conhecimento. "Em nossos dias, o mundo sexual... não deixou, ao que eu saiba, de opor à nossa vontade de penetração do universo seu inquebrável núcleo de noite." Chocar-se contra o mistério é a única maneira de o descobrir. A mulher é enigma e põe enigmas; suas múltiplas caras, em se adicionando, compõem "o ser único em que nos é dado ver o último avatar de Esfinge"; e é por isso que ela é revelação. "Eras a própria imagem do segredo", diz Breton a uma mulher amada. E um pouco adiante: "A revelação que me trazia, antes mesmo de saber em que consistia, soube que era uma revelação". Isso significa que a mulher é poesia. É o papel que desempenha também em Gérard de Nerval; mas em Sylvie e Aurélia ela tem a consciência de uma recordação ou de um fantasma, porque o sonho, mais verdadeiro do que o real, não coincide exatamente com este. Para Breton, a coincidência é perfeita: só há um mundo; a poesia está objetivamente presente nas coisas e a mulher é, sem equívoco, um ser de carne e osso. Encontramo-la, não num meio sono, mas bem acordados, durante um dia vulgar que tem sua data como todos os outros dias do calendário — 5 de abril, 12 de abril, 4 de outubro, 29 de maio — e num cenário comum: um café, uma esquina. Mas sempre ela se distingue por algum traço insólito. Nadja "caminha de cabeça erguida contrariamente aos demais passantes. . . curiosamente pintada. . . Nunca vira olhos assim". Breton interpela-a. "Ela sorriu, mas muito misteriosamente, dir-se-ia, como que com conhecimento de causa." Em L'Amour fou: "Essa jovem mulher que acabava de entrar estava como que envolvida em vapor — vestida de fogo?... E posso bem dizer que naquele lugar, a 29 de maio de 1934, essa mulher era escandalosamente bela" (1). De imediato o poeta reconhece que ela tem um papel a desempenhar em seu destino; por vezes, é apenas um papel fugidio, secundário; assim a menina com olhos de Dalila em Les Vases Communicants. Mesmo então pequenos milagres nascem em torno dela: tendo um encontro com essa Dalila, Breton no mesmo dia lê um artigo simpático assinado por um amigo perdido de vista há muito tempo e chamado Sansão. 


(1) É de Breton o grifo.


Às vezes, os prodígios multiplicam-se; a desconhecida de 29 de maio, ondina que fazia um número de natação em um music-hall, fora anunciada por um trocadilho ouvido em um restaurante sobre o tema "Ondine, on dîne" (2); e sua primeira longa saída com o poeta fora minuciosamente descrita em um poema composto por ele onze anos antes. A mais extraordinária dessas feiticeiras é Nadja: ela prediz o futuro, de seus lábios brotam as palavras e as imagens que o amigo tem no mesmo instante no espírito; seus sonhos e desenhos são oráculos: "Sou a alma errante", diz ela; conduz-se na vida "de uma maneira singular, só se baseando na pura intuição e participando sem cessar do prodígio"; em torno dela o acaso objetivo semeia em profusão estranhos acontecimentos; ela é tão maravilhosamente liberta das aparências, que desdenha as leis e a razão: acaba num hospício. Era "um gênio livre, algo como um desses espíritos do ar que certas práticas mágicas permitem momentaneamente prender-se a alguma coisa mas aos quais não seria possível submeter-se". Por causa disso, ela malogra em desempenhar plenamente seu papel feminino. Vidente, pítia, inspirada, ela situa-se próximo demais das criaturas irreais que visitavam Gérard de Nerval; ela abre as portas do mundo supra-real: mas é incapaz de dá-lo porque não poderia dar-se ela própria. É no amor que a mulher se realiza e é realmente atingida; singular, aceitando um destino singular — e não flutuando sem raízes através do universo — é então que ela resume Tudo. O momento em que sua beleza atinge sua mais elevada expressão é essa hora da noite em que "ela é o espelho perfeito no qual tudo o que foi, tudo o que foi chamado a ser banha-se adoravelmente no que vai ser desta vez". Para Breton, "encontrar o lugar e a fórmula" confunde-se com o "possuir a verdade numa alma e num corpo". E essa posse só é possível no amor recíproco, amor carnal, bem entendido. "O retrato da mulher que se ama deve ser não somente uma imagem à qual se sorri, mas ainda um oráculo que se interroga"; mas só será oráculo se a própria mulher for outra coisa que não uma simples ideia ou imagem; deve ser "a pedra angular do mundo material"; para o vidente esse mesmo mundo é que é poesia e cumpre que nesse mundo ele possua realmente Beatriz. "O amor recíproco é o único que condiciona a magnetização total sobre a qual não há domínio possível, que faz com que a carne seja sol e marca esplêndida na carne, que o espírito seja nascente sempre jorrando, inalterável, sempre viva e cuja água se oriente uma vez por todas entre as maravilhas e os serpões". 


(2) Trata-se de um trocadilho intraduzível: "Ondina, janta-se" (N. do T.).


