quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Machado de Assis - D. Benedita: Capítulo I

Avulsos - ...


Machado de Assis




D. BENEDITA
UM RETRATO
 



ÍNDICE

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV


CAPÍTULO PRIMEIRO





A coisa mais árdua do mundo, depois do ofício de governar, seria dizer a idade exata de D. Benedita. Uns davam-lhe quarenta anos, outros quarenta e cinco, alguns trinta e seis. Um corretor de fundos descia aos vinte e nove; mas esta opinião, eivada de intenções ocultas, carecia daquele cunho de sinceridade que todos gostamos de achar nos conceitos humanos. Nem eu a cito, senão para dizer, desde logo, que D. Benedita foi sempre um padrão de bons costumes. A astúcia do corretor não fez mais do que indigná-la, embora, momentaneamente; digo momentaneamente. Quanto às outras conjeturas, oscilando entre os trinta e seis e os quarenta e cinco, não desdiziam das feições de D. Benedita, que eram maduramente graves e juvenilmente graciosas. Mas, se alguma coisa admira é que houvesse suposições neste negócio, quando bastava interrogá-la para saber a verdade verdadeira.

D. Benedita fez quarenta e dois anos no domingo dezenove de setembro de 1869.

São seis horas da tarde; a mesa da família está ladeada de parentes e amigos, em número de vinte ou vinte e cinco pessoas. Muitas dessas estiveram no jantar de 1868, no de 1867 e no de 1866, e ouviram sempre aludir francamente à idade da dona da casa. Além disso, veem-se ali, à mesa, uma moça e um rapaz, seus filhos; este é, decerto, no tamanho e nas maneiras, um tanto menino; mas a moça, Eulália, contando dezoito anos, parece ter vinte e um, tal é a severidade dos modos e das feições.

A alegria dos convivas, a excelência do jantar, certas negociações matrimoniais incumbidas ao cônego Roxo, aqui presente, e das quais se falará mais abaixo, as boas qualidades da dona da casa, tudo isso dá à festa um caráter íntimo e feliz. O cônego levanta-se para trinchar o peru. D. Benedita acatava esse uso nacional das casas modestas de confiar o peru a um dos convivas, em vez de o fazer retalhar fora da mesa por mãos servis, e o cônego era o pianista daquelas ocasiões solenes. Ninguém conhecia melhor a anatomia do animal, nem sabia operar com mais presteza. Talvez, — e este fenômeno fica para os entendidos, — talvez a circunstância do canonicato aumentasse ao trinchante, no espírito dos convivas, uma certa soma de prestígio, que ele não teria, por exemplo, se fosse um simples estudante de matemáticas, ou um amanuense de secretaria. Mas, por outro lado, um estudante ou um amanuense, sem a lição do longo uso, poderia dispor da arte consumada do cônego? É outra questão importante.

Venhamos, porém, aos demais convivas, que estão parados, conversando; reina o burburinho próprio dos estômagos meio regalados, o riso da natureza que caminha para a repleção; é um instante de repouso.

D. Benedita fala, como as suas visitas, mas não fala para todas, senão para uma, que está sentada ao pé dela. Essa é uma senhora gorda, simpática, muito risonha, mãe de um bacharel de vinte e dois anos, o Leandrinho, que está sentado defronte delas. D. Benedita não se contenta de falar à senhora gorda, tem uma das mãos desta entre as suas; e não se contenta de lhe ter presa a mão, fita-lhe uns olhos namorados, vivamente namorados. Não os fita, note-se bem, de um modo persistente e longo, mas inquieto, miúdo, repetido, instantâneo. Em todo caso, há muita ternura naquele gesto; e, dado que não a houvesse, não se perderia nada, porque D. Benedita repete com a boca a D. Maria dos Anjos tudo o que com os olhos lhe tem dito:
— que está encantada, que considera uma fortuna conhecê-la, que é muito simpática, muito digna, que traz o coração nos olhos, etc., etc., etc. Uma de suas amigas diz-lhe, rindo, que está com ciúmes.

— Que arrebente! responde ela, rindo também.

E voltando-se para a outra:

— Não acha? ninguém deve meter-se com a nossa vida.

E aí tornavam as finezas, os encarecimentos, os risos, as ofertas, mais isto, mais aquilo, — um projeto de passeio, outro de teatro, e promessas de muitas visitas, tudo com tamanha expansão e calor, que a outra palpitava de alegria e reconhecimento.

O peru está comido. D. Maria dos Anjos faz um sinal ao filho; este levanta-se e pede que o acompanhem em um brinde:

— Meus senhores, é preciso desmentir esta máxima dos franceses: — les absents ont tort. Bebamos a alguém que está longe, muito longe, no espaço, mas perto, muito perto, no coração de sua digna esposa: — bebamos ao ilustre Desembargador Proença.

A assembleia não correspondeu vivamente ao brinde; e para compreendê-lo basta ver o rosto triste da dona da casa. Os parentes e os mais íntimos disseram baixinho entre si que o Leandrinho fora estouvado; enfim, bebeu-se, mas sem estrépito; ao que parece, para não avivar a dor de D. Benedita. Vã precaução! D. Benedita, não podendo conter-se, deixou rebentarem-lhe as lágrimas, levantou-se da mesa, retirou-se da sala. D. Maria dos Anjos acompanhou-a. Sucedeu um silêncio mortal entre os convivas. Eulália pediu a todos que continuassem, que a mãe voltava já.

— Mamãe é muito sensível, disse ela, e a ideia de que papai está longe de nós...

O Leandrinho, consternado, pediu desculpa a Eulália. Um sujeito, ao lado dele, explicou-lhe que D. Benedita não podia ouvir falar do marido sem receber um golpe no coração — e chorar logo; ao que o Leandrinho acudiu dizendo que sabia da tristeza dela, mas estava longe de supor que o seu brinde tivesse tão mau efeito.

— Pois era a coisa mais natural, explicou o sujeito, porque ela morre pelo marido.

— O cônego, acudiu Leandrinho, disse-me que ele foi para o Pará há uns dois anos...

— Dois anos e meio; foi nomeado desembargador pelo ministério Zacarias. Ele queria a Relação de São Paulo, ou da Bahia; mas não pôde ser e aceitou a do Pará.

— Não voltou mais?

— Não voltou.

— D. Benedita naturalmente tem medo de embarcar...

— Creio que não. Já foi uma vez à Europa. Se bem me lembro, ela ficou para arranjar alguns negócios de família; mas foi ficando, ficando, e agora...

— Mas era muito melhor ter ido em vez de padecer assim... Conhece o marido?

— Conheço; um homem muito distinto, e ainda moço, forte; não terá mais de quarenta e cinco anos. Alto, barbado, bonito. Aqui há tempos disse-se que ele não teimava com a mulher, porque estava lá de amores com uma viúva.

— Ah!

— E houve até quem viesse contá-lo a ela mesma. Imagine como a pobre senhora ficou! Chorou uma noite inteira, no dia seguinte não quis almoçar, e deu todas as ordens para seguir no primeiro vapor.

— Mas não foi?

— Não foi; desfez a viagem daí a três dias.

D. Benedita voltou nesse momento, pelo braço de D. Maria dos Anjos. Trazia um sorriso envergonhado; pediu desculpa da interrupção, e sentou-se com a recente amiga ao lado, agradecendo os cuidados que lhe deu, pegando-lhe outra vez na mão.

— Vejo que me quer bem, disse ela.

— A senhora merece, disse D. Maria dos Anjos.

