terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Émile Zola - Germinal: Quarta Parte - (IV.c)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quarta Parte

IV
 .

     Uma portinhola se abriu e ele teve de interromper a fala. Era a viúva Désir, que dera a volta pela cozinha e trazia seis copos de cerveja sobre uma bandeja.  

— Continue, continue... — murmurou ela. — Falar dá sede... Maheu auxiliou-a e Pluchart pôde continuar. Disse estar muito comovido com a acolhida que lhe fora dispensada pelos trabalhadores de Montsou, desculpou-se do atraso, alegando cansaço e doença de garganta. Em seguida deu a palavra ao cidadão Rasseneur, que a pedia.

     Rasseneur dirigiu-se imediatamente para a mesa e colocou-se ao lado das cervejas. Uma cadeira emboscada serviu-lhe de tribuna. Parecia muito comovido, tossiu antes de lançar com voz tonitruante um: 

— Camaradas!...

     A sua influência sobre os mineiros era resultante dessa facilidade de palavra, da simplicidade com a qual podia falar durante horas, sem nunca cansar. Não gesticulava, permanecia sólido e risonho, afogava-os, atordoava-os até vê-los gritar: "Sim, sim, é verdade, tens razão!" Naquele dia, porém, desde as primeiras palavras, sentira uma oposição surda; por isso, avançava com prudência. Só falou sobre a continuação da greve, esperando ser aplaudido para então atacar a Internacional.
     Sem dúvida, a hora proibia ceder às exigências da companhia, mas quanta miséria, que futuro terrível se tivessem de continuar resistindo ainda por muito tempo! E, sem se pronunciar pela submissão, amolecia os ânimos, mostrava os conjuntos habitacionais mineiros famintos, perguntava com que recursos contavam os partidários da resistência.
     Três ou quatro amigos tentaram apoiá-lo, o que veio atenuar o silêncio frio da maioria, a desaprovação cada vez mais irritada que acolhia suas palavras.
     Desistindo de reconquistá-los, presa de cólera, predisse-lhes desgraças se se deixassem virar a cabeça por provocações vindas do estrangeiro.
     Dois terços da assistência erguera-se furiosa, querendo impedi-lo de continuar falando, uma vez que a insultava, tratando-a como crianças incapazes de se dirigirem.
     Rasseneur, bebendo enormes goles de cerveja, continuou falando em meio ao tumulto, gritando fora de si que ainda não tinha nascido o valentão que o impediria de cumprir com seu dever.
     Pluchart pusera-se em pé. Como não tinha campainha, batia com o punho na mesa, repetindo com sua voz sem volume: 

— Cidadãos... cidadãos...

     Por fim obteve algum silêncio e a assembleia, consultada, cassou a palavra a Rasseneur. Os delegados que tinham representado as minas na entrevista com o diretor guiaram os outros, todos trabalhados pela fome, cheios de ideias novas. Foi uma vitória ganha antes mesmo da votação. 

— A ti que te importa, comes todos os dias! — berrou Levaque, mostrando o punho a Rasseneur.

     Etienne curvara-se por trás do presidente, para acalmar Maheu, muito vermelho, fora de si com aquele discurso hipócrita. 

— Cidadãos — disse Pluchart —, deixem-me falar.

     Fez-se um profundo silêncio e ele falou. Sua voz saía com esforço e rouca, mas já estava habituado, pois andava sempre na estrada, passeando sua laringite com o seu programa. Pouco a pouco sua voz ia subindo e conseguia arrancar-lhe efeitos patéticos. Os braços abertos acompanhavam os períodos com um balançar de ombros. Tinha uma eloquência de sermão, uma maneira religiosa de deixar cair o final das frases, cujo bramido monótono acabava por convencer.
     Pronunciou um discurso sobre a grandeza e utilidade da Internacional, que era o primeiro da sua bagagem oratória nas localidades em que estreava. Explicou a finalidade da organização: a emancipação dos trabalhadores; mostrou sua estrutura grandiosa: na base a comuna, depois a província, em seguida a nação e no topo a humanidade. Seus braços se moviam lentamente, empilhando os andares, erigindo a imensa catedral do mundo futuro. Depois, veio a administração interna: leu os estatutos, falou dos congressos, ressaltou a crescente importância da obra, o aprofundamento do programa, que, partindo da discussão dos salários, tratava agora da liquidação social, para terminar no sistema assalariado. A liquidação das nacionalidades, os operários do mundo inteiro congregados num desejo comum de justiça, varrendo a podridão burguesa, fundando, enfim, a sociedade livre, onde aquele que não trabalhasse não comeria! Seus bramidos faziam estremecer as flores de papel pintado pendentes do teto enfumaçado, cuja altura oprimente devolvia o fragor de sua voz. Uma onda agitou a platéia. Alguns gritaram: 

— É isso!... Estamos de acordo!

     Ele prosseguiu. Era a conquista do mundo antes de três anos. Nesse ponto enumerou os povos conquistados. As adesões choviam de todos os lados. Nunca uma religião nascente fizera tantos fiéis. Depois, quando fossem os vencedores, ditariam a lei aos patrões, seria a vez de eles apertarem o nó no pescoço dos ricos. 

— Muito bem! Muito bem! A vez deles chegará!

     Pediu silêncio com um gesto. Começou a abordar o problema das greves. Em princípio, desaprovava-as, eram um meio muito lento, que antes agravava os sofrimentos do operário. Mas, enquanto a situação não mudava e sendo elas inevitáveis, então devia-se seguir esse caminho, pois tinham a vantagem de desorganizar o capital. E, nesse caso, apontava a Internacional como uma providência para os grevistas, citava exemplos: em Paris, quando da greve dos fundidores de bronze, os patrões tinham concordado com tudo de uma só vez, tomados de terror com a notícia de que a Internacional enviaria socorros; em Londres ela salvara os mineiros de uma hulheira, repatriando por sua conta um grupo de belgas, chamados pelo proprietário da mina. Apenas com a adesão, as companhias tremiam, os operários entravam para o grande exército dos trabalhadores, decididos a morrer uns pelos outros ao invés de continuarem escravos da sociedade capitalista.
     Interromperam-no os aplausos. Ele enxugava a testa com o lenço, voltando a recusar um copo de cerveja que Maheu lhe oferecia. Quando quis prosseguir, novos aplausos não o deixaram falar. 

— Chega! — disse ele rapidamente a Etienne. — Já estão prontos... Depressa! as fichas!

     Mergulhou debaixo da mesa e reapareceu com a pequena caixa de madeira preta. 

— Cidadãos! — gritou ele, dominando a algazarra. — Aqui estão as fichas de inscrição. Por favor, que se aproximem os delegados, eles as distribuirão. As contas serão feitas mais tarde.