Esse amor indestrutível só poderia ser único. O paradoxo da atitude de Breton está em que, dos Vases Communcants a Arcane 17, ele se obstina em dedicar um amor único e eterno a mulheres diferentes. Mas, a seu ver, são as circunstâncias sociais que, impedindo a liberdade de escolha, conduzem o homem a escolhas infelizes; de resto, através desses erros, ele busca em verdade uma mulher. E se ele recordar os rostos amados, "só descobrirá igualmente um em todos os rostos de mulheres: o último rosto amado (1)". "Quantas vezes, ademais, pude verificar que, sob aparências inteiramente dessemelhantes, de um a outro desses rostos um traço comum dos mais excepcionais procurava definir." À ondina de L'Amour fou, êle pergunta: "Sois vós finalmente essa mulher? É somente hoje que devíeis vir?" Mas em Arcane 17: "Bem sabes que, ao te ver pela primeira vez, sem hesitação te reconheci". Em um mundo acabado, renovado, o casal seria, em consequência de um dom recíproco e absoluto, indissolúvel: se a bem-amada é tudo, como haveria lugar para outra? Ela é essa outra também; e tanto mais plenamente quanto é mais ela mesma. "O insólito é inseparável do amor. Porque és única não podes deixar de ser sempre outra para mim, outra tu mesma. Através da diversidade dessas flores inumeráveis ao longe, é a ti cambiante que eu amo, de camisola vermelha, nua, de camisola cinzenta." E, a propósito de uma mulher diferente mas igualmente única, Breton escreve: "O amor recíproco tal qual o encaro, é um conjunto de espelhos que refletem, sob os mil ângulos que pode assumir para mim o desconhecido, a imagem fiel da pessoa que amo, sempre mais surpreendente de adivinhação de meu próprio desejo e mais dotada de vida". 


(1) O grifo é de Breton.




continua...
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O SEGUNDO SEXO
SIMONE DE BEAUVOIR

Entendendo o eterno feminino como um homólogo da alma negra, epítetos que representam o desejo da casta dominadora de manter em "seu lugar", isto é, no lugar de vassalagem que escolheu para eles, mulher e negro, Simone de Beauvoir, despojada de qualquer preconceito, elaborou um dos mais lúcidos e interessantes estudos sobre a condição feminina. Para ela a opressão se expressa nos elogios às virtudes do bom negro, de alma inconsciente, infantil e alegre, do negro resignado, como na louvação da mulher realmente mulher, isto é, frívola, pueril, irresponsável, submetida ao homem.

Todavia, não esquece Simone de Beauvoir que a mulher é escrava de sua própria situação: não tem passado, não tem história, nem religião própria. Um negro fanático pode desejar uma humanidade inteiramente negra, destruindo o resto com uma explosão atômica. Mas a mulher mesmo em sonho não pode exterminar os homens. O laço que a une a seus opressores não é comparável a nenhum outro. A divisão dos sexos é, com efeito, um dado biológico e não um momento da história humana.

Assim, à luz da moral existencialista, da luta pela liberdade individual, Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, agora em 4.a edição no Brasil, considera os meios de um ser humano se realizar dentro da condição feminina. Revela os caminhos que lhe são abertos, a independência, a superação das circunstâncias que restringem a sua liberdade.


4.a EDIÇÃO - 1970
Tradução
SÉRGIO MILLIET
Capa
FERNANDO LEMOS
DIFUSÃO EUROPÉIA DO LIVRO
Título do original:
LE DEUXIÊME SEXE
LES FAITS ET LES MYTHES



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Segundo Sexo é um livro escrito por Simone de Beauvoir, publicado em 1949 e uma das obras mais celebradas e importantes para o movimento feminista. O pensamento de Beauvoir analisa a situação da mulher na sociedade.

No Brasil, foi publicado em dois volumes. “Fatos e mitos” é o volume 1, e faz uma reflexão sobre mitos e fatos que condicionam a situação da mulher na sociedade. “A experiência vivida” é o volume 2, e analisa a condição feminina nas esferas sexual, psicológica, social e política.



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Leia também:




O Segundo Sexo - 37. Fatos e Mitos: a masturbação é considerada um perigo e um pecado

O Segundo Sexo - 38. Fatos e Mitos: Mulher! És a porta do diabo

O Segundo Sexo - 39. Fatos e Mitos: A Mãe

O Segundo Sexo - 40. Fatos e Mitos: A Alma e a Ideia

O Segundo Sexo - 41. Fatos e Mitos: ... a expressão "ter uma mulher"...

O Segundo Sexo - 42. Fatos e Mitos: A mãe, a noiva fiel, a esposa paciente

O Segundo Sexo - 43. Fatos e Mitos: Montherlant ou o Pão do Nojo

O Segundo Sexo - 44. Fatos e Mitos: Montherlant ou o Pão do Nojo (2)

O Segundo Sexo - 44. Fatos e Mitos: Montherlant ou o Pão do Nojo (3)

O Segundo Sexo - 45. Fatos e Mitos: D. H. Lawrence ou o orgulho fálico (1)

O Segundo Sexo - 46. Fatos e Mitos: D. H. Lawrence ou o orgulho fálico (2)

O Segundo Sexo - 47. Fatos e Mitos: Claudel e a  serva do Senhor (1)

O Segundo Sexo - 48. Fatos e Mitos: Claudel e a  serva do Senhor (2)

O Segundo Sexo - 50. Fatos e Mitos: Breton ou a Poesia (2)


terça-feira, 3 de setembro de 2019

Stanislaw PP - FeBeAPá: “O general taí”

O Festival de Besteira

O Maior Festival de Besteira que já Assolou e voltou Assolar o País




“O general taí”




Genésio, quando houve aquela marcha de senhoras ricas com Deus pela família e etc., ficou a favor, principalmente do etc. Mesmo tendo recebido algumas benesses do governo que entrava pelo cano, Genésio aderiu à “redentora”, mais por vocação do que por convicção (ele tinha — e ainda tem — um caráter muito adesivo). Porém, com tanto cocoroca aderindo, Genésio percebeu que estavam querendo salvar o Brasil depressa demais. Mesmo assim foi na onda. 