— Mereço? inquiriu ela entre desvanecida e modesta.

E declarou que não, que a outra é que era boa, um anjo, um verdadeiro anjo; palavra que ela sublinhou com o mesmo olhar namorado, não persistente e longo, mas inquieto e repetido. O cônego, pela sua parte, com o fim de apagar a lembrança do incidente, procurou generalizar a conversa, dando-lhe por assunto a eleição do melhor doce. Os pareceres divergiram muito. Uns acharam que era o de coco, outros o de caju, alguns o de laranja, etc. Um dos convivas, o Leandrinho, autor do brinde, dizia com os olhos, — não com a boca, — e dizia-o de um modo astucioso, que o melhor doce eram as faces de Eulália, um doce moreno, corado; dito que a mãe dele interiormente aprovava, e que a mãe dela não podia ver, tão entregue estava à contemplação da recente amiga. Um anjo, um verdadeiro anjo!





continua página 52 ...


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Machado de Assis - D. Benedita: Capítulo I
Machado de Assis - D. Benedita: Capítulo II

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ÍNDICE:


ADVERTÊNCIA 
O ALIENISTA 
TEORIA DO MEDALHÃO 
A CHINELA TURCA 
NA ARCA 
D. BENEDITA 
O SEGREDO DO BONZO 
O ANEL DE POLÍCRATES
O EMPRÉSTIMO 
A SERENÍSSIMA REPÚBLICA 
O ESPELHO 
UMA VISITA DE ALCIBÍADES 
VERBA TESTAMENTÁRIA 
NOTAS DO AUTOR
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Papéis Avulsos

Texto-fonte:
Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994. 
Publicado originalmente por Lombaerts & Cia, Rio de Janeiro, 1882.



Nada tenho que ver com a ciência; mas se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (31)

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Vol 1



1
Estudos de Costumes 
- Cenas da Vida Privada




Memórias de duas jovens esposas





PRIMEIRA PARTE



XXXI – RENATA DE L’ESTORADE A LUÍSA DE MACUMER 



Breve fará cinco meses que dei à luz e não achei, querida, um único momentinho para te escrever. Quando fores mãe, tu me desculparás mais plenamente do que o fizeste, pois me castigaste rareando tuas cartas. Escreve-me, querida mimosa! Dize-me todos os teus prazeres, pinta-me em cores bem vivas a tua felicidade, podes carregar nas tintas sem receio de me aborrecer, pois sou feliz e mais feliz do que jamais o imaginarias.

Fui à capela ouvir uma missa de purificação, com grande pompa, como é de uso nas nossas velhas famílias provençais. Os dois avós, o pai de Luís e o meu, deram-me o braço. Ah! Nunca me ajoelhei perante Deus em semelhante acesso de gratidão. Tenho tanta coisa a dizer-te, tanto sentimento a descrever-te que não sei por onde começar; mas, do seio desta confusão, ergue-se uma recordação radiosa, a da minha prece na igreja!

Quando, neste lugar, onde, donzela, duvidei da vida e de meu futuro, me vi metamorfoseada em mãe feliz, acreditei ver a Virgem do altar inclinando a cabeça e me mostrando o Menino Jesus que parecia sorrir-me! Com que santa efusão de amor celestial eu apresentei nosso pequenino Armando à bênção do padre, que o purificou antes do batismo. Mas nos verás juntos, Armando e eu.

Minha filha — aqui estou a te chamar de minha filha! Mas é efetivamente a mais doce palavra que existe no coração, na inteligência e nos lábios, quando se é mãe —, portanto, minha filha, arrastei-me durante os dois últimos meses, muito languidamente nos nossos jardins, cansada, acabrunhada pelo incômodo daquele fardo que eu não sabia tão caro e tão suave, apesar dos aborrecimentos desses dois meses. Tinha tantas apreensões, tantas previsões mortalmente sinistras, que a curiosidade não vencia: eu me sugestionava, a mim mesma dizia que nada do que a natureza exige é de temer, a mim mesma prometia ser mãe! Ai de mim! Nada sentia no coração, enquanto pensava nessa criança que me dava rudes pontapés no ventre; e, minha querida, pode-se gostar de os receber quando já se teve filhos; mas, pela primeira vez, essas manifestações de uma vida desconhecida causam mais espanto do que prazer. Falo-te de mim, que não sou nem falsa, nem teatral, e cujo fruto vinha mais de Deus, porquanto Deus dá os filhos, do que de um homem amado. Deixemos essas tristezas passadas e que não mais voltarão, assim o creio.

Quando sobreveio a crise, juntei em mim os elementos de tal resistência, preparei-me para tais dores, que suportei maravilhosamente, assim dizem, aquela horrível tortura. Houve uma hora, mais ou menos, minha mimosa, durante a qual me abandonei a um aniquilamento, cujos efeitos foram os de um sonho. Senti-me desdobrar: um invólucro atenazado, dilacerado, torturado, e uma alma plácida. Nesse estado singular, o sofrimento floresceu como uma coroa por sobre minha cabeça. Pareceu-me que uma imensa rosa que brotara de meu crânio crescia e me envolvia. A cor rósea dessa flor sangrenta estava no ar. Eu via tudo vermelho. Assim, chegada ao ponto em que parecem prestes a separar-se o corpo e a alma, alanceou-me uma dor que me fez crer numa morte imediata. Dei gritos horríveis e adquiri novas forças contra novas dores. Esse horroroso concerto de clamores foi subitamente coberto, para mim, pelo delicioso canto dos vagidos argentinos do pequeno ser. Não, nada te poderá descrever esse momento: parecia-me que o mundo inteiro clamava comigo, que tudo eram dores ou bramidos, e tudo foi como que abafado por aquele flébil grito de criança. Tornaram-me a levar para a minha cama, onde penetrei como num paraíso, embora estivesse num estado de fraqueza extrema. Três ou quatro alegres rostos, com os olhos marejados de lágrimas, mostraram-me, então, a criança. Querida, gritei de susto.

— Que macaquinho! — disse eu. — Têm certeza de que é uma criança? — perguntei.

Tornei a deitar-me, muito desolada por me sentir tão pouco mãe.

— Não se atormente, querida — disse-me minha mãe, que se constituíra minha enfermeira —, você fez a mais bela criança do mundo. Evite perturbar a sua imaginação, precisa empregar toda a sua inteligência em animalizar-se, fazer exatamente como a vaca que pasta para ter leite.

