quarta-feira, 29 de abril de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: A Economia Norte-Americana precisa dos Minerais da América Latina (1)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

As Fontes Subterrâneas do Poder

     33. A Economia Norte-Americana precisa dos Minerais da América Latina Como os Pulmões Precisam de Ar
          Os astronautas tinham acabado de imprimir as primeiras pegadas humanas na superfície lunar, e em julho de 1969 o pai da façanha, Werner von Braun, anunciava à imprensa que os Estados Unidos planejavam instalar uma distante estação no espaço, com propósitos bem mais próximos: “Desta maravilhosa plataforma de observação poderemos investigar todas as riquezas da terra: os poços de petróleo desconhecidos, as minas de cobre e zinco (...)”. 
     O petróleo continua sendo o principal combustível de nosso tempo, e os norte-americanos importam a sétima parte do petróleo que consomem. Para matar vietnamitas, precisam de balas, e as balas precisam de cobre: os Estados Unidos compram além de suas fronteiras uma quinta parte do cobre que gastam. A falta de zinco é cada vez mais preocupante: a metade vem do exterior. Não se fabricam aviões sem alumínio, e não se fabrica o alumínio sem bauxita: os Estados Unidos quase não tem bauxita. Seus grandes centros siderúrgicos – Pittsburgh, Cleveland, Detroit– não encontram ferro suficiente nas jazidas de Minnesota, que estão em vias de se extinguir, e o manganês não há no território nacional: a economia norte-americana importa um terço do ferro e todo o manganês que necessita. Para produzir motores de retropropulsão, não contam com níquel nem com cromo em seu subsolo. Para fabricar aços especiais, requer-se o tungstênio: importam a quarta parte.
     A crescente dependência de provisão estrangeira decreta uma também crescente identificação entre os interesses capitalistas norte-americanos na América Latina e a segurança nacional dos Estados Unidos. A estabilidade interna da primeira potência mundial se mostra intimamente ligada aos investimentos norte-americanos ao sul do rio ravo. Cerca de metade desses investimentos é dedicada à extração de petróleo e à exploração de riquezas minerais, “indispensáveis à economia dos Estados Unidos tanto na paz como na guerra” [1]. O presidente do Conselho Internacional da Câmara de Comércio do país do Norte o define assim: “Historicamente, uma das principais razões dos Estados Unidos para investir no exterior é o desenvolvimento de recursos naturais e, mais especialmente, petróleo. É perfeitamente óbvio que os incentivos desse tipo de investimento devem ser incrementados. Nossas necessidades de matérias-primas estão em constante crescimento na medida em que a população se expande e o nível de vida sobe. Ao mesmo tempo, nossos recursos domésticos se esgotam (...)” [2]. Os laboratórios científicos do governo, das universidades e das grandes corporações envergonham a imaginação com o ritmo febril de suas invenções e descobrimentos, mas a nova tecnologia não encontrou o modo de prescindir dos materiais básicos que a natureza, e só ela, proporciona.
     Ao mesmo tempo, vão-se debilitando as respostas que o subsolo nacional é capaz de dar ao desafio do crescimento industrial dos Estados Unidos. [3]

continua na página 220...
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[1] LIEUWEN, Edwin. Thu United States and the Challenge to Security in Latin America. Ohio, 1966. 
[2] COURTNEY, Philip, em trabalho apresentado no II Congresso Internacional de Poupança e Investimento. ruxelas, 1959. 
[3] MAGDOFF, Harry. “La era del imperialismo”. Monthly Review, selecciones en castellano. Santiago de Chile, janeiro-fevereiro de 1969; e JULIEN, Claude. L’empire américan. Paris, 1969. 
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O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
As Fontes Subterrâneas do Poder
Primeira Parte: A Economia Norte-Americana precisa dos Minerais da América Latina (1)
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o petróleo da Venezuela... o petróleo no pré-sal do Brasil... os minerais nas terras raras do Brasil... ?

terça-feira, 28 de abril de 2026

MPB: Só Hoje

Jota Quest


Só Hoje é o segundo single do álbum Discotecagem Pop Variada, da banda brasileira Jota Quest. Composta por Rogério Flausino e Fernanda Mello, sendo quase rejeitada pela banda, a canção foi uma das mais tocadas nas rádios brasileiras.






Hoje eu preciso te encontrar de qualquer jeito
Nem que seja só pra te levar pra casa
Depois de um dia normal
Olhar teus olhos de promessas fáceis
E te beijar a boca de um jeito que te faça rir
(Que te faça rir)

Hoje eu preciso te abraçar
Sentir teu cheiro de roupa limpa
Pra esquecer os meus anseios e dormir em paz

Hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua
Qualquer frase exagerada que me faça sentir alegria
Em estar vivo

Hoje eu preciso tomar um café, ouvindo você suspirar
Me dizendo que eu sou o causador da tua insônia
Que eu faço tudo errado sempre, sempre

Hoje preciso de você
Com qualquer humor, com qualquer sorriso
Hoje só tua presença
Vai me deixar feliz
Só hoje

Hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua
Qualquer frase exagerada que me faça sentir alegria
Em estar vivo

Hoje eu preciso tomar um café, ouvindo você suspirar
Me dizendo que eu sou o causador da tua insônia
Que eu faço tudo errado sempre, sempre