     Rasseneur levantou-se para protestar mais uma vez. Por seu lado Etienne agitou-se, pois queria fazer um discurso. Seguiu-se uma total' confusão. Levaque gesticulava, como se estivesse brigando. Maheu, em pé, falava, sem que se ouvisse uma só palavra do que dizia Naquele tumulto infernal, a poeira subia do soalho, a mesma poeira volátil dos antigos bailes, empestando a atmosfera com o cheiro forte das operadoras de vagonetes e dos aprendizes.
     Bruscamente a portinhola abriu-se e a viúva Désir obstruiu-a com sua barriga e seus seios, dizendo com voz trovejante 

— Fiquem quietos, pelo amor de Deus! Os policiais estão aí!

     Era o comissário da circunscrição que chegava, um pouco tarde, para lavrar um auto e dissolver a reunião. Quatro policiais o acompanhavam. Havia cinco minutos que a viúva os barrava à porta, alegando que estava em sua casa e tinha o direito de reunir amigos. Mas tinha sido empurrada e viera correndo prevenir sua ninhada. 

— Fujam por aqui — ofegou ela. — Há um canalha de policial guardando o pátio, mas não tem importância, meu depósito de lenha dá para o beco. Vamos, depressa!

     O comissário já estava esbordoando a porta, que, como não se abrisse, ele ameaçava arrombar. Algum espião tinha-o informado, porque ele gritava que a reunião era ilegal, já que um grande número de mineiros entrara ali sem convite.
     Na sala a confusão era cada vez maior. Não podiam ir embora dessa maneira, nem sequer tinham votado, seja pela adesão, seja pela continuação da greve. Todos insistiam em falar ao mesmo tempo. Finalmente o presidente teve a ideia de um voto por aclamação. Braços ergueram-se, os delegados declararam às pressas que aderiam em nome dos camaradas ausentes. E foi assim que os dez mil mineiros de Montsou tornaram-se membros da Internacional.
     Depois disso começou a debandada. Protegendo a retirada, a viúva Désir encostara-se à porta que as coronhas dos policiais faziam estremecer de encontro a ela. Os mineiros pulavam por cima dos bancos, escapavam em fila através da cozinha e do depósito de lenha. Rasseneur foi um dos primeiros a desaparecer, seguido de Levaque, que já esquecera as injúrias e sonhava com que o outro lhe oferecesse uma cerveja, para se refazer. Etienne, depois de ter-se apoderado da caixa, esperava com Pluchart e Maheu, que tinham como ponto de honra serem os últimos a sair. Quando estes abandonaram o recinto, a fechadura saltou e o comissário achou-se frente a frente com a viúva, cujos seios e barriga ainda formavam uma barricada. 

— Não adiantou de nada quebrarem tudo o que é meu! — exclamou ela. — Não há ninguém aqui.

     O comissário, homem preguiçoso, que não gostava de dramas, ameaçou-a simplesmente de metê-la na cadeia. E logo foi embora para lavrar o auto, levando consigo os quatro policiais, sob as chacotas de Zacharie e do jovem Mouque, que, cheios de admiração com a peça pregada pelos companheiros, ridicularizavam a força armada.
     No beco, Etienne, sem saber o que fazer com a caixa, correu, seguido dos outros. Lembrou-se repentinamente de Pierron e perguntou por que ele não fora visto. Maheu, sempre correndo, respondeu que estava doente, uma doença fictícia, medo de se comprometer.
     Quiseram reter Pluchart, mas ele, sem parar, declarou que partia imediatamente para Joiselle, onde Legoujeux esperava instruções. Desejaram-lhe então boa viagem, não pararam de correr, atravessando Montsou a toda a brida. Frases, entrecortadas pelo arquejar da respiração, foram trocadas. Etienne e Maheu riam confiantes, certos agora do triunfo: quando a Internacional mandasse socorros, seria a vez de a companhia implorar para que voltassem ao trabalho. E naquele impulso de entusiasmo, no galope dos sapatos grossos soando na estrada, havia uma outra coisa, alguma coisa de sombrio e feroz, uma violência cujo vento iria incendiar os conjuntos habitacionais mineiros, nos quatro cantos do país.

continua na página 217...
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Quarta Parte - (IV.b) / Quarta Parte - (IV.c) / Quarta Parte - (V.a) /  
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quarto - Os amigos do ABC / V — Amplia-se o horizonte

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quarto — Os amigos do ABC

     V — Amplia-se o horizonte

             O choque entre os espíritos juvenis é admirável por nunca se poder prever a faísca nem adivinhar o relâmpago. Que rebentará daqui? Ninguém sabe. Do meio do enternecimento sai a gargalhada. No momento burlesco, eis que entra em cena a seriedade. Os impulsos dependem de qualquer palavra indiferente. Domina soberanamente o estro de cada um. Basta uma graça para abrir o campo ao inesperado. São conversas que desandam de súbito e em que a perspectiva repentinamente muda. O maquinista delas é o acaso. 
     Um pensamento severo, extravagância saída do meio de toda aquela algazarra, atravessou de repente a confusa celeuma levantada por Grantaire, Bahorel, Prouvaire, Bossuet, Combeferre e Courfeyrac.
     Como sobrevêm uma frase no diálogo? Como é que ela de repente se sublinha por si mesma na atenção dos que a ouvem? Acabamos de dizê-lo; ninguém sabe. No meio da algazarra, Bossuet terminou não sabemos que apóstrofe a Combeferre pela seguinte data: 

— 18 de Junho de 1815: Waterloo.

     A este nome de Waterloo, Mário, que estava encostado a uma mesa, sobre a qual se achava um copo de água, tirou o punho de baixo da barba em que se apoiava e começou a olhar fixamente o auditório. 

— A fé que me impressiona e me causa estranheza este número 18. É o número fatal de Bonaparte. Ponham Luís adiante e brumário atrás, e terão completo o destino desse homem, com a expressiva circunstância de ser o princípio imediatamente seguido do fim.

     Enjolras, até então silencioso, quebrou a sua mudez e dirigiu-se a Courfeyrac, dizendo: 

— Queres dizer o crime seguido da expiação.

     A palavra crime ultrapassava os limites do que Mário, já bastante impressionado pela súbita evocação de Waterloo, podia suportar.
     Levantou-se, pois, caminhando lentamente para o mapa de França, pendente da parede, e no fundo do qual se via uma ilha numa divisão separada, pôs o dedo nessa divisão e disse: 

— Aqui está a Córsega, uma ilha pequena que tornou grande a França.

     Estas palavras foram uma como rajada de ríspido vento. Interromperam-se todos, suspeitosos de que alguma coisa ia principiar.
     Bahorel, replicando a Bossuet, preparava-se para assumir uma atitude que lhe era habitual, mas renunciou a ela para escutar.
     Enjolras, que não tinha os seus olhos azuis fixos em ninguém, parecendo que contemplava o espaço, respondeu sem olhar para Mário: 

— A França, para ser grande, não precisa de Córsega nenhuma. A França, é grande por ser França. Quia nominor leo.