Adormeci com a firme intenção de me deixar arrastar pela natureza. Ah! Meu anjo, o despertar de todas aquelas dores, daquelas confusas sensações, daqueles primeiros dias em que tudo é obscuro, penoso e indeciso, foi divino. Aquelas trevas foram animadas por uma sensação, cujas delícias ultrapassavam as do primeiro grito de meu filho. Meu coração, minha alma, meu ser, um eu desconhecido foi despertado em seu invólucro, até então desbotado e sofredor, como uma flor que se alçasse de sua semente ao brilhante apelo do sol. O pequeno monstro tomou meu seio e sugou-o: eis o fiat lux. Senti-me subitamente mãe. Eis a felicidade, a alegria, uma alegria inefável, conquanto acompanhada de algumas dores. Ó, minha bela ciumenta, quanto apreciarás um prazer que se passa entre a mãe, o filho e Deus. Esse pequeno ser não conhece senão nosso seio. No mundo, para ele, somente existe esse ponto brilhante; ele o ama com todas as suas forças, não pensa senão nessa fonte de vida, a ela vem e dela se vai para dormir e desperta para voltar a ela. Seus lábios têm um amor inexprimível e, quando se colam ao seio, causam, ao mesmo tempo, uma dor e um prazer, um prazer que vai até a dor, ou uma dor que termina num prazer; não te saberia explicar essa sensação que do seio irradia em mim até as fontes da vida, pois parece um centro de onde partem mil raios que alegram o coração e a alma. Dar vida nada é; mas amamentar é dar vida a todo momento. Oh! Luísa, não há carícia de amante que valha as dessas pequeninas mãos rosadas, que afagam tão suavemente e procuram agarrar-se à vida. Que olhares passeia um filho, alternativamente, de nosso seio aos nossos olhos! Que sonhos temos ao vê-lo suspenso pelos lábios ao seu tesouro! Não interessa menos a todas as forças do espírito do que a todas as do corpo, solicita quer o sangue, quer a inteligência, e satisfaz-nos além dos nossos desejos. Aquela adorável sensação de seu primeiro grito, que foi para mim o que o primeiro raio de sol foi para a terra, eu tornei a senti-la, ao sentir meu leite encher-lhe a boca; tornei a senti-la ao receber o seu primeiro olhar; acabo de senti-la ao saborear, no seu primeiro sorriso, o seu primeiro pensamento. Ele riu, minha querida. Esse riso, esse olhar, aquela mordida, aquele grito, esses quatro gozos são infinitos: vão até o fundo do coração e lá fazem vibrar cordas que somente eles podem tocar! Os mundos devem prender-se a Deus, como uma criança se prende a todas as fibras de sua mãe: Deus é um grande coração de mãe. Nada há de visível nem de perceptível na concepção, nem mesmo na gravidez; mas amamentar, minha Luísa, é uma felicidade de todos os instantes. Vê-se no que se transforma o leite, faz-se carne, floresce na ponta desses dedos mimosos que se assemelham a flores e delas têm a delicadeza; cresce em unhas finas e transparentes, afila-se em cabelos, agita-se com os pés. Oh! Os pés de uma criança são uma linguagem completa. É por eles que a criança começa a expressar-se. Amamentar, Luísa!, é uma transformação que se segue de hora em hora e com olhos assombrados. Os gritos não são escutados pelos ouvidos, mas pelo coração; os sorrisos dos olhos e dos lábios, ou os movimentos dos pés, a gente os compreende como se Deus nos escrevesse em letras de fogo no espaço! Não há mais nada no mundo que nos interesse: o pai?... Seríamos capazes de matá-lo se ele se lembrasse de despertar a criança. Somos exclusivamente o mundo para essa criança, como a criança é o mundo para nós! Temos tanta certeza de que a nossa vida é partilhada, somos tão amplamente recompensadas dos trabalhos que nos impomos e dos sofrimentos que experimentamos — pois que há sofrimentos... Deus te preserve de ter assaduras no seio! Essa ferida que se reabre sob os lábios rosados, que tão dificilmente se cura e que causa torturas de enlouquecer — se não tivéssemos a alegria de ver a boca da criança lambuzada de leite —, é uma das mais terríveis punições da beleza. Minha Luísa, lembra-te, isso só acontece com uma pele fina e delicada.

O meu macaquinho tornou-se, em cinco meses, a mais linda criatura que uma mãe já tenha banhado de lágrimas felizes, lavado, esfregado, penteado, empoado; pois Deus sabe com que infatigável ardor empoamos, vestimos, esfregamos, lavamos, mudamos e beijamos essas pequeninas flores! Portanto, meu macaquinho não é mais um macaco, mas sim um baby, como diz a ama-seca inglesa, um baby, alvo e rosado; e como ele se sente querido não grita muito; mas, realmente, eu quase não o deixo e esforço-me em penetrá-lo com a minha alma.

Querida, tenho agora, no coração, por Luís, um sentimento que não é o amor, mas que, numa mulher amorosa, deve completar o amor. Quem sabe se essa ternura, essa gratidão, livre de qualquer interesse, não vai além do amor? Por tudo o que me disseste, querida mimosa, o amor tem algo de horrivelmente terrestre, ao passo que há não sei que de religioso e de divino na afeição que uma mãe feliz tributa àquele de quem procedem essas longas, essas eternas alegrias. A felicidade de uma mãe é uma luz que jorra até sobre o futuro e o ilumina, mas que se reflete sobre o passado para lhe dar o encanto das recordações.

O velho Estorade e o filho redobraram de bondade para comigo, sou para eles como uma nova criatura: suas palavras, seus olhares chegam-me à alma, pois me festejam todas as vezes que me veem ou me falam. O velho avô torna-se criança, creio: olha-me com admiração. A primeira vez que desci para almoçar e ele me viu comendo e dando de mamar ao seu neto, chorou. Essas lágrimas, naqueles olhos secos, onde brilham somente pensamentos de dinheiro, causaram-me um bem inexprimível; pareceu-me que o bom velho compreendia minhas alegrias. Quanto a Luís, teria sido capaz de dizer às árvores e às pedras da estrada que tinha um filho. Passa horas inteiras a contemplar o teu afilhado adormecido. Diz ele que não sabe quando se acostumará a isso. Essas excessivas demonstrações de alegria revelaram-me a extensão de suas apreensões e temores. Luís acabou confessando-me que duvidava de si mesmo e se julgava condenado a nunca ser pai. Meu pobre Luís teve uma súbita mudança para melhor, estuda agora mais do que antes. A criança duplicou a ambição do pai. Quanto a mim, alma querida, sinto-me cada vez mais feliz. Cada hora que passa acrescenta novo laço entre mãe e filho. O que sinto em mim demonstra-me que esse sentimento é imorredouro, natural, de todos os instantes; ao passo que suspeito o amor, por exemplo, de ter as suas intermitências. Não se ama do mesmo modo a todos os momentos, sobre esse tecido da vida não se bordam flores brilhantes, enfim, o amor pode e deve cessar; o sentimento materno, porém, não tem declínios a temer, cresce com as necessidades da criança, desenvolve-se com ela. Pois não é ao mesmo tempo uma paixão, uma necessidade, um sentimento, um dever, uma obrigação, a felicidade? Sim, mimosa, é essa a vida particular da mulher. Nossa sede de devotamento satisfaz-se com isso, e nesse sentimento não deparamos com as perturbações do ciúme. Por isso é talvez, para nós, o único ponto em que a natureza e a sociedade estão de acordo. Nisso a sociedade enriqueceu a natureza, pois aumentou o sentimento materno com o espírito de família, a continuidade de nome, de sangue, de fortuna. De que amor uma mulher não deverá cercar o querido ser que, primeiro que todos, lhe fez conhecer semelhante felicidade, lhe fez desenvolver as forças de sua alma e lhe ensinou a grande arte da maternidade? O direito de primogenitura, que, por sua antiguidade, é tão velho como o mundo e se confunde com a origem das sociedades não me parece passível de discussão. Ah! Quanta coisa um filho ensina a sua mãe! Há tantas promessas feitas entre nós e a virtude, nessa proteção incessante devida a um ser fraco, que a mulher não se acha na sua verdadeira esfera senão quando é mãe; só então é que ela desenvolve suas forças, pratica os deveres de sua vida, tem todas as felicidades e todos os prazeres. Uma mulher que não tem filhos é um ser incompleto e frustrado. Apressa-te em ser mãe, meu anjo! Multiplicarás tua felicidade atual por todas as muitas volúpias.