Hoje preciso de você
Com qualquer humor, com qualquer sorriso!
Hoje só tua presença
Vai me deixar feliz
Só hoje

Hoje preciso de você
Com qualquer humor, com qualquer sorriso!
Hoje só tua presença
Vai me deixar feliz, feliz
Só hoje


meus hinos nos dias de 2020... 2021... 2022... só queria dias melhores com meus amores de perto e longe, alguns e algumas não conseguiram, escolheram a ignorância...






acreditar no sorriso, na esperança
mudar o seu mundo de dentro
sempre pra melhor
PORQUE
daqui só levaremos o amor
namorando nas memórias
que continuam depois de tudo







"Jota Quest é uma banda de pop rock brasileira formada em 1993 na cidade de Belo Horizonte. O conjunto nasceu com o nome J. Quest, com a pronúncia em inglês, Jay Quest, por inspiração do desenho animado Jonny Quest, ...mas para não serem processados pela Hanna‑Barbera, adotaram de vez a pronúncia em português Jota Quest no final da década de 1990. Foi por gostar de funk rock e acid‑jazz que o baixista PJ e o baterista Paulinho Fonseca resolveram formar uma banda. Em seguida, o guitarrista Marco Túlio Lara e o tecladista Márcio Buzelin juntaram-se ao grupo. Rogério Flausino começou sua atuação no conjunto após ser escolhido num teste com mais de dezoito candidatos."


Quando O Amor Acontece / Aos Nossos Filhos / Só Hoje / Mal Secreto /         

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (II.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

II
 continuando...

     Ela respondeu com um aceno de cabeça. Muitas vezes os homens se juntavam a uma mulher só para usá-la, não se importando com a felicidade dela. Suas lágrimas começaram a correr mais quentes, desesperava-se ao pensar que poderia estar levando uma vida agradável, se fosse outro o companheiro, um rapaz que gostasse de envolvê-la assim, pela cintura. Um outro? E a imagem desse outro foi surgindo da sua enorme emoção. Mas agora já era tarde, seu único desejo era viver até o fim com este, desde que não a maltratasse muito.

— Então — disse ela —, tenta ser assim de vez em quando... Os soluços não a deixavam continuar e ele beijou-a novamente. 
— Bobinha! Está bem, eu juro que serei delicado. Até parece que sou pior do que os outros...

     Olhando-o, ela começou a sorrir entre as lágrimas. Talvez ele tivesse razão, quase não há mulheres felizes. Embora não levando muito a sério o juramento dele, entregou-se à alegria de vê-lo tão solícito. Bom Deus! se ao menos aquilo durasse! Com novo ânimo, estreitaram-se num longo abraço, mas, ouvindo passos, puseram-se em pé. Três companheiros, que os tinham visto passar, vinham saber o que era.
     Continuaram o caminho todos juntos. Eram quase dez horas e resolveram almoçar num canto arejado, antes de voltarem a suar no fundo do veio. Quando estavam acabando de comer o sanduíche duplo e iam beber um gole de café, ouviram um barulho que vinha de longe, das outras seções da mina, e que fez que apurassem o ouvido. Que seria? Outro acidente? Levantaram-se e correram. Britadores, operadoras de vagonetes e aprendizes cruzavam-se a cada instante, mas ninguém sabia de nada, todos gritavam, devia ser uma grande desgraça. Pouco a pouco a mina inteira estava assustada, sombras enlouquecidas desembocavam das galerias, as lanternas balançavam desaparecendo nas trevas. Onde era? Por que não diziam nada?
     De repente um contramestre passou gritando: 

— Estão cortando os cabos! Estão cortando os cabos!

     Esse grito espalhou o pânico. Houve uma correria furiosa através das vias escuras. Ninguém sabia o que pensar. Por que cortavam os cabos? E quem os cortava, havendo homens no fundo da mina? Aquilo parecia uma monstruosidade.
     Nesse momento a voz de outro contramestre ressoou e perdeu-se no emaranhado de galerias: 

— É o pessoal de Montsou que está cortando os cabos! Saiam todos!

     Ao compreender o que estava acontecendo, Chaval fez Catherine parar. A ideia de que ia encontrar os grevistas de Montsou fez que sentisse as pernas bambas. Então essa corja que ele acreditava já nas mãos dos policiais tinha vindo! Por um momento pensou em voltar e subir pela Gaston-Marie, mas aquela saída tinha sido fechada. Praguejou, hesitante, ocultando o medo, repetindo que não havia razão para correr, que ninguém ia deixá-los fechados no fundo da mina.
     Ouviu-se novamente a voz do contramestre que se aproximava: 

— Saiam imediatamente! Usem as escadas! As escadas! Chaval foi arrastado como os demais companheiros; começou a empurrar Catherine, acusando-a de não correr o bastante. Será que ela estava querendo que ficassem encurralados ali, morrendo de fome? Os bandidos de Montsou eram capazes de quebrar as escadas, sem esperar que todos tivessem saído. Esta suposição pavorosa acabou de semear o pânico. Foi um salve-se quem puder ao longo das galerias, todos tentando chegar em primeiro lugar, frenéticos, enlouquecidos. Alguns gritavam que as escadas tinham sido quebradas, que ninguém sairia mais. Quando os grupos em pânico começaram a desembocar no patamar do poço, foi um verdadeiro atropelo: correram para o buraco negro e começaram a esmagar-se na porta estreita que dava acesso às escadas. Enquanto isto, um velho cavalariço que prudentemente recolhia os cavalos para a estrebaria observava-os com desdenhosa negligência, acostumado com as noites passadas na mina, certo de que acabaria sendo retirado dali. 
— Com mil raios! sobe na minha frente! — disse Chaval a Catherine. — Se caíres, pelo menos posso aparar-te.