Adaptou-se à nova ordem com impressionante facilidade e chegou a ser um dos mais positivos dedos-duros no ministério. Tudo que era colega que ele não gostava, ele apontou aos superiores como suspeitos. Naquele tempo — não sei se vocês se lembram — não era preciso nem dizer “de quê”. Bastava apontar o cara como suspeito e pronto… tava feita a caveira do infeliz. 

Com isso, Genésio conseguiu certo prestígio junto à administração e pegou umas estias, ganhando um dinheirinho extra. Quando veio a tal política financeira do dr. Campos,* foi dos primeiros a aplaudir a medida. Num desses coquetéis de gente bem, onde foi representando o diretor do departamento, aproveitou um hiato na conversa, para falar bem alto, a fim de ser ouvido pelo maior número possível de testemunhas: 

— A política de contenção do dr. Roberto é simplesmente gloriosa! Breve até as classes menos favorecidas estarão aplaudindo a medida. 

Todos ouviram e, como tava todo mundo com o traseiro encostado na cerca, naqueles dias (e muitos estão até hoje), ninguém contestou. Houve até um certo ambiente de admiração pelo Genésio, que nenhum dos grã-finos presentes sabia quem era, mas que, nem por isso, foi esnobado, pois podia ser algum coronel, enfim, essas bossas! 

O que eu sei é que o Genésio deu o grande durante uns quatro ou cinco meses. Depois, como era um filho de jacaré com cobra-d’água, caiu de novo no seu chatíssimo cotidiano e só ficou elogiando a “redentora” por vício ou talvez por causa de uma leve esperança de se arrumar ainda. 

Mas teso é teso, é ou não é? O tempo foi passando e o boi sumiu; o leite é isso que se vê aí; o feijão anda tão caro que, noutro dia, num clube da ZN, promoveram um jogo de víspora marcando as pedras com caroço de feijão e foi aquela vergonha… alguém roubou os caroços  todos para garantir o almoço do dia seguinte. Genésio começou a desconfiar que tinha entrado numa fria. Aquilo não era revolução pra quem vive de ordenado. Em casa, a mulher dava broncas ciclópicas, porque o ordenado mensal dele estava acabando mais depressa do que a semana. 

Houve um dia em que botou sua bronca: 

— Você é que não sabe fazer economia — disse para a mulher. — Pode deixar que eu vou fazer a feira. 

Ah, rapaziada, pra quê! Genésio foi à feira e só via gente balançando a cabeça; todo mundo resmungando, dizendo coisas tais como “assim não é possível”, “desse jeito é fogo”, “como está não pode ser”. Em menos de cinco minutos do tempo regulamentar, ele também estava praguejando mais que trocador de ônibus. 

Voltou pra casa, arrasado. Daí por diante entrou pro time dos descontentes de souza. Só abria a boca para dizer que é um absurdo, onde é que nós vamos parar, o Brasil está à beira do abismo etc. Mesmo na repartição, onde era visto com suspeita pelos colegas, rasgou o jogo. No dia em que leu aquela entrevista do Borghoff,** dizendo que o povo devia comer galinha, porque boi é luxo, fez um verdadeiro comício, na porta do mictório do ministério, onde a cambada se reúne sempre para matar o trabalho. 

Foi aí que aconteceu: Estava em casa, deitado, lendo um x-9, quando a empregada chegou na porta. A empregada era dessas burríssimas, mas falou claro: 

— Seu Genésio, tem um general aí querendo falar com o senhor! 

Ficou mais branco que bunda de escandinavo! Meu Deus, iria em cana. Não pensou duas vezes. Arrumou uma valise, meteu dentro alguns objetos, uma calça velha e — felizmente morava no térreo — pulou pela janela e está até agora escondido no sítio do sogro, em Jacarepaguá. 

O vendedor é que não entendeu nada. Tinha ido ali fazer uma demonstração do novo aspirador General Electric, falou com a empregada, ficou esperando na sala e — quando viu — o dono da casa estava pulando a janela, apavorado.




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Stanislaw PP - FeBeAPá: O Festival de Besteira (1)

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Stanislaw PP - FeBeAPá: Depósito bancário

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* Roberto Campos (1917-2001), ministro do Planejamento do governo Castello Branco. 
** Guilherme Borghoff, secretário de Economia do governo Carlos Lacerda.