Deixei-te ao ouvir teu afilhado gritar, e esse grito ouvi-o do fundo do jardim. Não quero mandar-te esta carta sem te dizer uma palavra de adeus; acabo de relê-la e estou espantada com as vulgaridades de sentimento que ela contém. O que sinto, ai de mim!, parece-me que todas as mães o sentiram como eu e o devem ter exprimido do mesmo modo, e que tu zombarás de mim, como se zomba da ingenuidade de todos os pais que falam da inteligência e da beleza de seus filhos, achando sempre neles algo de particular. Enfim, querida mimosa, a chave desta carta, ei-la aqui, repito: sou tão feliz agora quanto era infeliz antes. Esta casinha de campo, que aliás se vai transformando numa fazenda, num morgadio, é, para mim, a terra prometida. Acabei atravessando o meu deserto. Mil ternuras, querida mimosa. Escreve-me, posso hoje ler sem chorar as descrições da tua felicidade e do teu amor. Adeus.



continua pág 316...

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Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 de agosto de 1850) foi um produtivo escritor francês, notável por suas agudas observações psicológicas. É considerado o fundador do Realismo na literatura moderna.[1][2] Sua magnum opus, A Comédia Humana, consiste de 95 romances, novelas e contos que procuram retratar todos os níveis da sociedade francesa da época, em particular a florescente burguesia após a queda de Napoleão Bonaparte em 1815.

Entre seus romances mais famosos destacam-se A Mulher de Trinta Anos (1831-32), Eugènie Grandet (1833), O Pai Goriot (1834), O Lírio do Vale (1835), As Ilusões Perdidas (1839), A Prima Bette (1846) e O Primo Pons (1847). Desde Le Dernier Chouan (1829), que depois se transformaria em Les Chouans (1829, na tradução brasileira A Bretanha), Balzac denunciou ou abordou os problemas do dinheiro, da usura, da hipocrisia familiar, da constituição dos verdadeiros poderes na França liberal burguesa e, ainda que o meio operário não apareça diretamente em suas obras, discorreu sobre fenômenos sociais a partir da pintura dos ambientes rurais, como em Os Camponeses, de 1844.[1] Além de romances, escreveu também "estudos filosóficos" (como A Procura do Absoluto, 1834) e estudos analíticos (como a Fisiologia do Casamento, que causou escândalo ao ser publicado em 1829).

Balzac tinha uma enorme capacidade de trabalho, usada sobretudo para cobrir as dívidas que acumulava.[1] De certo modo, suas despesas foram a razão pela qual, desde 1832 até sua morte, se dedicou incansavelmente à literatura. Sua extensa obra influenciou nomes como Proust, Zola, Dickens, Dostoyevsky, Flaubert, Henry James, Machado de Assis, Castelo Branco e Ítalo Calvino, e é constantemente adaptada para o cinema. Participante da vida mundana parisiense, teve vários relacionamentos, entre eles um célebre caso amoroso, desde 1832, com a polonesa Ewelina Hańska, com quem veio a se casar pouco antes de morrer.


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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Balzac, Honoré de, 1799-1850. 
          A comédia humana: estudos de costumes: cenas da vida privada / Honoré de Balzac;                            orientação, introduções e notas de Paulo Rónai; tradução de Vidal de Oliveira; 3. ed. – São                  Paulo: Globo, 2012. 

          (A comédia humana; v. 1) Título original: La comédie humaine ISBN 978-85-250-5333-1                    0.000 kb; ePUB 

1. Romance francês i. Rónai, Paulo. ii. Título. iii. Série. 

12-13086                                                                               cdd-843 

Índices para catálogo sistemático: 
1. Romances: Literatura francesa 843

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Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (11)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (12)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (12b)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (13)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (14)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (15)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (16)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (17)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (18)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (19)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (20)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (21)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (22)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (23)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (24)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (31)


parábolas de uma professora: Eva e a uva

parábolas de uma professora


a Eva e a uva
Ensaio 016B – 3ª.ed



baitasar e paulus e marko e kamilá




estávamos em silêncio, sentadas e bem comportadas nas cadeiras de fórmica verde, observando o Rodolfo e o Marko com suas palavras e olhares de provocação, todos e todas somos mais ou menos exibidas, mas dava para perceber a postura orgulhosa dos dois, nenhum homem está salvo da própria história, o fascínio e o assombro de ser homem, rostos abismados e aturdidos, mas nunca desnorteados, donos de tudo, as caras que Rodolfo fazia mostravam além, anunciavam o seu desprezo, Como esse homenzinho torto de ideias – e seus óculos ridículos – tem coragem de dizer isso? Parece uma mulherzinha...

Colegas, precisamos nos acalmar, está bem, a altíssima nos vigiava de perto, o poder seja qual for – mesmo o legítimo – tem receio do debate, está sempre atenta e se faz presente, a raiva pode ser perigosa, não concordam? Sei que é difícil entrar e sair de um debate sem que a emoção, em algum momento, acelere nossos corações e suba o tom das palavras, mas estamos entre colegas, não estamos? É nossa reunião pedagógica, certo?

às vezes, não entendo a altíssima tentando amornar as disputas, ora se aproxima ora se afasta de confrontar essa vida minguada de beleza, mas recheada de fome, pobreza, injustiça, opressão, doenças, violências e ignorância, quanto medo temos das palavras mais profundas da outra pessoa, os pensamentos guardados falando sozinhos são os mais perigosos, adormecidos e latejando, uma infecção se alastrando

Sei que algumas de vocês não me entendem, mas quero lembrar que criar com nossas mãos, palavras e coração o mundo da esperança requer mais que insultos. Desaforos não legitimam as ideias, discernimento, discernimento...

não sei se a altíssima percebeu meu sorriso amargo, a história me parece um histórico recomeço de recontar a prosperidade que está logo ali, na esquina sem endereço, mas parece que para o professor Rodolfo está tudo muito claro e definido, a estrada traçada e o mapa desenhado

Estamos vivendo tudo isso porque nossos jovens não têm disciplina! Essa escola parece uma colônia de delinquentes juvenis. Repito: Nossos jovens não têm disciplina, não sabem o Hino Nacional – muito menos, nosso valoroso Hino Rio-grandense –, precisam de uma educação familiar com disciplina e um ensino escolar sem ideologia política para ensinar o que é certo e o que é errado. Precisamos fortalecer a disciplina e decorar nossos hinos! Rezar mais e rir menos! Tenho guardado um livrinho de civismo e OSPB que herdei do papai. Acredito que o Paulo vai lembrar desse livrinho, estou com ele guardado todos esses anos. Às vezes, abro suas páginas e me arrepia o que leio. Uma relíquia. É esse arrepio que gostaria de ver nessas gerações novas, esse sentimento de Pátria Amada Acima de Todos, mas elas não sabem nem conhecem esse livrinho, muito menos, o que está escrito nele.

olho para o Paulo, sempre penso nas suas palavras quando o discurso dos sem ideologia e sem política ressurge, um discurso que tem lugar garantido nos desejos de dominação da vida do outro e das outras, o ecumenismo da política sem política, onde a pátria é a trincheira do homem e da mulher de bem acima do bem

Professora Rachel, gostaria de dizer umas duas ou três palavras, se me permite, já que fui citado, sobre as palavras do querido professor Rodolfo. Prometo que não quero me estender muito, mas acho que o momento requer uma pequena reflexão sobre a Eva e a uva.

o professor Rodolfo atira o seu gemido de desdém – ou teria vomitado seu mal-estar? – ao ser confrontado com suas verdades seculares de opressão

Professor Paulo, por favor, sabemos que estudos bíblicos não é a sua disciplina curricular. O seu forte é o comunismo. E já anuncio que vou lutar para termos mais ensino religioso em nossas escolas, mas, por ora, deixemos a coitada da Eva e o seu pecado original para quem entende do assunto. O senhor não concorda?

