terça-feira, 27 de outubro de 2026

MPB: É preciso dar um jeito, meu amigo

Erasmo Carlos


Eu cheguei de muito longe
E a viagem foi tão longa
E na minha caminhada
Obstáculos na estrada
Mas enfim aqui estou

Mas estou envergonhado
Com as coisas que eu vi
Mas não vou ficar calado
No conforto, acomodado
Como tantos por aí

É preciso dar um jeito, meu amigo
É preciso dar um jeito, meu amigo
Descansar não adianta
Quando a gente se levanta
Quanta coisa aconteceu

As crianças são levadas
Pela mão de gente grande
Quem me trouxe até agora
Me deixou e foi embora
Como tantos por aí

É preciso dar um jeito, meu amigo
É preciso dar um jeito, meu amigo
Descansar não adianta
Quando a gente se levanta
Quanta coisa aconteceu

É preciso dar um jeito, meu amigo
É preciso dar um jeito, meu amigo
É preciso, sim
É preciso, sim
É preciso dar um jeito
É preciso dar um jeito, meu amigo
É preciso, sim
É preciso dar um jeito, meu amigo
É preciso, sim
É preciso, sim
É preciso, sim
É preciso dar um jeito, meu amigo, é preciso
É preciso, sim
É preciso, sim
É preciso dar um jeito
É preciso, sim

Meu amigo, meu amigo, é preciso dar um jeito
É preciso dar um jeito, meu amigo










"É PRECISO DAR UM JEITO, MEU AMIGO": 
eles ACORDARAM para realidade do Brasil (Roberto Carlos/Erasmo)




É preciso dar um jeito - Timbres, acordes e história!

Pessoal, o filme “Ainda estou aqui” tá estourado e no seu rastro de sucesso (e debates) está também de volta as paradas a música “É preciso dar um jeito meu amigo” do Erasmo que estes na trilha, e por conta disso, muitos pedidos me chagaram pra falar dos timbres e acordes dela, então tá aqui pra vocês!




Links de referência:
Meus Lados “B”: • Erasmo Carlos - Gente Aberta
“É preciso dar um jeito”: • É preciso dar um jeito meu amigo - Erasmo...
“Meus lados B - Pedais & Efeitos”: • Meus Lados B - Pedais & Efeitos
JHS “Colour Box”: • JHS Colour Box - Ep. 1
“Cachalote Audio “Console Preamp”: • Cachalote - Console Preamp
Modos Gregos: • Modos Gregos - Parte 1

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É preciso dar um jeito, meu amigo /     

Dante: A Divina Comédia - Canto V

Dante Alighieri

A Divina Comédia

Tradução do italiano, apresentação e notas de Eugênio Vinci de Moraes

INFERNO

Canto V (Prosa)

Dante passa do primeiro para o segundo círculo. Ali encontra o primeiro dos seres infernais: Minós, o demônio que julga as almas que chegam ao Inferno e indica em que círculo devem ser atiradas. No segundo círculo estão os condenados pelo pecado da luxúria. Seu castigo é serem açoitados por uma tempestade perpétua. Dante pergunta a Virgílio se pode conversar com alguma daquelas almas. Autorizado, ouve Francesca da Rimini, que gira pela tempestade agarrada a seu amante, Paolo Malatesta, contar a dolorosa história de sua culpa. Depois de ouvi-la, desmaia de compaixão.
     
     [1] Desci então do primeiro ao segundo círculo, onde o espaço se estreita, a dor se amplia e nos machucam os lamentos que ouvimos. Ali estava o horripilante Minós, que examina a culpa das almas que chegam e, rosnando, as julga e as envia para as fossas infernais. Quando a alma condenada surge diante dele, ela confessa todos seus pecados.¹ Ao conhecer a culpa de cada uma delas, Minós determina onde a alma deve ficar no Inferno. Ele faz isso enrolando a horrenda cauda até chegar ao número do círculo em que a alma deve ser atirada. Diante dele sempre há uma multidão de sombras, que, uma após a outra, confessam e ouvem a sentença depois da qual são jogadas no fosso. 
(1) “Dico, che quando l’anima mal nata...”, verso ligeiramente modificado por Machado de Assis, que o usou como epígrafe do romance Esaú e Jacó (1904).

     [16] – Ó tu que vens ao doloroso asilo – disse Minós, quando me viu, deixando de lado seu trabalho –, olha o que fazes e aquele em que te fias; não deixes a porta enorme pela qual entraste te enganar!
     E meu guia a ele:

– Por que gritas assim? Isso não impedirá que ele entre, pois quis assim quem está onde se pode fazer tudo que se deseja, e mais não digas.

     [25] Então comecei a ouvir os dolorosos gemidos. Estava no ponto onde a força do pranto tocava duro em minha alma. Era o lugar onde a luz cala e um mugido perene ressoa, tal como faz o mar durante a tempestade quando os ventos se combatem. O ventarrão infernal¹ que nunca cessa de carregar os espíritos em seu redemoinho e ainda os verga e os golpeia, molestando os. Quando chegam à beira do precipício, soltam gritos, gemidos e lamentos, e blasfemam contra a virtude divina. Compreendi então que essa era a forma do castigo destinado aos pecadores da carne, que submetem a razão ao desejo. Como as andorinhas que no inverno voam em bandos, formando fileiras largas e densas, assim iam aquelas almas más, jogadas para lá e para cá, para cima e para baixo, à força do sopro do redemoinho infernal. Nenhuma esperança as conforta, nem de pousar, nem de obter uma pena menor. Como os grous que ao mesmo tempo voam e cantam seus ais, traçando no ar uma longa linha, assim eu as vi, lamentando-se, enquanto eram levadas pela tempestade. Por isso, eu disse:
(1) Tradução de Mario de Andrade para “bufera infernale”.