     Atordoada, exausta devido à corrida de três quilômetros que a deixara novamente alagada em suor, ela abandonava-se, sem compreender, aos redemoinhos daquele mar humano. Ele, então, puxou-a pelo braço com tal violência, que quase o quebrou. A moça soltou um gemido e as lágrimas começaram a correr; ele já esquecera o juramento, nunca seriam felizes. 

— Vamos, passa! — berrou o homem.

     Catherine estava transida de medo. Se subisse na frente dele. seria maltratada todo o tempo, por isso resistia, enquanto o fluxo desvairado dos companheiros os empurrava para o lado. As infiltrações do poço pingavam em gotas enormes e o soalho da embocadura na galeria, abalado pelo tropel, tremia por cima do fosso, do desaguadouro lodoso, com dez metros de profundidade. Fora justamente na Jean-Bart, dois anos antes, que um terrível acidente, a ruptura de um cabo, precipitara o elevador no fundo do fosso, onde dois homens morreram. E todos pensavam nisso, que iam cair lá embaixo, se se amontoassem sobre as pranchas. 

— Maldita cabeçuda! — gritou Chaval. — Pois então morre, ficarei livre de ti!

     Começou a subir as escadas e ela seguiu-o.
     Do fundo à superfície, havia cento e dois lances de escadas, cada um de aproximadamente sete metros, divididos por estreitos patamares da largura do fosso, com buracos quadrados que mal deixavam passar os ombros. Era como uma chaminé chata, de setecentos metros de altura, entre a parede do poço e o tabique do compartimento de extração, uma tripa úmida, negra e sem fim, onde as escadas se sobrepunham, quase a pique, a intervalos regulares. Um homem forte precisava de vinte e cinco minutos para galgar aquela coluna gigante. Aliás, esse fosso das escadas só era usado agora em caso de catástrofe.
     A princípio Catherine subiu sem dificuldade. Seus pés descalços estavam acostumados com as lascas de carvão afiladas das vias e não sofriam com os degraus quadrados, providos de uma cantoneira de ferro para impedir o desgaste. Suas mãos, calejadas pelos vagonetes, agarravam se sem titubear aos corrimões, grossos demais para elas. Ocupava-se com aquilo, esquecia seu desgosto naquela subida imprevista, vendo a serpente humana que coleava, içava-se, três homens por escada, de modo que, quando a cabeça surgisse na superfície, a cauda ainda se arrastaria no fundo do fosso. Mas ainda não estavam nesse ponto, os primeiros deviam ter vencido apenas um terço do caminho. Ninguém falava mais, só os pés se arrastavam com um ruído surdo, enquanto as lanternas, iguais a estrelas errantes, espalhavam-se de alto a baixo, numa linha sempre crescente.
     Catherine ouvia atrás dela um aprendiz contando as escadas. Teve a idéia de fazer o mesmo. Já tinham subido quinze e chegavam a uma embocadura de galeria. Nesse momento chocou-se nas pernas de Chaval. O homem praguejou, dizendo-lhe que prestasse atenção. De vez em quando a coluna parava, imobilizando-se. Que era? Que estava acontecendo? E cada um encontrava voz para perguntar e fazer suposições apavorantes. A angústia aumentava, o desconhecimento dos acontecimentos no exterior era como um garrote que ia apertando à medida que se aproximavam da luz do dia. Alguém disse que teriam de descer, que as escadas estavam quebradas. Essa era a preocupação de todos, o medo de se encontrarem sem saída. Outra explicação veio descendo de boca em boca, o acidente com um britador que escorregara de uma escada. Não se sabia ao certo, os gritos impediam de ouvir. Então iam ficar passando a noite ali? Finalmente, sem outras explicações, a subida recomeçou, com o mesmo movimento lento e penoso, acompanhando o barulho dos pés no ferro dos degraus e a dança das lâmpadas. As escadas quebradas deviam estar mais acima.
     À trigésima segunda escada, quando ultrapassavam a terceira embocadura de galeria, Catherine sentiu que suas pernas e seus braços se enrijeciam. Primeiro sentira um formigueiro na pele, muito leve. Agora, perdia a sensação do ferro e da madeira sob os pés e nas mãos. Uma dor vaga, que se foi tornando aguda, esquentava-lhe os músculos. E, no aturdimento que a invadia, começou a lembrar-se das histórias do avô Boa Morte, do tempo em que não havia elevador e as meninas de dez anos subiam com o carvão nos ombros, ao longo das escadas sem corrimões, de maneira que, quando uma delas escorregava ou simplesmente um pedaço de hulha caía de um cesto, três ou quatro crianças eram precipitadas de cabeça para baixo. As cãibras nos membros estavam ficando insuportáveis, nunca chegaria ao topo.
