quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Reunião Dançante... Garajão 3

Garajão 3


a chegada no garajão
    a garrafa destilada na mão
                 o vinil na outra -
a magia do analógico, 
o barulho da agulha,  
          12 faixas em 44 minutos...
          22 minutos em cada lado, 
          33 rotações por minuto,
o long play e o calor do garajão -
o som rolando
tudo giran 
do
as gurias dançan
          do
uma luz fraca piscan
          do
  a calça jeans aperta
   da
quase esfarela
   da
       o cabelo encaracola
                                           do
      a camisa aberta no peito pelado



o ano é 1977
Roberto Carlos - Não se esqueça de mim

por um momento pensar
que você pensa em mim
uma saudade que não machuca
delicada
           na rua que já não passa
onde você estiver
que outro amor te faça feliz
não esqueça do muito que te quis
do que ficou guardado
nas dobras do tempo
a memória não sabe apagar
e se o vento te tocar um dia
com nosso cheiro
eu te aceno distante





o ano é 1976
Roberto Carlos - Os seus botões

chovia lá fora
    e aquela blusa num canto qualquer
       assistia tudo tranquila
enquanto esperava em silêncio
     os lençóis macios e os amantes 
entre travesseiros soltos
     e bocas que se procuram
em meio a tempestade
    dos desejos que não terminam






o ano é 1978
Roberto Carlos - Café da manhã

o café, nós dois
a doçura da manhã lenta
respira dentro do quarto
envolve nossos braços
mais abraços na desordem do quarto
te fazendo despertar
e te amar de novo e de novo
esquecendo de tudo
o tempo não importa
não tem hora
a vida não se dobra
não silencia o tempo,
mas faz esquecer o relógio
quando você decide ficar






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Garajão 01: Alone again / Ben / Soley Soley
Garajão 02: One Day In Your Life / Dance, Little Lady Dance / More Than A Woman
Garajão 03: Não se esqueça de mim / Os seus botões / Café da manhã

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: Os empréstimos e as ferrovias na deformação econômica da América Latinai (6)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     46. Os empréstimos e as ferrovias na deformação econômica da América Latina
          O visconde Chateaubriand, ministro de assuntos estrangeiros na França no reinado de Luís XVIII, escrevia com despeito e, provavelmente, com boa base de informação: “No momento da emancipação, as colônias espanholas se tornaram uma espécie de colônias inglesas” [1]. Citava alguns números. Dizia que, entre 1822 e 1826, Inglaterra havia proporcionado dez empréstimos às colônias espanholas libertadas, num valor nominal de cerca de 21 milhões de libras esterlinas, mas que, deduzidos os juros e as comissões dos intermediários, a sobra que chegou às terras da América era de apenas sete milhões. Ao mesmo tempo, criavam-se em Londres mais de 40 sociedades anônimas para explorar os recursos naturais minas, agricultura – da América Latina e para instalar empresas de serviços públicos. Os bancos brotavam como cogumelos em solo britânico: num só ano, 1836, foram fundados 48 bancos. Apareceram as ferrovias inglesas no Panamá, em meados do século, e a primeira linha de bondes foi inaugurada em 1868, por uma empresa britânica, na cidade brasileira de Recife, enquanto a banca da Inglaterra financiava diretamente o tesouro dos governos [2]. Os bônus públicos latino-americanos, com suas crises e culminâncias, circulavam ativamente no mercado financeiro inglês. Os serviços públicos estavam em mãos britânicas; os novos estados nasciam sobrecarregados pelos gastos militares e ainda deviam fazer frente ao deficit dos pagamentos externos. O livre-comércio implicava um frenético aumento das importações, sobretudo das importações de luxo; para que uma minoria pudesse estar na moda, os governos contraíam empréstimos que sempre geravam a necessidade de novos empréstimos: os países hipotecavam de antemão seus destinos, alienavam a liberdade econômica e a soberania política. O mesmo processo ocorria – e segue ocorrendo ainda hoje, embora os credores sejam outros e outros também os mecanismos em toda a América Latina, com a exceção, aniquilada, do Paraguai. O financiamento externo tornava-se, como a morfina, imprescindível. Abriam-se buracos para tapar buracos. A deterioração dos termos comerciais de intercâmbio não é tampouco um fenômeno exclusivo de nossos dias: segundo Celso Furtado [3], os preços das exportações brasileiras entre 1821 e 1830, e entre 1841 e 1850, baixaram quase à metade, enquanto os preços das importações estrangeiras permaneciam estáveis: as vulneráveis economias latino-americanas compensavam a queda com empréstimos.

[1] SCALARINI ORTIZ, R. Política británica en el Río de la Plata. Buenos Aires, 1940.
[2] RIPPY, J. Fred. British investments in Latin America (1822-1949). Minneapolis, 1959.
[3] FURTADO, op. cit.

