sábado, 28 de fevereiro de 2026

Curta: Como ser feliz?

Comment être heureux ?


'Talvez o problema da maioria dos seres humanos seja justamente o fato de não quererem ver a felicidade..."





Um filme de 
David KADOCHE

Atores: 
Loïc LEFEBVRE, 
Clara HUET, 
Vanille BOYER, 
Rudy KADOCHE, 
Antoine MOURNES. 

Extras: 
Caroline ABEL, 
Gilles ATTIGOSSOU.

Diretor de Fotografia: 
Gregory TURBELLIER / 
Assistente de Câmera: 
Tess BARTHES / 
Operador de Steadicam: 
Raphael URBAIN / 
Gravação de Som: 
Paulo LE TROQUER / 
Gaffers: 
Matthias EYER, Jean RIOU, Clément HURAULT / 
Supervisor de Roteiro: 
Céline DISINT / 
Maquiagem: 
Valentine HAINAUX / 
Cabelo: 
Marwa MROUE
Montagem: 
Erwan LE QUERE / 
Efeitos Especiais: 
Anthony BIENVENU / 
Classificação de cores: 
Eduardo FRASCHINI / 
Mixagem de som: 
Clovis TISSERAND
Música de Julien ALLIOUX

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Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Os Filibusteiros na Abordageml(16)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     27. Os Filibusteiros na Abordagem
          Na concepção geopolítica do imperialismo, a América Central não é nada mais do que um apêndice natural dos Estados Unidos. Nem mesmo Abraham Lincoln, que também pensou em anexar seus territórios, conseguiu escapar dos preceitos do “destino manifesto” da grande potência em relação às suas áreas contíguas. [1]
     Em meados do século passado, o filibusteiro William Walker, que operava em nome dos banqueiros Morgan e Garrison, invadiu a América Central à frente de um bando de assassinos que se autodenominavam “a falange americana dos imortais”. Com o respaldo oficioso do governo dos Estados Unidos, Walker roubou, matou, incendiou e se proclamou, em expedições sucessivas, presidente da Nicarágua, El Salvador e Honduras. Reimplantou a escravidão nos territórios que sofreram sua devastadora ocupação, continuando, assim, a obra filantrópica de seu país nos estados que, pouco antes, tinham sido usurpados ao México.
     Em seu regresso foi recebido nos Estados Unidos como herói nacional. Desde então sucederam-se as invasões, as intervenções, os bombardeios, os empréstimos compulsórios e os tratados assinados ao pé do canhão. Em 1912, o presidente William H. Taft afirmava: “Não está longe o dia em que três bandeiras de barras e estrelas vão assinalar em três pontos equidistantes a extensão de nosso território: uma no Polo Norte, outra no Canal do Panamá e a terceira no Polo Sul. Todo o hemisfério, de fato, será nosso, como já é nosso moralmente em virtude de nossa superioridade racial” [2]. Taft dizia que o reto caminho da justiça na política externa dos Estados Unidos “não exclui de modo algum uma ativa intervenção para assegurar às nossas mercadorias e aos nossos capitalistas facilidades para os investimentos lucrativos”. Na mesma época, o ex-presidente Teddy Roosevelt recordava em voz alta sua exitosa amputação da terra da Colômbia: I took the Canal, dizia o flamante Prêmio Nobel da Paz, enquanto contava como havia independentizado o Panamá [3]. A Colômbia receberia pouco depois uma indenização de 25 milhões de dólares: era o preço de um país, nascido para que os Estados Unidos dispusessem de uma via de comunicação entre os dois oceanos.
     As empresas se apoderavam de terras, alfândegas, tesouros e governos; os marines desembarcavam em todas as partes para “proteger a vida e os interesses dos cidadãos norte-americanos”, pretexto igual ao que usariam, em 1965, para apagar com água benta o rastro do crime na República Dominicana. A bandeira envolvia outras mercadorias. Em 1935, já aposentado, o comandante Smedley D. Butler, que encabeçou muitas expedições, resumia assim sua atividade: “Passei 33 anos e quatro meses no serviço ativo, como membro da mais ágil força militar deste país: o Corpo de Infantaria da Marinha. Servi em todos os postos, de segundo-tenente a general de divisão. E durante todo esse período passei a maior parte do tempo em funções de pistoleiro de primeira classe para os Grandes Negócios, para Wall Street e para os banqueiros. Em uma palavra: fui um pistoleiro do capitalismo (...). Assim, por exemplo, em 1914 ajudei a fazer com que o México, e especialmente Tampico, fossem uma presa fácil para os interesses dos petroleiros norte-americanos. Ajudei a fazer com que Haiti e Cuba fossem lugares decentes para o retorno de investimentos do National City Bank (...). Em 1909-12, ajudei a purificar a Nicarágua para a casa bancária internacional de Brown Brothers. Em 1916 levei a luz à República Dominicana, em nome dos interesses açucareiros norte-americanos. Em 1903 ajudei a ‘pacificar’ Honduras em benefício das companhias fruticultoras norte-americanas”. [4]
     Nos primeiros anos do século o filósofo William James foi autor de uma frase que poucas pessoas conhecem: “O país vomitou de uma vez e para sempre a Declaração de Independência”. Para ficar num só exemplo, os Estados Unidos ocuparam o Haiti durante vinte anos, e ali, nesse país negro que tinha sido o cenário da primeira revolta vitoriosa dos escravos, introduziram a segregação racial e o regime de trabalhos forçados, mataram 1.500 operários numa só de suas operações repressivas (segundo investigação do Senado norte-americano), e quando o governo local se negou a fazer do anco Nacional uma sucursal do National City Bank de Nova York, suspenderam o pagamento dos soldos aos presidentes e aos seus ministros, para que tornassem a andar na linha. [5]
     Histórias semelhantes se repetiam nas demais ilhas do Caribe e em toda a América Central, o espaço geopolítico do Mare Nostrum do império, no ritmo alternado do big stick ou da “diplomacia do dólar”.
     O Corão menciona a bananeira entre as árvores do paraíso, mas a bananização da Guatemala, Honduras, Costa Rita, Panamá, Colômbia e Equador permite suspeitas de que se trata de uma árvore do inferno. Na Colômbia, a United Fruit já se tornara dona do maior latifúndio do país quando, em 1928, eclodiu uma grande greve na costa atlântica. Os trabalhadores bananeiros foram aniquilados a tiros, na frente de uma estação ferroviária. Um decreto oficial tinha sido publicado: “Os homens de força pública estão autorizados a castigar pelas armas...”, e depois não houve necessidade de editar nenhum decreto para apagar a matança da memória oficial do país. [6]
     Miguel Ángel Asturias narrou o processo da conquista e do saque da América Central. El papa verde era Minor Keith, o rei sem coroa da região inteira, pai da United Fruit, devorador de países. “Temos portos, ferrovias, terras, edifícios, mananciais”, enumerava o presidente, “circula o dólar, fala-se em inglês e se hasteia nossa bandeira (...). Chicago devia no mínimo orgulhar-se desse filho que havia partido com um par de pistolas e regressava para reclamar seu posto entre os imperadores da carne, reis das ferrovias, reis do cobre, reis da goma de mascar”. [7] Em O paralelo 42 John dos Passos traçou a rutilante biografia de Keith, biografia da empresa: “Na Europa e nos Estados Unidos as pessoas começaram a comer bananas assim que foram derrubadas as florestas da América Central para a semeadura da bananas e a construção de ferrovias para transportá-las; a cada ano, mais vapores da Great White Fleet iam para o norte repletos de bananas, e essa é a história do império norte-americano no Caribe e no canal do Panamá e do futuro canal da Nicarágua e dos marines e dos encouraçados e das baionetas (...)”.
     As terras ficavam tão exaustas quanto os trabalhadores: das terras roubavam o húmus, dos trabalhadores os pulmões, mas sempre havia novas terras para explorar e mais trabalhadores para exterminar. Os ditadores, próceres de opereta, velavam pelo bem-estar da United Fruit com o punhal entre os dentes. Depois, a produção de bananas foi caindo e a onipotência da empresa das frutas passou por várias crises, mas a América Central, em nossos dias, continua sendo um santuário do lucro para os aventureiros, ainda que o café, o algodão e o açúcar tenham derrubado a banana de seu trono de privilégios. Em 1970, as bananas são a principal fonte de divisas para Honduras e Panamá, e na América do Sul para o Equador. Por volta de 1930, a América Central exportava 38 milhões anuais de cachos, e a United Fruit pagava para Honduras um centavo de imposto por cacho. Não havia maneira de controlar o pagamento desse minimposto (que depois subiu um pouquinho), e ainda não há, pois até hoje a United Fruit exporta e importa o que quiser sem responder às alfândegas estatais. A balança comercial e a balança de pagamentos do país são obras de ficção a cargo de técnicos de pródiga imaginação.