     Mário, todavia, não se resolveu de modo nenhum a recuar; voltou-se para Enjolras e a sua voz retumbou com uma vibração causada por um estremecimento íntimo. 

— Longe de mim o pensamento de deprimir a França! Porém não é deprimi-la amalgamar-lhe Napoleão. Ora vamos, digamos as coisas sem rodeios. Sou novo no meio de vós, mas confesso que me causais admiração. Onde estamos? Quem somos? Quem sois vós? Quem sou eu? Expliquemo-nos a respeito do imperador. Eu ouço-vos pronunciar Buonaparte, acentuando o u, como fazem os realistas. Então dir-lhes-ei que meu avô ainda faz mais, porque diz Buonaparte. Eu julgava-os mancebos. Senão digam-me: para quando guardam o seu entusiasmo? Que fazem dele? Que admiram, se não admiram o imperador? Que mais querem? Se não lhes agrada este grande homem, que grandes homens lhes agradam? Bonaparte possuía tudo. Era completo. Tinha no cérebro o cunho das faculdades humanas. Fazia códigos como Justiniano, ditava como César, a sua conversação reunia a lucidez de Pascal ao arrojo de Tácito, fazia a história e escrevia-a, os seus boletins são Ilíadas, ele combinava a cifra de Newton com a metáfora de Maomé, deixava atrás de si no Oriente palavras como as pirâmides, em Tilsit ensinava a majestade aos imperadores, na Academia das Ciências respondia a Laplace, no conselho de Estado impugnava Merlin, dava uma alma à geometria de uns e à chicana de outros, era legista com os procuradores e sideral com os astrónomos; apagando como Cromwell uma de duas velas, ia ao Templo comprar uma borla de cor nado; ele via tudo, tudo sabia; o que não obstava a que ele se risse com bondosa simplicidade para o berço de seu tenro filho; e de repente a Europa punha assustada o ouvido alerta, marchavam os exércitos, rodavam os parques de artilharia, atravessavam os rios pontes feitas de barcos, galopavam nuvens de cavaleiros como que impelidos pelo furacão, gritos, trombetas, abalo geral dos tronos, oscilavam no mapa as fronteiras dos reinos, ouvia-se o ruído que fazia uma espada sobre-humana desembainhando-se, e ele despontava no horizonte com — as mãos brilhantes de luz e os olhos resplendentes, abrindo aos trovões as suas duas asas, o grande exército e a guarda de veteranos, e era o arcanjo da guerra!

     Permaneciam todos calados e Enjolras baixava a cabeça. O silêncio parece-se sempre com a aquiescência ou com uma espécie de derrota. Mário continuou, pois, sem tomar fôlego e com crescente entusiasmo. 

— Sejamos justos, meus amigos! Que esplêndido destino para um povo, quando esse povo é a França, ser o império de tal imperador, reunindo o seu gênio ao gênio desse homem! Aparecer e reinar, marchar e triunfar, ter por degraus todas as capitais, pegar nos granadeiros e fazê-los reis, decretar a queda das dinastias, transfigurar a Europa a marche-marche, sentir, quando se ameaça, que se leva a mão ao punho da espada de Deus, seguir num só homem, Aníbal, César e Carlos Magno, ser o povo de um homem que faz contar em cada amanhecer o fausto anúncio de uma vitória, ter por despertador o canhão dos Inválidos, lançar em abismos de luz palavras prodigiosas que resplandecem perpetuamente, Marengo, Arcole, Austerlitz, Lena, Wagram! Fazer despontar a todo o instante no zénite dos séculos constelações de vitórias, fazer do império francês o complemento simétrico do império romano, ser a grande nação e dar à luz o grande exército, fazer voar por toda a terra as suas legiões como uma montanha envia para todas as direções as suas águias, vencer, dominar, fulminar, ser na Europa uma espécie de povo dourado a poder de glória, fazer ouvir através da história uma música de titãs, conquistar o mundo duas vezes pelo triunfo das armas e pelo deslumbramento do espírito, é sublime; que pode haver de maior?
— Ser livre! — disse Combeferre.

     Mário baixou a cabeça por sua vez; esta frase simples e fria atravessara a sua efusão épica, como uma folha de aço que sentia penetrar-lhe o espírito.
     Quando o mancebo levantou a cabeça, já Combeferre tinha desaparecido. Satisfeito decerto com a sua resposta à apoteose de Mário, tinha partido, e todos, exceto Enjolras, o tinham seguido, A sala evacuara-se.
     Enjolras que ficara só com Mário, olhava para ele com ar grave. Entretanto, o mancebo, tendo reatado o fio das suas ideias, não se julgava vencido; sentia um resto de efervescência, que ia decerto traduzir-se em silogismos desenvolvidos contra Enjolras, quando de súbito se ouviu uma voz de alguém que descia a escada. Era Combeferre, que cantava estes versos:

Se o grande César me desse 
A glória de vencedor, 
Contanto que eu perdesse 
De minha mãe o amor, 
Eu diria ao grande César: 
Guarda lá a tua glória, 
Que o amor de minha mãe 
Não o troco pela história.

     O tom terno e ao mesmo tempo vibrante em que Combeferre cantava estes versos dava-lhes uma como grandeza estranha, que fez com que Mário quase maquinalmente repetisse, fitando os olhos no teto, com ar pensativo: 

— Minha mãe!

     Na ocasião, porém, em que proferia esta frase, Enjolras pousou-lhe a mão no ombro e disse-lhe: 

— Cidadão, minha mãe é a república.

continua na página 507...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quarto - V — Amplia-se o horizonte
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

MPB: O Mar Serenou

Clara Nunes


A Rainha do Mar






O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia
O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia

O pescador não tem medo
É segredo se volta ou se fica no fundo do mar
Ao ver a morena bonita, sambando se explica
Que não vai pescar, deixa o mar serenar

O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia
O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia

A lua brilhava vaidosa de si, orgulhosa e prosa
Com que Deus lhe deu
Ao ver a morena sambando, foi se acabrunhando
Então adormeceu, o sol apareceu

O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia
O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia

Um frio danado que vinha do lado gelado
Que o povo até se intimidou
Morena aceitou o desafio, sambou e o frio
Sentiu seu calor e o samba se esquentou

O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia
O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia

A estrela que estava escondida, sentiu-se atraída
Depois, então, apareceu
Mas ficou tão enternecida, indagou a si mesma
A estrela, afinal, será ela ou sou eu?