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SÉRGIO PORTO nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e morreu na mesma cidade em 1968. Foi cronista, radialista, homem de teatro e TV, compositor. Conhecido nacionalmente por meio do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou, além de Febeapá, coletâneas de crônicas, textos sobre futebol, entre outros.



segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Julio Verne - A Volta ao Mundo em 80 Dias, Capítulo VIII

Júlio Verne


A Volta ao Mundo em 80 Dias





CAPÍTULO VIII
EM QUE PASSEPARTOUT FALA TALVEZ UM POUCO MAIS DO QUE LHE CONVIRIA





Fix havia em poucos instantes se reencontrado no cais com Passepartout, que flanava e observava, não se julgando obrigado, ele, a nada ver. 

— E então, meu amigo, disse Fix abordando-o, o seu passaporte está visado? 

— Ah! é o senhor, respondeu o francês. Muito obrigado. Estamos perfeitamente em ordem.

— E vê o país? 

— Sim, mas vamos tão depressa que parece que viajo em sonho. E aí, estamos mesmo em Suez? 

— Em Suez. 

— No Egito? 

— No Egito, perfeitamente. 

— Na África?

— Na África. 

— Na África! repetiu Passepartout. Não posso acreditar. Imagine, senhor, que imaginava não passar de Paris, e esta famosa capital, a revi exatamente das sete e vinte da manhã às oito e quarenta, entre a estação do Norte e a estação de Lyon, através dos vidros de um fiacre e de uma chuva torrencial. Que pena! Teria adorado rever o Pére-Lachaise e o Cirque des Champs Élysées! 

— Então estão muito apressados? — perguntou o inspetor de polícia... 

— Eu, não, mas meu patrão. A propósito, preciso comprar roupa de baixo e camisas! Partimos sem malas, com uma sacola de viagem apenas. 

— Vou levá-lo a um bazar, onde encontrará tudo o que precisar. 

— Senhor, respondeu Passepartout, é de uma tal amabilidade!... 

E ambos se puseram a caminho. Passepartout conversava o tempo todo.

— Sobretudo, disse, preciso prestar atenção para não perder o barco. 

— Tem tempo, respondeu Fix, ainda não é meio dia. Passepartout puxou seu grande relógio.

— Meio dia, disse. Que nada! são nove e cinquenta e dois! 

— Seu relógio está atrasado, respondeu Fix.

— Meu relógio! Um relógio de família, que veio do meu bisavô! Não varia cinco minutos por ano! É um verdadeiro cronômetro! 

— Já sei o que é, respondeu Fix. Você olhou a hora de Londres, que está quase duas horas atrasada em relação à de Suez. Tem de acertar seu relógio pela hora local de cada país.

— Eu! tocar no meu relógio! exclamou Passepartout, jamais! 

— Então ele não estará mais de acordo com o sol. 

— Tanto pior para o sol, senhor! Ele é que estará errado! 

E o valente moço tornou a meter o relógio na algibeira do colete com um gesto desafiador. Alguns instantes depois, Fix lhe dizia:

— Então deixaram Londres precipitadamente? 

— Creio que sim! Quarta feira passada, às oito da noite, contra todos os seus hábitos, Mr. Fogg voltou do seu club, e três quartos de hora depois tínhamos partido. 

— Mas para onde vai o seu patrão? 

— Sempre em frente! Ele faz a volta ao mundo! 

— A volta ao mundo? exclamou Fix. 

— Sim, em oitenta dias! Uma aposta, diz ele, mas cá entre nós, não acredito. Seria não ter senso comum. Há alguma coisa a mais. 

— Ah! é um excêntrico, este Mr. Fogg? 

— Creio que sim. 

— É rico então? 

— Evidentemente, e carrega uma bela soma com ele, em bank-notes novinhas em folha! E não poupa dinheiro pelo caminho! Veja! Prometeu uma gratificação magnífica ao maquinista do Mongolia, se chegarmos a Bombaim com um bom avanço! 

— E conhece há muito seu patrão? 

— Eu! respondeu Passepartout, eu entrei para o seu serviço no mesmo dia de nossa partida. 

É fácil imaginar o efeito que estas respostas deveriam produzir sobre o espírito já superexcitado do inspetor de polícia. 

A partida precipitada de Londres, pouco tempo após o roubo, a grande quantia que levava, a pressa em chegar a países longínquos, o pretexto de uma aposta excêntrica, tudo confirmava e deveria confirmar Fix nas suas idéias. Fez o francês falar ainda mais e obteve a certeza de que o moço não conhecia absolutamente seu patrão, que este vivia isolado em Londres, que o consideravam rico, sem que se soubesse a origem da sua fortuna, que era um homem impenetrável, etc.. Mas, ao mesmo tempo, Fix pôde ter por certo que Phileas Fogg não desembarcaria em Suez, e que iria realmente para Bombaim. 

— Bombaim é longe? perguntou Passepartout. 

— Bem longe, respondeu o agente. Vai precisar passar ainda uns dez dias no mar.

— E onde fica Bombaim? 

— Na Índia. 

— Na Ásia?

— Naturalmente. 

— Diabos! É que eu ia lhe dizer... Há uma coisa que me encafifa... é meu bico! 

— Que bico? 

— O meu bico de gás, que esqueci de apagar e que está aceso por minha conta. Ora, calculei que me saía a dois shillings a cada vinte e quatro horas, exatamente sete pence a mais do que eu ganho, e bem deve compreender que por pouco que a viagem se prolongue... 