continua na página 176...
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[1] RIBEIRO, Darcy. Las Américas y la civilización, t. III: Los pueblos trasplantados. Civilización y desarrollo. Buenos Aires, 1970.
[2] SELSER, Gregorio. Diplomacia, garrote y dólares en América Latina. Buenos Aires, 1962.
[3] JULIEN, Claude. L’empire americain. Paris, 1968.
[4] Publicado em Common Sense, novembro de 1935. v. HUBERMAN, Leo. Man’s Wordly Goods. The Story of the Wealth of Nations. New York, 1936.
[5] KREHM, William. Democracia y tiranías no Caribe. Buenos Aires, 1959.
[6] Este é o grande tema do romance de Álvaro Cepeda Samudio, La casa grande ( Buenos Aires, 1967) e também integra um dos capítulos de Cien años de soledad ( Buenos Aires, 1967), de Gabriel García Márquez: “Por certo foi um sonho”, insistiam os oficiais.
[7] O ciclo compreende os romances Viento norte, El papa verde e Los ojos de los enterrados, trilogia publicada em Buenos Aires na década de 50. Em Viento norte, um dos personagens, Mr. Pyle, diz profeticamente: “Se em lugar de fazer novas plantações comprarmos os frutos de produtores particulares, ganharemos muito no futuro”. Isto é o que ocorre atualmente na Guatemala: a United Fruit agora United Brands – exerce seu monopólio bananeiro através dos mecanismos de comercialização, mais eficazes e menos arriscados do que a produção direta. Cabe anotar que a produção de bananas caiu verticalmente na década de 60, a partir do momento em que a United Fruit decidiu vender e ou arrendar suas plantações na Guatemala, ameaçadas pelos fervores da agitação social.
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O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Os Filibusteiros na Abordageml(16) 

Émile Zola - Germinal: Quarta Parte - (VI.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quarta Parte

VI
 .


     Jeanlin já estava restabelecido e caminhando, mas suas pernas tinham sido tão mal encanadas, que agora mancava de ambas. Era preciso vê-lo, parecia um pato, correndo tão depressa como antes, e com a mesma destreza de animal daninho e ladrão.
     Naquele entardecer, na estrada de Réquillart, Jeanlin, acompanhado dos seus inseparáveis Bébert e Lydie, espreitava. Estava emboscado num terreno baldio, por trás de um tapume, em frente a uma venda quase vazia, localizada na curva de uma vereda. Uma velha meio cega expunha ali três ou quatro sacos de lentilha e feijão, negros de poeira; mas era um bacalhau velho e ressequido, todo pintalgado de dejeções de moscas e pendurado à porta, que ele cobiçava com seus olhos apertados. Já por duas vezes mandara Bébert apanhá-lo, mas tinha aparecido gente na curva do caminho. Eram os importunos de sempre, não se podia trabalhar à vontade!
     Surgiu um homem a cavalo e os três deitaram-se rente ao tapume ao reconhecerem o Sr. Hennebeau. Desde o começo da greve, ele era visto cavalgando pelas estradas, percorrendo sozinho os conjuntos habitacionais revoltados, demonstrando uma coragem tranquila em assegurar-se pessoalmente do estado de coisas da região. E nunca uma pedra tinha assobiado nos seus ouvidos; só encontrava homens silenciosos e lentos que o cumprimentavam, mas, principalmente, namorados, que não se importavam com política e andavam pelos cantos para um momento de prazer. Ao trote de sua égua, sem olhar para os lados para não atrapalhar ninguém, passava, enquanto seu coração pulsava de um desejo que nunca fora saciado, mediante aquela fartura de amores livres.
     Viu perfeitamente os dois meninos sobre a menina, amontoados. Até as crianças já sabiam divertir-se esfregando umas contra as outras as suas misérias! Com os olhos úmidos, desapareceu, muito teso sobre a sela, com a sobrecasaca militarmente abotoada. 

— Diabo de azar! — exclamou Jeanlin. — Vai agora, Bébert; puxa pelo rabo!

     Mas outros dois homens passavam e o menino murmurou nova praga quando ouviu a voz de seu irmão, Zacharie, que contava ao jovem Mouque como tinha descoberto uma moeda de quarenta soldos costurada numa saia da sua mulher. Riram às gargalhadas, dando-se palmadas nos ombros. O jovem Mouque teve a grande idéia de uma partida de críquete para o dia seguinte: partiriam às duas horas do Avantage; iriam para os lados de Montoire, perto de Marchiennes. Zacharie aceitou. Por que não paravam de aborrecê-los com essa greve? Queriam era divertir-se, já que não tinham nada mais para fazer! E dobravam a estrada quando Etienne, que vinha do canal, deteve-os e pôs-se a conversar. — Será que vão dormir aqui? — perguntou Jeanlin, exasperado. — já é quase noite e a velha está recolhendo os sacos.

     Outro mineiro estava descendo para Réquillart. Etienne afastou-se com ele. Ao passarem pelo tapume, o menino ouviu-os falando sobre a floresta; tinham adiado a reunião para o dia seguinte, temendo não poderem avisar todos os conjuntos habitacionais naquele mesmo dia. — Aí está! — murmurou Jeanlin para os outros dois. 

— A bagunça é para amanhã. Temos que ir. Tocamos para lá de tarde, hem?

     Com a estrada finalmente deserta, ele deu ordem de partida a Bébert. velha! 

— Chegou a hora! Puxa pelo rabo... E cuidado com a vassoura da velha!

     Felizmente, estava quase escuro. Bébert, de um salto, agarrou-se ao bacalhau, cujo barbante rebentou. Saiu correndo, agitando o peixe como se fosse um papagaio de papel, seguido pelos outros dois. A velha, boquiaberta, saiu para fora sem compreender, não podendo mais distinguir aquele bando que se perdia nas trevas.
     Esses gatunos acabavam sendo o terror da região, que fora invadida por eles, como por uma horda selvagem. A princípio contentaram-se com o pátio da Voreux, onde chafurdavam no carvão, saindo de lá negros, brincando de esconde-esconde entre a provisão de madeira, onde se perdiam como no fundo de uma floresta virgem. Depois, tomaram de assalto o aterro, onde escorregavam pelas partes escalvadas, ainda escaldantes por causa dos incêndios internos, metiam-se por entre o matagal da parte abandonada, escondidos o dia inteiro, ocupados em brincadeiras tranquilas como ratos lúbricos. E continuavam a conquistar terreno, indo engalfinhar-se por entre os montes de tijolos, percorrendo os prados, comendo, sem pão, qualquer espécie de erva que tivesse algum sumo, esquadrinhando a vegetação do canal em busca de peixes presos no lodo, que devoravam crus. E iam cada vez mais longe, andavam quilômetros, até os bosques de Vandame, onde se empanturravam de morangos na primavera, de avelãs e medronhos [1] no verão. Não tardou muito para que a imensa planície lhes pertencesse.

[1] Espécie de morango silvestre. (N. do E.)

     Mas o que os atirava assim às estradas, de Montsou a Marchiennes, com seus olhos de lobos novos, era uma necessidade crescente de pilhagem. Jeanlin capitaneava essas expedições, lançando sua tropa sobre qualquer presa, devastando as plantações de cebola, saqueando os pomares, atacando os tendeiros. Na região, já estavam acusando os mineiros em greve, falava se de uma enorme quadrilha organizada. Um dia, ele chegara a forçar Lydie a roubar sua própria mãe, fazendo que a menina lhe trouxesse duas dúzias de balas de cevada que a mulher de Pierron guardava num frasco no mostruário da janela; e a pequena, moída de pancada, não o traíra, a tal ponto temia a autoridade do companheiro. O pior era que ele sempre ficava com a parte do leão. Bébert também tinha de lhe entregar o resultado dos seus assaltos, e podia considerar-se um felizardo quando o capitão não o esbofeteava para ficar com tudo.
     Jeanlin ultimamente andava abusando. Surrava Lydie como quem espanca a mulher legítima e aproveitava-se da credulidade de Bébert para comprometê-lo em aventuras desagradáveis, muito divertido em aturdir aquele menino grandalhão, mais forte do que ele, que podia aniquilá-lo com um murro. Desprezava os outros dois, tratava-os como escravos, contava lhes que tinha por amante uma princesa, diante da qual eles eram indignos de se mostrar. E, realmente, havia oito dias que começara a desaparecer de repente ao chegar numa esquina, ao dobrar uma curva do caminho, onde quer que estivesse, depois de lhes ordenar de maneira terrível que voltassem para casa. Mas primeiro embolsava o resultado do saque.
     Foi isso, aliás, o que aconteceu naquela noite. 