Desculpe, Rodolfo, não era essa a minha intenção, por agora. Mas gostaria de conversar sobre as nossas vidas serem geridas por minorias ínfimas e sem justiça que não seja dessa da classe dominante. Posso?

A troco do quê? Qual a razão? Essa sua conversinha mole de comunistinha não me agrada.

Mas foi o professor que me citou...

E já me arrependo! Posso retirar a citação?

Pode, claro. Mas não lhe parece estranho e oportunista que quando a conversa encetada não corresponde aos seus planos – e arrepios – o senhor resolve silenciar a treta? O esvaziamento das ideias. Não, não vou permitir que interdite o que penso. O senhor pode e deve – e não precisa minha permissão, claro – criticar e argumentar minhas palavras, mas vou dizê-las. Aceite o peixe, às vezes, não é preciso pescar, o pescador pode ser outro ou outra: isso pode ser política, isso pode ser ideologia, e pode ser bom senso, mas saiba que o preço do peixe é política, o preço da carne é política, todos os nossos atos e omissões no cotidiano são ideológicos e políticos. O simples ato de separar os resíduos secos e orgânicos em nossas casas é ideológico e político. E o senhor... está ao lado do opressor ou do oprimido? Isso também é político e ideológico. Mas para responder essa pergunta, cada um de nós e cada uma de nós, precisa saber quem é, onde está, qual o lugar que ocupa, e depois, descobrir que não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho. Não basta ler livrinhos de civismo e ficar arrepiado. É preciso descobrir quem lucra com esse patriotismo de retórica arrepiada.

Retórica! Agora, Pátria e Deus viraram retórica! Cada um inventa a Pátria e o Deus que quiser, é isso?!

uau, ele está começando a entender... não, acho que não, a doação de si próprio não é generosa, não entende que nossa liberdade é abstrata, não tem a ver com disciplina do colégio, restrições familiares ou hábitos sociais



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Leia também:

parábolas: ensaio 001A / Camarada, Ofélia!
parábolas: ensaio 002A / o coração livre para voar
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parábolas: ensaio 004A / uma carreta de bois
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parábolas: ensaio 006A / civismo cínico
parábolas: ensaio 007A / o compromisso
parábolas: ensaio 008A / minicontos de natal
parábolas: ensaio 009A / a fome que nunca passa
parábolas: ensaio 010A / o medo no cardápio pedagógico
parábolas: ensaio 011A / o futuro não é eterno
parábolas: ensaio 012A / o bufê das comidas invisíveis
parábolas: ensaio 013B / o sorriso cínico da desesperança maliciosa
parábolas: ensaio 014B / a esperança mobiliza a realidade
parábolas: ensaio 015B / silenciar o outro não é educar
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parábolas: ensaio 017B / acertou, ele mesmo...

Úrsula - VIII Luísa B. (1)

 Maria Firmina dos Reis


Úrsula



VIII - Luísa B. 



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O dia ia já alto quando Úrsula entrou no quarto de sua mãe, e esta admirada de não vê-la logo ao amanhecer, como de costume, começava a inquietar-se, e por isso estendeu-lhe os braços com transporte de indizível satisfação, e disse-lhe: — Dormiste hoje muito, minha cara Úrsula, e eu julguei que me tinhas esquecido.

Suposto a voz de Luísa nada tivesse de repreensiva, todavia Úrsula corou de envergonhada e, ao mesmo tempo, o remorso lhe errou na alma.

— Deus meu! Perdoai-me – disse consigo, e correu com os braços abertos para abraçar sua carinhosa mãe, que lhe sorriu.

— É verdade, minha mãe, demorei-me muito; mas haveis de desculpar-me. Achei-me incomodada durante a noite, e foi-me preciso respirar o ar fresco da manhã para restabelecer as forças.

— Ah, minha filha! – tornou a senhora B., querendo atrair Úrsula aos seus braços, a qual afetada pelo primeiro remorso, receava algum tanto lançar-se nos braços maternos – Vem abraçar-me... que tão ansiosa estava por ver-te!

Então a tímida menina, vencendo a sua perturbação, lançou-se com júbilo no seio de sua mãe, e soluços mal sufocados lhe rebentaram do peito.

Luísa B. mal podia compreendê-la, e olhava-a enternecida. Pouco e pouco convencida de que o seu penoso estado era a única causa de tão sentido choro, que outro motivo não podia ela descobrir, procurou serenar a extremosa filha, chamando sua atenção para outro objeto, e disse-lhe:

— Enxuga, minha Úrsula, as tuas lágrimas, não vês que eu não choro? – e procurava sorrir-se; mas era um riso amargo; porque o coração não estava isento de dores.

— Minha filha – continuou afetando tranquilidade – o nosso hóspede intenta deixar-nos hoje: pediu que me queria ser apresentado, e eu te aguardava para fazer-lhe as honras desta pobre casa.

Úrsula levou o lenço ao rosto por um movimento rápido, Luísa julgou que ela procurava daí extinguir o vestígio das suas lágrimas; mas a donzela ocultava o rubor subitâneo, que lhe tingia as faces, ouvindo sua mãe falar do homem, que lhe ocupava a alma, e por disfarçar a sua comoção disse distraidamente:

— E o nosso Túlio, que também se vai?!...

— É verdade! – tornou a pobre paralítica – e a nossa casa vai-se tornando cada vez mais isolada e triste!

Úrsula deixou descair os olhos para a terra, e reprimiu magoado suspiro por amor de sua mãe.

E um profundo silêncio reinou no quarto da doente; porque cada uma dessas duas mulheres se abandonava a seus pensamentos. Luísa sem dúvida ocupava-se só do porvir de sua filha; esta pelo contrário recordava as doces expressões do cavaleiro, seus votos de amor, e sentia pesar por vê-lo partir. Contudo Úrsula tinha já uma esperança que lhe dava forças para arrostar as dores da vida: amava, e tinha a convicção de ser amada.

E ela meditava na breve mudança da sua vida, e sentia o coração palpitar com estranho desassossego.

Depois o silêncio foi interrompido pelo anúncio da chegada do mancebo.

— Ei-lo – disse a moça a sua mãe, que se tinha imergido em tristes reflexões, e não ouvira pronunciar o nome de seu hóspede – e levantou-se para ir ao seu encontro.

— Úrsula, – exclamou a enferma como quem acordava de um pesado sono – aonde vais? A moça compreendeu que sua mãe muito sofria, e com meiguice chegou-se a ela e disse-lhe:

— É o nosso hóspede, minha mãe.

— Ah! – exclamou então a infeliz senhora, caindo em si – sejais bem- -vindo, senhor. Esperava por vós. E o mancebo transpunha o liminar da porta.

— Perdoai a frieza desta recepção, – continuou – sou uma pobre paralítica; mas a honra, que me fazeis, e que aparentemente mal posso corresponder, ficará gravada profundamente em meu coração. Entrai, senhor.

E Úrsula, trêmula de pejo e de amor, guiava-o para o leito de sua mãe.