     Novas paradas permitiram-lhe respirar. Mas o terror que vinha lá de cima acabava de prostrá-la. Acima e abaixo dela, as respirações iam ficando cada vez mais ofegantes, respirava-se uma vertigem nessa ascensão interminável, cuja náusea a sacudia assim como aos outros Sentia-se sufocada, ébria de trevas, exasperada com o esmagamento das paredes contra sua carne. E tiritava devido à umidade, o corpo em suor, porejando gotas enormes que a inundavam. Aproximavam-se do nível, a chuva caía com tanta força que ameaçava apagar as lâmpadas.
     Por duas vezes Chaval falou com Catherine sem obter resposta. Por que não respondia? Tinha engolido a língua? Que custava dizer se estava indo bem? Havia meia hora que subiam, mas tão vagarosamente que se encontravam apenas na quinquagésima nona escada. Restavam quarenta e três. Catherine acabou balbuciando que se ia aguentando. Ele a chamaria de preguiçosa se tivesse confessado seu cansaço. O ferro dos degraus parecia perfurar seus pés, tinha a sensação de que estava sendo serrada até os ossos. Após cada braçada, esperava ver suas mãos largarem o corrimão, esfoladas e endurecidas, a ponto de não poder fechar os dedos. Acreditava que a qualquer momento ia cair para trás com os ombros arrancados, as pernas desconjuntadas pelo contínuo esforço. Era sobretudo a pouca inclinação das escadas que a fazia sofrer, aquela colocação quase a prumo, que a obrigava a içar-se com a força dos braços, a barriga colada à madeira. O resfolegar das respirações cobria agora o barulho dos passos, um enorme estertor, retumbando na parede do fosso, elevava-se do fundo e ia morrer na superfície. Houve um gemido, correu um murmúrio pelas escadas, um aprendiz acabava de quebrar a cabeça na aresta de um patamar. E Catherine subia. Ultrapassaram o nível. A chuva cessara, um nevoeiro tornava pesado o ar subterrâneo, envenenado por um cheiro de ferro velho e madeira úmida. Maquinalmente obstinava-se a contar baixinho: oitenta e um, oitenta e dois, oitenta e três; faltavam dezenove lances. Só estes números, repetidos, a amparavam com seu balanço rítmico. Já perdera a consciência dos seus movimentos. Ao levantar os olhos, as lâmpadas redemoinhavam em espiral. Seu sangue escorria, sentia que estava morrendo, ao menor sopro seria precipitada escadas abaixo. O pior, agora, era que os de baixo estavam empurrando, e a coluna inteira se arremessava com novo ímpeto, cedendo à cólera crescente de sua fadiga, à necessidade furiosa de tornar a ver o sol. Os primeiros da coluna já tinham chegado à superfície, não havia portanto escadas quebradas, mas a ideia de que ainda podiam quebrá-las, para impedir que os últimos saíssem, enquanto os outros respiravam lá em cima, acabou de enfurecê-los. E, como houvesse uma nova parada, as pragas explodiram, todos continuaram a subir, empurrando, passando por cima de corpos, tentando chegar de qualquer maneira.
     Nesse momento Catherine caiu. Chegou a gritar o nome de Chaval, num apelo desesperado, mas ele não ouviu, estava lutando arrebentara as costas de um companheiro a pontapés para passar na sua frente. Ela foi rolada, pisoteada. No seu desmaio, sonhou: era uma das pequenas operadoras de vagonetes de outrora, que um pedaço de carvão, caído de um cesto acima dela, acabava de jogar no fundo do poço, como um pardal atingido por uma pedrada. Faltavam apenas cinco lances de escadas para subir, tinham levado cerca de uma hora. Nunca soube de que maneira chegara ao topo, empurrada pelos outros, talvez graças à estreiteza do fosso. De repente encontrou-se num deslumbramento de sol, no meio de uma multidão ululante que a vaiava.

continua na página 254...
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Quinta Parte - (II.a)Quinta Parte - (II.b) / Quinta Parte - (III) /      
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas/III — Efeitos da Primavera

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     III — Efeitos da Primavera