     “As finanças desses jovens estados”, escreveu Schnerb, “não estão saneadas (...). É preciso recorrer à inflação, que produz a depreciação da moeda, e aos empréstimos onerosos. A história dessas repúblicas, de certo modo, é a história de suas obrigações econômicas contraídas com o absorvente mundo das finanças europeias” [4]. As bancarrotas, as suspensões de pagamento e os refinanciamentos desesperados, de fato eram frequentes. As libras esterlinas escorriam como água entre os dedos da mão aberta. Do empréstimo de um milhão de libras acordado pelo governo de Buenos Aires, em 1824, com a casa Baring Brothers, a Argentina recebeu apenas 570 mil, e não em ouro, como rezava o contrato, mas em papéis. O empréstimo consistiu no envio de ordens de pagamento aos comerciantes ingleses estabelecidos em Buenos Aires, e eles não dispunham de ouro para entregar ao país, pois sua missão era justamente remeter a Londres todo metal precioso que lhes caísse diante dos olhos. Foram recebidas letras, portanto, mas foi preciso pagar, claro está, em ouro reluzente: quase no princípio do século XX, a Argentina cancelou esta dívida, que havia aumentado, ao longo de sucessivos refinanciamentos, para quatro milhões de libras [5]. A província de Buenos Aires ficava hipotecada em sua totalidade – todas as suas rendas, todas as suas terras públicas – como garantia de pagamento. Dizia o ministro da Fazenda, na época em que o empréstimo foi contratado: “Não estamos em condições de tomar uma atitude contra o comércio estrangeiro, especialmente o inglês, pois atrelados como estamos a grandes dívidas com essa nação, estaríamos expostos a um rompimento que nos causaria grandes males”. A utilização da dívida como instrumento de chantagem, como se vê, não é uma intervenção norte americana recente.

[4] SCHNER , Robert. Le XIXe siècle. L’apogée de l’expansion européenne (1815-1914), t.6 da História Geral das Civilizações, dirigida por Maurice Crouzet. Paris, 1968.
[5] SCALARINI ORTIZ, op. cit.

     As operações agiotistas encarceravam os países livres. Em meados do século XIX, o serviço da dívida externa já absorvia quase 40 por cento do orçamento do Brasil, e o panorama era semelhante em todos os lugares. As ferrovias também se integravam decisivamente à jaula de ferro da dependência: estenderam a influência imperialista, já em plena época do capitalismo dos monopólios, até as retaguardas das economias coloniais.
     Muitos dos empréstimos se destinavam ao financiamento de ferrovias, com o fim de facilitar o embarque para o exterior de minerais e alimentos. As linhas férreas não constituíam uma rede que unisse as diversas regiões interiores entre si: conectavam os centros de produção com os portos. O desenho coincide com os dedos da mão aberta: assim as ferrovias, tantas vezes saudadas como fatores do progresso, impediam a formação e o desenvolvimento do mercado interno. Isto também era feito de outras maneiras, sobretudo por meio de uma política de tarifas posta a serviço da hegemonia britânica. Os fretes dos produtos elaborados no interior argentino, por exemplo, eram muito mais caros do que os fretes dos produtos enviados em bruto. As tarifas ferroviárias pareciam uma maldição, inviabilizando a fabricação de cigarros nas comarcas do tabaco, fiar ou tecer nos centros lanígeros, ou trabalhar a madeira em zonas florestosas [6]. A ferrovia argentina por certo desenvolveu a indústria florestal em Santiago del Estero, mas com tais consequências que um autor santiaguino chega a dizer: “Oxalá Santiago não tivesse nem uma só árvore” [7]. Os dormentes das linhas férreas eram de madeira, e o carvão vegetal servia de combustível; as madeireiras, criadas pelo trem, desintegraram os núcleos rurais de população, destruíram a agricultura e a pecuária, por arrasar as pastagens e os matos de abrigo, escravizaram na floresta várias gerações de santiaguinos e provocaram a despovoação. O êxodo em massa não cessou, e hoje Santiago del Estero é uma das províncias mais pobres da Argentina. A utilização do petróleo como combustível ferroviário submergiu a região numa profunda crise.

[6] Ibid.
[7]  RETONDO, J. Eduardo. El bosque y la industria florestal en Santiago del Estero. Santiago del Estero, 1962.

     Não foram capitais ingleses os que estenderam as primeiras linhas férreas na Argentina, Brasil, Chile, Guatemala, México e Uruguai. Tampouco no Paraguai, como já vimos, mas as ferrovias construídas pelo Estado paraguaio, com a colaboração de técnicos europeus por ele contratados, passaram às mãos inglesas após a derrota. Idêntico destino tiveram as ferrovias e os trens nos demais países, sem que ocorresse o desembolso de nenhum centavo de investimento novo; acresce que o Estado se preocupou em assegurar às empresas, por contrato, um nível mínimo de lucros, para preveni-las de possíveis surpresas desagradáveis.
     Muitas décadas depois, ao término da Segunda Guerra Mundial, quando já as ferrovias não rendiam dividendos e tinham caído em relativo desuso, a administração pública as retomou. Quase todos os estados compraram dos ingleses apenas ferro-velho, e o que nacionalizaram de fato foram as perdas das empresas.
     Na época do auge ferroviário, as empresas britânicas haviam obtido, com frequência, consideráveis concessões de terras de cada lado das linhas, além das próprias linhas e o direito de construir novos ramais. As terras eram um estupendo negócio adicional: o fabuloso presente concedido em 1911 à Brazil Railway significou o incêndio de um sem número de cabanas e a expulsão ou a morte das famílias camponesas assentadas na área da concessão. Esse foi o gatilho que deflagrou a rebelião do Contestado, uma das mais intensas páginas da fúria popular de toda a história do Brasil.

continua na página 316...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: Os empréstimos e as ferrovias na deformação econômica da América Latinai (6)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (III.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

III

continuando...