Teria Fix compreendido a história do gás? É pouco provável. Ele já não escutava e tomara uma decisão. O Francês e ele tinham chegado ao bazar. Fix deixou seu companheiro fazendo as compras, recomendou-lhe que não perdesse a partida do Mongolia, e voltou apressado para o escritório do agente consular. Fix, agora que a sua convicção estava formada, recuperara todo o seu sangue frio.

— Senhor, disse ao cônsul, já não tenho nenhuma dúvida. Tenho o meu homem. Ele se faz passar por um excêntrico que quer fazer a volta ao mundo em oitenta dias. 

— Então é um espertalhão, respondeu o cônsul, e conta voltar a Londres, depois de ter despistado todas as polícias de dois continentes! 

— Isso é que haveremos de ver, respondeu Fix. 

— Mas não se engana? perguntou-lhe mais uma vez o cônsul.

— Não me engano. 

— Então, porque é que esse ladrão teve interesse em fazer constatar por um visto sua passagem por Suez? 

— Por quê?... não sei não, senhor cônsul, respondeu o detetive, mas ouça-me. 

E, em poucas palavras, relatou os pontos principais da sua conversa com o criado do dito Fogg. 

— Com efeito, disse o cônsul, todas as presunções são contra esse homem. E o que vai fazer? 

— Expedir um despacho para Londres com o pedido insistente de que me mandem um mandado de prisão para Bombaim, embarcar no Mongolia, vigiar o meu ladrão até às Indias, e ali, naquela terra inglesa, chegar-me a ele polidamente, meu mandado de prisão na mão e a mão sobre seu ombro... 

Estas palavras pronunciadas friamente, o agente despediu-se do cônsul e dirigiu-se à agência telegráfica. Dali enviou ao diretor da polícia metropolitana o despacho que já conhecemos.

Um quarto de hora depois, Fix, com a sua pequena bagagem na mão, bem munida de dinheiro, aliás, embarcava a bordo do Mongolia, e logo o rápido paquete corria a todo o vapor sobre as águas do mar Vermelho.





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Julio Verne nasceu em Nantes em 8 de fevereiro de 1828. Fugiu de casa com 11 anos para ser grumete e depois marinheiro. Localizado e recuperado, retornou ao lar paterno. Em um furioso ataque de vergonha por sua breve e efêmera aventura, jurou solenemente (para a sorte de seus milhões de leitores) não voltar a viajar senão em sua imaginação e através de sua fantasia. 
Promessa que manteve em mais de oitenta livros. 
Sua adolescência transcorreu entre contínuos choques com o pai, para quem as veleidades exploratórias e literárias de Júlio pareciam totalmente ridículas. 
Finalmente conseguiu mudar-se para Paris onde entrou em contato com os mais prestigiados literatos da época. Em 1850 concluiu seus estudos jurídicos e, apesar insistência do pai para que voltasse a Nantes, resistiu, firme na decisão de tornar-se um profissional das letras. 
Foi por esta época que Verne, influenciado pelas conquistas científicas e técnicas da época, decide criar uma literatura adaptada à idade científica, vertendo todos estes conhecimentos em relatos épicos, enaltecendo o gênio e a fortaleza do homem em sua luta por dominar e transformar a natureza. 
Em 1856 conheceu Honorine de Vyane, com quem casou em 1857. 
Por essa época, era um insatisfeito corretor na Bolsa, e resolveu seguir o conselho de um amigo, o editor P. J. Hetzel, que será seu editor in eternum, e converteu um relato descritivo da África no Cinco Semanas em Balão (1863). Obteve êxito imediato. Firmou um contrato de vinte anos com Hetzel, no qual, por 20.000 francos anuais, teria de escrever duas novelas de novo estilo por ano. O contrato foi renovado por Hetzel e, mais tarde, por seu filho. E assim, por mais de quarenta anos, as Voyages Extraordinaires apareceram em capítulos mensais na revista Magasin D'éducation et de Récréation. 
Em A Volta ao Mundo em 80 Dias, encontramos, ao mesmo tempo, muito da breve experiência de Verne como marinheiro e como corretor de Bolsa. Nada mais justo, também, que o novo estilo literário inaugurado por Júlio Verne, fosse utilizado por uma nova arte que surgia: o cinema. Da Terra à Lua (Georges Mélies, 1902), La Voyage a travers l'impossible (Georges Mélies, 1904), 20.000 lieus sous les mers (Georges Mélies, 1907), Michael Strogof (J. Searle Dawley, 1910), La Conquête du pôle (Georges Mélies, 1912) foram alguns dos primeiros filmes baseados em suas obras. Foram inúmeros. 
A Volta ao Mundo em 80 dias foi filmado em 1956, com enredo milionário, dirigido por Michael Anderson, música de Victor Young, direção de fotografia de Lionel Lindon. David Niven fez Phileas Fogg, Cantinflas, Passepartout, Shirley MacLaine, Aouda. Em 1989, foi aproveitado para uma série de TV, com a participação da BBC, dirigida por Roger Mills. No mesmo ano, outra série de TV, agora nos EE.UU., dirigida por Buzz Kulik, com Pierce Brosnan (Phileas Fogg), Eric Idle (Passepartout), Julia Nickson-Soul (Aouda), Peter Ustinov (Fix). 
Apesar de tudo, a vida de Verne não foi fácil. Por um lado sua dedicação ao trabalho minou a tal ponto sua saúde que durante toda a vida sofreu ataques de paralisia. Como se fosse pouco, era diabético e acabou por perder vista e ouvido. Seu filho Michael lhe deu os mesmos problemas que dera ao pai e, desgraça das desgraças, um de seus sobrinhos lhe disparou um tiro à queima-roupa deixando-o coxo. Sua vida efetiva também não foi das mais tranqüilas e todos os seus biógrafos admitem ter tido uma amante, um relacionamento que só terminou com a morte da misteriosa dama. 
Verne também se interessou pela política, tendo sido eleito para o Conselho de Amiens em 1888 na chapa radical, reeleito em 1892, 1896 e 1900. 
Morreu em 24 de Março de 1905