             Certo dia, estando o ar tépido, o Luxemburgo inundado de sombra e sol, o céu puro como se os anjos o vessem lavado pela manhã cedo, os passarinhos soltando os seus costumados gorjeios na espessura dos castanheiros, Mário tinha aberto toda a sua alma à natureza, e, alheado de tudo, vivia e respirava. Nesse dia, passando próximo do célebre banco, a jovem ergueu os olhos para ele e os dois olhares encontraram-se. 
     Que havia desta vez no olhar da jovem? Nem Mário o poderia dizer. Não havia nada e havia tudo. Foi um estranho relâmpago aquele.
     Ela baixou os olhos e ele continuou o seu caminho.
     O que o mancebo acabava de ver não era o simples e ingênuo olhar de uma criança, era uma misteriosa voragem que se tinha entreaberto e repentinamente fechado.
     Há um dia na vida das donzelas em que todas assim olham. Desgraçado então daquele sobre quem esse olhar se fita!
     Esse primeiro olhar de uma alma que ainda se não conhece a si mesma é como a aurora no céu. É o despontar de um mistério esplendoroso. Não há palavras que traduzam o perigoso encanto desse inesperado clarão que se derrama, improvisando luz em trevas adoráveis e que se compõem de toda a inocência do presente e de toda a paixão do futuro. É uma espécie de ternura indecisa que se revela ao acaso e que espera. É um laço que arma sem o saber a inocência e em que sem querer e sem o esperar apanha os corações. É uma virgem com olhar de mulher.
     Raro acontece que no coração daquele sobre quem esse olhar se fita não se desenvolva o gérmen de uma melancolia profunda. Nesse raio de luz fatalmente celeste, que melhor do que os mais estudados olhares da coquete possui o mágico poder de fazer subitamente desabrochar no recôndito de uma alma essa misteriosa flor cheia de olores e venenos, chamada amor, encerram-se todas as purezas e canduras.
     À noite, ao recolher-se ao seu modesto albergue, Mário deitou os olhos à roupa que trazia, e pela primeira vez reparou que tinha a indecência, a inconveniência, a inaudita estupidez de ir passear para o Luxemburgo com o seu trajo «ordinário», quer dizer, com um chapéu amassado, umas botas que pareciam as de um carrejão, umas calças pretas, porém, já todas coçadas nos joelhos, e um casaco preto, também já todo russo nos cotovelos.

continua na página 529...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - III — Efeitos da Primavera
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Ruan Rulfo - E nos deram a terra

Conto : El Llano en llamas
 

"O primeiro conto publicado de Juan Rulfo, e também o primeiro dos incluídos em *El Llano en llamas*, “Nos han dado la tierra” (1945), é provavelmente um dos mais conhecidos, citados e analisados ​​pela crítica literária. A tal ponto que sua interpretação parece não apresentar grandes dificuldades, talvez devido à franca ironia que emerge da alusão explícita a uma reforma agrária que distribuiu terras claramente impossíveis de cultivar. À descoberta daquilo que a tradição realista denunciou incansavelmente, ou seja, a miséria camponesa e a conivência das autoridades agrárias com os latifundiários."


     Nós gostamos. Após tantas horas de caminhada sem encontrar uma única sombra de árvore, uma única semente ou uma única raiz de qualquer coisa, ouve-se o latido de cães.
     Por vezes, em meio a esta estrada interminável, acreditava-se que nada haveria além; que nada se encontraria do outro lado, no fim desta planície rachada de fendas e riachos secos. Mas sim, há algo. Há uma aldeia. Ouvem-se os cães a ladrar e sente-se o cheiro do fumo no ar, e sente-se o cheiro de gente como se fosse uma esperança.
     Mas a aldeia ainda está longe. É o vento que a traz para mais perto. Estamos caminhando desde o amanhecer. Agora são cerca de quatro da tarde. Alguém olha para o céu, força a vista na direção do sol e diz: "São cerca de quatro da tarde."
     Essa pessoa é Melitón. Junto com ele estão Faustino, Esteban e eu. Somos quatro. Eu os conto: dois na frente, dois atrás. Olho mais para trás e não vejo ninguém. Então penso: "Somos quatro." Há algum tempo, por volta das onze, éramos uns vinte e poucos, mas aos poucos fomos nos dispersando até não sobrar nada além deste nó que somos nós. Faustino diz:

- Pode chover.

     Todos olhamos para cima e vimos uma nuvem negra e densa passando por cima de nós. E pensamos: "Talvez seja isso mesmo."
     Não dizemos o que pensamos. Perdemos a vontade de conversar há muito tempo. Ela morreu com o calor. Em outros lugares, você poderia bater um papo tranquilamente, mas aqui é difícil. Você fala aqui e as palavras esquentam na sua boca por causa do calor lá fora, e secam na sua língua até te deixarem sem fôlego. É assim que as coisas são por aqui. É por isso que ninguém tem vontade de conversar.
     Uma gota d'água cai, grande e espessa, abrindo um buraco no chão e deixando uma massa semelhante a um cuspe. Cai sozinha. Esperamos que outras caiam e as procuramos com os olhos. Mas não há mais nenhuma. Não está chovendo. Agora, se você olhar para o céu, verá a nuvem de chuva se afastando, apressada. O vento que vem da aldeia se junta a ela, empurrando-a contra as sombras azuis das colinas. E a gota que caiu por engano é engolida pela terra e desaparece em sua sede.
     Quem foi que fez essa planície tão grande? Qual é o sentido disso, hein? Voltamos a andar. Tínhamos parado para observar a chuva. Não choveu. Agora estamos andando de novo. E me ocorre que andamos mais do que realmente andamos. É isso que me ocorre. Se tivesse chovido, talvez outras coisas tivessem me ocorrido. No entanto, sei que desde menino nunca vi chover na planície, o que se pode chamar de chuva.
     Não, as planícies são inúteis. Não há coelhos nem pássaros. Não há nada. Exceto por algumas árvores de mesquite raquíticas e um ou outro pedaço de grama com folhas enroladas; fora isso, não há nada.
     E aqui estamos nós. Nós quatro a pé. Antes, íamos a cavalo e carregávamos um rifle a tiracolo. Agora nem sequer carregamos o rifle. Sempre achei que fizeram o certo ao nos tirarem os rifles. Por aqui, é perigoso andar armado. Eles matam sem aviso, vendo você o tempo todo com uma pistola calibre .30 presa ao cinto. Mas os cavalos são outra história. Se tivéssemos vindo a cavalo, já teríamos provado a água verde do rio e desfilado pelas ruas da cidade para digerir a comida. Teríamos feito isso se ainda tivéssemos todos aqueles cavalos que tínhamos antes. Mas levaram nossos cavalos também, junto com os rifles. Olho em volta e contemplo a planície. Tanta terra vasta para nada. Os olhos simplesmente se desviam, sem nada para os prender. Apenas alguns lagartos saem para colocar a cabeça para fora de suas tocas e, sentindo o sol escaldante, correm para se esconder na sombra de uma rocha. Mas quando tivermos que trabalhar aqui, o que faremos para nos refrescar do sol? Porque eles nos deram essa crosta de tapetato para plantar.
     Eles nos disseram: 