— Passa para cá — disse ele, arrancando o bacalhau das mãos do companheiro quando os três pararam numa volta da estrada, perto de Réquillart.

     Bébert protestou. 

— Eu também quero... Quem é que foi apanhar? 
— O quê? — gritou Jeanlin. — Tu não tens querer! Se eu quiser, dou-te, e não vai ser hoje: amanhã, se sobrar alguma coisa.

     Empurrou Lydie, colocou um ao lado do outro, alinhados e perfilados como soldados. Depois, passando para trás deles: 

— Agora, vocês vão ficar aí cinco minutos, sem um movimento. Se olharem para trás, juro por Deus! os bichos ferozes devoram vocês... E depois vão voltar imediatamente para casa, tenderam? Se no caminho o Bébert tocar na Lydie eu ficarei sabendo, e aí os dois vão levar uns bons tapas.

     Imediatamente desapareceu na escuridão; era tão rápido que nem sequer o roçar dos seus pés descalços se ouviu. Os outros dois ficaram imóveis durante os cinco minutos, sem olhar para trás, com medo de receber um bofetão do invisível. Aos poucos, uma grande afeição nascera entre eles, como resultado daquele terror comum. Ele sempre sonhava tomá-la em seus braços e apertá-la com força contra seu coração, como via os outros fazerem. E ela bem que gostaria disso, porque nunca fora tratada com carinho. Mas nenhum dos dois ousaria desobedecer. Quando se foram, ainda que a noite estivesse muito escura, nem mesmo se abraçaram, caminharam lado a lado, comovidos e desesperados, certos de que, se se tocassem, o capitão, por trás, iria puni-los.
     À mesma hora Etienne entrava em Réquillart. Na véspera, a filha de Mouque suplicara-lhe que voltasse, e ele voltava, envergonhado, sem querer confessar que começava a gostar daquela moça que o adorava como a um deus. Vinha, aliás, com a intenção de terminar com aquilo. Vê-la-ia, explicar-lhe-ia que não devia mais persegui-lo, para evitar comentários dos companheiros. Os tempos eram difíceis, não estava sendo honesto aceitando tais facilidades enquanto os outros morriam de fome.
     Não a tendo encontrado em casa, decidiu esperá-la, e começou a espreitar as sombras que passavam.
     Sob a torre do sino de rebate em ruínas, via-se o poço semi-obstruído. Uma viga em pé, sustentando um pedaço de teto, parecia um patíbulo pairando sobre o buraco negro; e, no bocal derruído do poço, cresciam duas árvores, uma sorveira e um plátano, que pareciam sair das profundezas da terra. Era um recanto selvagem e abandonado, a entrada cheia de galhos e ramagens de um precipício, atravancada de madeiras podres, verdejante com suas ameixeiras silvestres e espinheiros, onde, na primavera, as toutinegras faziam seus ninhos.
     Desejando evitar as grandes despesas de conservação, a companhia havia dez anos que tencionava atulhar aquela galeria morta, mas tinha, antes, que instalar na Voreux um ventilador, porque o centro de ventilação dos dois poços, que se comunicavam entre si, era em Réquillart, cujo antigo esgoto servia de chaminé. Tinha-se limitado a consolidar o madeiramento à altura do solo com escoras atravessadas, barrando o acesso à extração, e havia abandonado as galerias superiores só para vigiar a galeria do fundo, onde ardia a fogueira do inferno, o enorme braseiro de hulha, tão violento, que o aquecimento do ar fazia soprar um verdadeiro furacão por toda a galeria vizinha. Por motivos de segurança, para que ainda se pudesse subir e descer, havia ordens de que o fosso das escadas tivesse urna manutenção acurada. Mas ninguém se importava com ele, e as escadas estavam apodrecendo com a umidade; alguns patamares já tinham desabado. Em cima, a entrada estava fechada por espesso matagal; como o primeiro lance de escada tinha perdido alguns degraus, para atingi-la era preciso pendurar se em alguma raiz de sorveira e depois deixar-se cair, encomendando a alma a Deus, no escuro.
     Etienne pacientemente esperava, escondido atrás do matagal, quando ouviu um roçar prolongado entre os galhos. Julgou que fosse a corrida de uma cobra assustada, mas o repentino clarão de um fósforo causou-lhe espanto, e ficou estupefato ao reconhecer Jeanlin, que acendia uma vela e se engolfava na terra. Ficou tão furioso que se aproximou do buraco. O menino tinha desaparecido, mas um clarão fraco vinha do segundo patamar. Hesitou um momento para depois deixar-se escorregar, segurando-se às raízes; pensou que teria de dar um salto de quinhentos e vinte e quatro metros, que era o que media a galeria, mas acabou sentindo um degrau sob os pés, e começou a descer vagarosamente.
     Jeanlin não devia ter ouvido; Etienne continuava a ver a luz descendo, enquanto a sombra do menino, colossal e apavorante, dançava nas paredes com o balanço das suas pernas aleijadas. 0 rapazinho pulava, com uma destreza de macaco, e conseguia segurar-se com as mãos, com os pés, com o queixo, quando os degraus faltavam. As escadas, de sete metros cada uma, sucediam-se, algumas ainda sólidas, outras bambas, rangendo, quase desabadas; os patamares estreitos passavam, uns após os outros, esverdeados, a tal ponto apodrecidos, que se andava escorregando, como em cima de musgo. E, à medida que se descia, o calor era cada vez mais sufocante, um calor de fornalha, que vinha do poço da fogueira, felizmente pouco ativa desde o começo da greve, porque em época de trabalho, quando a fornalha devorava os seus cinco mil quilos de hulha diários, ninguém se arriscaria ali sem sair assado.

"Raio de velhaco!", praguejava Etienne sem fôlego. "Onde diabo vai ele?"

     Por duas vezes quase caiu. Seus pés escorregavam na madeira úmida. Se ao menos tivesse uma vela, como o outro... Batia-se de encontro à parede a cada momento; era guiado apenas pelo vago clarão que fugia sob ele. Seguramente, já era a vigésima escada, e a descida continuava. Começou a contar os lances: vinte e um, vinte dois, vinte e três, e cada vez descia mais. Parecia que estava com os miolos em fogo, chegou a pensar que tinha caído numa fornalha.
     Enfim chegou a uma embocadura de galeria e divisou a chama desaparecendo no fundo. Trinta lances de escada, aproximadamente duzentos metros.

"Será que ainda terei que correr atrás dele por muito tempo?", pensou Etienne. "É na cavalariça que ele se encafurna, não há dúvida."

     À esquerda, porém, a via conduzindo à cavalariça estava obstruída por um desmoronamento. A viagem recomeçou, cada vez mais penosa e perigosa. Morcegos assustados voejavam, colavam-se na abóbada da galeria. Teve de correr para não perder de vista a luz, jogou-se para a frente, mas onde Jeanlin passava facilmente com sua agilidade de serpente ele não podia penetrar sem machucar-se. Esta galeria, como todas as vias antigas, tinha-se estreitado e a cada dia estreitava-se mais sob a constante pressão da terra. Em certos trechos já era uma garganta muito fechada, que dentro em pouco também desapareceria. Nesse trabalho de estrangulamento, as estacas vergadas e quebradas tornavam-se um perigo, ameaçando dilacerar-lhe a carne, fisgá-lo na passagem com a ponta de suas lanças, agudas como punhais. Ele avançava com precaução, de joelhos ou arrastando-se, tateando a sombra na sua frente. De repente, um bando de ratos percorreu-o da cabeça aos pés, num galope de fuga.

"Com todos os diabos! quando é que ele vai parar?", grunhiu Etienne sem fôlego, com dor nas costas.

     Chegavam. Ao fim de um quilômetro a garganta alargava e entraram num trecho de via admiravelmente conservado. Era o fundo da antiga via de rodagem, aberta na rocha, igual a uma gruta natural. Etienne teve de parar; observava de longe o menino, que protegia a vela entre duas pedras e se punha à vontade, tranquilo e descansado, como um homem feliz por chegar em casa. Uma instalação completa transformara aquela extremidade de galeria numa habitação confortável. No chão, a um canto, um monte de feno servia de cama; sobre velhas madeiras, dispostas para formarem uma mesa, havia de tudo: pão, maçãs, litros de genebra abertos — uma verdadeira caverna de bandoleiro, com o produto dos saques acumulados durante semanas, mesmo coisas inúteis como sabão e graxa, roubadas pelo simples prazer do roubo. E o menino, sozinho no meio de toda aquela rapina, deliciava-se como um verdadeiro bandoleiro egoísta. 