     Mas não tiveram tempo de notar sua emoção; a porta abrira-se violentamente e surgiu Chaval, empurrando à sua frente Catherine Após se ter embriagado de cerveja e fanfarronadas em todas as tabernas de Montsou, tivera a ideia de ir até o Avantage mostrar aos antigos amigos que não tinha medo. Entrou dizendo à amante: 

— Diabo de mulher! Já te disse que vais beber uma cerveja! Quebro a cara do primeiro que me olhar atravessado!

     Catherine, ao divisar Etienne, pusera-se muito pálida. Ao vê-lo Chaval deu uma gargalhada maldosa. 

— Sra. Rasseneur, duas cervejas! Estamos festejando a volta ao trabalho.

     Sem dizer palavra, como mulher que não recusava a ninguém sua cerveja, encheu os copos. Fizera-se silêncio. Nem o taberneiro nem os dois outros tinham-se movido de onde estavam. 

— Eu sei que disseram que eu sou um espião — continuou Chaval cheio de arrogância —, e estou esperando que me digam isso na cara, para ir à forra.

     Ninguém respondeu, os homens olhavam vagamente para as paredes. 

— O caso é que há os que são vagabundos e os que não são vagabundos — continuou ele mais alto. — Eu não tenho nada a esconder, larguei aquela porcaria do Deneulin e amanhã desço à Voreux com doze belgas, que estão sob as minhas ordens, porque sou estimado. Se isso contraria alguém, pode ir dizendo, bateremos um papo.

     Mas, como o mesmo silêncio desdenhoso acolhesse suas provocações, enfureceu-se contra Catherine. 

— Vais beber ou não, raio?! Vamos, brinda comigo à morte de todos os crápulas que não querem trabalhar.

     Ela brindou, mas com uma mão tão trêmula, que se ouviu o leve tilintar dos copos. Então ele tirou do bolso um punhado de moedas de prata que espalhou no balcão com uma ostentação de bêbado, dizendo que fora com seu suor que ganhara aquilo e desafiava os vagabundos a mostrarem dez soldos. A atitude dos outros o exasperava, chegou aos insultos diretos.

— Então esta é a noite em que as toupeiras saem da toca? É preciso que os policiais estejam dormindo para que a gente encontre bandidos!

     Etienne levantou-se, muito calmo e decidido. 

— Escuta aqui, não me aborreças... Sim, tu és um espião, esse teu dinheiro está fedendo a alguma traição que fizeste, e tenho nojo de tocar no teu couro vendido. Mas não importa! Há muito que me vens provocando, hoje vamos resolver essa parada.

     Chaval cerrou os punhos. 

— Pois muito bem! O covardão primeiro tem de ouvir boas se espinhar! Eu quero só a ti, cachorro! Tu vais pagar-me direitinho todas as sem-vergonhices que fizeram!

     Com os braços estendidos, suplicante, Catherine interpôs-se entre eles, que não tiveram necessidade de repeli-la, pois ela própria sentiu a fatalidade daquela luta e recuou lentamente. Encostada à parede, permaneceu muda, tão paralisada pela angústia que nem tremia mais, com os olhos arregalados e fixos naqueles homens que iam matar-se por ela.
     A Sra. Rasseneur simplesmente retirou os copos do balcão para que não os quebrassem, e voltou a sentar-se na sua banqueta, sem dar mostras de demasiada curiosidade. Contudo, não era possível deixar que dois antigos companheiros se atracassem assim. Rasseneur tentou intervir, mas Suvarin o agarrou pelo braço, levando-o para perto da mesa, dizendo: 

— Não tens nada que ver com isso... Um deles é demais, o mais forte que viva.

     Já Chaval, sem esperar o ataque, lançava no vácuo seus punhos cerrados. Era o mais alto e desenvolto, visava sempre ao rosto do adversário com furiosos golpes cortantes, com ambos os braços, um após o outro, como se estivesse manejando um par de sabres. E não parava de falar, exibia-se para a plateia, com uma enxurrada de insultos que o excitavam. 

— Ah! maldito garanhão, vou achar-te as ventas! É o teu nariz que vou enfiar naquele lugar que tu já sabes! Vamos, mostra a cara, conquistador de putas, que eu quero fazer com ela uma lavagem para os porcos, e depois veremos se as cadelas das mulheres vão correr atrás de ti.