O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia
O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia

O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia


Compositor: Antonio Candeia Filho


Rainha do Mar




Uma linda homenagem que nossas queridas e talentosas Daúde, Margareth Menezes, Mart´nália, Luciana Mello, Rosa Marya Colyn, Dona Alaíde Costa e Paula Lima fizeram para a rainha do mar Iemanjá um classifico do nosso samba imortalizado pela saudosa Clara Nunes e a linda Marisa Monte.

Versão maravilhosa interpretada com muito amor por essas maravilhosas cantoras da nossa MPB. Orgulho Negro!


Lenda das Sereias - Rainha do Mar 
(Vicente Mattos, Dinoel e Arlindo Velloso) 
Enredo da Imperio Serrano 1976


Ponto cantado de Iemanjá 
- Quantas vezes, Inaê chorei a beira do seu mar...




Intérprete - Julie Sales

Meu Amor é tão profundo.
Quanto as águas do seu Mar.
Odoya Iemanjá!
É a Fé que me aquece.
Força e vida pra lutar!
Inae Rainha do Mar.
O clarão do espelho de prata.
É farol de estrelas.
Ilumina a minha vida.
É norte, a me guiar.
Nesse Mar de ilusões.
Mãe que vem me consolar.
Quantas vezes Inae.
Chorei a beira do Seu Mar...
Meu Amor é tão profundo,
Quanto as águas do seu Mar.
Odoya Iemanjá!
É a Fé que me aquece.
Força e vida pra lutar!
Inae Rainha do Mar.
Coração dos Filhos Teus.
É Templo pra lhe louvar.
Lugar de amor e paz.
Onde mora Iemanjá,
Quando ouvem o seu canto,
Mãe Sereia, vem chamar.
Pela fé, eles se entregam.
Como barcos ao Teu Mar...
Meu Amor é tão profundo,
Quanto as águas do seu Mar.
Odoya Iemanjá!
É a Fé que me aquece.
Força e vida pra lutar!
Inae Rainha do Mar.



Yemanjá, Rainha do Mar 
- Maria Bethânia





Massa e Poder - O Sobrevivente: O Detentor do Poder como Sobrevivente

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     O Detentor do Poder como Sobrevivente

          Poder-se-ia definir o tipo paranoico de detentor do poder como aquele que se vale de todos os meios para afastar de si o perigo. Em vez de desafiá-lo e confrontá-lo; em vez de deixar que a decisão se dê no seu enfrentamento — uma decisão que poderia também ser desfavorável —, ele busca bloquear-lhe o caminho com astúcia e cautela. Um tal tipo criará em torno de si espaços livres que possa abranger com a vista, notando e estudando cada indício de aproximação do perigo. E isso a partir de todas as direções, pois a consciência de ter de se haver com muitos que, juntos e a um só tempo, poderiam atacá-lo mantém desperto nele o medo de um eventual cerco. O perigo está por toda parte, e não apenas na sua frente. Ele é até mesmo maior às suas costas, onde o poderoso não seria capaz de notá-lo com suficiente rapidez. Assim, mantém seus olhos por toda parte; nem mesmo o ruído mais inaudível pode escapar-lhe, já que este poderia conter em si um propósito hostil.
     O perigo por excelência é, naturalmente, a morte. É importante estudar minuciosamente como o detentor de poder se posiciona diante dela. Sua primeira e decisiva característica é seu direito sobre a vida e a morte. Dele, ninguém pode aproximar-se; quem lhe traz uma mensagem, quem precisa aproximar-se, é revistado à procura de armas. A morte é sistematicamente mantida longe do poderoso: ele próprio é quem pode e deve determiná-la. E deve fazê-lo com a frequência que desejar. Sua sentença de morte é sempre cumprida. Ela é o selo de seu poder, que só será absoluto enquanto seu direito de condenar à morte permanecer incontestado.
     E isso porque realmente sujeito a ele está apenas aquele que por ele se deixa matar. A prova derradeira de obediência, aquela que importa, é sempre a mesma. Seus soldados são educados para uma espécie de dupla disponibilidade: são enviados para matar-lhe os inimigos, mas estão também prontos a morrer por ele. Mesmo os seus demais súditos, porém, os que não são soldados, sabem que o detentor do poder pode investir contra eles a qualquer momento. O pavor que ele dissemina lhe pertence; é seu direito, e em razão desse direito ele é venerado ao máximo. É adorado de forma extrema. Deus infligiu a sentença de morte definitiva sobre todos os homens de agora e todos aqueles que viverão no futuro. Do humor do poderoso depende, porém, quando tal sentença será executada. A ninguém ocorre revoltar-se contra isso — um intento que não teria nenhuma perspectiva de sucesso.
     Não obstante, as coisas são menos fáceis para os poderosos terrenos do que para Deus. Eles não viverão para sempre; seus súditos sabem que também os seus dias terão um fim. E esse fim pode até ser apressado. Como todo fim, é a violência que o produz. Aquele que nega obediência posicionou-se para a luta. Nenhum soberano está eternamente seguro da obediência de seus súditos. Enquanto estes se deixarem matar por ele, o soberano pode dormir tranquilo. Mas, tão logo alguém escape ao seu veredicto, ele estará em perigo.
     O sentimento desse perigo está sempre desperto no detentor de poder. Mais adiante, ao se tratar aqui da natureza da ordem, verificar se-á que seus medos têm necessariamente de aumentar à medida que mais ordens suas vão sendo cumpridas. Ele somente logra aplacar suas dúvidas com o auxílio de uma medida exemplar. Assim, determinará uma execução pela execução em si, sem que importe tanto a culpa da vítima. De tempos em tempos, necessitará dessas execuções, tanto mais quanto mais rapidamente suas dúvidas aumentarem. Seus súditos mais certos, seus súditos perfeitos — poder-se-ia dizer — são os que morreram por ele.
     E isso porque cada execução pela qual é responsável confere-lhe alguma força. Essa força que ele assim adquire é a força da sobrevivência. Suas vítimas não precisam ter efetivamente se voltado contra ele, mas poderiam tê-lo feito. O medo que ele sente as transforma — talvez somente a posteriori — em inimigos que lutaram contra ele. Ele as condenou, elas foram mortas, ele sobreviveu a elas. Em suas mãos, o direito de pronunciar sentenças de morte torna-se uma arma como outra qualquer, mas muito mais eficaz. Com frequência, soberanos bárbaros e orientais atribuíam grande valor à acumulação de tais vítimas o mais próximo possível de si, de forma a tê-las constantemente diante dos olhos. Mesmo nos lugares onde o costume se opunha a uma tal acumulação, os pensamentos dos poderosos contemplaram-na. Um relato atribui ao imperador romano Domiciano um jogo sinistro dessa espécie. O banquete que ele concebeu, e que, com certeza, jamais voltou a realizar-se de maneira idêntica, ilustra com perfeição a natureza mais profunda do poderoso paranoico. Tal relato, de autoria de Díon Cássio, diz o seguinte:

Em outra ocasião, Domiciano entreteve os mais nobres dentre os senadores e cavaleiros da seguinte maneira. Preparou uma sala na qual tudo — o teto, as paredes e o chão — era preto, além de dispor leitos desguarnecidos e dessa mesma cor sobre o chão nu. Seus convidados, convidou-os para a noite, desacompanhados de seus séquitos. Ao lado de cada um deles, mandou colocar primeiramente um disco, ostentando a forma de uma lápide e o nome do convidado; a este acrescia-se ainda uma pequena lâmpada, como aquelas que costumeiramente pendem dos túmulos. Rapazes formosos e nus adentraram, então, a sala, igualmente pintados de preto, qual fantasmas. Puseram-se a executar uma dança horripilante ao redor dos convidados, postando-se, depois, a seus pés. A seguir, serviram-se aos convidados os pratos que, nos sacrifícios, habitualmente são oferecidos aos espíritos dos mortos — todos pretos e em travessas da mesma cor. Os convidados todos começaram a tremer e hesitar, esperando que, no instante seguinte, lhes fossem cortar as gargantas. À exceção de Domiciano, estavam todos calados. Reinava um silêncio mortal, como se já se encontrassem todos no reino dos mortos. O próprio imperador discorria ruidosamente sobre mortes e carnificinas. Por fim, dispensou seus convidados. Primeiramente, porém, afastara-lhes os escravos que os aguardavam na antessala. Confiou, então, os convidados a escravos desconhecidos, mandando-os para casa em carros ou liteiras. Impregnou-os, assim, de um medo ainda maior. Mal tendo os convidados chegado em casa e começado a respirar aliviados, um mensageiro do imperador fez-se anunciar. Estando todos eles já certos de que sua hora havia chegado, alguém entrou trazendo o disco, que era de prata. Outros vieram, carregando objetos diversos, dentre os quais as travessas de material precioso nas quais a comida lhes fora servida. E, finalmente, cada convidado viu aparecer ainda o rapaz que, qual um espírito particular, dele cuidara — agora, porém, já lavado e adornado. Após terem passado a noite inteira morrendo de medo, recebiam agora os presentes.

     Esse foi, pois, “o banquete fúnebre de Domiciano”, como o povo o chamou.
     O pavor incessante no qual o imperador manteve seus convidados fê-los calar. Somente ele falava, e falava sobre a morte e sobre matar. Era, pois, como se estivessem todos mortos e somente ele ainda vivo. Reunira nesse banquete todas as suas vítimas, pois assim devem ter se sentido os convidados. Disfarçado de anfitrião, mas, na verdade, na condição de sobrevivente, falava a vítimas disfarçadas de convidados. A situação do sobrevivente, porém, não foi aí tão só concentrada, mas também refinadamente intensificada. Embora os convidados pareçam mortos, o imperador segue ainda podendo matá-los. Captura-se assim o processo propriamente dito do sobreviver. Ao dispensar seus convidados, Domiciano os indultou. Fá-los tremer de novo, entregando-os a escravos desconhecidos. Eles chegam em casa, e, mais uma vez, ele lhes envia mensageiros da morte. Estes trazem-lhes presentes, e, dentre eles, o maior dos presentes; sua vida. O imperador pode, por assim dizer, despachá-los da vida para a morte, e trazê-los desta de volta à vida. Ele se delicia diversas vezes com esse jogo, que lhe dá a mais elevada sensação de poder — uma sensação ainda mais elevada de poder seria inconcebível.

continua página 352...
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Leia também:

Massa e Poder - O Sobrevivente: O Detentor do Poder como Sobrevivente
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

Thomas Mann - A Montanha Mágica: Coisas muito problemáticas - [c]

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VII
Coisas muito problemáticas

continuando...