— Escuta, tu estás debochando dos outros ou o quê? — gritou Etienne depois de tomar fôlego. — Vens para cá refestelar-te enquanto estamos morrendo de fome lá em cima?

     Jeanlin tremia, aterrado. Ao reconhecer o rapaz acalmou-se. 

— Queres jantar comigo? — acabou dizendo. — Que tal? Um pedaço de bacalhau assado? Vais ver que beleza!

continua na página 229...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - Excelência do Infortúnio / II — Mário pobre

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quinto — Excelência do Infortúnio

     II — Mário pobre

             Sucede com a miséria como sucede com tudo. Chega esta a tornar-se possível; vem a tomar forma e a arredondar-se, e por fim, vegetamos, quer dizer, vivemos como que entorpecidos, mas não privados inteiramente de sentimento.
     Eis de que modo Mário conseguira regular a sua existência.
     O desfiladeiro em que ele caíra ia gradualmente alargando. A poder de trabalho, de coragem, de perseverança e vontade, chegara a realizar setecentos francos por ano. Aprendera o alemão e o inglês e auxiliado por Courfeyrac, que o relacionara com o livreiro seu amigo, Mário representava na literatura-livraria o modesto papel de utilidade. Fazia prospectos, traduzia jornais, anotava edições, compilava biografias, etc., produto líquido, uns anos por outros, setecentos francos, com os quais passava menos mal, como vamos dizer.
     Mário ocupava no casebre Gorbeau um cubículo sem fogão, arvorado em gabinete, pelo qual pagava trinta francos de renda, e em que, quanto a móveis, só havia os indispensáveis, que eram propriamente dele. Dava três francos por mês à velha principal locatária para lhe varrer o quarto e levar-lhe todos os dias pela manhã uma pouca de água quente, um ovo e um pão de um soldo, em que consistia o seu almoço, cujo preço variava de três a quatro soldos, conforme os ovos estavam, caros ou baratos. As seis horas da tarde saía e ia jantar ao Rousseau, na rua de S. Jacques, defronte de Basset, com loja de estampas à esquina da rua dos Mathurins. Não comia sopa. Pedia uma ração de carne de seis soldos, meia ração de legumes, que custava três, e por igual quantia tinha a sobremesa. Pão, por três soldos tinha quanto pudesse comer. Quanto a vinho, em vez dele, bebia água. Depois dirigia-se ao mostrador, ao qual se achava majestosamente sentada Madame Rousseau, nesse tempo ainda gorda e fresca; pagava, dava um soldo ao criado, recebia um sorriso de Madame Rousseau e saía. Por dezesseis soldos tinha pois o mancebo um sorriso e um jantar.
     O restaurante Rousseau, onde se esvaziavam tão poucas garrafas de vinho e tantas de água, era mais um calmante do que um restaurante. Já não existe. O dono tinha a engraçada alcunha de Rousseau o aquático.
     Deste modo, jantando por dezesseis soldos e almoçando por quatro, ficava-lhe o dia por vinte soldos, que perfaziam a quantia de trezentos e sessenta e cinco francos por ano. Acrescente-se a isto os trinta francos da renda da casa e os trinta e seis à velha, e mais algumas despesas miúdas, e ver-se-á que Mário por quatrocentos e cinquenta francos tinha casa, criada e comida. Em roupa e calçado gastava cento e cinquenta francos, a lavadeira ficava-lhe por cinquenta, o que dava tudo um total de seiscentos e cinquenta francos, ficando-lhe ainda um resto de cinquenta francos. Era rico, portanto, achando-se em circunstâncias de poder emprestar dez francos a um amigo se este lhe pedisse. Uma vez chegara a emprestar sessenta francos a Courfeyrac. Quanto à despesa com o fogão, como não o tinha, eliminara essa verba.
     Mário tinha sempre dois vestuários completos: um mais velho «para o uso ordinário», outro novo para as ocasiões extraordinárias. Eram ambos pretos. Camisas tinha três: a que trazia no corpo, uma que tinha guardada e outra na lavadeira. Conforme as ia rompendo, assim as ia renovando. Como, porém, nenhuma delas deixava de estar mais ou menos rota, abotoava o casaco até ao pescoço para não se ver.
     Para Mário chegar a esta florescente situação levou anos. Anos rudes, cheios de dificuldades e provações. O mancebo, porém, nem um só dia desanimara, sofrendo toda a qualidade de privações, resignando-se a tudo, menos a contrair dívidas. Quando volvia os olhos para o seu passado, sentia prazer em poder asseverar que nunca devera um soldo a ninguém. Na sua opinião, uma dívida era um princípio de escravidão, e ainda ia mais longe: dizia ele que um credor é pior que um senhor, porque um senhor possui apenas a pessoa do escravo, enquanto que o credor possui a dignidade do devedor e pode esbofeteá-la. Antes de se resolver a pedir emprestada qualquer soma, primeiro esgotaria o mancebo todos os recursos, sujeitando-se mesmo a passar sem comer. Dias sem comer passara ele muitos. Conhecendo que todos os extremos se tocam e que, se não há a devida cautela, a falta de meios pode levar a falta de honra, tinha todo o cuidado em conservar intacta a sua. Às vezes uma fórmula, um passo que em qualquer outra situação lhe teria parecido uma deferência, afigurava-se-lhe uma baixeza, e o mancebo não se resolvia a pô-la em prática. Para se não ver forçado a recuar, não se aventurava coisa nenhuma. No rosto de visava-se-lhe um rubor severo. A sua timidez tocava as raias da intratabilidade.
     Em todas as suas provações sentia-se alentado e às vezes impelido por uma oculta força que lhe vinha de dentro. A alma ajuda o corpo e chega mesmo algumas vezes a ampará-la. É a única ave que sustenta a gaiola em que está encerrada.
     Ao lado do nome de seu pai, Mário tinha gravado no coração outro nome o nome de Thenardier. O mancebo, dotado de uma natureza entusiástica e arrojada, cercava de uma espécie de auréola o homem a quem, no seu conceito, devia a vida de seu pai, o intrépido sargento que salvara o coronel no meio das granadas de Waterloo. Não separava nunca a recordação desse homem da de seu pai, associando-se ambas na sua veneração. Era uma espécie de culto em dois altares, o mais alto para o coronel, o mais baixo para Thenardier. O que ainda mais aumentava a intensidade dos seus sentimentos de gratidão para com aquele homem era a lembrança do infortúnio de que ele sabia que Thenardier era vítima. Mário soubera em Montfermeil, quando ali foi indagar da existência do estalajadeiro, da sua quebra e desaparecimento. Depois fizera todos os esforços possíveis para dar com ele no tenebroso abismo da miséria, em que ele caíra. Mário percorreu toda a localidade; foi a Chelles, a Bondy, a Gournay, a Nogent, a Lagny. Durante três anos não afrouxou do seu propósito, gastando nessas pesquisas o pouco dinheiro, fruto das suas economias. Nem uma só pessoa, porém, encontrou que lhe desse novas de Thenardier, todos eram de opinião que o estalajadeiro se tinha retirado para algum país estrangeiro. Os credores também o tinham procurado com menos amor do que Mário, porém com a mesma insistência, e não tinham conseguido dar com ele. Mário acusava-se e lançava em rosto a si próprio não ter tirado resultado nenhum das suas investigações. Era a única dívida que o coronel lhe deixara para pagar, e por isso o mancebo julgava que era da sua honra solvê-la. 

— Pois quê! — dizia ele consigo. — Quando meu pai jazia moribundo no campo de batalha, Thenardier soube dar com ele por entre o fumo e o granizo das balas, e levá-lo às costas para lugar seguro, sem nada lhe dever; e eu, que devo tanto a Thenardier, não hei-de dar com ele por entre a escuridão em que agoniza, para também o arrancar à morte e restituí-lo à vida? Oh, hei-de dar com ele!

     Mário, efetivamente, de bom grado teria dado um braço para o encontrar e todo o seu sangue para o arrancar da miséria. Encontrar Thenardier, prestar-lhe um serviço de qualquer qualidade, dizer-lhe: «Você não me conhece, mas conheço-o eu. Aqui estou, disponha de mim!» Era o mais doce e magnífico sonho de Mário.

continua na página 513...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - II — Mário pobre 
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: A Aversão dos Poderosos pelos Sobreviventes. Os Soberanos e seus Sucessores.

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     A Aversão dos Poderosos pelos Sobreviventes. Os Soberanos e seus Sucessores. 