     Mudo, de dentes cerrados, Etienne defendia-se na sua pequena estatura, fazendo o jogo certo, o peito e o rosto cobertos pelos dois punhos; e assim esperava para arremessá-los como se fossem molas, em profundidade.
     A princípio não se machucaram muito. A dança falada de um, a fria expectativa do outro prolongavam a luta. Uma cadeira foi emborcada, os sapatos grossos esmagavam a areia branca esparzida no soalho. Com o tempo começaram a ficar cansados, ouvia-se o ruído da respiração, suas caras vermelhas inchavam, como se tivessem uma fornalha interna cujas chamas saíam pelos buracos claros dos olhos. 

— Atingido! — berrou Chaval. — Achei-te a carcaça!

     Com efeito, seu punho, igual a um malho lançado de través, atingira o ombro do adversário. Este conteve um grito de dor, houve apenas um ruído macio, o surdo esfacelamento dos músculos. E ele respondeu com um golpe em pleno peito, que teria rebentado o outro, se não se tivesse desviado com seu saltitar de cabra. Mas assim mesmo o soco atingiu-o no flanco esquerdo, e com tanta força que cambaleou, com a respiração cortada. Cheio de ódio por sentir que os braços amoleciam de tanta dor, atirou-se como uma fera, visando à barriga para atingi-la com um pontapé. 

— Toma! nas tripas! — gaguejou sufocado. — Quero pô-las para fora!

     Etienne esquivou-se do golpe, tão indignado com aquela infração às regras de um combate leal, que saiu do seu silêncio. 

— Cala a boca, animal! E não metas as patas, filho da mãe, ou agarro uma cadeira e deixo-te em frangalhos!

     Desde aí a briga ficou mais séria. Rasseneur, revoltado, teria intervindo de novo se não fosse o olhar severo de sua mulher que o continha. Será possível que dois fregueses não podiam resolver seus problemas em paz? O taberneiro pôs-se então diante do fogão, pois temia que os dois acabassem caindo no fogo. Suvarin, com sua calma habitual, enrolara um cigarro, que, no entanto, esquecia de acender. Contra a parede, Catherine permanecia imóvel; inconscientemente pusera as mãos nas cadeiras e contorcia-as, arrancando a fazenda do vestido, em movimentos rítmicos. Fazia um esforço imenso para não gritar, para não matar um, expondo sua preferência, apesar de que, de tão enlouquecida, já nem sabia qual preferia.
     Dentro de algum tempo Chaval ficou exausto, inundado de suor, batendo a esmo. Apesar de sua cólera, Etienne continuava a cobrir-se, aparando quase todos os golpes, alguns dos quais o tocavam de leve. Teve uma orelha cortada, uma unha arrancou-lhe um pedaço da pele do pescoço, causando tal ardência, que ele praguejou também, desfechando um dos seus terríveis diretos. Outra vez Chaval livrou o peito com um salto, mas tinha se abaixado e o punho o atingiu no rosto, esmagando o nariz e afundando um olho. Imediatamente começou a jorrar sangue das narinas, e o olho foi inchando e ficando roxo. E o miserável, cego com o jato de sangue, atordoado com a pancada na cabeça, braceava perdidamente no ar, ando outro murro em pleno peito finalmente o derrubou. Houve um estalar e ele caiu de costas, com o baque pesado de um saco de gesso que se descarrega.
     Etienne esperou. 

— Vamos, levanta. Se queres ainda, podemos recomeçar...

     Sem responder, Chaval, após alguns segundos de embotamento, remexeu-se por terra, estirou os membros. Começou a levantar-se com grande esforço, permaneceu um momento de joelhos, encurvado, pegando com a mão, no fundo do bolso, alguma coisa que não se via. Depois, quando se pôs de pé, precipitou-se de novo, com as veias do pescoço saltadas e urrando como um selvagem.
     Catherine, porém, tinha visto; e, sem querer, soltou um grito que lhe saíra do coração e a deixou abismada, porque era a confissão de uma preferência que ela mesma ignorava. 

— Cuidado! Ele tem uma faca!

     Etienne só tivera tempo de aparar o primeiro golpe com o braço. A lã do suéter foi cortada pela lâmina grossa, uma dessas lâminas fixadas num cabo de pau por uma virola de cobre. Mas já agarrara o pulso de Chaval e começou então uma luta assustadora, ele sabendo estar perdido se o largasse, o outro dando safanões para se soltar e ferir. Pouco a pouco a arma descia, seus membros retesados fatigavam-se, por duas vezes Etienne sentiu o frio do aço contra a pele. Teve de fazer um esforço supremo, apertou o pulso com tal força que a faca escorregou da mão aberta. Ambos se atiraram ao chão e foi Etienne quem a apanhou e por sua vez a brandiu. Mantinha Chaval deitado, debaixo do seu joelho, e ameaçava cortar-lhe o pescoço. 

— Ah, velhaco, traidor, desta vez mato-te!

     Uma voz horrível, dentro dele, enlouquecia-o. Ela subia das entranhas e golpeava sua cabeça como se fosse um martelo, uma repentina loucura de homicídio, uma sede de sangue. Nunca tivera uma crise tão violenta, e contudo não estava embriagado. Mas lutava contra o mal hereditário, com a excitação desesperada do enlouquecido de amor que se debate à beira do estupro. Acabou por vencer-se, atirou a faca para trás de si, balbuciando com voz rouca: 

— Levanta-te e vai embora!