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Leia também:


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A Volta ao Mundo em 80 Dias é um romance de aventura escrito pelo francês Júlio Verne e lançado em 1873. A obra retrata a tentativa do cavalheiro inglês Phileas Fogg e seu valete, Passepartout, de circum-navegar o mundo em 80 dias.

Data da primeira publicação: 30 de janeiro de 1873
Autor: Júlio Verne
Editora: Pierre-Jules Hetzel
País: França
Personagens: Phileas Fogg, Passepartout, Princesa Aouda, Inspetor Fix, James Forster
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domingo, 1 de setembro de 2019

Lima Barreto - 5. Manel Capineiro

Lima Barreto

O Homem que sabia Javanês e outros contos





Manel Capineiro  



QUEM CONHECE a Estrada Real de Santa Cruz? Pouca gente do Rio de Janeiro. Nós todos vivemos tão presos à avenida, tão adstritos à Rua do Ouvidor, que pouco ou nada sabemos desse nosso vasto Rio, a não ser as coisas clássicas da Tijuca, da Gávea e do Corcovado. 

Um nome tão sincero, tão altissonante, batiza, entretanto, uma pobre azinhaga, aqui mais larga, ali mais estreita, povoada, a espaços, de pobres casas de gente pobre, às vezes, uma chácara mais assim ali. mas tendo ela em todo o seu trajeto até Cascadura e mesmo além, um forte aspecto de tristeza, de pobreza e mesmo de miséria. Falta-lhe um debrum de verdura, de árvores, de jardins. O carvoeiro e o lenhador de há muito tiraram os restos de matas que deviam bordá-la; e, hoje, é com alegria que se vê, de onde em onde, algumas mangueiras majestosas a quebrar a monotonia, a esterilidade decorativa de imensos capinzais sem limites.

Essa estrada real, estrada de rei, é atualmente uma estrada de pobres; e as velhas casas de fazenda, ao alto das meias-laranjas, não escaparam ao retalho para casas de cômodos.

Eu a vejo todo dia de manhã, ao sair de casa e é minha admiração apreciar a intensidade de sua vida, a prestança do carvoeiro, em servir a minha vasta cidade.

São carvoeiros com as suas carroças pejadas que passam; são os carros de bois cheios de capim que vão vencendo os atoleiros e os "caldeirões", as tropas e essa espécie de vagabundos rurais que fogem à rua urbana com horror.

Vejo-a no Capão do Bispo, na sua desolação e no seu trabalho; mas vejo também dali os Órgãos azuis, dos quais toda a hora se espera que ergam aos céus um longo e acendrado hino de louvor e de glória.

Como se fosse mesmo uma estrada de lugares afastados, ela tem também seus "pousos". O trajeto dos capineiros, dos carvoeiros, dos tropeiros é longo e pede descanso e boas "pingas" pelo caminho.

Ali no "Capão", há o armazém "Duas Américas" em que os transeuntes param, conversam e bebem.

Pára ali o "Tutu", um carvoeiro das bandas de Irajá, mulato quase preto, ativo, que aceita e endossa letras sem saber ler nem escrever. É um espécime do que podemos dar de trabalho, de iniciativa e de vigor. Não há dia em que ele não desça com a sua carroça carregada de carvão e não há dia em que ele não volte com ela, carregada de alfafa, de farelo, de milho, para os seus muares.

Também vem ter ao armazém o Senhor Antônio do Açougue, um ilhéu falador, bondoso, cuja maior parte da vida se ocupou em ser carniceiro. Lá se encontra também o "Parafuso", um preto, domador de cavalos e alveitar estimado. Todos eles discutem, todos eles comentam a crise, quando não tratam estreitamente dos seus negócios.

Passa pelas portas da venda uma singular rapariga. É branca e de boas feições. Notei-lhe o cuidado em ter sempre um vestido por dia, observando ao mesmo tempo que eles eram feitos de velhas roupas. Todas as manhãs, ela vai não sei onde e traz habitualmente na mão direita um bouquet feito de miseráveis flores silvestres. Perguntei ao dono quem era. Uma vagabunda, disse-me ele.

"Tutu" está sempre ocupado com a moléstia dos seus muares. O "Garoto" está mancando de uma perna e a "Jupira" puxa de um dos quartos. O "Seu" Antônio do Açougue, assim chamado porque já possuiu um muito tempo, conta a sua vida, as suas perdas de dinheiro, e o desgosto de não ter mais açougue. Não se conforma absolutamente com esse neg6cio de vender leite; o seu destino é talhar carne.