O mancebo ressentia-se ainda dos efeitos de uma longa enfermidade; e o seu rosto conservava mórbida palidez, que nessa hora sobressaía-lhe, aumentando a gravidade de seu porte, em presença dessa mulher, que semelhava o próprio sofrimento.

E ele entrou; mas ao aproximar-se do leito de Luísa B., uma comoção de pesar lhe feriu a alma. É que nesse esqueleto vivo, que a custo meneava os braços, o mancebo não podia descobrir sem grande custo os restos de uma penosa existência, que se finava lenta e dolorosamente.

Estremeceu de compaixão ao vê-la; porque em seu rosto estavam estampados os sofrimentos profundos, pungentes e inexprimíveis da sua alma. E os lábios lívidos e trêmulos, e a fronte pálida, e descarnada, e os olhos negros, e alquebrados diziam bem quanta dor, quanto sofrimento lhe retalhava o peito.

Luísa B. fora bela na sua mocidade, e ainda no fundo da sua enfermidade podiam descobrir-se leves traços de uma passada formosura.

Úrsula herdara as doces feições de sua mãe. Então o mancebo contemplou-a com religioso respeito, e o que sentiu em presença desse leito de tão apuradas dores mal poderia dizer.

Semelhava um cadáver a quem o galvanismo emprestara movimento limitado às extremidades superiores, mirradas e pálidas, e brilho a uns olhos negros, mas encovados.

Venceu a sua perturbação, e chegando-se à mãe de Úrsula estendeu-lhe a mão, que ela apertou com efusão, tanto quanto lhe permitiam suas débeis forças.

Essa mão era leal e generosa, e Luísa B. sentiu-se comovida; porque era a primeira pessoa que a visitava em sua triste morada, e que em face de sua enfermidade a não desdenhava, nem sentia repugnância da sua miséria e do seu penoso estado. E por isso disse com reconhecimento que tocou o mancebo.

— O céu vos proteja, senhor; porque sois generoso e bom. E quereis partir? – acrescentou com benevolência.

— Sim, senhora – tornou-lhe o cavaleiro com voz firme; mas magoada por aí lhe ficar parte do coração – o dever me chama. Acho-me restabelecido, e não devo por mais tempo abusar da vossa bondade. Com desvelo e carinho, e sem que eu o merecesse tendes me dado um novo existir, venho pois protestar-vos minha gratidão. Se algum dia – continuou depois de breve pausa – as vicissitudes da sorte vos obrigarem a recorrer a alguém, esse alguém seja eu; porque, senhora, jamais me esquecerei da franqueza e da bondade com que me acolhestes.

— Sim, senhor – redarguiu a enferma – creio em vós; porque sois generoso e bom: o fostes para com Túlio, sê-lo-eis também para comigo: mas...

E olhou para sua filha, que pálida e perturbada como a flor na ardentia da sesta, descaída a face nas mãos, estava à sua cabeceira, e suspendeu-se.

Luísa B. queria dizer: — eu peço para mim nada mais que a sepultura; mas se sois cavaleiro, se tendes virtude na alma, protegei essa pobre órfã. Mas aquele homem era-lhe desconhecido, e a ideia de sua próxima morte ia despertar em Úrsula sentimentos dolorosos. A pobre mulher calou-se.

— Falai, minha querida senhora – apressou-se o mancebo em dizer, reparando nessa penosa reticência – falai, não sabeis que nutro satisfação em escutar-vos?

— Ah! Senhor – exclamou Luísa B. reprimindo amarguradas lágrimas – sou tão desditosa, que falando de mim, só poderia dizer-vos coisas tão tristes e fastidiosas, que vos cansaríeis de as ouvir.

— Pelo contrário, – disse o mancebo – grande é o interesse, que me inspirais: quaisquer que sejam as vossas desditas, e por mais longa que seja a narração delas, eu as escutarei, e tomarei por elas todo o interesse.

— Sem dúvida, minha pobre Úrsula, tinhas razão quando, tocada pelo generoso proceder do vosso hóspede, me falavas de suas bondades, e de seus delicados pensamentos.

Então o mancebo inclinou-se para a donzela em sinal de gratidão, e viu- -lhe pender dos olhos uma lágrima, que do fundo do coração lhe arrancava a saudade de tão forçada separação.

Essa lágrima transportou de amor ao jovem adorador da filha do deserto, e ele desejou bebê-la em um longo e ardente beijo, e seu coração jurou de novo que aquela mulher angélica seria a doce companheira da sua peregrinação na terra. E quando ela houver deixado de existir, acrescentava ele em seu sonhar delicioso, eu a seguirei na campa, e lá numa outra vida, onde tudo é amor, pureza, e santidade, lá, redobrando de amor e de ternura, viveremos unidos para sempre.

E a senhora B., notando que seu hóspede estava comovido, e atribuindo ao exórdio da sua conversão a comoção do mancebo, apressou-se em dizer-lhe:

— Perdoai-me, senhor; uma pobre mulher enregelada pela doença, e pela morte, que se lhe aproxima, deve falar com toda a franqueza, e demais, a sensibilidade do meu coração ainda existe, e o céu permitiu-me simpatizar com as ações nobres, e desinteressadas. Eu amei, senhor, o vosso procedimento.

— Obrigado! Minha senhora. – murmurou o mancebo inclinando-se.

— Continuai, eu vos escuto.

— Há doze anos – começou Luísa B. suspirando aquele suspiro que vem do fundo da alma, não para comover a outrem, e captar a sua atenção, ou a sua bondade; mas aquele suspiro que é o momentâneo, mas triste alívio de um sofrimento apurado e baldo de toda esperança. – Há doze anos que arrasto a custo esta penosa existência. Deus conhece o sacrifício, que hei feito para conservá-la. Parece-vos isto incompreensível? – interrogou ela ao mancebo, que atento a escutava. – Sou mãe, senhor! Vede minha pobre filha! É um anjo de doçura e de bondade, e abandoná-la, e deixá-la só sobre este mundo, que ela mal conhece, é a maior dor de quantas dores hei provado na vida. Sim, é a maior dor – continuou ela com amargo acento – porque então perderá o único apoio que ainda lhe resta! Ao menos se meu irmão pudesse esquecer o seu ódio, e protegê-la!...



continua pág 71...

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Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825. Filha bastarda de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira.

Em 1847, aos 22 anos, ela foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada de seu Estado. Maria demonstrou sua afinidade com a escrita ao publicar “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista, primeiro escrito por uma mulher negra brasileira.

O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, a escritora publica o livro “A Escrava”, reforçando sua postura antiescravista.

Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Maria morre aos 92 anos, na cidade de Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.

Em 1975, Maria recebe uma homenagem de José Nascimento Morais Filho que publica a primeira biografia da escritora, Maria Firmina: fragmentos de uma vida.

A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX. Antes do Navio negreiro de Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”. Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres. 

Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.

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Úrsula - VIII Luísa B. (1)


terça-feira, 5 de outubro de 2021

Anton Chekhov - Tio Vania (Ato Um, cenas 4 e 5)

  Tio Vania


Anton Chekhov






Tio vania

(Diadia Vania)

Anton Pavlovich Chekhov

Tradução de E. Podgursky



Cena quatro




Entram SONIA e ELENA ANDREEVNA. Um pouco mais tarde, e com um livro nas mãos, MARÍA VASILIEVNA. Este, depois de se sentar, começa a ler. Eles lhe servem chá, que ele bebe sem tirar os olhos do livro.