     Desta vez Rasseneur acorreu, mas sem ousar arriscar-se demasiado entre eles, com medo de receber algum golpe. Não queria assassinatos em sua casa, estava tão zangado que a esposa, muito tesa ao balcão, fazia-lhe notar que ele gritava sempre antes do tempo. Suvarin, que quase recebera a faca nas pernas, decidiu-se a acender o cigarro. Já tinham acabado? Catherine continuava olhando, aparvalhada diante dos dois homens, ambos vivos. 

— Vai embora, vai embora — repetiu Etienne —, senão dou cabo de ti!

     Chaval levantou-se, limpou com as costas da mão o sangue que continuava a escorrer do nariz; e, com o queixo sujo de sangue, o olho roxo, saiu arrastando os pés, no auge do ódio com a sua derrota. Maquinalmente Catherine o seguiu. Ele então empertigou-se e seu ódio explodiu numa torrente de torpezas: 

— Ah, não! Isso é que não! Já que é ele quem tu queres, vai dormir com ele, cadela imunda! E, se tens amor à pele, não voltes a pôr os pés na minha casa!

     E desapareceu, batendo violentamente com a porta. Houve um grande silêncio na sala tépida, onde se ouvia o leve rumor da hulha queimando. No chão só havia a cadeira emborcada e a poça de sangue que a areia ia absorvendo.

continua na página 351...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / III — Os Quadrifrons

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     III — Os Quadrifrons

             A noite, ao despedir-se para se deitar, Mário meteu casualmente a mão ao bolso do casaco e encontrou o embrulho que achara no boulevard e de que já se tinha esquecido. Lembrou-se que seria conveniente abri-lo porque talvez dentro viesse a indicação da morada das raparigas, se, na realidade, este lhes pertencia, e, em todo o caso, os esclarecimentos necessários para o restituir à pessoa que o perdera.
     Desfez o embrulho e encontrou nele quatro cartas abertas, mas todas com direção e exalando forte cheiro a tabaco.
     A primeira era dirigida à Senhora Marquesa de Grucheray, defronte do palácio das cortes n.º...
     Mário julgou que talvez nesta carta encontrasse as indicações que procurava, e parecendo-lhe verosímil que, visto ela não estar fechada, podia ser lida sem inconveniente, resolveu lê-la.
     A carta era concebida nos seguintes termos:

Senhora Marquesa:
A virtude da clemência e piedade é a que mais estreitamente une a sociedade. Digne-se V. Ex.ª dar largas aos seus sentimentos cristãos, lançando um olhar de compaixão sobre este infeliz espanhol, vítima da sua lealdade e afeto à sagrada causa da legitimidade, pela qual verteu o seu sangue e arruinou toda a sua fortuna, vendo-se hoje na maior miséria. Bem certo está ele de que V. Ex.ª lhe não negará algum socorro para conservar os tristes dias da vida a um militar bem educado, honrado e coberto de feridas, que de antemão conta com os sentimentos da humanidade que animam V. Ex.ª e com o interesse que sempre tem mostrado por uma nação tão desditosa. As suas súplicas, pois, não serão vãs, pelo que desde já me confesso eternamente grato.
Digne-se V. Ex.ª aceitar os protestos de respeito e veneração com que tenho a honra de ser.
De V. Ex.ª
Dom Alvarez, capitão espanhol de cavalaria, realista refugiado em França, que se dispõe a regressar para a sua pátria, mas que lhe faltam os recursos para continuar a viagem.

     Nem uma só palavra depois da assinatura continha a carta por onde o jovem conhecesse a residência do capitão espanhol.
     Esperando encontrá-la na segunda carta, resolveu lê-la também. Era dirigida à Senhora Condessa de Montvernet, rua Cassette n.º 9, e o seu conteúdo era o seguinte:

Senhora Condessa:
Sou uma desgraçada mãe de família com seis filhos, tendo o último só oito meses. Desde o meu último parto que estou doente e abandonada há cinco meses por meu marido, sem recurso nenhum no mundo e na mais completa indigência.
Esperançada em V. Ex.ª, tenho a honra de ser com o mais profundo respeito.
De V. Ex.ª
A infeliz Balizard 

     Passou à terceira carta, que era uma súplica, como as precedentes, e eis o que leu:

Senhor Pabourgeot, eleitor, negociante de bonés por atacado, Rua de S. Dinis, à esquina da Rua dos Ferros.
Tomo a liberdade de me dirigir ao senhor para lhe rogar que me conceda o precioso favor das suas simpatias e tome debaixo da sua proteção um homem de letras, autor de um drama que deseja pôr em cena, no Teatro Francês. O assunto deste drama é histórico, e a ação passa-se no Auvergne no tempo do império; o seu estilo, no meu entender, é natural, lacónico, e tem talvez algum merecimento. Tem «couplets» para se cantarem, em quatro passagens. Ao chiste, gravidade e arrojo dos lances, junta este drama a variedade nos caracteres e uns laivos românticos ao de leve espalhados por todo o entrecho, que se desenvolve misteriosamente, indo afinal, após peripécias de grande efeito, terminar no meio de muitos lances admiráveis.
O meu fito principal é satisfazer o desejo que progressivamente anima o homem do nosso século, quero dizer, a «moda», caprichosa e singular grimpa, que quase muda a cada novo vento. 
Apesar destas qualidades receio que a inveja, o egoísmo dos autores privilegiados, consiga a minha exclusão do teatro, pois bem sei os dissabores que têm a tragar os autores que pela primeira vez se apresentam.
Senhor, a sua justa reputação de protetor esclarecido dos homens de letras, infunde-me ousadia para lhe mandar minha filha que lhe exporá a nossa indigente situação, faltos de pão e de lume, nesta invernosa quadra. Dizer-lhe que lhe peço que aceite a homenagem que desejo fazer-lhe do meu drama e de todos os que vier a compor, é dar-lhe uma prova de quanto ambiciono a honra de me abrigar debaixo da sua égide e adornar os meus escritos com o seu nome. Se se dignar honrar-me aceitando tão modesta oferenda, brevemente encetarei uma peça em verso, para deste modo lhe pagar o meu tributo de reconhecimento. Esta peça que diligenciarei tornar o mais perfeita que me seja possível, ser-lhe-á enviada antes de ser inserida no princípio do drama, e recitada em cena. 
Ao senhor e senhora Pabourgeot, as minhas mais respeitosas homenagens
Genflot 
Homens de letras.
P. S. — Ainda que não sejam senão quarenta soldos. 
Desculpe-me por mandar minha filha e não me apresentar eu mesmo; porém, infelizmente, não o permitem tristes motivos de vestuário...

     Mário abriu por fim a quarta carta, cujo sobrescrito era endereçado ao Senhor benfeitor da igreja de S. Jacques du Haut-Pas, e continha estas poucas linhas:

Homem caridoso: 
Se se dignar acompanhar minha filha verá uma calamidade miserável e eu lhe mostrarei os meus atestados.
Ao aspecto destes escritos a sua generosa alma experimentará um sentimento de sensível benevolência, pois os verdadeiros filósofos experimentam sempre vivas emoções. 
Decerto concorda comigo, homem compassivo, que necessariamente tem de sofrer grandes necessidades e ser-lhes bem doloroso, que os que gemem na penúria o façam atestar pela autoridade, como se nem ao menos fosse isto sofrer e morrer de inanição, enquanto os não aliviam na sua miséria. O destino que tão pródigo ou tão protetor se mostra para alguns, para outros não pode ser mais fatal. 
Espero a vossa presença ou a esmola que se dignar mandar-me, e peço-lhe aceite os protestos de respeito com que tenho a honra de ser,
Homem verdadeiramente magnânimo,
Humilde servo e criado obrigadíssimo, 
P. Fabantou 
artista dramático

     Mário, depois de ter lido estas quatro cartas não se achou mais adiantado do que dantes.
     Em primeiro lugar nenhuma das assinaturas estava acompanhada da morada; depois, pareciam provir de quatro indivíduos diferentes: D. Alvarez, uma mulher apelidada Belizard, o poeta Genflot, e o artista dramático Faibantou; mas o seu lado extraordinário, era serem todas escritas com a mesma letra.
     O que havia de concluir senão que provinham da mesma pessoa?
     Além de tudo, o que tornava a conjectura ainda mais verosímil, o papel grosso e amarelado era igual nas quatro cartas, todas cheiravam a tabaco, e, conquanto tivessem evidentemente diligenciado variar o estilo, produziam-se em todas os mesmos erros de ortografia com a mais profunda tranquilidade, não sendo mais isento deles o homem de letras Genflot, do que o capitão espanhol.
     Esforçar-se em adivinhar este mistério, era trabalho inútil. Se não vesse sido um achado, parecia um logro. Mário estava demasiadamente triste para aceitar de bom grado um gracejo do acaso e prestar-se aos brinquedos que pareciam oferecer-lhe as pedras da rua. Pareceu-lhe estar jogando a cabra-cega com as quatro cartas que se riam dele.
     No fim de tudo, coisa nenhuma indicava que as cartas pertencessem às raparigas que Mário encontrara no boulevard. Tornou portanto a embrulhá-las e atirou o embrulho para um canto e deitou-se.
     As sete horas da manhã tinha-se levantado e almoçado, e dispunha-se para começar a trabalhar, quando ouviu bater de mansinho à porta.
     Como não possuía coisa nenhuma, não tirava a chave da porta, senão às vezes, e essas muito raras, quando estava fazendo algum trabalho com muita pressa. Fora destas ocasiões deixava sempre a chave na fechadura.

— Algum dia roubam-lhe as suas coisas — dizia-lhe mame Bougon. 
— O quê? — respondia Mário.

     O fato é que um dia roubaram-lhe um par de botas velhas, o que foi grande triunfo para mame Bougon.
     Bateram segunda pancada, devagarinho, como da primeira vez.

— Entre — disse Mário.