Outro que lá vai é o Manel Capineiro. Mora na redondeza e a sua vida se faz no capinzal, em cujo seio vive, a vigiá-lo dia e noite dos ladrões, pois os há, mesmo de feixes de capim. O "Capineiro" colhe o capim à tarde, enche as carroças; e, pela madrugada, sai com estas a entregá-lo à freguesia. Um companheiro fica na choupana no meio do vasto capinzal a vigiá-lo, e ele vai carreando uma das carroças, tocando com o guião de leve os seus dois bois - "Estrela" e "Moreno".

Manel os ama tenazmente e evita o mais possível feri-los com a farpa que lhes dá a direção requerida.

Manel Capineiro é português e não esconde as saudades que tem do seu Portugal, do seu caldo de unto, das suas festanças aldeãs, das suas lutas a varapau; mas se conforma com a vida atual e mesmo não se queixa das cobras que abundam no capinzal.

- Ai! As cobras!... Ontem dei com uma, mas matei-a.

Está aí um estrangeiro que não implica com os nossos ofídios o que deve agradar aos nossos compatriotas, que se indignam com essa implicância.

Ele e os bois vivem em verdadeira comunhão. Os bois são negros, de grandes chifres, tendo o "Estrela" uma mancha branca na testa, que lhe deu o nome.

Nas horas do ócio, Manel vem à venda conversar, mas logo que olha o relógio e vê que é hora da ração, abandona tudo e vai ao encontro daquelas suas duas criaturas, que tão abnegadamente lhe ajudam a viver.

Os seus carrapatos lhe dão cuidado; as suas "manqueiras" também. Não sei bem a que propósito me disse um dia:

- Senhor fulano, se não fosse eles, eu não saberia como iria viver. Eles são o meu pão.

Imaginem que desastre não foi na sua vida, a perda dos seus dois animais de tiro. Ela se verificou em condições bem lamentáveis. Manel Capineiro saiu de madrugada, como de hábito, com o seu carro de capim. Tomou a estrada pra riba, dobrou a Rua José dos Reis e tratou de atravessar a linha da estrada de ferro, na cancela dessa rua.

Fosse a máquina, fosse um descuido do guarda, uma imprudência de Manel, um comboio, um expresso, implacável como a fatalidade, inflexível, inexorável, veio-lhe em cima do carro e lhe trucidou os bois. O capineiro, diante dos despojos sangrentos do "Estrela" e do "Moreno", diante daquela quase ruína de sua vida, chorou como se chorasse um filho uma mãe e exclamou cheio de pesar, de saudade, de desespero:

- Ai mô gado! Antes fora eu!...



Era Nova, Rio, 21-8-1915.




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Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro em 1881, sete anos antes da assinatura da Lei Áurea. Trabalhando como jornalista, valeu-se de uma linguagem objetiva e informal, mais tarde valorizada por seus contemporâneos e pelos modernistas, para relatar o cotidiano dos bairros pobres do Rio de Janeiro como poucos…

Definida pelo próprio autor como “militante”, sua produção literária está quase inteiramente voltada para a investigação das desigualdades sociais. Em muitas obras, como no seu célebre romance Triste Fim de Policarpo Quaresma e no conto O Homem que Sabia Javanês, o método escolhido por Lima Barreto para tratar desse tema é o da sátira, cheia de ironia, humor e sarcasmo.
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O homem que sabia Javanês e outros contos, de Lima Barreto 

Fonte: 
BARRETO, Lima. O homem que sabia javanês e outros contos. Curitiba: Polo Editorial do Paraná, 1997.
Texto proveniente de: 
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por: 
Rodrigo Souza, Curitiba - PR 

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Leia também:

Lima Barreto - 1. O homem que sabia javanês 

Lima Barreto - 2. Três gênios de secretaria

Lima Barreto - 3. O único assassinato de Cazuza

Lima Barreto - 4. O Número da Sepultura 

Lima Barreto - 6. Milagre do Natal


parábolas de uma professora: uma carreta de bois

parábolas de uma professora


uma carreta de bois 
Ensaio 004A – 3ª.ed



baitasar e paulo e marko e kamilá




é preciso amar as palavras, mas não temo a vertigem dos pensamentos no silêncio, juntos marcam narrativas, enredos, entrecho de histórias feitas ou desfeitas ou jamais retratadas, ignoradas, algumas esperam um desfecho, outras um milagre que faça sentido – não acredito em milagres, mas adoro surpresas 