SONIA. - (Al ama, em tom apressado.) Amita! Alguns muzhiks vieram aqui . Vá falar com eles. Eu cuido do chá. (Este é servido . A governanta sai. ELENA ANDREEVNA pega sua xícara, que ela bebe sentada no balanço.)

ASTROV. - (PARA ELENA ANDREEVNA .) Ela estava vindo ver o marido. Você me escreveu dizendo que tinha reumatismo e não sei o que mais, e descobri que você é muito saudável ...

ELENA ANDREEVNA. -Ontem, à noite, queixou-se de dores nas pernas; mas hoje ele não tem mais nada.

ASTROV. "E eu apressando trinta verstas!" O que você vai fazer! Não é a primeira vez que isso acontece! ... Claro, como recompensa, ficarei na sua casa, pelo menos, até amanhã! ... Vou até dormir «quantum satis» ! ...

SONIA. -Magnífico! É tão raro ele ficar dormindo! Certamente você não comeu.

ASTROV. - Na verdade, eu não comi.

SONIA. -É assim que ele vai comer conosco. Agora não comemos antes das seis. (Bebidas.) O chá está frio.

TELEGUIN. Sim, a temperatura do samovar caiu consideravelmente.

ELENA ANDREEVNA. -Não importa, Ivan Ivanich. Beberemos frio.

TELEGUIN. -Desculpa...; mas eu não sou Ivan Ivanich, mas Ilia Ilich ..., Ilia Ilich Teleguin, ou - como alguns me chamam, por causa do meu rosto marcado - Vaflia. Já fui padrinho de Sonechka, e Sua Excelência, o marido dela, me conhece muito. Agora eu moro na sua casa, nesta fazenda ... Se você já fez uso dela, perceba, todos os dias como com você.

SONIA. "Ilia Ilyich é nossa assistente ... nosso braço direito." (Com ternura ) Pode falar, padrinho. Vou te dar mais chá.

MARÍA VASILIEVNA. -Ah! ...

SONIA. -O que há de errado com você, vó?

MARÍA VASILIEVNA. "Esqueci de dizer a Alexandre", diz minha memória, "que recebi uma carta de Kharkov hoje." De Pavel Alekseevich ... Ele estava enviando seu novo artigo.

ASTROV. -E é interessante?

MARÍA VASILIEVNA. -Sim, mas um pouco estranho. Ele se retrata como foi o primeiro a se defender há sete anos. É horrível!

VOINITZKII. -Não vejo a coisa terrível em lugar nenhum. Beba seu chá, "mamãe".

MARÍA VASILIEVNA. -Mas eu quero conversar!

VOINITZKII. -Há cinquenta anos não fazemos nada além de conversar, conversar e ler artigos. É hora de terminar.

MARÍA VASILIEVNA. -Não sei porque você não gosta de ouvir quando eu falo ... Desculpe. "Jean", mas neste último ano você mudou tanto que eu não te reconheço. Antes você era um homem de convicções definidas ... Você tinha uma personalidade clara.

VOINITZKII. -Ah sim! ... Ele tinha uma personalidade clara com a qual não dava clareza a ninguém! ... (Pausa.) Ele tinha uma personalidade clara! Impossível usar a inteligência comigo de forma mais venenosa! ... Estou agora com quarenta e sete anos. Bem ... como você, até o ano passado me empenhei de propósito em enfeitiçar meus olhos com sua escolástica, para não ver a verdadeira vida, e até pensei que estava indo bem ... Agora, por outro lado .. ... Sim! Você só sabia! ... Minha raiva, minha raiva por ter perdido meu tempo de uma forma tão tola, quando poderia ter tudo o que agora a velhice me recusa, me faz passar as noites acordado!

SONIA. "Tio Vania!" É aborrecido!

MARÍA VASILIEVNA. - (Para o filho dele.) Parece que você culpa alguma coisa por isso em suas convicções anteriores, quando a culpa não é deles, mas sua! Você se esquece de que as convicções sozinhas não são nada! ... Nada além de letra morta! Você teve que agir!

VOINITZKII. -Aja! ... Nem todo mundo é capaz de se tornar um «perpetuum mobile» da escrita, como o seu »« Herr »professor!

MARÍA VASILIEVNA. -O que você quer dizer com isso?

SONIA. - (Em tom de súplica.) Avó! ... Tio Vânia! ... Eu te imploro!

VOINITZKII. -Eu calo a boca ... Eu calo a boca e submeto ... (Pausa.)

ELENA ANDREEVNA. -A verdade é que o tempo hoje está lindo. Não está nada quente ... (Pausa.)

VOINITZKII. -Uma ótima hora para se enforcar. ( TELEGUIN afina o violão, MARINA anda pela casa chamando as galinhas.)

MARINHO. -Pitas, pitas, pitas!

SONIA. -Amita! Para que vinham esses "muzhiks"?

MARINHO. -Para o de sempre. De novo para o campo ... Pitas, pitas, pitas! ...

SONIA. -Para quem você esta ligando?

MARINHO. "Petruschka escapou com os pintinhos! ... Eles podem ser roubados por corvos!" (Sai. TELEGUIN toca uma polca no violão. Todos ouvem em silêncio.)







Cena cinco





Digite um TILLER MANAGER.

O RAPAZ. "O médico está aqui?" (Para ASTROV .) Eles estão procurando por você, Mikhail Lvovich.

ASTROV. -De onde?

O RAPAZ. -Do tecido.

ASTROV. - (Com raiva.) Bem, muito obrigado! ... O que você vai fazer? (Procurando a tampa.) Eu tenho que ir ... Que pena!

SONIA. "Que pena mesmo! ... Quando voltar da fábrica, venha comer aqui."

ASTROV. -Impossível. Será muito tarde. Como posso ... (Para O MENINO .) Ei, amigo! Traga-me um copo de vodka! (O GARÇONETE sai .) Como posso ... (Encontrando o boné.) Em uma de suas peças, Ostrovsky apresenta um personagem com bigodes longos e capacidades curtas ... Bem, sou eu ... É isso mesmo ... , Tenho a honra, senhores, de cumprimentá-los. (Para ELENA ANDREEVNA .)Ficarei muito feliz se um dia você me visitar com Sofia Alexandrovna. Tenho uma pequena fazenda, que não terá mais de trinta "desiatin", mas se você estiver interessado em ver uma maquete de jardim e uma estufa já que não há igual para mil verstas ao redor, você a encontrará lá. Tenho os viveiros estaduais ao meu lado e, como o guarda florestal está velho e sempre doente, sou eu que cuido deles.

ELENA ANDREEVNA. -Já me disseram que você tem um grande amor pelas florestas. Claro, há muitos serviços que você pode prestar a eles; mas ... isso não prejudica a sua verdadeira vocação? Você é doutor!

ASTROV. -Só Deus sabe qual é a nossa verdadeira vocação!

ELENA ANDREEVNA. E isso é interessante?

ASTROV. -Sim. É um trabalho interessante.

VOINITZKII. - (Com ironia.) Muito!

ELENA ANDREEVNA. - (Para ASTROV .) Você ainda é jovem. Você afirma que tem trinta e seis ou trinta e sete anos, e a coisa, com certeza, não é tão interessante quanto diz. Florestas, matas e matas sempre! ... Acho muito monótono!