          Muhammad Tughlak, o sultão de Delhi, possuía vários planos que suplantavam em grandiosidade os de Alexandre ou Napoleão. Dentre estes planos estava a conquista da China mediante a travessia do Himalaia. Um exército de 100 mil cavaleiros foi montado. No ano de 1337, esse exército partiu, perecendo cruelmente no alto das montanhas. Somente dez homens, nem um único a mais, conseguiram salvar-se, trazendo de volta a Delhi a notícia da morte de todos os outros. Por ordem do sultão, os dez foram executados.
     A aversão dos poderosos pelos sobreviventes é geral. Consideram toda sobrevivência efetiva algo que cabe somente a eles: trata-se de sua verdadeira riqueza, sua propriedade mais preciosa. Todo aquele que se permita conspicuamente sobreviver em circunstâncias perigosas — e particularmente em meio a muitos outros — estará se imiscuindo em seus negócios e voltará contra si o seu ódio.
     Nos lugares em que existiu uma forma absoluta e incontestada de dominação — no Oriente islâmico, por exemplo —, a raiva dos poderosos em relação aos sobreviventes pôde manifestar-se abertamente. Os pretextos que talvez precisassem ainda encontrar para aniquilá-los mal encobriam o afeto nu e cru de que estavam impregnados.
     Dos despojos de Delhi constituiu-se um outro império islâmico no Decão. Durante todo o seu governo, Muhammad Shah, um dos sultões dessa nova dinastia, travou a mais violenta batalha contra seus vizinhos, os reis hindus. Um dia, os hindus lograram conquistar a importante cidade de Mudkal. Todos os seus habitantes — homens, mulheres e crianças — foram mortos. Um único homem escapou, trazendo a notícia para a capital, onde morava o sultão. “Quando este ficou sabendo do ocorrido”, relata o cronista, “viu-se dominado pela dor e pela ira, ordenando que o desafortunado mensageiro fosse executado imediatamente. Não podia suportar a presença de um miserável que havia assistido e sobrevivido à matança de tantos e tão valentes companheiros.”
     Também nesse caso pode-se ainda falar de um pretexto; é provável que o sultão não soubesse realmente por que razão não suportava a visão do único que se salvara. Já Hakim, o califa egípcio que governou por volta do ano 1000, tinha uma consciência muito mais clara dos jogos do poder, deles desfrutando de um modo que lembra o imperador Domiciano. Hakim adorava vagar pela noite sob toda sorte de disfarces. Numa dessas suas peregrinações noturnas, encontrou numa montanha nas proximidades do Cairo dez homens bem armados, os quais o reconheceram e lhe pediram dinheiro. Hakim, então, lhes disse: “Formem duas divisões e lutem uns contra os outros. Darei dinheiro a quem vencer”. Os homens obedeceram e lutaram com tal ímpeto que nove perderam a vida. Ao décimo, o único que restara, Hakim arremessou, então, uma grande quantidade de moedas de ouro que tirara da manga. Enquanto, porém, este se abaixava para recolhê-las, o califa ordenou a seus servos que o fizessem em pedaços. — Desse modo, Hakim mostrou possuir uma clara compreensão do processo da sobrevivência, dele desfrutando como uma espécie de encenação provocada por ele mesmo, gozando ainda, ao final, da alegria pela aniquilação do sobrevivente.
     Peculiaríssima é a relação do poderoso com seu sucessor. Se se trata de uma dinastia, e o sucessor é seu filho, sua relação com este faz-se duplamente difícil. É natural que o filho, como todo filho, sobreviva ao pai, e natural é também que a paixão pela sobrevivência intensifique-se desde cedo nesse filho — que haverá de tornar-se ele próprio um detentor de poder. Ambos, pai e filho, têm razões de sobra para odiar-se mutuamente. Sua rivalidade, ostentando premissas diferentes e em razão precisamente dessa diferença, alcança uma particular agudeza. O pai, que tem o poder nas mãos, sabe que morrerá antes do filho. Este, que ainda não detém o poder, está seguro de sua própria sobrevivência. A morte do mais velho — de todos os homens, o que menos deseja morrer, caso contrário não seria um detentor de poder — é ardorosamente ansiada. Por outro lado, a chegada do mais novo ao poder é adiada de todas as formas. Trata-se de um conflito para o qual inexiste uma solução de fato. A história está repleta de revoltas desses filhos contra seus pais. Alguns conseguem derrubá-los; outros são vencidos e perdoados ou mortos por eles.
     Numa dinastia de soberanos longevos e absolutos, é de se esperar que as revoltas dos filhos contra os pais transformem-se numa espécie de instituição. Um breve exame dos imperadores mongóis da Índia ser-nos-á aqui instrutivo. O príncipe Salim, o primogênito do imperador Akbar, “desejava ardentemente tomar nas próprias mãos as rédeas do governo. Enfurecia-o a longa vida de seu pai, a qual o mantinha afastado do gozo das altas dignidades. Decidiu-se, assim, a usurpá-las, atribuindo-se a si próprio, e a seu bel-prazer, o nome de rei e arrogando-se também os direitos de um rei”. Assim nos conta um relato de jesuítas contemporâneos a ambos que os conheciam bem e os cortejavam. O príncipe Salim formou, pois, uma corte própria. Contratou assassinos que, estando em viagem o amigo mais íntimo e conselheiro de seu pai, assaltaram-no e o mataram numa emboscada. A sublevação do filho estendeu-se por três anos, ao longo dos quais chegou a haver uma reconciliação simulada. Por fim, ameaçado com a nomeação de um outro herdeiro para o trono, Salim, sob pressão, aceitou um convite para uma visita à corte do pai. De início, foi recebido com cordialidade; depois, seu pai puxou-o para um aposento no interior do palácio, esbofeteou-o e o trancou num banheiro. Entregou-o aos cuidados de um médico e dois criados, qual se tratasse de um demente; o vinho, de que gostava tanto, foi-lhe proibido. Por essa época, o príncipe contava 36 anos de idade. Passados alguns dias, Akbar o soltou, devolvendo-lhe a dignidade de sucessor do trono. No ano seguinte, Akbar morreu em consequência de uma disenteria. Falou-se que o filho o teria envenenado; hoje, porém, não é mais possível atestar a veracidade dessa hipótese. “Após a morte de seu pai, pela qual tanto ansiara”, o príncipe Salim finalmente tornou-se imperador, escolhendo para si o nome de Jahangir.
     Akbar governou por 45 anos; Jahangir governou 22 anos. Nesse governo, porém, que durou a metade do de seu pai, passou exatamente pelas mesmas experiências pelas quais este último passara. Seu filho predileto, Shah Jahan, a quem ele próprio nomeara seu sucessor, revoltou-se contra ele, travando contra o pai uma guerra que durou três anos. Derrotado, Shah Jahan solicitou a paz ao pai. Foi indultado, mas sob uma dura condição: teve de enviar à corte imperial seus dois filhos, na condição de reféns. Ele próprio cuidou de jamais tornar a aparecer diante do pai, e pôs-se a esperar por sua morte. Dois anos depois de selada a paz, Jahangir morreu, e Shah Jahan tornou-se imperador.
     Governou por trinta anos, e o mesmo que zera ao pai aconteceu com ele. Seu filho, porém, teve mais sorte. Aurangzeb, o mais jovem dos dois que tinham vivido outrora como reféns na corte do avô, sublevou-se contra o pai e o irmão mais velho. A famosa “guerra de sucessão” que então se desenrolou, tendo sido descrita por testemunhas europeias, terminou com uma vitória de Aurangzeb. Este mandou executar o irmão e manteve o pai por oito anos, até sua morte, na prisão.
     Logo após sua vitória, Aurangzeb fez-se a si próprio imperador e governou durante meio século. Seu filho predileto perdeu a paciência muito antes disso. Rebelou-se contra o pai, mas o velho era muito mais esperto do que o filho e soube corromper-lhe os aliados. Este último teve de fugir para a Pérsia, onde, no exílio, morreu ainda antes que o pai.
     Se se contempla a história dinástica do império mongol como um todo, o que se verifica é, pois, um quadro espantosamente uniforme. Seu esplendor dura 150 anos; ao longo desse tempo governam não mais que quatro imperadores, filhos uns dos outros, todos eles tenazes, longevos e apaixonadamente apegados ao poder. Seus governos têm duração notável: Akbar governa 45 anos; seu filho, 22; o neto, trinta; e o bisneto, cinquenta anos. A começar por Akbar, nenhum dos filhos aguarda a sua vez; cada um dos que, mais tarde, se tornaram imperadores subleva-se contra o pai ainda na condição de príncipe. Tais revoltas apresentam desfechos diversos. Jahangir e Shah Jahan são derrotados e perdoados pelos pais. Aurangzeb põe o pai na prisão e o depõe. Mais tarde, seu próprio filho morre no exílio, sem ter obtido sucesso. Com a morte do próprio Aurangzeb, tem fim o poder do império mongol.
     Nessa longeva dinastia, todos os filhos revoltaram-se contra seus pais, e cada um destes foi à guerra contra seu filho.
     O sentimento mais extremo de poder manifesta-se quando o soberano não quer filho algum. O caso mais bem documentado é o de Shaka, que, no primeiro terço do século XIX, fundou a nação e o império dos zulus, na África do Sul. Shaka foi um grande general, chegando a ser comparado a Napoleão; jamais terá havido um detentor de poder mais cru do que ele. Recusava-se a casar porque não queria ter herdeiros legítimos. Mesmo os insistentes pedidos de sua mãe, a qual sempre tratou com distinção, não conseguiram fazê-lo mudar de ideia. Não havia nada que ela mais quisesse do que um neto; Shaka, porém, aferrou-se a sua decisão. Seu harém possuía centenas de mulheres; no fim, eram 1200, ostentando o título oficial de “irmãs”. Era-lhes proibido engravidar e ter um filho. Sobre elas, exercia-se um rigoroso controle. Cada “irmã” grávida que se deixasse apanhar era punida com a morte. O filho de uma dessas mulheres, cuja existência lhe fora ocultada, Shaka o matou com as próprias mãos. Orgulhava-se bastante de sua arte de amar; tinha sempre o controle de si próprio e, por isso, acreditava que mulher alguma poderia engravidar dele. Assim, jamais se viu na situação de temer um filho a crescer. — Aos 41 anos, foi morto por dois de seus irmãos.
     Fosse-me permitido passar dos poderosos terrenos para os divinos, poder-se-ia lembrar aqui o Deus de Maomé, cuja solitária soberania é, de todos os deuses, a mais inconteste. Desde o princípio, ele se encontra já no topo, não tendo de, como o Deus do Velho Testamento, lutar primeiramente contra sérios rivais. No Corão, afirma-se constante e veementemente que ninguém o gerou, mas afirma-se também que ele não gerou pessoa alguma. A controvérsia relativamente ao cristianismo que aí se expressa advém do sentimento da unidade e indivisibilidade de seu poder.
     Em contraposição a isso, há soberanos orientais dotados de centenas de filhos, filhos estes que, primeiramente, têm de lutar entre si para definir quem virá a ser o real sucessor. É de se supor que a consciência da hostilidade entre eles retire do pai algo da amargura em relação a seu sucessor, seja ele quem for.
     Acerca do significado mais profundo da sucessão, de seu propósito e sua vantagem, falar-se-á em outro contexto. Aqui, há que se notar apenas que poderosos e seus sucessores encontram-se numa relação especial de hostilidade cuja intensificação é proporcional ao vigor dessa mais singular dentre todas as paixões do poder — a paixão pela sobrevivência.