– Mestre, quem é essa gente que o ar negro tanto castiga?
– A primeira entre elas – disse-me por partes – foi imperatriz de muitas estirpes. O vício da luxúria a deixou tão sem freios que, para remover qualquer culpa de seus atos, fez da libido lei. É Semíramis, de quem lemos ter sido esposa de Nino, a quem sucedeu para governar a Assíria, que hoje o Sultão governa. A outra ali é Dido, que se enamorou depois de viúva traindo as cinzas de Siqueu. A outra ali é a luxuriosa Cleópatra; e vê Helena, pela qual tantos reis brigaram, e também o grande Aquiles, que fez seu último combate apaixonado. Veja Páris, Tristão – e mais de mil sombras me mostrou e apontou-me com o dedo, sombras que desta vida partiram à força do amor.

     [70] Depois que ouvi o meu doutor nomear as damas e os cavalheiros da Antiguidade, fiquei comovido e quase sucumbi. Então comecei:

– Poeta, gostaria muito de falar com aqueles dois que vão abraçados parecendo mais leves e rápidos que os demais.

     Ele a mim:

– Presta a atenção à hora em que eles estiverem mais perto de nós e pede a eles pelo amor que os une, que eles te atenderão.

     Assim que o vento os aproximou de nós, falei-lhes:

– Ó almas fatigadas, vinde falar conosco, se nada vos impede!     

     Como pombas que voltam ao ninho, com as asas elevadas e firmes, guiadas pela vontade, voaram até nós saindo do grupo em que estava Dido. Tão forte e afetuoso foi nosso apelo que vieram pelo ar imundo.¹
(1) “[...] chegando ambos a nós pelo ar imundo”, tradução de Jorge Vanderley (2004, p. 107).

     [88] – Ó animal gracioso e benevolente que visita o ar fosco, nós que tingimos o mundo de sangue, se fôssemos amigos do rei do universo, pediríamos para ele a paz que desejas, pois tu te apiedas do nosso perverso mal. O que quiseres ouvir e falar nós falaremos e ouviremos enquanto o vento continuar assim, estático. Nasci na terra onde o rio Pó deságua para encontrar sossego junto com seus afluentes. Amor, que tão rápido toma o coração gentil, prendeu-me a esta bela pessoa que foi arrancada de mim; e o modo como isso aconteceu ainda me ofende. Amor, que a amado algum amar desobriga, me prendeu a ele com desejo tão forte que, como vês, ainda não me abandona. 13 O amor nos levou a uma mesma morte. A Caína, o nono círculo, espera aquele que apagou a chama de nossa vida – com estas palavras, narrou sua história.
     [109] Quando entendi o que aquelas almas suportavam, baixei a cabeça e assim a mantive até o poeta dirigir-se a mim:

– Em que pensas?

     Respondi:

– Ó dor, quantos pensamentos doces, quanto desejo levou os dois a dar esse doloroso passo!

     Em seguida, me voltei na direção deles e comecei:

– Francesca, teu martírio me deixa triste e penalizado. Mas diz-me: no tempo dos doces suspiros, a quem e como concedeste teu amor, quando conheceste os desejos duvidosos?

     E ela a mim:

– Nada dói mais do que recordar-se, na miséria, dos tempos felizes; e isso o teu doutor sabe muito bem. Mas se tens tanta vontade de conhecer a origem do nosso amor, eu te direi tudo, chorando e falando ao mesmo tempo. [124] Um dia líamos por deleite a história de Lancelote, de como o amor o coagia. Estávamos sozinhos, sem nada recear. Por várias vezes erguemos os olhos do livro e face a face nos encarávamos, até que uma hora fomos vencidos por isso. Enquanto líamos a cena em que a desejada boca de Guinevere era beijada por seu amante, Paolo, que nunca mais será separado de mim, beijou-me a boca todo trêmulo. O livro fez a nós o que Galeotto fez no romance, e daquele dia em diante não lemos nunca mais.¹
(1) Em Lancelote, romance anônimo do século XIII, Galeotto induz Guinevere a beijar Lancelote.

     [139] Enquanto uma alma nos contava, a outra chorava. E isso me fez sentir a morte por dentro. E caí como corpo morto cai.¹
(1) Versão do poeta Augusto de Campos (Invenção. São Paulo: Cia das Letras, 1986, p. 35) para o original “E caddi come corpo morto cade”.

continua na página....43

Canto V (Poesia)
Tradução Xavier Pinheiro

No ingresso do segundo círculo está Minos, que julga as almas e designa-lhes a pena. No repleno desse círculo estão os luxuriosos, que são continuamente arrebatados e atormentados por um horrível turbilhão. Aqui Dante encontra Francisca de Rimini, que lhe narra a história do seu amor infeliz.