     Conforme a terminologia usada por ele, estavam à frente de complexos inconscientes, projetados biopsiquicamente para a esfera objetiva. O estado sonambúlico e a constituição mediúnica deviam ser considerados a fonte dessas projeções, que tinham de ser qualificadas de representações de sonho objetivadas, uma vez que nelas agia uma faculdade ideoplástica da natureza. Sob certas condições, o pensamento era capaz de atrair a matéria e de configurar-se nela, adquirindo uma realidade efêmera. Essa matéria emanava do corpo do médium, para adquirir, fora dele, a forma transitória de extremidades biologicamente vivas, como tentáculos ou mãos, que efetuavam justamente essas insignificâncias admiráveis, presenciadas pelos convidados no laboratório do Dr. Krokowski. Às vezes, esses membros eram visíveis e palpáveis, e suas formas podiam ser conservadas em parafina ou em gesso. Em outros casos, porém, o seu desenvolvimento não se limitava a isso. Diante dos olhos das pessoas que faziam as experiências, surgiam cabeças, semblantes de homens com feições individuais, fantasmas de corpo inteiro, e, dentro de certos limites, entabulavam relações com a roda.
     Era nesse ponto que a teoria do Dr. Krokowski começava a tornar-se estrábica, a olhar em duas direções ao mesmo tempo, e a assumir o mesmo caráter vacilante, ambíguo, que haviam revelado as suas expectorações acerca do “amor”, porque daí em diante já não se podia falar, de forma inequívoca, inteiramente científica, de subjetividades de médium e de seus ajudantes passivos, que eram refletidas para a esfera real; entravam em jogo, ao menos participando ou contribuindo, “eus” estranhos, vindos de fora ou do além; tratava-se – possivelmente, embora não confessadamente – de algo não-vivo, de seres que aproveitavam a oportunidade complexa e secreta do momento para voltar à matéria e para comunicar-se com quem os chamava; tratava-se, em suma, da evocação espiritista dos mortos.
     Eram, pois, esses os resultados que o camarada Krokowski, assistido pelos seus, trabalhava por obter. Atarracado, com um sorriso enérgico nos lábios, inspirando confiança alegre, dedicava-se a esse trabalho. Uma vez que ele pessoalmente estava familiarizado com aquele terreno suspeito, pantanoso, subumano, prestava-se muito bem para guiar através da região até os espíritos tímidos ou céticos. Graças aos dons extraordinários de Ellen Brand, que o doutor se empenhava em desenvolver e treinar, parecia sorrir-lhe pleno êxito, segundo contavam a Hans Castorp. Diversos componentes da roda já haviam sido tocados por mãos materializadas. O Promotor Paravant recebera das esferas transcendentes uma violenta bofetada, que aceitara com satisfação científica, levando a curiosidade a ponto de oferecer a outra face, não obstante a sua condição de cavalheiro, de jurista e de sócio veterano de um grêmio de estudantes, cujo código de duelo o teria obrigado a uma atitude muito diferente, se o golpe houvesse partido de mãos vivas. A. K. Ferge, o singelo sofredor que ficava alheio a todas as coisas sublimes, mantivera na mão uma das tais extremidades de fantasma e verificara pelo tato que era bem conformada e completa, antes de ela se esquivar de um modo indescritível ao seu aperto cordial nos limites prescritos pelo respeito. Escoou-se um período bastante longo – quase dois meses e meio, com duas sessões por semana – até que uma mão do outro mundo, mão de um jovem, segundo parecia, mostrou-se aos olhos de todos, irradiada pela luz rosada de uma lampadazinha de mesa, revestida de papel encarnado. Tateando, a mão passou por sobre a superfície da mesa e deixou seu rastro num pote de barro, cheio de farinha. Mas oito dias depois aconteceu que um grupo de colaboradores do Dr. Krokowski, o Sr. Albin, a Stöhr e o casal Magnus, irromperam por volta da meia-noite no compartimento de sacada de Hans Castorp, que ali cochilava no meio do frio glacial. Com todos os sinais de entusiasmo desenfreado e de arrebatamento febril, relataram em palavras precipitadas o seguinte: o Holger da Elly acabava de aparecer, sua cabeça surgira por cima do ombro da sonâmbula; ele tinha realmente “lindos cabelos castanhos, castanhos”; sorrira com uma expressão inesquecível pela brandura e pela melancolia, antes de sumir novamente.
     Como se harmonizava – assim ponderou Hans Castorp – essa aflição distinta com a conduta que Holger manifestava em outras ocasiões, com certas criancices sem graça e com aquela molecagem simples e pura, que constituía a bofetada nada melancólica que vibrara ao promotor? Evidentemente não se podia exigir nesse caso uma coerência lógica de caráter. Talvez se encontrassem em face de uma mentalidade semelhante à do Corcundinha da canção popular, com sua malícia patética e sua ânsia de que se reze por ele. Os admiradores de Holger não pareciam preocupados com tudo isso. O que tencionavam fazer era que Hans Castorp se determinasse a abandonar o seu isolamento. Insistiram em que ele não deixasse de assistir à próxima sessão, agora que tudo ia às mil maravilhas. Pois Elly prometera, enquanto dormia, que da próxima vez apresentaria qualquer defunto cuja presença o círculo reclamasse.
     Qualquer defunto? Mesmo assim, Hans Castorp persistiu na sua atitude negativa. Mas o fato de se poder chamar qualquer pessoa falecida continuou a absorvê-lo durante os três dias seguintes, a ponto de chegar ele a decisões completamente opostas. No fundo não eram necessários três dias, senão apenas alguns minutos para produzir esse resultado. A mudança de opinião realizou-se a uma hora solitária da noite, no salão de música, enquanto ele ouvia mais uma vez aquele disco ao qual a personalidade ultra simpática de Valentim imprimira o seu cunho peculiar. Sentado na sua cadeira ouviu Hans Castorp aquela prece guerreira, a despedida de um homem de valor, cujo coração o arrastava ao campo da honra, e que cantava: “E se Deus me chamar para junto de si, velarei fiel por ti, ó Margarida!” Como acontecia sempre que tocava essa ária, sentiu-se possuído de uma veemente emoção, que dessa vez, aumentada por certas possibilidades, se condensou a ponto de transformar-se em desejo. E ele pensou: “Seja ou não pecaminoso e ocioso, em todo caso seria uma coisa maravilhosa e uma aventura muito desejável. E ele, tal como o conheci, não me guardará rancor, se estiver metido no assunto”. Lembrou-se então da maneira amável e displicente como fora pronunciada a resposta: “Pois não!”, nas trevas do gabinete de radioscopia, quando achara necessário pedir licença para certas indiscrições ópticas.
     Na manhã do dia seguinte avisou que tomaria parte na sessão marcada para a noite. Uma hora após o jantar reuniu-se aos outros, que se encaminhavam ao andar subterrâneo, conversando sem nervosismo, habituados como estavam ao sobrenatural. Na escada encontrou o Dr. Ting-Fu e o tcheco Wenzel, mas também os outros que se associaram no calabouço do Dr. Krokowski eram membros fundadores do grupo ou pelo menos veteranos traquejados, como, por exemplo, os senhores Ferge e Wehsal, o promotor público, as senhoras Levi e Kleefeld, para não falar das pessoas que o haviam informado da aparição da cabeça de Holger, e naturalmente da médium, Elly Brand.
     A garota nórdica já se achava sob a guarda do médico, quando Hans Castorp passou pela porta guarnecida de um cartão de visita. Enquanto Krokowski, trajando o avental preto de trabalho, lhe cingia paternalmente o ombro, esperava ela os convidados ao sopé dos degraus que no nível do andar subterrâneo conduziam à habitação do assistente, e cumprimentava-os um a um, tal qual o doutor. Essas saudações mostravam de ambas as partes um caráter despreocupado, alegre e cordial. Visivelmente tinham todos o firme propósito de não deixar entrar no ambiente a menor angústia solene. Conversavam entre si em voz alta, gracejavam, trocavam cotoveladas animadoras, para demonstrar das mais diversas maneiras a falta de acanhamento. Entre a barba do Dr. Krokowski apareciam constantemente os dentes amarelados, com aquela peculiar expressão máscula, tranquilizadora, enquanto convidava os componentes da roda a “entrrar”. E essa expressão intensificou-se quando deu as boas-vindas a Hans Castorp, que se mostrava taciturno e cuja fisionomia parecia indecisa. O anfitrião saudou-o com um enérgico aceno de cabeça, apertando-lhe a mão com força quase brutal. Era como se lhe quisesse dizer: “Ânimo, meu amigo! Não há motivo para andarmos cabisbaixos. Aqui não existe nem pusilanimidade nem beatice, mas unicamente o bom humor viril, próprio da pesquisa livre de preconceitos”. Mas o jovem exortado por essa pantomima nem por isso se sentiu mais à vontade. Como já mencionamos, chegara Hans Castorp à sua decisão lembrando-se do gabinete de radioscopia; mas essa associação de ideias absolutamente não basta para definir os seus sentimentos. Pelo contrário, estes lhe evocavam antes a recordação daquele singular e inesquecível estadoude alma – mescla de nervosismo, petulância, curiosidade, menosprezo e devoção – que tomara conta dele fazia muitos anos, no momento em que pela primeira vez entrara, levemente tocado, em companhia de alguns amigos, num bordel do bairro de Sankt Pauli.
     Como estivessem presentes o Dr. Krokowski e duas ajudantes, que eram, dessa vez a Srª. Magnus e a Srta. Levi com a tez de marfim, retiraram-se à sala vizinha, a fim de revistar a médium. Enquanto isso, Hans Castorp permaneceu com os nove outros componentes da roda no consultório do assistente, aguardando o fim dessa cerimônia cientificamente rigorosa, que se celebrava antes de todas as sessões e sempre sem resultado nenhum. A peça era-lhe familiar, desde certas horas que ali passara, às escondidas de Joachim, “charlando” com o analista. Nos fundos, à esquerda, perto da janela, havia uma escrivaninha com uma cadeira de braços e outra poltrona para o paciente; a ambos os lados da porta lateral via-se uma biblioteca de consulta; um biombo de vários painéis separava a escrivaninha e as cadeiras de uma chaise longue forrada de oleado, colocada diagonalmente no ângulo direito do gabinete, onde também se achava uma vitrine de instrumentos; num outro canto erguia-se um busto de Hipócrates, ao passo que acima da lareira a gás, na parede direita, estava pendurada uma gravura reproduzindo a Anatomia de Rembrandt. Em suma, era uma sala de consultas típica, semelhante a muitíssimas outras. Mas para a finalidade especial dessa noite haviam sido feitas algumas modificações na mobília. A mesa redonda, de acaju, que normalmente se encontrava cercada de poltronas, no centro da peça, embaixo do lustre elétrico, sobre o tapete vermelho que cobria a quase totalidade do soalho, fora deslocada para o primeiro plano, em direção ao ângulo esquerdo, junto do busto de gesso, ao passo que outra mesinha revestida de uma toalha leve, e na qual se achava um abajur de lâmpada vermelha, tinha sido colocada nas proximidades da lareira acesa, que irradiava um calor seco. Por cima dessa mesinha pendia do teto outra lâmpada escondida atrás de véus vermelhos e negros. Na mesa e a seu pé viam-se alguns objetos de vasta notoriedade: a sineta, ou melhor, duas sinetas de construção diferente, uma de badalo e a outra parecida com uma campainha; havia, além disso, um prato com farinha e um cesto de papéis. Cerca de uma dúzia de cadeiras e poltronas de diversos tipos circundavam a mesinha, formando um semicírculo, desde os pés da chaise longue quase até o centro da sala, onde se achava o lustre. Era ali, perto da última cadeira, a meio caminho da porta lateral, que o fonógrafo encontrara o seu lugar. O álbum com as peças frívolas jazia numa banqueta próxima. Tais eram os preparativos feitos. Ainda não haviam acendido as lâmpadas vermelhas. O candelabro central difundia uma luz branca e clara. A janela, para a qual a escrivaninha dirigia um dos lados curtos, estava oculta atrás de duas cortinas, uma escura e outra rendilhada, de cor creme.
     Ao cabo de dez minutos, o doutor voltou do gabinete vizinho, acompanhado das três senhoras. O aspecto da pequena Elly mudara consideravelmente. Em lugar do vestido usava uma espécie de traje de sessão, algo semelhante a um chambre de crepe branco, com um cordão em torno da cintura, e que deixava desnudos os braços delgados. Os seios de moça desenhavam-se macios e soltos sob a fazenda, dando a impressão de que pouca roupa havia por baixo dessa vestimenta.
     Cumprimentaram-na vivamente. – Olá, Elly! Está encantadora, outra vez! Uma verdadeira fada! Faça força, meu anjinho! – Ela sorriu tanto das aclamações como da fantasia, que, como não ignorava, lhe ficava muito bem. – Inspeção prévia negativa – anunciou o Dr. Krokowski. – Pois então, mãos à obra, camaradas! – acrescentou, com seus peculiares rr palatais, exóticos, produzidos por um simples golpe de língua. Hans Castorp, mal impressionado por esse tratamento, estava a ponto de escolher um lugar, tal como faziam os demais, entre gritos, conversas e palmadinhas no ombro. Mas, nesse instante, o médico dirigiu-se a ele pessoalmente. 