continua página 372...
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Leia também:

Massa e Poder - O Sobrevivente: A Aversão dos Poderosos pelos Sobreviventes. Os Soberanos e seus Sucessores. 
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Thomas Mann - A Montanha Mágica: A grande irritação - [b]

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VII
A grande irritação 


     Mas, quando o Sr. Settembrini introduziu na conversa a palavra “justiça” e recomendou esse sublime princípio como meio preventivo contra catástrofes políticas, tanto externas como internas, evidenciou-se que o mesmo Naphta que acabava de julgar o espírito por demais elevado para que fosse possível e desejável a sua encarnação numa forma terrena punha agora em dúvida precisamente o espírito e se empenhava em denegri-lo. Justiça? Era ela uma ideia digna de adoração? Uma ideia divina? Uma ideia de primeira categoria? Deus e a natureza eram injustos, tinham favoritos, selecionavam segundo as suas simpatias, concediam perigosas distinções a um e preparavam a outro uma sorte fácil e banal. E o homem dotado de vontade? Para ele, a justiça era, de um lado, uma franqueza paralisante, a dúvida em si, e de outro, uma fanfarra que o chamava para atos inescrupulosos. Desde que o homem, para manter-se dentro da esfera da moral, tinha de corrigir esta “justiça” por aquela – onde ficavam a incondicionalidade e o radicalismo da ideia? Ademais, era-se “justo” para com um ou outro dos dois pontos de vista. O resto não passava de liberalismo, e com isso não se arranjava mais nada hoje em dia. Numa palavra, a justiça era um termo oco da retórica burguesa, e para chegar à ação era preciso saber de que justiça se tratava – daquela que desejava conceder a cada um o que lhe pertencia ou da outra que queria dar parte igual a todos.  
     Escolhemos a esmo, das discussões sem fim, um exemplo para demonstrar a maneira como Naphta trabalhava por perturbar a razão. No entanto, era ainda pior o modo como falava da ciência, na qual não acreditava. Não tinha fé na ciência – dizia – visto o homem ter plena liberdade de crer ou não crer nela. Essa era uma crença como qualquer outra, apenas mais tola e mais prejudicial. A própria palavra “ciência” era a expressão do mais estúpido realismo que não se envergonhava de aceitar e gastar como moeda sonante os reflexos mais que duvidosos que os objetos sofriam do intelecto humano, e de preparar com eles a mais lamentável e a mais insossa doutrina que já se impingiu à humanidade. Não constituía, porventura, o conceito de um mundo material existente por si só a mais ridícula de todas as autocontradições? Ora, a ciência natural moderna, como dogma, baseava-se exclusivamente no postulado metafísico, segundo o qual o tempo, o espaço e a causalidade – a saber, as formas de conhecimento dentro das quais se passam os fenômenos do mundo – eram condições reais, existentes independentemente do nosso conhecimento. Essa afirmação monista era o mais berrante desaforo que já foi pespegado ao espírito. Em linguagem monista, o tempo, o espaço e a causalidade chamavam-se evolução, e com isso estava-se à frente do dogma central da pseudo-religião livre-pensadora e ateística, por meio da qual se tencionava abolir o primeiro Livro de Moisés e opor a sabedoria esclarecedora a uma fábula estultificante, como se Haeckel tivesse estado presente no momento em que nascia a Terra. Empirismo? O éter universal era, acaso, exato? O átomo, essa graciosa brincadeira matemática em torno da “parcela menor e indivisível” – existia uma prova que o demonstrasse? A teoria do espaço e do tempo infinitos fundava-se certamente na experiência; ou talvez não? Com efeito, qualquer pessoa que soubesse pensar logicamente seria levada a experiências curiosas e a resultados divertidos com esse dogma do espaço e do tempo infinitos e reais; obteria precisamente o resultado: nada. Perceberia que o tal realismo era genuíno niilismo. Por quê? Pela simples razão de a relação entre qualquer grandeza e o infinito ser zero. No infinito não existia medida, e na eternidade não havia nem duração nem modificação. No espaço infinito, onde todas as distâncias seriam matematicamente iguais a zero, não era possível conceber nem sequer dois pontos situados um ao lado do outro, e ainda menos dois corpos, para não falar de um movimento. Ele, Naphta, fazia questão de constatar isso, para contrariar o atrevimento com que a ciência materialista apresentava os disparates astronômicos e o seu palavrório frívolo acerca do universo como se fossem conhecimentos absolutos. Coitada da humanidade, que, em face de uma exposição ostensiva de cifras vazias, deixou que lhe impingissem o sentimento da sua própria nulidade e admitiu que a privassem do sentido patético da sua importância! Talvez fosse ainda tolerável que a razão e o conhecimento humanos se mantivessem dentro da esfera terrena e nesse campo tratassem como reais as suas experiências na exploração do objetivo e do subjetivo. Mas quando ultrapassassem esses limites e estendessem a mão para o enigma eterno, dedicando se à chamada cosmologia ou cosmogonia, levariam a brincadeira um pouco longe, e a sua presunção chegaria ao cúmulo do grotesco. Que absurdo blasfemo querer calcular a “distância” entre um astro e a Terra em trilhões de quilômetros ou também em anos-luz e imaginar que por meio dessas mentiras matemáticas se pudesse abrir ao espírito humano a vista para o infinito e o terreno, quando, em realidade, o infinito nada, absolutamente nada tinha que ver com grandezas, e a eternidade, nada com a duração e com os lapsos de tempo. Pelo contrário, o infinito e a eternidade, longe de serem conceitos da ciência natural, representavam justamente a abolição daquilo que chamamos natureza. A ingenuidade de uma criança que tomasse as estrelas por buracos no dossel celeste, através dos quais penetrasse a claridade eterna, lhe parecia mil vezes preferível a toda aquela lengalenga oca, disparatada, presunçosa, que a ciência monista produzia com respeito ao “universo”.
     Settembrini perguntou se Naphta, por sua parte, partilhava dessa crença quanto às estrelas, ao que o jesuíta respondeu que se reservava o direito da humildade e da liberdade do ceticismo. Essas palavras davam mais um ensejo para formar uma ideia daquilo que ele entendia por “liberdade”, e deixavam entrever aonde conduziria esse conceito. Se ao menos o Sr. Settembrini não tivesse motivos ponderáveis para recear que Hans Castorp achasse essas coisas dignas de serem ouvidas!
     A malícia de Naphta ficava à espreita de oportunidade para descobrir as fraquezas do progresso dominador da natureza e para demonstrar que os seus pioneiros e campeões sofriam recaídas muito humanas no irracional. Os aviadores, dizia ele, eram na maioria uns indivíduos suspeitos, de pouco valor, e sobretudo muitíssimo supersticiosos. Costumavam levar consigo a bordo dos aviões mascotes ou uma gralha, cuspiam três vezes em todas as direções e calçavam as luvas dos seus predecessores afortunados. Tal insensatez primitiva era, porventura, compatível com a concepção do mundo em que se alicerçava a sua profissão?... A contradição que Naphta acabava de revelar divertia-o, causava-lhe prazer, de maneira que insistia nessa tecla por muito tempo. Mas todos esses exemplos não são senão casos isolados do sem-número de ditos hostis proferidos por Naphta. Abandonemo-los para contar fatos infelizmente muito reais.