     Desci desta arte ao círculo segundo, 
Que o espaço menos largo compreendia, 
3        Onde o pungir da dor é mais profundo. 
     Lá ‘stava Minos e feroz rangia: 
Examinava as culpas desde a entrada, 
6        Dava a sentença como ilhais cingia 
     Ante ele quando uma alma desditada 
Vem, seus crimes confessa-lhe em chegando, 
9        Com perícia em pecados consumada. 
     Lugar no inferno, Minos, lhe adaptando, 
Do abismo o circ’lo arbitra, a que pertença, 
12      Pelas voltas da cauda graduando. 
     Sempre muitas se lhe acham na presença; 
Cada qual tem sua vez de ser julgada, 
15      Diz, ouve, cai, se some sem detença. 
     Minos, logo me vendo, iroso brada, 
Do grave ofício no ato sobrestando: 
18      — “Ó tu, que vens das dores à morada; 
     “Olha como entras e em quem’stás fiando: 
Não te engane do entrar tanta largueza!” 
21      — “Por que falar” — meu guia diz — “gritando?” 
     “Vedar não tentes a fatal empresa: 
Assim se quer lá onde o que se ordena 
24      Se cumpre. Assaz te seja esta certeza!” 
     Eis já começo da infernal geena 
A ouvir os lamentos: sou chegado 
27      Onde intenso carpir me aviva a pena. 
     Em lugar de luz mudo tenho entrado: 
Rugia, como faz mar combatido 
30      Dos ventos, pelo ímpeto encontrado. 
     Da tormenta o furor, nunca abatido, 
Perpetuamente as almas torce, agita, 
33      Molesta, em seus embates recrescido. 
     Quando à borda do abismo as precipita, 
Ais, soluços, lamentos vão rompendo. 
36      Blasfema a Deus a multidão maldita. 
     Ouvi que estão no padecer horrendo 
Os que aos vícios da carne se entregavam, 
39      Razão aos apetites submetendo. 
     Quais estorninhos, que a voar se travam 
Em densos bandos na estação já fria, 
42      Em rodopio as almas volteavam, 
     Ao capricho do vento, que as trazia. 
De pausa não, de menos dor a esp’rança 
45      Conforto lhes não dá nessa agonia. 
     Como nos ares longa série avança 
De grous, que vão cantado o seu grasnido, 
48      Assim no gemer seu, que não descansa, 
     Traz o tufão as sombras desabrido. 
— “Mestre” — disse eu — “quais almas são aquelas 
51      Que o vendaval fustiga denegrido?” 
     — “A primeira — tornou Virgílio — “entre elas 
De quem notícias ter desejarias, 
54      Regeu nações, diversas nas loquelas. 
     “De luxúria fez tantas demasias 
Que em lei dispôs ser lícito e agradável 
57      Para desculpa às torpes fantasias. 
     “Semíramis chamou-se: o trono estável 
Herdou de Nino e foi a sua esposa. 
60      Do Soldão teve a terra memorável. 
     “A morte deu-se a outra, de amorosa, 
Às cinzas de Siqueu traidora e infida; 
63      Cleópatra após vem luxuriosa”. 
     Helena vi, a causa fementida 
De tanto mal, e Aquiles celebrado 
66      Que teve por amor a extrema lida. 
     Páris, Tristão e um bando assinalado 
De sombras me indicou, nomes dizendo, 
69      Que à sepultura amor tinha arrojado. 
     A compaixão me estava confrangendo, 
Dessas damas e antigos cavaleiros 
72      Nomes ouvindo e mágoas conhecendo. 
     Então disse eu: — “Poeta, aos companheiros 
Dois, que ali vêm, falar muito desejo: 
75      Ao vento ser parecem tão ligeiros!” 
     “Hás de ter” — me tornou — “azado ensejo, 
Quando forem mais perto; então lhes pede 
78      Pelo amor que nos uniu: virão sem pejo”. — 
     Quando acercar-se o vento lhes concede 
A voz alcei: — “Ó! vinde, almas aflitas, 
81      Falar-nos, se alta lei não vo-lo impede”. — 
     Quais pombas, que saudosas de asas fitas, 
Ao doce ninho, em voo despedido, 
84      Vão pelo ar, aos desejos seus adstritas: 
     Tais saíram da turba, em que era Dido, 
A nós as duas sombras se inclinando, 
87      Tanto as moveu da voz o tom sentido! 
     — “Entre beni’no, compassivo e brando, 
Que nos vem visitar por este ar perso, 
90      Tendo nós dado o sangue ao mundo infando, 
     “Seu amigo o Senhor fosse do universo, 
Da paz aos rogos nossos, gozarias, 
93      Pois te enternece o nosso mal perverso. 
     “Enquanto o vento é quedo, o que dirias 
Havemos nós de ouvir atentamente; 
96      Diremos quanto ouvir desejarias
     “Onde, a paz desejando, o Pado ingente 
Com seus vassalos para o mar descende, 
99      A terra, em que hei nascido, está jacente. 
     “Amor, que os corações súbito prende, 
Este inflamou por minha formosura, 
102    Que roubaram-me: o modo inda me ofende. 
     “Amor, em paga exige igual ternura, 
Tomou por ele em tal prazer meu peito, 
105    Que, bem o vês, eterno me perdura. 
     “Amor nos igualou da morte o efeito: 
A quem no-la causou, Caína, esperas”. 
108    Após tais vozes foi silêncio feito. 
     Daquelas almas as angústias feras 
Em meditar amargo a fronte inclino 
111    Té que o Mestre exclamou: “Que consideras?” 
     Quando pude, falei: “Cruel destino! 
Que doce cogitar! Que meigo encanto, 
114    Precederam do par o fim maligno!” — 
     Aos dois voltei-me e disse-lhes, entanto: 
“Teus martírios, Francesca, me angustiam, 
117    Movem-me o triste, compassivo pranto. 
     “Quando os doces suspiros só se ouviam, 
Como, em que Amor mostrar-vos há querido 
120    Os desejos, que ainda se escondiam?” — 
     — “Não há” — disse — “tormento mais dorido 
Que recordar o tempo venturoso 
123    Na desgraça. Teu Mestre o tem sentido. 
     “Mas porque de saber és desejoso, 
Como nasceu a flor do nosso afeto, 
126    Direi chorando o lance lastimoso. 
     “Por passatempo eu lia e o meu dileto 
De Lanceloto extremos namorados; 
129    Éramos sós, de coração quieto. 
     “Nossos olhos, por vezes encontrados, 
Cessam de ler; ao gesto a cor mudara. 
132    Um ponto só deu causa aos nossos fados. 
     “Ao lermos que nos lábios osculara 
O desejado riso, o heroico amante, 
135    Este, que mais de mim se não separa, 
     “A boca me beijou todo tremante, 
De Galeotto fez o autor e o escrito. 
138    Em ler não fomos nesse dia avante”. 
Enquanto a história triste um tinha dito,
Tanto carpia o outro, que eu, absorto 
Em piedade, senti letal conflito, 
142    E tombei, como tomba corpo morto.