- Da cidade em diante, tudo pertence a vocês.

     Perguntamos: 

- A planície? 
- Sim, a planície. Toda a Grande Planície.

     Paramos de falar para dizer que não queríamos o Llano. Queríamos o que ficava perto do rio. Além do rio, ao longo das planícies, onde crescem aquelas árvores chamadas casuarinas, e as altas planícies, e a terra boa. Não essa terra dura e seca que eles chamam de Llano. Mas eles não nos deixaram falar. O delegado não veio conversar conosco. Ele colocou os papéis em nossas mãos e disse: 

- Não tenham medo de ter tanta terra só para vocês. 
- É que o Llano, Sr. Delegado... 
- São milhares e milhares de juntas de bois. 
- Mas não tem água. Nem o suficiente para enxaguar a boca. 
- E a estação chuvosa? Ninguém disse que vocês receberiam terra irrigada. Assim que chover lá, o milho vai crescer como se estivesse sendo esticado.
- Mas, Sr. Delegado, a terra está erodida, dura. Não acreditamos que o arado afunde naquele solo duro como uma pedreira dos Llanos. Você teria que fazer buracos com uma enxada para semear, e mesmo assim, é improvável que algo cresça; nem milho nem nada mais brotará. 
- Coloque isso por escrito. E agora vá. São as grandes propriedades que você precisa atacar, não o governo que lhe dá a terra. 
- Espere por nós, Sr. Delegado. Não dissemos nada contra o Centro. É tudo contra os Llanos... Você não pode lutar contra o que não pode combater. Foi isso que dissemos... Espere que expliquemos. Veja, vamos começar de onde paramos...

     Mas ele se recusou a nos ouvir.
     Foi assim que nos deram esta terra. E nesta chapa escaldante querem que semeemos alguma coisa, para ver se brota e cresce. Mas nada cresce aqui. Nem mesmo os abutres. De vez em quando, você os vê lá em cima, bem alto, voando a toda velocidade; tentando sair o mais rápido possível desta poeira branca e endurecida, onde nada se move e onde você anda como se estivesse indo para trás. Melitón diz:

- Esta é a terra que eles nos deram.

     Faustino diz: 

- O quê?

     Não digo nada. Penso: "Melitón não bate bem da cabeça. Deve ser o calor que o faz falar assim. O calor que penetrou no chapéu e esquentou a cabeça dele. Senão, por que ele diz o que diz? Que tipo de terra nos deram, Melitón? Nem para o vento fazer redemoinhos cabe aqui."
     Melitón repete: 

- Será útil. Será prático, mesmo que seja apenas para éguas de corrida. 
- Quais éguas?, pergunta Esteban.

     Eu não tinha reparado no Esteban antes. Agora que ele está falando, estou observando com mais atenção. Ele está usando um casaco que chega até o umbigo e, por baixo, algo parecido com a cabeça de uma galinha está aparecendo. Sim, é uma galinha vermelha que o Esteban está carregando debaixo do casaco. Dá para ver os olhos sonolentos e o bico aberto, como se estivesse bocejando. u pergunto a ele:

- Ei, Teban, onde você conseguiu esse frango?
- Ela é minha, diz ele. 
- Você não a tinha antes. Onde a comprou? 
- Eu não a comprei, ela é do meu galinheiro.
- Então você a trouxe para alimentá-la, certo? 
- Não, eu a trouxe para cuidar dela. Minha casa estava vazia e não havia ninguém para alimentá-la; por isso a trouxe. Sempre que viajo para longe, levo-a comigo.
- Escondida aí, ela vai sufocar. É melhor deixá-la sair para respirar ar puro. 

     Ele a aconchega debaixo do braço e sopra ar quente sobre ela. Então ele diz:

- Estamos chegando ao ponto de ruptura.