     A porta abriu-se.
— Que me quer, senhora Bougon? — tornou Mário, sem afastar os olhos dos livros e manuscritos que tinha em cima da mesa.

     A isto respondeu-lhe uma voz, que não era a da senhora Bougon.

— Queira desculpar...

     Era uma voz surda, falhada, rouca. Voz de um velho saturado de aguardente. 
     Mário voltou-se de repente e viu que era uma rapariga.

continua na página 551...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - III — Os Quadrifrons
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira

George Orwell - 1984: Parte 1.8d (Winston não comprou o quadro)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1

8.

continuando...

     Winston não comprou o quadro. Teria sido uma posse ainda mais incongruente do que o peso de papéis de vidro, e impossível de levar para casa, a menos que fosse retirado de sua moldura. Mas ele demorou mais alguns minutos, conversando com o velho, cujo nome, ele descobriu, não era Weeks – como se poderia ter percebido pela inscrição na frente da loja – mas Charrington.
     O Sr. Charrington, ao que parece, era um viúvo de sessenta e três anos de idade e habitou esta loja por trinta anos. Duran te todo esse tempo, ele tinha a intenção de alterar o nome em cima da vitrine, mas nunca chegou ao ponto de fazê-lo.
     Durante todo esse tempo em que estavam falando, a rima meio lembrada continuava a passar pela cabeça de Winston.

Sempre e geralmente, 
dizem os sinos de São Clemente, 
De seda e linho, 
dizem os sinos de São Martinho!

     Era curioso, mas quando você disse isso a si mesmo, você tinha a ilusão de realmente ouvir os sinos, os sinos de uma Londres perdida que ainda existia em algum lugar ou outro, disfarçados e esquecidos. De um campanário fantasmagórico atrás do outro, ele parecia escutá-los tocando. No entanto, até onde ele se lembrava, nunca na vida real havia ouvido os sinos da igreja tocando.
     Ele se afastou do Sr. Charrington e desceu as escadas sozinho, de modo a não deixar que o velho o visse fazendo um reconhecimento da rua antes de sair pela porta. Ele já havia decidido que após um intervalo adequado – um mês, digamos – ele correria o risco de visitar a loja novamente. Talvez não fosse mais perigoso do que se esquivar durante uma noite pelo Centro. A grande loucura tinha sido voltar aqui em primeiro lugar, depois de comprar o diário e sem saber se o proprietário da loja poderia ser confiável. No entanto...!

“Sim, ele pensou novamente, ele voltaria. Ele compraria mais pedaços de belas porcarias. Ele compraria a gravura de São Clemente dos Dinamarqueses, a tiraria de sua moldura e a levaria para casa es condida sob a jaqueta de seu macacão. Ele arrancaria o resto deste poema para fora da memória do Sr. Charrington. Mesmo o projeto lunático de alugar o quarto lá em cima brilhou em sua mente por um momento. Durante uns cinco segundos a exaltação o deixou descuidado, e ele saiu para a calçada sem sequer um olhar preliminar através da janela. Ele tinha até mesmo começado a cantarolar com uma melodia improvisada”.