continua na página... 52
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— 4. Minos, rei de Creta e que na mitologia pagã era juiz do Inferno. 
— 58. Semíramis, rainha de Babilônia, viúva do rei Nino. 
— 61. Dido, rainha de Cartago, que amou a Eneias. 
— 63. Cleópatra, rainha do Egito. 
— 64. Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta que causou a guerra de Troia. 
— 67. Páris e Tristão, cavaleiros dos romances medievais. 
— 73. Companheiros dois, Francisca de Rimini e Paulo Malatesta, que foram mortos por Gianciotto Malatesta, marido de Francisca e irmão de Paulo, por eles terem ficado apaixonados um pelo outro.  
— 89. Que nos vem visitar por este ar perso, A expressão "ar perso" merece atenção. O adjetivo italiano original é perso, que significa algo como escuro, sombrio, de cor azul-escura ou cinzenta. Nos tradutores clássicos do português, costuma ser mantido como "perso" para preservar o sabor poético do texto. Portanto, "por este ar perso" significa aproximadamente: "por este ar escuro", "por esta atmosfera sombria", "por este ambiente tenebroso". Francesca está se admirando de que um homem vivo, bondoso e compassivo, tenha descido até aquele lugar sombrio do Inferno para visitar os condenados.
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A Divina Comédia
Inferno
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sábado, 24 de outubro de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: Um Império que importa CAPITAIS (6)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

A ESTRUTURA CONTEMPORÂNEA DA ESPOLIAÇÃO
     
53. Um Império que importa CAPITAIS
          
          O “Programa de ação econômica do governo”, elaborado por Roberto Campos, previa que, em resposta à sua política benfeitora, os capitais afluiriam do exterior para incrementar o desenvolvimento do Brasil e contribuir para sua estabilidade econômica e financeira¹. Anunciavam-se para 1965 novos investimentos diretos, de origem estrangeira, de 100 milhões de dólares. Chegaram 70. Assegurava-se que, nos anos seguintes, o nível superaria as previsões de 1965, mas as convocatórias foram inúteis. Em 1967, ingressaram 76 milhões; a evasão resultante de lucros e dividendos, assistência técnica, patentes, royalties ou regalias e uso de marcas superou em mais de quatro vezes o investimento novo. A tais sangrias teria de se somar também as remessas clandestinas. O Banco Central admite que, em 1967, emigraram do Brasil fora das vias legais 120 milhões de dólares.

[1] MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO E COORDENAÇÃO ECONÔMICA. Programa de ação econômica do governo. Rio de Janeiro, novembro de 1964. Dois anos depois, falando na Universidade Mackenzie, em São Paulo, Campos insistia: “Já que as economias em processo de organização não dispõem de recursos para dinamizar-se, pelo simples fato de que se os tivessem não estariam em atraso, é lícito aceitar o concurso de todos quantos queiram correr conosco os riscos da maravilhosa aventura que é o progresso, para dele receber uma parte dos frutos” (22 de dezembro de 1966).

     Como se vê, o valor do que saiu é infinitamente maior do que o valor que entrou. Definitivamente, os números dos novos investimentos diretos nos anos cruciais da desnacionalização industrial – 1965, 1966, 1967 – estiveram muito abaixo do nível de 1961¹. Os investimentos na indústria congregam a maior parte dos capitais norte americanos no Brasil, mas correspondem a menos de 4 por cento do total dos investimentos dos Estados Unidos nas manufaturas mundiais. Os da Argentina chegam apenas a 3 por cento; os do México, a 3,5. A digestão dos maiores parques industriais da América Latina não exigiu grandes sacrifícios de Wall Street.

[1] “As remessas do Brasil registram uma alta desde a legislação de 1965”, celebrava o órgão do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. “Aumenta o fluxo de juros, lucros, dividendos e regalias; os termos e as condições dos empréstimos estão sujeitos ao compromisso com o Fundo Monetário Internacional. International Commerce, 24 de abril de 1967.


     “O que caracteriza o capitalismo moderno, no qual impera o monopólio, é a exportação de capital”, escreveu Lênin. Em nossos dias, como advertiram Baran e Sweezy, o imperialismo importa capitais dos países onde opera. No período 1950-67, os novos investimentos norte-americanos na América Latina totalizaram, sem incluir os lucros reinvestidos, três bilhões e 921 milhões de dólares. No mesmo período, os lucros e os dividendos remetidos ao exterior pelas empresas somaram doze bilhões e 819 milhões de dólares. Os ganhos drenados superaram em mais de três vezes o montante de novos capitais incorporados à região1. Desde então, segundo a CEPAL, novamente cresceu a sangria dos lucros, que nos últimos anos excedeu em cinco vezes os investimentos novos; a Argentina, o Brasil e o México sofreram os maiores aumentos da evasão. Mas este é um cálculo conservador. Boa parte dos fundos repatriados a título de amortização da dívida corresponde, na verdade, a lucros de investimentos, e os números tampouco incluem as remessas ao exterior relativas a pagamento de patentes, royalties e assistência técnica, nem computam outras transferências invisíveis que costumam se esconder atrás dos véus da epígrafe “erros e omissões”², nem levam em conta os lucros que têm as corporações ao inflar os preços dos abastecimentos que proporcionam às suas filiais e ao inflar também, com igual entusiasmo, seus custos operacionais.

[1] SECRETARÍA GENERAL DE LA OEA, op. cit. O presidente Kennedy já reconhecera que em 1960 “do mundo subdesenvolvido, que tem necessidade de capitais, retiramos um bilhão e 300 milhões de dólares, enquanto para lá só exportamos 200 milhões em capitais de investimento”. Discurso no congresso da AFL-CIO, em Miami, em 8 de dezembro de 1961.

[2] Entre 1955 e 1966, os misteriosos erros e omissões somaram, por exemplo, mais de um bilhão de dólares na Venezuela, 743 milhões na Argentina, 714 no Brasil, 310 no Uruguai. NACIONES UNIDAS/CEPAL, op. cit.