– Meu amigo – disse –, uma vez que o senhor se encontra hoje no nosso meio como visitante, ou, em certo sentido, como novato, gostaria de outorgar-lhe por esta noite um direito especialmente honroso. Confio-lhe o encargo de controlar a nossa médium. Praticamos esse controle da seguinte maneira. – E rogou ao jovem que se aproximasse de uma das extremidades do semicírculo. Era aquela que ficava próxima do biombo e da chaise longue. Ellen Brand instalara se ali numa simples cadeira de vime, voltando o rosto mais para a porta da entrada com os degraus do que para o centro do aposento. O doutor sentou-se em outra cadeira igual, logo à sua frente, e apanhou-lhe as mãos, enquanto apertava os joelhos da garota entre os seus. – Imite isto! – ordenou, cedendo o lugar a Hans Castorp. – O senhor deve admitir que ela está totalmente presa. Mas o senhor terá ainda uma assistente. Tenha a bondade, minha prezada Srta. Kleefeld! – A moça, mobilizada por essas palavras urbanas e exóticas, juntou-se ao grupo, para agarrar com ambas as mãos os pulsos frágeis de Elly.
     Hans Castorp não pôde abster-se por completo de contemplar o rosto, tão próximo do seu, da donzela prodígio que mantinha estreitamente aprisionada. Encontraram-se os olhos, mas os de Elly, fugindo, abaixaram-se em sinal de um pudor bem compreensível em vista daquela situação. Ao mesmo tempo esboçou ela um sorriso um tanto afetado, com a cabeça obliquamente inclinada e com a boca levemente bicuda, como fizera durante a sessão da taça. No jovem encarregado de vigiá-la, isso evocou, aliás, uma outra recordação mais remota: fora mais ou menos assim que sorrira Karen Karstedt, quando, em companhia dele e de Joachim, se achara diante do jazigo ainda intacto no cemitério da “aldeia”...
     Os componentes do semicírculo acabavam de sentar-se. Compunha-se ele de treze pessoas, sem incluir o Sr. Wenzel, que tinha o hábito de consagrar a sua pessoa ao serviço da Polyhymnia. Depois de ligar o aparelho, o tcheco ocupou um tamborete nas proximidades, às costas do auditório, que ficava com os rostos voltados para o centro da sala. Tinha também consigo o violão. Sob o lustre central, na outra extremidade da fileira curva, o Dr. Krokowski tomou assento, depois de ter aceso, com uma só manobra, as duas lâmpadas vermelhas, e de ter apagado, com outra, a luz do teto. Uma escuridão suavemente avermelhada envolvia o aposento, cujas zonas e recantos mais afastados se esquivavam ao olhar. Somente a superfície da mesinha e o que lhe ficava em torno estavam iluminados por uma débil luz rubra. Durante os minutos que se seguiram, mal se enxergava o vizinho mais próximo. Apenas lentamente os olhos acomodaram-se às trevas e aprenderam a aproveitar a pouca luz que lhes era concedida, e que as pequenas labaredas, dançando na lareira, intensificavam até certo ponto.
     O Dr. Krokowski dedicou algumas palavras à iluminação, cuja insuficiência do ponto de vista científico procurou desculpar. Estaria redondamente enganado quem a interpretasse como destinada a criar uma atmosfera sugestiva, propícia a mistificações. Apesar da melhor boa vontade não se podia, infelizmente, trabalhar com uma luz mais forte. A natureza das forças em apreço, que lhes cabia estudar, era inerente a incapacidade de se desenvolver e de produzir efeitos com luz branca. Esse era um fato fundamental com que deviam conformar-se... Hans Castorp, por sua vez, estava muito satisfeito com isso. A escuridão lhe fazia bem. Atenuava a singularidade da situação. Para justificar a escuridão, o jovem chamou, além disso, à memória aquelas outras trevas do gabinete de radioscopia, que faziam a gente concentrar-se piedosamente, e nas quais eram banhados os “olhos ordinários”, antes de se “ver”.
     A médium, prosseguia o assistente na sua introdução, que evidentemente se dirigia a Hans Castorp em particular, já não tinha necessidade de ser adormecida por ele, o médico. Como o controlador logo teria oportunidade de verificar, Elly caía espontaneamente no estado de transe, e feito isso, o guardião fantasma, o famoso Holger, falava por intermédio da sua boca. Era a ele, e não a ela, que se deviam expressar os respectivos desejos. Por outra parte, seria um erro, que até poderia causar o malogro da tentativa, crer que fosse preciso concentrar a vontade e os pensamentos, com todas as forças, no fenômeno esperado. Pelo contrário, o mais indicado era uma atenção ligeira, distraída por meio de conversas. Recomendou a Hans Castorp que não perdesse o controle perfeito das extremidades da médium. 