     Certa tarde de fevereiro, os cavalheiros se reuniram para uma excursão a Monstein, localidade situada a uma hora e meia de trenó da sua morada habitual. O grupo era formado por Naphta, Settembrini, Hans Castorp, Ferge e Wehsal. Foram em dois trenós, cada qual tirado por um só cavalo. No primeiro embarcaram Hans Castorp e o humanista, no segundo Naphta, Ferge e Wehsal, que se instalou na boléia, ao lado do cocheiro. Todos estavam bem agasalhados. Às três horas partiram do domicílio dos externos. Os guizos soavam simpaticamente através da paisagem silenciosa sob a sua coberta de neve, enquanto os trenós seguiam ao longo da encosta direita, passando por Frauenkirch e Glaris, rumo ao sul. Nuvens carregadas de neve aproximavam-se rapidamente, vindas dessa mesma direção, de modo que pouco depois desapareceu todo o azul do céu, salvo uma estreita nesga atrás deles, por cima da cordilheira Rética. O frio era intenso. As montanhas estavam envoltas em bruma. A estrada que percorriam, essa plataforma angusta, sem balaustrada, construída entre a parede e o abismo, subia uma vertente íngreme, coberta de abetos. Os cavalos avançavam a passo. Frequentemente vinham a seu encontro desportistas com trenós, deslizando pela encosta, e que desmontavam para dar-lhes passagem. Por detrás das curvas ressoavam em delicada advertência guizos estranhos. Trenós puxados por dois cavalos atrelados um atrás do outro passavam por eles, sendo então preciso esquivar-se com muita cautela. Perto da meta da viagem descortinava-se uma linda vista sobre um trecho rochoso da estrada de Zügen. Defronte ao pequeno hotel de Monstein, que se chamava Kurhaus, desembrulharam-se dos cobertores e caminharam alguns passos para poder contemplar o Stulsergrat. A gigantesca escarpa, de três mil metros de altura, estava escondida na bruma. Só se via em alguma parte um pico alto como o céu, superterreno, por assim dizer, recordando um longínquo Valhala, sagrado e inacessível. Hans Castorp estava cheio de admiração por esse espetáculo e exortou os outros a partilhar com ele desse sentimento. Foi ele quem, tomado de uma sensação de humildade, pronunciou a palavra “inacessível”, dando com isso ao Sr. Settembrini uma oportunidade para observar que aquele cume já havia sido escalado. Era, aliás, uma coisa que quase não existia mais, essa da inacessibilidade e dos lugares em que o homem ainda não houvesse posto o pé. Naphta retrucou que isso era um pequeno exagero e uma gabolice. E citou o monte Everest, que por enquanto opunha uma negativa glacial à arrogância dos homens e parecia querer obstinar-se nessa reserva. O humanista mostrou-se agastado. O grupo voltou ao Kurhaus, à frente do qual se achavam além dos seus próprios trenós mais alguns outros, desatrelados.
     No primeiro andar havia quartos numerados, onde a gente podia hospedar-se. Era também ali que estava situada a sala de refeições, de aspecto rústico, bem aquecida. Os excursionistas encarregaram a hoteleira solícita de lhes trazer uma pequena refeição: café, mel, pão branco e bolo de peras, a especialidade do lugar. Mandaram servir vinho tinto aos cocheiros. As outras mesas estavam ocupadas por turistas suíços e holandeses.
     Gostaríamos de afirmar que em torno da mesa dos nossos cinco amigos o café quente, muito digno de elogios, houvesse originado uma conversa mais elevada. Mas isso seria inexato, uma vez que essa conversa era em realidade um solilóquio de Naphta, que a monopolizou depois de umas poucas palavras com que os outros haviam contribuído para ela, um monólogo pronunciado de forma bastante estranha, censurável do ponto de vista das convenções, visto o ex-jesuíta se dirigir exclusivamente a Hans Castorp, doutrinando-o com muita amabilidade, ao passo que voltava as costas a seu outro vizinho, que era o Sr. Settembrini, e também não prestava a menor atenção aos dois outros senhores.
     Seria difícil definir qual era o tema das suas improvisações, que Hans Castorp acompanhava sacudindo a cabeça em sinal de meia aprovação. Não havia, em realidade, um assunto único. A palestra vagava livremente pela esfera do espírito, roçando isto e aquilo, empenhada, essencialmente, em demonstrar, de forma desanimadora, a ambiguidade dos fenômenos espirituais da vida, bem como a natureza irisante e a debilidade combativa das grandes ideias derivadas deles. Esforçava-se por tornar evidente que o absoluto se apresentava neste mundo em roupas muitíssimo cambiantes.
     A rigor se poderia dizer que a sua conferência se ocupava do problema da liberdade, que ele tratava com o propósito de criar confusão. Entre outras coisas, mencionamos o Romantismo e o fascinante sentido duplo, inerente a esse movimento europeu de princípios do século XIX, em face do qual fracassariam conceitos como “reação” ou “revolução”, a não ser que se reunissem num conceito superior. Naturalmente era ridículo querer associar o conceito do “revolucionário” apenas ao progresso e ao esclarecimento vitorioso. O Romantismo europeu tinha sido, antes de mais nada, um movimento libertador, de caráter anticlassicista e antiacadêmico, dirigido contra o gosto da França antiga, contra a velha escola da razão, cujos paladinos eram ridicularizados como cabeças de perucas empoadas.
     E Naphta veio a falar das Guerras de Libertação, do entusiasmo fichteano, do levantamento delirante, poético, de um povo contra uma tirania insuportável, que, desgraçadamente (ah, ah!), era a encarnação da liberdade, quer dizer, das ideias da Revolução. Que coisa divertida! Cantando a altas vozes, o povo erguera o braço para esmagar a tirania revolucionária em prol da opressão reacionária dos príncipes; e isso tinha sido feito em nome da liberdade!
     Aí o jovem ouvinte podia notar a diferença ou talvez a oposição existente entre a liberdade exterior e a interior. E ao mesmo tempo achava-se diante da escabrosa questão de saber que forma de servidão era mais ou (ah, ah!) menos compatível com a honra de uma nação.
     Em última análise, a liberdade era um conceito do Romantismo antes do que da Época das Luzes, pois com aquele tinha em comum o entrelaçamento inextricável dos impulsos de expansão coletiva e do ensimesmamento apaixonadamente individualístico. A sede individualística de liberdade originara o culto histórico-romântico do nacional, culto esse que era belicoso e que o liberalismo humanitário tachava de sinistro, posto que ele mesmo nada fizesse senão pregar o individualismo, somente de maneira um pouco diversa. O individualismo era romântico-medieval na sua concepção da infinita, da cósmica importância do indivíduo; dela resultavam a doutrina da imortalidade da alma, a teoria geocêntrica e a astrologia. Por outro lado, era o individualismo um aspecto do humanismo de tendências liberalísticas, que inclinava para a anarquia e queria, em todo caso, proteger o querido indivíduo contra o destino de ser imolado à coletividade. Um e outro aspecto eram individualismo, e esse termo servia para muita coisa.
     Mas devia-se admitir que o entusiasmo libertador tinha produzido os mais brilhantes adversários da liberdade, os mais engenhosos campeões do passado, no combate ao progresso impiamente destrutor. Naphta citou Arndt, que amaldiçoara o industrialismo e enaltecera a nobreza; mencionou também Görres, o autor da Mística cristã. A mística, acaso, nada tinha que ver com a liberdade? Não fora ela antiescolástica, antidogmática, anticlerical? Embora fosse forçoso considerar a hierarquia uma potência libertadora, desde que opusera um dique à monarquia absoluta... A mística da última fase da Idade Média pusera à prova o seu caráter liberal como precursora da Reforma. Sim, da Reforma (ah, ah!), que, por sua vez, havia sido um amálgama indissolúvel de liberdade e de reação medieval...
     E a obra de Lutero? Ah, sim, esta obra tinha o mérito de patentear com a mais crua nitidez a natureza dúbia da própria ação, da ação em geral. Sabia o ouvinte de Naphta o que era uma ação? Uma ação fora, por exemplo, o assassínio do Conselheiro de Estado Kotzebue pelo estudante Sand. Que fora aquilo que, para empregar a linguagem da criminologia, pusera a arma na mão do jovem Sand? O amor à liberdade, naturalmente! Mas, diante de uma observação mais detida, manifestava-se que, em realidade, não tinha sido esse amor, senão o fanatismo moral e o ódio à estrangeirice frívola. Por outro lado estivera Kotzebue a serviço dos russos, isto é, a serviço da Santa Aliança, de maneira que Sand talvez, apesar de tudo, o tivesse apunhalado em prol da liberdade... O que, no entanto, também parecia improvável, em face da circunstância de haver jesuítas entre os seus amigos mais íntimos. Em suma, fosse o que fosse a ação, em todo caso era um meio pouco adequado para expressar-se com clareza e contribuía pouco para resolver os problemas espirituais. 