     A imaginação das empresas faz outro tanto com os próprios investimentos. De fato, como a vertigem do progresso tecnológico abrevia cada vez mais os prazos de renovação do capital fixo nas economias avançadas, a grande maioria das instalações e dos equipamentos fabris exportados para os países da América Latina cumpriu anteriormente um ciclo de vida útil em seus lugares de origem. A amortização, portanto, já foi feita, de forma total ou parcial. Nos efeitos do investimento no exterior, este pormenor não é contado: o valor atribuído ao maquinário, arbitrariamente elevado, seguramente não seria nem sombra do que é, se formos considerar os frequentes casos de desgaste prévio. De resto, a matriz não tem por que lançar-se em gastos para produzir na América Latina os bens que antes lhe vendia à distância. Os governos se encarregam de ajudar, adiantando recursos à filial que chega para instalar-se e cumprir sua missão redentora: a filial tem acesso ao crédito local a partir do momento em que põe um cartaz no terreno onde erguerá sua fábrica; conta com privilégios cambiais para suas importações compras que a empresa costuma fazer de si mesma – e até pode conseguir, em alguns países, um tipo especial de câmbio para pagar suas dívidas no exterior, que frequentemente são dívidas do ramo financeiro da mesma corporação. Um cálculo feito pela revista Fichas¹ indica que as divisas utilizadas na Argentina, entre 1961 e 1964, pela indústria automobilística, são três vezes e meia maiores do que o montante necessário para construir dezessete centrais termelétricas e seis centrais hidrelétricas com uma potência total de mais de 2.200 megawatts, e equivalem ao valor das importações de maquinário e equipamentos requeridos durante onze anos pelas indústrias dinâmicas para provocar um incremento anual de 2,8 por cento no produto por habitante.

[1] Fichas de investigación econômica y social. Buenos Aires, junho de 1965.


continua na página 363...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
A Estrutura Contemporânea da Espoliação
Um Império que importa CAPITAIS (6)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas? 

Émile Zola - Germinal: Sétima Parte - (II)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sétima Parte

II

     No domingo, assim que anoiteceu, Etienne escapou do conjunto habitacional. Um céu muito puro, cravejado de estrelas, iluminava a terra com uma luz azul de crepúsculo. Desceu em direção ao canal, seguiu lentamente a margem para os lados de Marchiennes. Era o seu passeio favorito, uma vereda de duas léguas coberta de relva, estendendo-se muito reta ao longo daquela água geométrica, que se desenrolava como uma interminável lâmina de prata liquefeita.
     Nunca encontrava ninguém por aquelas paragens. Naquele dia, porém, ficou contrariado vendo um homem dirigir-se para ele. E, à luz pálida das estrelas, os dois caminhantes solitários só se reconheceram quando estavam frente a frente. 

— Ah, és tu! — murmurou Etienne.

     Suvarin acenou com a cabeça, sem responder. Por um momento permaneceram imóveis, depois, um ao lado do outro, recomeçaram o passeio em direção a Marchiennes. Ambos pareciam continuar imersos em seus pensamentos, como que muito distanciados. 

— Viste no jornal o sucesso de Pluchart em Paris? — perguntou finalmente Etienne. — Ao sair da tal reunião de Belleville estava sendo esperado na calçada e recebeu uma ovação. O homem está lançado, apesar da sua rouquidão. De agora em diante ele vai dar as cartas.

     O mecânico deu de ombros. Desprezava os discursadores, os astutos que entram na política como quem entra na advocacia, para ganhar dinheiro com a retórica.
     Etienne, agora, estava entusiasmado por Darwin. Lera fragmentos seus, resumidos e vulgarizados num volume de cinco soldos, e dessa leitura mal compreendida, fazia uma ideia revolucionária da luta pela existência, os magros comendo os gordos, o povo forte devorando a fanada burguesia. Mas Suvarin irritou-se, alongou-se sobre a imbecilidade dos socialistas que aceitam Darwin, esse apóstolo da desigualdade científica, cuja famosa seleção só era boa para filósofos aristocratas. E o outro insistia, queria raciocinar e exprimia suas dúvidas por uma hipótese: a velha sociedade não existia mais, fora varrida até as migalhas; pois bem! não era de temer que o mundo novo crescesse, lentamente estragado pelas mesmas injustiças, uns fracos e outros fortes, uns mais hábeis, mais inteligentes, comendo tudo, e outros idiotizados e preguiçosos, voltando novamente à escravidão? Diante dessa visão de eterna miséria o mecânico exclamou em tom feroz que, se a justiça não era compatível com o homem, este tinha que desaparecer. Enquanto houvesse sociedades podres haveria massacres, até a exterminação do último ser. E o silêncio voltou a reinar.
     Por muito tempo, de cabeça baixa, Suvarin caminhou sobre a erva fina, tão absorto que seguia bem à beira da água, com a tranquila certeza de um homem sonâmbulo, sonhando ao longo de um beirai. Depois, repentinamente, estremeceu, como se tivesse esbarrado com uma sombra. Levantou os olhos e seu rosto era de uma palidez marmórea. Perguntou suavemente ao companheiro: 

— Já te contei como ela morreu? 
— Quem? 
— Minha mulher, lá na Rússia.

     Etienne fez um gesto vago, admirado com o tremor da voz, com aquela repentina necessidade de confidência num homem habitualmente impassível, no seu estoico distanciamento dos outros e de si mesmo. Sabia apenas que a mulher era uma amante e fora enforcada em Moscou. 

— O golpe tinha gorado — começou a contar Suvarin, agora com os olhos perdidos no branco deslizar do canal, entre a colunata azul das grandes árvores. — Tínhamos ficado catorze dias debaixo da terra, colocando minas na estrada de ferro. E, em vez do trem imperial, foi um trem de passageiros que explodiu... Então prenderam Anuchka. Era ela que todas as noites nos trazia pão, disfarçada em camponesa. Foi ela também quem acendeu a mecha, porque um homem poderia ser notado... Segui o julgamento, escondido na multidão, durante seis dias intermináveis...

     Não pôde mais falar, foi sufocado por um ataque de tosse. Em seguida continuou: 

— Por duas vezes tive vontade de gritar, de furar a multidão para juntar-me a ela. Mas de que serviria? Um homem de menos é um soldado de menos; e eu percebia claramente que ela me dizia que não, com seus grandes olhos parados, quando encontrava os meus.

     Tornou a tossir. 

— No último dia, na praça, eu também estava... Chovia, os idiotas não sabiam o que fazer debaixo da chuvarada. Tinham levado vinte minutos para enforcar outros quatro: a corda rompia, não conseguiam acabar com o quarto... Ánuchka estava muito ereta, esperando. Não me via, procurava-me com o olhar na multidão. Subi numa pilastra e ela me enxergou, nossos olhares não se largaram mais. Mesmo depois de morta continuou olhando me. Agitei meu chapéu e parti.