     Já não consigo ouvir o que o Esteban está dizendo. Fizemos fila para descer o barranco, e ele está bem na frente. Parece que ele pegou a galinha pelas patas e está sacudindo-a sem parar para que ela não bata a cabeça nas pedras.
     Ela se sacode de vez em quando para não bater a cabeça nas pedras. À medida que descemos, a terra fica agradável. A poeira sobe de nós como se uma fila de mulas estivesse descendo; mas gostamos de ficar cobertos de poeira. Gostamos disso. Depois de onze horas caminhando sobre a dureza do Llano,
nos sentimos muito confortáveis ​​envoltos nessa coisa que nos cobre e tem gosto de terra.
     Acima do rio, sobre as copas verdes das casuarinas, bandos de aracuãs verdes voam. Isso também nos agrada. Agora, o latido dos cães pode ser ouvido aqui, ao nosso lado, porque o vento que vem da aldeia ecoa na ravina e a preenche com todos os seus sons.
     Esteban abraçou sua galinha novamente quando nos aproximamos das primeiras casas. Ele desamarrou as patas dela para soltá-las e, em seguida, ele e sua galinha desapareceram atrás de algumas árvores de mesquite.

- Eu alugo assim!, diz-nos Esteban.

     Continuamos em frente, adentrando a aldeia. A terra que nos deram fica lá em cima.

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Nos han dado la tierr

Juan Rulfo

Originalmente publicado en la revista Pan (de Guadalajara) Nº 2, julio, 1945 - (El llano en llamas, 1953)


   Después de tantas horas de caminar sin encontrar ni una sombra de árbol, ni una semilla de árbol, ni una raíz de nada, se oye el ladrar de los perros.
   Uno ha creído a veces, en medio de este camino sin orillas, que nada habría después; que no se podría encontrar nada al otro lado, al final de esta llanura rajada de grietas y de arroyos secos. Pero sí, hay algo. Hay un pueblo. Se oye que ladran los perros y se siente en el aire el olor del humo, y se saborea ese olor de la gente como si fuera una esperanza.
   Pero el pueblo está todavía muy allá. Es el viento el que lo acerca. Hemos venido caminando desde el amanecer. Ahorita son algo así como las cuatro de la tarde.
   Alguien se asoma al cielo, estira los ojos hacia donde está colgado el sol y dice:

-Son como las cuatro de la tarde.

   Ese alguien es Melitón. Junto con él, vamos Faustino, Esteban y yo. Somos cuatro. Yo los cuento: dos adelante, otros dos atrás. Miro más atrás y no veo a nadie. Entonces me digo: "Somos cuatro." Hace rato, como a eso de las once, éramos veintitantos, pero puñito a puñito se han ido desperdigando hasta quedar nada más que este nudo que somos nosotros. Faustino dice:

-Puede que llueva.

   Todos levantamos la cara y miramos una nube negra y pesada que pasa por encima de nuestras cabezas. Y pensamos: "Puede que sí."
   No decimos lo que pensamos. Hace ya tiempo que se nos acabaron las ganas de hablar. Se nos acabaron con el calor. Uno platicaría muy a gusto en otra parte, pero aquí cuesta trabajo. Uno platica aquí y las palabras se calientan en la boca con el calor de afuera, y se le resecan a uno en la lengua hasta que acaban con el resuello. Aquí así son las cosas. Por eso a nadie le da por platicar.
   Cae una gota de agua, grande, gorda, haciendo un agujero en la tierra y dejando una plasta como la de un salivazo. Cae sola. Nosotros esperamos a que sigan cayendo más y las buscamos con los ojos. Pero no hay ninguna más. No llueve. Ahora si se mira el cielo se ve a la nube aguacera corriéndose muy lejos, a toda prisa. El viento que viene del pueblo se le arrima empujándola contra las sombras azules de los cerros. Y a la gota caída por equivocación se la come la tierra y la desaparece en su sed.
   ¿Quién diablos haría este llano tan grande? ¿Para qué sirve, eh? Hemos vuelto a caminar. Nos habíamos detenido para ver llover. No llovió. Ahora volvemos a caminar. Y a mí se me ocurre que hemos caminado más de lo que llevamos andado. Se me ocurre eso. De haber llovido quizá se me ocurrieran otras cosas. Con todo, yo sé que desde que yo era muchacho, no vi llover nunca sobre el llano, lo que se llama llover.
   No, el Llano no es cosa que sirva. No hay ni conejos ni pájaros. No hay nada. A no ser unos cuantos huizaches trespeleques y una que otra manchita de zacate con las hojas enroscadas; a no ser eso, no hay nada.
   Y por aquí vamos nosotros. Los cuatro a pie. Antes andábamos a caballo y traíamos terciada una carabina. Ahora no traemos ni siquiera la carabina. Yo siempre he pensado que en eso de quitarnos la carabina hicieron bien. Por acá resulta peligroso andar armado. Lo matan a uno sin avisarle, viéndolo a toda hora con "la 30" amarrada a las correas. Pero los caballos son otro asunto. De venir a caballo ya hubiéramos probado el agua verde del río, y paseado nuestros estómagos por las calles del pueblo para que se les bajara la comida. Ya lo hubiéramos hecho de tener todos aquellos caballos que teníamos. Pero también nos quitaron los caballos junto con la carabina.Vuelvo hacia todos lados y miro el Llano. Tanta y tamaña tierra para nada. Se le resbalan a uno los ojos al no encontrar cosa que los detenga. Sólo unas cuantas lagartijas salen a asomar la cabeza por encima de sus agujeros, y luego que sienten la tatema del sol corren a esconderse en la sombrita de una piedra. Pero nosotros, cuando tengamos que trabajar aquí, ¿qué haremos para enfriarnos del sol, eh? Porque a nosotros nos dieron esta costra de tapetate para que la sembráramos.
   Nos dijeron:

-Del pueblo para acá es de ustedes.