o que me marca são as histórias invisíveis que acompanho todos os dias, gentes inspecionadas como bois, Professora, este ano, aprendi muitas coisas na escola, mas fiquei faceiro pelo meu emagrecimento. No ano que vem eu quero um beijo dela, Esse ano gostei muito de ficar com meus amigos. Conversar e ser feliz é um livro bom, O meu objetivo era namorar com a minha colega e não consegui. Vou fazer uma plástica na cara e tentar de novo, Esse ano minha vida foi só de términos. A única alegria foi a gravidez da minha mãe. Ano que vem quero estar só com as pessoas que fizeram esse meu ano melhor, ou seja, quase ninguém, Estamos amadurecendo, tentando ser responsáveis, Amo minha amiga. Ela perguntou o que eu queria de Natal, respondi que queria um beijo dela. Estou esperando meu presente até hoje, Estou toda errada nesta história de amor, O único amor que existe é o amor que tenho pela minha mãe, Eu disse para minha irmãzinha parar com isso de papai noel. Ela respondeu que o Papai Noel não ia me dar presente porque eu não acredito nele, Em seis dias faço quinze anos, queria muito esse emprego para ter o meu próprio dinheiro e ajudar minha mãe com as contas da casa. Eu quero este emprego para conquistar meus sonhos, quero muito essa chance, Minha mãe é chata, mas também muito legal. Gosto dela como ela é: uma guerreira que amo muito, Estou muito interessada nesta vaga de psicóloga. Não tenho experiência e também ainda não tenho a faculdade, mas quero muito ajudar com meu trabalho. Quero muito aprender com vocês, Mãe! Você é guerreira, tenho muito orgulho da mulher maravilhosa que você é: mãe amorosa e gentil. Muito obrigada por tudo que faz por mim. Eu te amo, Mãe, você é amorosa e bonita. Sei que você pensa que não faço nada na vida e não estudo em casa porque só fico mexendo no celular, mas você viu meu boletim com boas notas. E agora você acredita que está tudo bem com minhas notas, Tenho um pai legal, cuidadoso e amoroso, mas acho que minha avaliação na escola não é boa. Faltei muitas aulas e não prestei atenção nos professores. Não me dediquei aos estudos, Sempre quis ser arquiteto, desde os doze anos já sabia o que queria estudar, Sou concentrada e penso rápido, acho que isso vai me ajudar, Oi mãe, você é amorosa, linda e paciente, vou me redimir e me esforçar mais na escola, Mãe! Você me deu à lua da vida e agora estou aqui. Obrigada por tudo que tem feito por mim, desculpa pelas notas. Espero que não me mate. Do seu filho preferido. Pai! Não me tire o celular. Espero que não se decepcione com o boletim. Não me arrependo de nada. Então, por favor, nada de chineladas. Do seu filho preferido, Ontem fui até o mercado, mas perdi o dinheiro no caminho e tive que voltar para casa, Hoje fiz um belo gol. Uma garota na arquibancada mando um beijo, mas não era para mim, Treinamos muito, queríamos impressionar os torcedores, mas não deu: perdemos, Fui jogar bola na praça, fiz o agachamento que o professor explicou que deveríamos fazer antes dos jogos, rasguei as calças. Mas continuei firme e envergonhado até esquecer a calça rasgada, Hoje encontrei meu irmão na Direção. Chorava muito. Não conseguia mexer as pernas. Tem vez que os pés conhecem melhor os caminhos que a cabeça. Eu deixei minha cabeça seguir os meus pés e acabei me perdendo. Está bem, às vezes, os pés sabem melhor que a cabeça, mas ela é a única que trata o caminho com cuidado e respeito, Ninguém manda em mim, até que minha mãe grita para que eu limpe o quarto, Teus amigos querem te ver bem, mas nunca melhor que eles. Então, fico esperto com quem ando. Falsidade no crime é morte e não quero ver minha mãe chorar, Todo mundo na praia e eu no chuveiro, Ter aula em janeiro não me incomoda, pois nas férias só fico em casa. Então, ter aula é uma distração, Antes eu ia no mercadinho com R$ 2,00 e comprava refri, salgadinho, chiclete e iogurte; hoje, colocaram câmeras no mercadinho e dois reais não dá pra mais nada, Eu estava comendo uma fatia de bolo, meu irmão pedi um pedaço, enfiei tudo na boca, e disse: acabou, No dia dos pais, todos escrevem cartinha para seu pai, a minha é sempre a mesma: como é ter um pai, Hoje, pela manhã, acordei, escovei os dentes, tomei café e peguei minha mochila, no portão da escola lembrei que estou de férias, Férias mesmo foi em janeiro do ano passado. Fritei no sol, tomei vários kit, dei várias bandas com minhas amigas e beijei várias bocas. Nossa quando lembro dá até vontade de um replay, pena que na vida não tem replay, Eu olhava para ela enquanto ela olhava para o chão e a professora para a turma, Um cachorro me mordeu por nada. Outro dia, ele veio de novo, mas eu mordi ele primeiro e saímos na mordida, Queria dormir em casa, mas tenho que dormir na sala de aula, Desejo ter amigos e com isso o prazer de sorrir, Triste ver as coisas erradas e não poder fazer nada, Às vezes, acho que não vou conseguir. É tudo novo, voltar à escola depois de tanto tempo, mas aqui estou, que eu possa ser tolerante comigo mesma quando começarem as aulas, Moro num bairro em guerra, mas nesse bairro de guerra a maioria das pessoas é trabalhadora, Tive um recomeço na minha vida, acho que daqui para frente vai ser muito melhor, Por que andar de carro se tenho uma carreta de bois?

histórias de superação, resignação e obstinação de crianças, jovens e adultos lutando contra o esquecimento da sua existência, uma vida de ausências amarradas num quotidiano fechado, opressivo, ardiloso, recheado com uma salada de interesses encobertos e duvidosos, um exílio com esperanças grandes e pequenas

continuava ali, sentada na fórmica verde, naquele abrigo de tantos significados




parábolas: ensaio 004A / uma carreta de bois 
parábolas: ensaio 005A / amar para se deliciar junto