     Houve novo silêncio. A fita branca do canal desenrolava-se até o infinito; ambos caminhavam no mesmo passo abafado, cada um imerso outra vez no seu isolamento. No fundo do horizonte, a água pálida parecia abrir no céu um risco de luz muito fino. 

— Era o nosso castigo — continuou duramente Suvarin. — Éramos culpados do nosso amor... Sim, foi melhor que ela morresse, nascerão heróis do seu sangue, e eu, agora, tenho um coração de pedra... Ah! nem pais, nem mulher, nem amigo, nada que faça tremer a mão no dia em que for necessário tirar a vida de outros ou dar a sua!

     Etienne parará, fremindo sob a noite fresca. Não discutiu, disse simplesmente: 

— Estamos longe, queres voltar?

     Voltaram em direção à Voreux, lentamente; depois de alguns passos, acrescentou: — Viste os novos cartazes?

     Eram os grandes cartazes amarelos que a companhia mandara fixar na manhã daquele dia. Neles, mostrava-se mais clara e conciliadora, prometia aceitar os mineiros despedidos que se apresentassem no dia seguinte ao trabalho. Tudo seria esquecido, perdoariam até os mais comprometidos. 

— Sim vi — respondeu o mecânico. 
— E que achas? 
— Acho que está tudo acabado... O rebanho voltará ao trabalho. Vocês são todos uns covardes.

     Etienne, febrilmente, desculpou os companheiros: um homem pode ser valente, uma multidão que morre de fome não tem força para nada. Passo a passo tinham atingido a Voreux. Diante da massa escura da mina, continuou, jurou que nunca mais voltaria àquele trabalho, mas desculpava os que voltassem. Em seguida, como corria o boato de que os carpinteiros não tinham tido tempo de consertar o estaqueamento, procurou informar-se. Seria verdade? O volume de terra contra o madeiramento que revestia o poço era tão grande que ele estava arqueado e um dos elevadores de extração roçava-o ao passar, numa extensão de mais de cinco metros. Era verdade isso?
     Suvarin, caído novamente no seu mutismo, respondeu secamente. Trabalhara na véspera, e, realmente, o elevador roçava em certo trecho; os mecânicos tinham de duplicar a velocidade para poder passar naquele lugar. Mas todos os chefes acolhiam as observações com a mesma frase irritada: queriam carvão; mais tarde aquilo seria consertado. 

— Imagina se rebenta... — murmurou Etienne. — Estaríamos perdidos.

     Com os olhos na mina, sem forma definida no escuro, Suvarin concluiu tranquilamente: 

— Se aquilo rebentar, os companheiros o saberão, já que tu os aconselhas a voltarem ao trabalho.

     Davam nove horas no campanário de Montsou. Como o outro dissesse que ia dormir, ele acrescentou, sem mesmo estender a mão: 

— Bem, adeus. Eu vou embora. 
— Como, vais embora? 
— É isso mesmo, pedi minha carteira de trabalho de volta, vou para outro lugar.

     Etienne, estupefato, comovido, fitava-o. Era depois de duas horas de passeio que lhe dizia aquilo, e com toda a calma, quando só o anúncio daquela brusca separação confrangia seu coração. Haviam-se conhecido, tinham sofrido juntos; só de pensar que nunca mais o veria, ficava triste. 

— Tu te vais para onde? 
— Por aí, não sei... 
— Mas nós nos veremos de novo? 
— Não, acho que não.

     Calaram-se, ficaram por um momento frente a frente, sem saber o que dizer. 

— Então, adeus. 
— Adeus.