– Formem a cadeia! – ordenou por fim o Dr. Krokowski, e assim fizeram, rindo, quando não encontravam, na escuridão, as mãos dos vizinhos. O Dr. Ting-Fu, que tinha o lugar ao lado de Hermine Kleefeld, deitou a mão direita no ombro dela, e estendeu a esquerda ao Sr. Wehsal, que era o elo seguinte da cadeia. Junto do médico achavam-se o Sr. e a Srª. Magnus, seguidos por A. K. Ferge, que, se Hans Castorp não se enganava, segurava a mão da Levi com a tez de marfim; e assim por diante... – Música! – comandou o Dr. Krokowski, e o tcheco, às costas do assistente e dos seus vizinhos, pôs o aparelho em ação e colocou a agulha no disco. – Conversem! – ordenou Krokowski novamente, enquanto ressoavam os primeiros compassos de uma abertura de Millöcker. E docilmente todos se esforçaram por entabular uma palestra, que tratava de nada, absolutamente nada; falaram ora da neve caída nesse inverno, ora do cardápio da última refeição, ora da chegada de um novo pensionista, ora enfim de partidas autorizadas ou “em falso”. Meio abafada pela música, interrompendo-se e recomeçando, a conversa mantinha-se numa animação artificial. Assim se passaram alguns minutos.

     O disco ainda não chegara ao fim, quando Elly sobressaltou-se violentamente. Um tremor percorreu-a toda. Gemeu. O tronco inclinou-se para a frente, de maneira que a testa tocava a de Hans Castorp. Ao mesmo tempo começaram os braços a mover-se de um modo estranho, avançando e recuando bruscamente, como se acionassem uma bomba. 

– Transe! – anunciou a Kleefeld com perícia. A música emudeceu. A conversa parou. Através do silêncio repentino ouvia-se a branda e arrastada voz de barítono do doutor, que perguntava: 
– Holger está presente?

     Elly estremeceu novamente. Gingou na cadeira. Então sentiu Hans Castorp como ambas as mãos da médium apertavam as suas forte e rapidamente. 

– Ela me aperta as mãos – comunicou aos outros. 
– Ele – corrigiu-o o médico. – Foi ele quem as apertou. De modo que se acha presente. Salve, Holger – continuou com fervor. – Sejas bem-vindo de todo o coração, companheiro! E permite que te recorde isto: a última vez que estiveste entre nós, prometeste que chamarias qualquer defunto, fosse qual fosse o irmão ou a irmã que te citasse alguém da nossa roda, e que o tomarias visível aos nossos olhos mortais. Estás disposto e te sentes capaz de cumprir hoje esta promessa?

     Elly tremeu outra vez. Suspirou. Hesitou antes de responder. Vagarosamente, levou as suas mãos e as do seu assistente até a testa, onde as manteve imóveis por alguns instantes. Depois segredou ao ouvido de Hans Castorp um “sim” ardente.
     O sopro dessa palavra, penetrando diretamente na sua orelha, causou ao nosso amigo aquele arrepio epidérmico que o povo chama de “pele de galinha” e cuja natureza o conselheiro lhe explicara certa vez. Falamos de um arrepio instintivo, para distinguir o fenômeno puramente corporal do psíquico, uma vez que aquilo nada tinha que ver com um verdadeiro horror. O que o jovem pensou nesse momento foi mais ou menos o seguinte: “Ora vejam, ela promete mundos e fundos!” Mas ao mesmo tempo sentiu-se comovido e consternado; sim, invadiu-o um sentimento confuso que tinha a sua origem na circunstância enganadora de que essa moça tão nova, cujas mãos segurava, lhe sussurrara ao ouvido a palavra “sim”. 

– Ele disse “sim” – informou Hans Castorp, embaraçado. 
– Muito bem, Holger! – disse o Dr. Krokowski. – Nós te pegaremos na palavra. Temos confiança em que farás lealmente tudo quanto estiver em teu poder. Logo saberás o nome do ente querido cujo comparecimento desejamos... Camaradas – continuou, dirigindo-se ao grupo –, digam de uma vez! Quem é que tem um desejo? Qual é a criatura que nosso amigo Holger deve fazer aparecer?

     Seguiu-se profundo silêncio. Todos esperavam que o vizinho se manifestasse. Verdade é que cada qual, individualmente, escrutara nesses últimos dias o seu íntimo, para saber em que direção e para que pessoa rumavam os seus pensamentos. Mas a volta de defuntos, isto é, a desejabilidade de tal volta nunca deixa de ser coisa problemática e delicada. Em última análise, e falando com franqueza, essa desejabilidade não existe; é uma ilusão; à luz do dia, é tão impossível como a própria coisa, o que se tornaria evidente se a natureza, num caso particular, abolisse esta impossibilidade. O que chamamos “luto” talvez não seja a dor que nos inflige a impossibilidade de ver os nossos mortos voltarem à vida, senão a outra, que experimentamos diante do fato de sermos incapazes de desejar tal coisa.

continua pág 445...
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Leia também:

Capítulo I / A Chegada
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo VI / Transformações (a)  
Capítulo VII
Coisas muito problemáticas - [c] / Coisas muito problemáticas - [d] /  
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.