   Nosotros preguntamos:

-¿El Llano?
-Sí, el Llano. Todo el Llano Grande.

   Nosotros paramos la jeta para decir que el Llano no lo queríamos. Que queríamos lo que estaba junto al río. Del río para allá, por las vegas, donde están esos árboles llamados casuarinas y las parameras y la tierra buena. No este duro pellejo de vaca que se llama Llano.Pero no nos dejaron decir nuestras cosas. El delegado no venía a conversar con nosotros. Nos puso los papeles en la mano y nos dijo:

-No se vayan a asustar por tener tanto terreno para ustedes solos.
-Es que el Llano, señor delegado...
-Son miles y miles de yuntas.
-Pero no hay agua. Ni siquiera para hacer un buche hay agua.
-¿Y el temporal? Nadie les dijo que se les iba a dotar con tierras de riego. En cuanto allí llueva, se levantará el maíz como si lo estiraran.
-Pero, señor delegado, la tierra está deslavada, dura. No creemos que el arado se entierre en esa como cantera que es la tierra del Llano. Habría que hacer agujeros con el azadón para sembrar la semilla y ni aun así es positivo que nazca nada; ni maíz ni nada nacerá.
-Eso manifiéstenlo por escrito. Y ahora váyanse. Es al latifundio al que tienen que atacar, no al Gobierno que les da la tierra.
-Espérenos usted, señor delegado. Nosotros no hemos dicho nada contra el Centro. Todo es contra el Llano... No se puede contra lo que no se puede. Eso es lo que hemos dicho... Espérenos usted para explicarle. Mire, vamos a comenzar por donde íbamos...

   Pero él no nos quiso oír.
   Así nos han dado esta tierra. Y en este comal acalorado quieren que sembremos semillas de algo, para ver si algo retoña y se levanta. Pero nada se levantará de aquí. Ni zopilotes. Uno los ve allá cada y cuando, muy arriba, volando a la carrera; tratando de salir lo más pronto posible de este blanco terregal endurecido, donde nada se mueve y por donde uno camina como reculando. Melitón dice:

-Esta es la tierra que nos han dado.

   Faustino dice:
 
-¿Qué? Yo no digo nada.

   Yo pienso: "Melitón no tiene la cabeza en su lugar. Ha de ser el calor el que lo hace hablar así. El calor, que le ha traspasado el sombrero y le ha calentado la cabeza. Y si no, ¿por qué dice lo que dice? ¿Cuál tierra nos han dado, Melitón? Aquí no hay ni la tantita que necesitaría el viento para jugar a los remolinos."
   Melitón vuelve a decir:

-Servirá de algo. Servirá aunque sea para correr yeguas.
-¿Cuáles yeguas? -le pregunta Esteban.

   Yo no me había fijado bien a bien en Esteban. Ahora que habla, me fijo en él. Lleva puesto un gabán que le llega al ombligo, y debajo del gabán saca la cabeza algo así como una gallina. Sí, es una gallina colorada la que lleva Esteban debajo del gabán. Se le ven los ojos dormidos y el pico abierto como si bostezara. Yo le pregunto:

-Oye, Teban, ¿de dónde pepenaste esa gallina?
-Es la mía- dice él.
-No la traías antes. ¿Dónde la mercaste, eh?
-No la merque, es la gallina de mi corral.
-Entonces te la trajiste de bastimento, ¿no?
-No, la traigo para cuidarla. Mi casa se quedó sola y sin nadie para que le diera de comer; por eso me la traje. Siempre que salgo lejos cargo con ella.
-Allí escondida se te va a ahogar. Mejor sácala al aire.

   Él se la acomoda debajo del brazo y le sopla el aire caliente de su boca. Luego dice:

-Estamos llegando al derrumbadero.

   Yo ya no oigo lo que sigue diciendo Esteban. Nos hemos puesto en fila para bajar la barranca y él va mero adelante. Se ve que ha agarrado a la gallina por las patas y la zangolotea a cada rato, para no, golpearle la cabeza contra las piedras.
   Conforme bajamos, la tierra se hace buena. Sube polvo desde nosotros como si fuera un atajo de mulas lo que bajará por allí; pero nos gusta llenarnos de polvo. Nos gusta. Después de venir durante once horas pisando la dureza del Llano, nos sentimos muy a gusto envueltos en aquella cosa que brinca sobre nosotros y sabe a tierra.
   Por encima del río, sobre las copas verdes de las casuarinas, vuelan parvadas de chachalacas verdes. Eso también es lo que nos gusta. Ahora los ladridos de los perros se oyen aquí, junto a nosotros, y es que el viento que viene del pueblo retacha en la barranca y la llena de todos sus ruidos.
   Esteban ha vuelto a abrazar su gallina cuando nos acercamos a las primeras casas. Le desata las patas para desentumecerla, y luego él y su gallina desaparecen detrás de unos tepemezquites.

-¡Por aquí arriendo yo! -nos dice Esteban.

   Nosotros seguimos adelante, más adentro del pueblo.
   La tierra que nos han dado está allá arriba.

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1. Pedro Páramo: Vim a Comala