     Enquanto Etienne subia em direção ao conjunto habitacional, Suvarin voltou as costas e dirigiu-se para a margem do canal. Lá, agora sozinho, de cabeça baixa, engolfado nas trevas, como uma sombra movendo-se na noite, caminhou ao léu. Por momentos parava para ver as horas, ao longe. Quando soou meia-noite, abandonou o canal e dirigiu-se para a Voreux.
     Nesse momento a mina estava deserta, apenas encontrou um contramestre com os olhos pesados de sono. As fornalhas só eram acesas às duas horas, para o começo do trabalho. Primeiro subiu para procurar num armário uma jaqueta que fingia ter esquecido. Nessa peça de roupa encontravam-se enroladas diversas ferramentas: uma pua, um serrote pequeno muito forte, um martelo e uma talhadeira. Em seguida, partiu; mas, em vez de sair pelo vestiário, enfiou-se pelo estreito corredor que levava ao fosso das escadas. E, com a jaqueta debaixo do braço, desceu de mansinho, sem lanterna, medindo a profundidade pela contagem das escadas. Sabia que o elevador roçava a trezentos e setenta e quatro metros, de encontro à quinta passagem do revestimento inferior. Tendo contado cinquenta e quatro lances de escada, tateou com a mão e sentiu a saliência das madeiras. Era ali.
     Então, com a destreza e o sangue-frio de um bom operário que meditou longamente sobre a sua tarefa, pôs-se a trabalhar. Começou serrando um painel no tabique do fosso que comunicava com o compartimento de extração. E, com a ajuda de fósforos rapidamente acesos e apagados, pôde estudar o estado dó revestimento e dos reparos que recentemente tinham sido feitos.
     Entre Calais e Valenciennes, a abertura dos poços de minas encontrava dificuldades inauditas, para atravessar os imensos lençóis de água subterrâneos, ao nível dos vales mais baixos. Só a construção do revestimento com pranchas unidas umas às outras, como as aduelas de um tonei, conseguia conter os mananciais e isolar os poços no meio de lagos cujas vagas profundas e obscuras batiam contra as paredes. Ao abrir a Voreux, fora necessário construir dois revestimentos: o do nível superior nas areias soltas e argilas brancas, vizinhas do terreno cretáceo, fendidas de todos os lados, empapadas de água como uma esponja; depois, o do nível inferior, diretamente por cima das jazidas de carvão, numa areia amarela, fina como farinha, correndo com a fluidez de um líquido; e era aí que se encontrava a Torrente, esse mar subterrâneo, o terror das minas do norte, mar com suas tempestades e seus naufrágios, mar ignorado, insondável, com seus vagalhões negros, a mais de trezentos metros da luz do sol. De ordinário os estaqueamentos aguentavam a pressão enorme. Só a depressão dos terrenos vizinhos podia ser perigosa, já que essas terras eram constantemente abaladas pelas antigas galerias de exploração, que, ao se encherem, sorviam-nos. Nessa depressão das rochas, às vezes se produziam fendas que se propagavam lentamente até o estaqueamento, deformando-o com o tempo, empurrando-o para o interior do poço.
     Esse era o grande perigo, uma ameaça de desabamento e inundação, a mina enchendo-se com as terras esboroadas e o dilúvio dos mananciais.
     Suvarin, a cavalo na abertura que fizera, constatou uma deformação muito grave na quinta passagem do estaqueamento. A madeira estava arqueada, fora do enquadramento, muitas tinham mesmo saído do seu lugar. Infiltrações abundantes, "repuxos", como dizem os mineiros, jorravam das juntas, através da estopa alcatroada com que estavam calafetadas. E os carpinteiros, premidos pelo tempo, haviam-se limitado a colocar cunhas de ferro, tão negligentemente que nem todos os parafusos tinham sido postos. Produzia-se, evidentemente por trás, nas areias da Torrente, um movimento considerável.
     Então, com a broca, principiou a desapertar os parafusos, de modo que um empuxão final arrancasse todos. Era um trabalho de temeridade louca, durante o qual várias vezes quase caiu, numa queda de cento e oitenta metros, que era o que o separava do fundo. Tivera de se agarrar às guias de carvalho, os madeiros por onde corriam os elevadores; e, suspenso por cima do vácuo, locomovia-se ao longo das travessas que os ligavam de distância em distância deslizava, sentava-se, deitava-se de costas, simplesmente apoiado num cotovelo ou num joelho, com um tranquilo desprezo pela morte. Um sopro o faria cair; por três vezes quase se despencou sem um arrepio. Primeiro tateava com a mão, depois trabalhava, só acendendo um fósforo quando se perdia no meio daqueles caibros viscosos. Desatarraxados os parafusos, começou a trabalhar nas próprias pranchas, o que mais aumentou o perigo. Tinha procurado a prancha mestra, a que servia de apoio às outras; contra ela se encarniçou, furando-a, serrando-a, afinando-a, para que perdesse resistência, enquanto a água, escapando em finos esguichos pelos buracos e fendas, cegava-o e ensopava o numa chuva gelada. Dois fósforos se apagaram; todos estavam molhados. Agora era a noite, um vácuo profundo de trevas.
     A partir desse momento, parecia ébrio de ódio. Os sopros do invisível arrebatavam-no, o negro horror daquele buraco batido pela água lançou-o num furor de destruição. Começou a golpear ao acaso o estaqueamento, batendo onde podia, com a broca, com o serrote, possuído pelo desejo de pôr tudo abaixo sobre si mesmo. E punha nisso tal ferocidade, que era como se estivesse esfaqueando um ser vivo, que odiasse. Havia de exterminar essa besta malfazeja, essa Voreux que estava com a goela sempre aberta e já devorara tanta carne humana! Ouvia-se o ranger das suas ferramentas, espichava-se, rastejava, descia, subia, mantendo-se por milagre, num vaivém contínuo, num esvoaçar de pássaro noturno por entre o vigamento de um campanário.
     Mas acalmou-se, não contente consigo. Será que não se podiam fazer as coisas friamente? Sem se apressar tomou fôlego, voltou ao fosso das escadas, tornando a colocar o painel que serrara. Já bastava, não queria dar o alarme com um estrago muito grande, que tentariam consertar sem demora. A besta estava ferida na barriga, ver-se-ia se ela poderia viver até a noite. E lá estava a sua marca; o mundo, aterrado, viria a saber que ela não morrera de morte natural. Demorou-se enrolando metodicamente as ferramentas na jaqueta, subiu as escadas lentamente. Depois, tendo saído da mina sem ser visto, nem chegou a pensar em mudar de roupa. Deram três horas. Ficou na estrada, esperando. A mesma hora, Etienne, que não dormia assustou-se com um leve ruído que ouviu na escuridão espessa do quarto. Distinguia a respiração leve das crianças, os roncos de Boa-Morte e da viúva, enquanto, ao seu lado, Jeanlin emitia uma nota prolongada de flauta. Com certeza tinha sonhado, e já ia enovelar-se outra vez quando o ruído recomeçou. Era um estalido de madeira, o esforço abafado de uma pessoa que se levanta. Então pensou que talvez Catherine estivesse indisposta. 

— És tu? Estás sentindo alguma coisa? — perguntou em voz baixa.

     Ninguém respondeu, o ressonar dos outros continuava. Durante cinco minutos nada se mexeu, depois houve um outro estalido. E agora, seguro de não ter sonhado, atravessou o quarto, estendeu os braços para as trevas, tocando na cama da frente. Foi grande a sua surpresa ao encontrar a moça sentada, com a respiração suspensa, acordada e à espera. 

— Por que não respondes? Que estás fazendo?

     Ela acabou por dizer: 

— Estou-me levantando. 
— Levantando a esta hora? 
— É isso mesmo, vou trabalhar.

     Comovido, Etienne teve de se sentar na borda da enxerga, enquanto Catherine explicava-lhe as razões do seu gesto. Sofria muito de viver assim, sem fazer nada, sentindo sobre si os eternos olhares de censura; preferia correr o risco de ser maltratada por Chaval lá na mina. E, se a mãe não aceitasse seu dinheiro, não havia de ser nada, já estava bastante adulta para viver sozinha e fazer sua comida. 

— E agora vai, quero vestir-me. E não digas nada, hem? Sê bom.