     Sempre e geralmente, dizem os sinos de São Clemente,

De seda e linho, dizem os - 

     De repente, seu coração parecia transformar-se em gelo e suas entranhas em água. Uma figura de macacão azul estava descendo a calçada, a não mais do que dez metros de distância. Era a garota do Departamento de Ficção, a garota de cabelo escuro. A luz estava falhando, mas ele não tinha dificuldade em reconhecê-la. Ela o olhou direta mente no rosto, depois caminhou rapidamente como se não o tivesse visto.
     Por alguns segundos, Winston ficou paralisado demais para se mover. Então ele se virou para a direita e se afastou fortemente, não percebendo por enquanto que ele estava indo na direção errada. Em todo caso, uma questão foi resolvida. Não ha via mais dúvidas de que a garota o estava espionando. Ela deve tê-lo seguido aqui, porque não era crível que por puro acaso ela estivesse caminhando na mesma noite pela mesma rua obscura, a quilômetros de distância de qualquer bairro em que viviam os membros do Partido. Era uma coincidência muito grande. Se ela era realmente uma agente da Polícia do Pensamento, ou simplesmente uma espiã amadora inspirada oficialmente, pouco importava. Já era suficiente que ela o estivesse observando. Provavelmente ela também o tinha visto entrar no pub.
     Caminhar foi um esforço. O pedaço de vidro em seu bolso batia contra sua coxa a cada passo, e ele já estava quase decidido a tirá-lo e jogá-lo fora. A pior coisa era a dor na barriga. Durante alguns minutos ele teve a sensação de que morreria se não chegasse logo a um banheiro. Mas não havia banheiros públicos em uma região como esta. Então o espasmo passou, deixando uma dor chata para trás.
     A rua era um beco sem saída. Winston parou, ficou de pé por vários segundos se perguntando vagamente o que fazer, depois deu a volta e começou a refazer seus passos. Quando ele virou, ocorreu-lhe que a garota só tinha passado por ele há três minutos e que, correndo, ele provavelmente poderia alcançá-la. Ele podia continuar no caminho com ela até que eles estivessem em algum lugar tranquilo, e então esmagar seu crânio com uma pedra de paralelepípedo. O pedaço de vidro em seu bolso seria pesado o suficiente para o trabalho. Mas ele abandonou a ideia imediatamente, porque até mesmo a ideia de fazer qualquer esforço físico era insuportável. Ele não podia correr, não podia dar um golpe. Além disso, era jovem e se defenderia. Ele pensou também em correr para o Centro Comunitário e ficar lá até o local fechar, a fim de estabelecer um álibi parcial para a noite. Mas isso também era impossível. Uma lassidão mortífera tinha tomado conta dele. Tudo o que ele queria era chegar rapidamente em casa e depois sentar-se e ficar quieto.
     Já passava das vinte e duas horas quando chegou no apartamento. As luzes eram desligadas na central às vinte e três e meia. Ele foi para a cozinha e engoliu quase uma xícara de chá cheia de Gin de Vitória. Então ele foi para a mesa na alcova, sentou-se e tirou o diário da gaveta. Mas ele não o abriu de uma vez. Da teletela, uma voz feminina atrevida gritava uma canção patriótica. Ele sentou-se olhando fixamente a capa marmoreada do livro, tentando sem sucesso desligar a voz de sua consciência.
     Era de noite que eles vinham buscá-lo, sempre de noite. A coisa certa era matar-se antes que eles o pegassem. Sem dúvida, algumas pessoas o faziam. Muitos dos desaparecimentos eram na verdade suicídios. Mas era preciso uma certa coragem desesperada para se matar em um mundo onde as armas de fogo, ou qualquer veneno rápido e certo, eram impossíveis de serem encontradas. Ele pensou com uma espécie de espanto a inutilidade biológica da dor e do medo, a traição do corpo hu mano que sempre congela em inércia exatamen te no momento em que um esforço especial é neces sário. Ele poderia ter silenciado a menina de cabelos escuros se tivesse agido suficientemente rápido: mas precisamente por causa da extremidade de seu perigo, ele tinha perdido o poder de agir. Ele percebeu que em momentos de crise nunca se está lutando contra um inimigo externo, mas sempre contra o próprio corpo. Mesmo agora, apesar do gin, a dor chata na barriga tornava impossível o pensamento consecutivo. E é o mesmo, ele percebeu, em todas as situações aparentemente heroicas ou trágicas. No campo de batalha, na câmara de tortura, em um navio afundado, as questões pelas quais se luta são sempre esquecidas, porque o corpo incha até encher o universo, e mesmo quando não se está paralisado por medo ou gritos de dor, a vida é uma luta momento a momento contra a fome ou o frio ou a insônia, contra um estômago com azia ou um dente dolorido.
     Ele abriu o diário. Era importante anotar algo. A mulher da teletela tinha começado uma nova canção. Sua voz parecia grudar em seu cérebro como lascas de vidro. Ele tentou pensar em O’Brien, para quem o diário era escrito, mas em vez disso começou a pensar nas coisas que aconteceriam com ele depois que a Polícia do Pensamento o levasse em bora. Não importaria se eles o matassem de imediato. Ser morto era o que você esperava. Mas antes da morte (ninguém falava de tais coisas, mas todos sabiam delas) havia a obrigatória rotina da confissão: rastejar no chão e gritar por misericórdia, o rachar dos ossos quebrados, os dentes que brados e os coágulos sangrentos no cabelo.
     Por que você tinha que suportar isso, já que o fim era sempre o mesmo? Por que não era possível cortar alguns dias ou semanas de sua vida? Ninguém jamais escapava da detecção, e ninguém jamais deixou de confessar. Depois de você ter sucumbi do ao crime de pensamento, era certo que em uma determinada data você estaria morto. Por que então esse horror, que não mudava nada, teve que ficar embutido no tempo futuro?
     Ele tentou, com um pouco mais de sucesso do que antes, invocar a imagem de O’Brien. 

“Vamos nos encontrar no lugar onde não há escuridão”, O’Brien havia dito a ele. 

     Ele sabia o que isso significava, ou pensava que sabia. O lugar onde não há escuridão era o futuro imaginado, que nunca se veria, mas que, de antemão, se poderia compartilhar misticamente. Mas, com a voz da teletela incomodando seus ouvidos, ele não podia seguir adiante a sua linha de pensamento. Ele colocou um cigarro em sua boca. Metade do tabaco caiu prontamente sobre sua língua, um pó amargo que era difícil de cuspir novamente. O rosto do Grande Irmão nadou em sua mente, deslocando o de O’Brien. Assim como havia feito alguns dias antes, ele tirou uma moeda do bolso e olhou para ela. O rosto olhava para ele, pesado, calmo, protetor: mas que tipo de sorriso estava escondido sob o bigode escuro? Como um nó de chumbo, as palavras voltaram para ele:

GUERRA É PAZ 
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO 
IGNORÂNCIA É FORÇA

continua na página 220...
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Parte1:
Parte 1.8c (Neste momento, seu pensamento parou) / Parte 1.8d (Winston não comprou o quadro) /                         
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.