SONIA. -Não é muito interessante. Todos os anos, Mikhail Lvovich planta novas florestas e já recebeu uma medalha de bronze e um diploma. Ele também está preocupado que as velhas florestas não sejam perdidas. Se você o escutar, vai acabar sendo da opinião dele ... Diz que as florestas adornam a terra e ensinam o homem a penetrar em suas maravilhas, inspirando grandeza de espírito ... Que as florestas amenizam a severidade do clima e que nos países onde é mais benigno, menos forças são consumidas na luta com a Natureza, para que o homem ali seja mais brando e terno. Lá, diz ele, as pessoas são bonitas, flexíveis, de sensibilidade fácil. Sua linguagem é boa, seus movimentos são graciosos; suas ciências e sua arte florescem; sua filosofia não é sombria e seu relacionamento com as mulheres é impregnado de uma nobreza feroz.

VOINITZKII. - (Rindo.) Bravo, bravo! ... Tudo isso é agradável, mas não convence! ... Portanto ... (Para ASTROV .) Permita- me, meu amigo, continuar acendendo meus fogões com lenha e construindo minha lenha galpões.

ASTROV. -Você poderia acender seus fogões com turfa e construir os galpões de pedra; mas, bem ... eu admito que eles são cortados por necessidade, mas destruí-los ... por quê? As florestas russas rangem sob o machado, milhões de árvores morrem, as moradias de animais e pássaros são esvaziadas, os rios perdem profundidade e secam; Paisagens maravilhosas desaparecem para nunca mais voltarem, e tudo porque ao preguiçoso falta o sentido que o faria se curvar e extrair combustível da terra. (Para ELENA ANDREEVNA .)Não é verdade, senhora? ... É preciso ser bárbaro sem julgamento para queimar essa beleza no fogão ... Para destruir o que somos incapazes de criar ... Se o homem é dotado de juízo e força criadora, é multiplicar o que lhe foi dado e, no entanto, até agora, longe de criar nada, o que faz é destruir ... A cada dia o número de florestas é cada vez menor ... Os rios secam, os pássaros desaparecem , o clima perde a suavidade e a terra fica pobre e feia. (Para VOINITZKII .)Você me olha com ironia, como se tudo o que estou dizendo não parecesse sério ... E talvez, de fato, eu seja louco ...; mas quando passo por florestas de camponeses, que salvei da exploração madeireira; Quando ouço o boato de um jovem bosque plantado por mim, reconheço que o clima está um pouco nas minhas mãos e que se, daqui a mil anos, o homem for feliz, será um pouco por minha causa ... Quando eu plante uma pequena bétula, Aquela que vejo depois verde e balança com o vento, minha alma se enche de orgulho e ... (Vendo o GARÇONETE avançar com o copo de vodca.) A tudo isso ... (Bebe.) , é hora de ir. Isso, com certeza, é uma loucura. Tenho a honra de vos cumprimentar! ... (dirige-se para a casa.)

SONIA. - (Seguindo-o, ela o pega pelo braço.) Quando você vem nos ver?

ASTROV. -Não sei.

SONIA. - Vai demorar mais um mês sem vir? ( Saída ASTROV e SONIA. MARÍA VASILIEVNA e TELEGUIN continuam à mesa e ELENA ANDREEVNA e VOINITZKII vão para o terraço.)

ELENA ANDREEVNA. -Iván Petrovich! Você se comportou de uma maneira impossível de novo! Que necessidade ele tinha de excitar Maria Vasilievna dizendo-lhe aquele "perpetuum mobile" ? Novamente hoje na hora do almoço você começou a discutir com Alexander! Isso não pode ser!

VOINITZKII. -Mas eu odeio ele!

ELENA ANDREEVNA. "Não há razão para odiar Alexandre!" Ele é um homem como todo mundo! Não é pior do que você!

VOINITZKII. "Se ao menos você pudesse ver o rosto e os movimentos dele! ... Que preguiça de viver! ... Oh, que preguiça!"

ELENA ANDREEVNA. "Preguiça, sim, e tédio! ... Todo mundo critica meu marido!" Todos me olham com compaixão! ... "Que pena!" ... "Ela tem um velho marido!" ... E, ah, como Eu entendo esse interesse em mim! ... Todos vocês - como Astrov acabou de dizer - tolamente deixem as florestas perecerem e logo não haverá mais nada na terra! Pois ..., da mesma maneira tola, trabalham a perda do homem, e logo na terra - graças a ti - não haverá fidelidade, nem pureza, nem capacidade para o sacrifício! Por que não podem olhar com indiferença para uma mulher que não é sua? ... Simplesmente porque - o médico tem razão - cada um de vocês carrega dentro de si o demônio da destruição! Eles não têm misericórdia nem das florestas, nem dos pássaros, nem das mulheres, nem uns dos outros! VOINITZKII. -Não gosto dessa filosofia de jeito nenhum. (Pausa.)

ELENA ANDREEVNA. -Aquele médico, pela cara, parece cansado e nervoso. É um rosto interessante seu. Aparentemente, Sonia gosta dele. Ela está apaixonada por ele, e eu entendo ... Durante a minha estada aqui, ele já veio três vezes; mas como sou tímida, não falei com ele nenhuma vez, de maneira adequada ... carinhosa. Você vai acreditar em mim de um caráter cruzado ... Com certeza você e eu, Ivan Petrovich, somos tão bons amigos porque somos chatos e tristes ... Não me olhe assim. Não gosto.

VOINITZKII. -E como posso te olhar diferente, se te quero? ... Tu és a minha felicidade, a minha vida, a minha juventude! Eu sei que minhas probabilidades para uma reciprocidade de sua parte são iguais a zero; mas eu não preciso de nada! ... Deixa eu só olhar, ouvir a sua voz! ...

ELENA ANDREEVNA. -Atenção! Eles podem ouvir você! (Ele vai para a casa.)

VOINITZKII. - (Seguindo-a.) Deixa eu te contar um pouco do meu amor! Não me rejeite! Essa será a maior felicidade para mim!

ELENA ANDREEVNA. -É um tormento! (Os dois saem, TELEGUIN toca uma polca no violão. MARÍA VASILIEVNA escreve algo na margem do livro.)









continua no ato dois... 

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Anton Pavlovich Chekhov foi um contista russo, dramaturgo e médico. Foi um mestre do conto e é considerado um dos autores do gênero mais importantes na história da literatura  no realismo psicológico atual e naturalismo. 
Nascido : 29 de janeiro de 1860, Taganrog, Rússia
Morreu : 15 de julho de 1904, Badenweiler, Alemanha
Cônjuge : Olga Knipper ( 1901-1904)
Obras : The Cherry Orchard , The Seagull , The Three Sisters ,
Pais : Pavel Yegorovich Chekhov , Yevgeniya Chekhov

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e você nunca pensou que tudo em sua vida poderia ter sido entre amor e ódio, prostração e ousadia, liberdade e conveniência, ignorância e ciência, realidade e ilusão, uso e amontoado de nadas, cultura e leiguice, juventude e velhice? já pensou se sua vida foi desperdiçada ou se poderia ter sido? já falhou em suas ambições? e você é um ser inventado ou se inventou? ... se perguntou ou... a vida é chata e boba e nada vai adiantar mesmo, somos explorados, nunca estamos seguros, mentem para nós... quem mente? Ah! Entendi... - entendeu, mesmo?

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Biblioteca Virtual Miguel Cervantes



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Leia também:

Anton Chekhov - Tio Vania (Ato Um, cenas 1, 2 e 3)
Anton Chekhov - Tio Vania (Ato Um, cenas 4 e 5)
Anton Chekhov - Tio Vania (Ato Dois, cena 1)