– Posso me permitir a pergunta: quando o senhor tenciona terminar com essas indecências?

     Quem perguntara assim era o Sr. Settembrini, e isso num tom muito veemente. Mantivera-se quieto na sua cadeira, tamborilando na mesa e torcendo os bigodes. Mas aquilo lhe enchia as medidas. Sua paciência estava esgotada. Empertigava-se, numa posição mais do que ereta, com o rosto empalidecido. Era como se, apesar de sentado, se colocasse nas pontas dos pés, de modo que apenas as coxas tocavam o assento. Com os olhos brilhantes encarava o inimigo que acabava de voltar-se para ele com fingida surpresa. 

– Como houve por bem o senhor expressar-se? – foi a pergunta com que Naphta protestou. 
– Eu houve por bem... – disse o italiano, engolindo em seco – eu hei por bem declarar que estou decidido a impedir que o senhor continue a importunar a juventude indefesa com suas palavras equívocas! 
– Convido o senhor a ponderar o que diz. 
– Senhor, dispenso tal convite. Estou acostumado a ponderar o que digo, e a minha expressão corresponde exatamente às circunstâncias, quando afirmo que o seu jeito de perturbar o espírito da juventude já de per si vacilante, de seduzi-la e de debilitar-lhe a moral, é uma infâmia e que palavras não são suficientes para castigá-lo devidamente...

     Ao pronunciar a palavra “infâmia”, Settembrini golpeou a mesa com a palma da mão. A seguir empurrou a cadeira para trás e levantou-se, dando dessa forma aos outros o sinal para imitá-lo. As pessoas que se achavam nas outras mesas observavam a cena com perplexidade; eram os holandeses, visto os suíços já terem partido.
     Todos os componentes do nosso grupo encontravam-se, pois, de pé, em atitude tensa, Hans Castorp e os dois adversários, e em frente deles Ferge e Wehsal. Todos os cinco estavam pálidos, com os olhos arregalados e as bocas crispadas. Não poderiam os três desinteressados ter feito uma tentativa para intervir num sentido conciliador, afrouxando a tensão por meio de uma piada e arranjando tudo mediante um apelo humano? Não fizeram tal tentativa. O seu estado de espírito opunha-se a isso. Quedavam-se de pé, trêmulos, e, sem querer, suas mãos se fechavam. O próprio A. K. Ferge, que declaradamente nada entendia de quaisquer coisas sublimes e de antemão renunciava a imaginar o alcance da querela – também ele estava convencido de que desta vez não havia lugar para transigências e que as pessoas que, elas mesmas fascinadas, presenciavam a contenda, nada podiam fazer senão deixar as coisas tomarem seu curso normal. Seu bigode hirsuto e bonachão subia e descia em movimentos rápidos.
     Reinava completo silêncio, de forma que se podia ouvir como Naphta rangia os dentes. Isso representava para Hans Castorp uma experiência semelhante àquela dos cabelos eriçados de Wiedemann. Pensara ele que “ranger os dentes” fosse somente uma locução e não um fato que se pudesse produzir. Mas, nesse momento, o rangido ressoava realmente através do silêncio, um ruído bastante desagradável, selvagem e fantástico, que, no entanto, dava a prova de um formidável domínio de si próprio; pois, longe de gritar, o jesuíta disse em voz baixa, apenas com uma quase risada ofegante: 

– Infâmia? Castigar? Será que os burros virtuosos se metem a dar coices? Levamos a polícia pedagógica da civilização a desembainhar a espada? Eis o que chamo um êxito, facilmente obtido, logo de início, como acrescento com desdém, visto que uma ironia leve foi suficiente para mobilizar a virtude vigilante! Quanto ao resto, senhor, virá a seu tempo. Inclusive o tal castigo, sim, senhor! Espero que os seus princípios sociais não o impeçam de saber o que me deve. Caso contrário, ver-me-ei forçado a pôr esses princípios à prova por meios que...

     Um gesto terminante de Settembrini fez com que Naphta continuasse: 

– Ah, já vejo que isso não será necessário. Eu estou no seu caminho, o senhor está no meu. Muito bem, liquidemos essa pequena diferença num lugar adequado. De momento só quero dizer uma coisa: o seu temor devoto pela ideologia escolástica da revolução jacobina vê um crime pedagógico na minha maneira de induzir a juventude a duvidar, de derrubar as categorias e de privar as ideias da dignidade acadêmica da virtude. Esse temor é por demais compreensível, pois a sua humanidade saiu de moda – tenha certeza disso – saiu de moda, acabou-se! Hoje em dia já não passa de um rabicho, uma sensaboria classicista, um ennui espiritual que faz bocejar, e que a nova revolução, a nossa, senhor, está a ponto de abolir. Quando, na nossa função de educadores, semeamos a dúvida, uma dúvida mais profunda do que jamais imaginou o seu modesto espírito esclarecido, sabemos perfeitamente o que estamos fazendo. Unicamente do ceticismo radical, do caos moral nasce o absoluto, o terror sagrado de que carece o nosso tempo. Isso lhe digo para justificar-me e para instruí-lo. O resto pertence a um outro capítulo. O senhor terá notícias minhas. 
– Estou ansioso por recebê-las, senhor! – gritou Settembrini por trás de Naphta, que, abandonando a mesa, se encaminhava ao cabide para apanhar o seu casaco de pele. A seguir, o maçom deixou-se cair pesadamente na cadeira e apertou o coração com ambas as mãos.
Distruttore! Cane arrabiato! Bisogna ammazzarlo! – sibilou arfando. 

     Os outros continuavam de pé em torno da mesa. Os bigodes de Ferge prosseguiam subindo e descendo. Wehsal deixava pender obliquamente a mandíbula inferior. Hans Castorp arremedava o jeito do avô quando escorava o queixo no colarinho, porque sentia a nuca tremer. Todos estavam pensando no inesperado desfecho da sua excursão. Todos, sem exceção do Sr. Settembrini, pensavam também na circunstância feliz de terem alugado dois trenós em vez de um em comum, o que pelo menos facilitava o regresso. Mas que haveria depois? 

– Ele provocou o senhor para um duelo – disse Hans Castorp com o coração angustiado. 
– Com efeito – respondeu Settembrini, erguendo o olhar para o jovem que se achava de pé à sua frente. Mas logo o desviou dele e descansou a cabeça na mão. 
– O senhor aceita? – quis Wehsal saber. 
– Que pergunta! – retrucou Settembrini, lançando também a ele um rápido olhar. – Senhores – continuou então, levantando-se completamente controlado –, lastimo que o nosso passeio tenha chegado a este fim, mas, na vida que vivemos, todo homem deve andar preparado para essa espécie de incidentes. Teoricamente desaprovo o duelo. Por índole sou obediente à lei... Na prática, porém, o caso é diferente, e existem situações onde... existiam contrastes que... Numa palavra, estou à disposição desse cavalheiro. Ainda bem que na minha juventude pratiquei um pouco de esgrima. Algumas horas de treino hão de me devolver a agilidade do punho. Vamos embora! A respeito de tudo o mais a gente se porá de acordo. Acho que aquele senhor já terá dado ordem para atrelar.
   
continua pág 461...
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Leia também:

Capítulo I / A Chegada
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo VI / Transformações (a)  
Capítulo VII
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.