     Mas ele ficou onde estava e tomou-a pela cintura, numa carícia de tristeza e pena. Em camisola, apertados um ao outro, sentiram o calor de sua pele nua, à beira daquela cama tépida do sono da noite. O primeiro movimento dela fora afastar-se, depois pôs-se a chorar baixinho, agarrando o pelo pescoço para mantê-lo contra si, num abraço desesperado. E ficaram assim, sem outro desejo, com o passado dos seus amores infelizes, que não tinham podido satisfazer. Estava então tudo acabado, não ousariam amar-se um dia, agora que eram livres? Um pouquinho de felicidade seria o bastante para dissipar sua vergonha, esse mal-estar que os impedia de seguirem juntos, em razão de uma infinidade de idéias, que nem eles mesmos sabiam o que era. 

— Vai deitar-te — murmurou ela. — Não quero acender a luz para não acordar mamãe... Já está na hora, vai...

     Mas ele não escutava, abraçava-a desesperadamente, o coração imerso em profunda tristeza. Uma necessidade de paz, um invencível desejo de ser feliz invadia-o. E via-se casado, numa casinha limpa sem outra ambição do que a de viverem e morrerem assim, juntos . Só pão lhe bastaria; e, mesmo que houvesse apenas para um, esse pedaço seria para ela. Para que mais? A vida valeria mais que isso?
     Ela já estava soltando seus braços nus. 

— Por favor, vai...

     Então, num transbordamento de coração, ele disse-lhe ao ouvido: 

— Espera, vou contigo.

     E admirou-se de ter dito aquilo. Jurara que não voltaria a descer, de onde viria então essa decisão brusca, saída dos seus lábios sem a ter pensado ou raciocinado? Agora fazia-se nele tamanha tranquilidade, uma cura tão completa das suas dúvidas, que se obstinava na decisão, como um homem salvo pelo acaso e que enfim encontrasse a única saída para o seu tormento. Por isso não quis ouvi-la, quando ela se mostrou alarmada, compreendendo que seu gesto era pura dedicação, temendo os impropérios com que ele seria recebido na mina. O rapaz ria de tudo isso, os cartazes prometiam perdão, e isso bastava. 

— Já decidi, vou trabalhar... Vamos vestir-nos sem fazer barulho. 

     Vestiram-se no escuro, com mil precauções. Ela, às escondidas, tinha preparado de véspera a sua roupa de mineiro; o rapaz tirou do armário uma jaqueta e umas calças. E não se lavaram com receio de fazer barulho com o tacho. Todos dormiam, tinham de atravessar o corredor estreito onde dormia a mãe. Ao saírem, por desgraça tropeçaram numa cadeira. A mulher acordou, perguntando, cheia de sono: 

— Hem? quem é?

     Catherine, toda trêmula, tinha parado, apertando violentamente a mão de Etienne. 

— Sou eu, não é nada — disse este. — Estou precisando de ar fresco, vou até lá fora respirar um pouco. 
— Ah! — grunhiu a mulher, voltando a dormir.

     Catherine não ousava caminhar. Finalmente desceu à sala e repartiu uma fatia que tinha guardado de um pão dado por uma senhora de Montsou. Depois, fecharam cuidadosamente a porta e partiram.
     Suvarin permanecera em pé, ao lado do Avantage, numa curva da estrada. Havia meia hora que observava os mineiros voltando ao trabalho, confundidos com o escuro, passando com o seu surdo bater de cascos, como um rebanho. Contava-os, como os magarefes contam as reses à entrada do matadouro; e estava surpreso com a quantidade, não previra, mesmo no seu pessimismo, que o número de covardes pudesse ser tão grande. A fila não tinha fim, ele se retesava, friorento, cerrando os dentes, os olhos claros.
     De repente estremeceu. Entre os homens que desfilavam e cujas fisionomias não distinguia, acabava de reconhecer um, pelo modo de andar. Avançou e fê-lo parar. 

— Aonde vais?

     Etienne, perturbado, em vez de responder, balbuciava: 

— Como, ainda não partiste?

     Depois confessou, voltava para a mina. Sim, tinha jurado, mas não era vida esperar de braços cruzados que as coisas, talvez dentro de cem anos, acontecessem; além disso, razões suas tinham feito com que se decidisse.
     Suvarin escutara-o arrepiado. Agarrando-o por um braço, empurrou-o de volta ao conjunto habitacional. 

— Volta já para casa!

     Catherine se aproximou, ele reconheceu-a também. Etienne protestou, declarou que ninguém tinha o direito de julgar seus atos. E os olhos do mecânico foram da moça ao companheiro, enquanto recuava um passo, com um gesto brusco de desistência. Quando um homem tinha uma mulher no coração, estava liquidado, podia morrer. Talvez tenha visto, numa rápida visão, lá em Moscou, sua amante enforcada, o último laço carnal que cortara, que o tornara livre da vida dos outros e da sua. Disse simplesmente: 

— Vai.

     Perturbado, Etienne demorava-se, procurando uma palavra de camaradagem, para não se separarem assim. 

— Então, vais partir mesmo? 
— Vou. 
— Vamos, um aperto de mão, meu velho. Boa viagem, e sempre amigos.

     O outro lhe estendeu a mão gelada. Nem amigo, nem mulher. 

— Desta vez é para sempre. Adeus. 
— Sim, adeus.

     E Suvarin, imóvel nas trevas, seguiu com o olhar Etienne e Catherine, que entravam na Voreux.

continua na página 395...
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Sétima Parte - (I.a) / Sétima Parte - (I.b) / Sétima Parte- (II) /        
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / X — Tarifa dos cabrioles de aluguer¹: dois francos por hora

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     X — Tarifa dos cabrioles de aluguer¹: dois francos por hora
             
          Mário não tinha perdido um só pormenor desta cena, e, contudo, na realidade nada tinha visto. Os olhos tinham-lhe ficado fixos na jovem, que ele, para assim dizer, abarcara toda com o coração, apenas ela entrou na mansarda. Durante todo o tempo que ela ali se detivera, o jovem vivera a vida do êxtase que suspende as percepções materiais, fazendo concentrar a alma toda num só ponto. Ele contemplava, não a jovem, mas aquela luz que trazia um mantelete de cem e um chapelinho de veludo. O jovem não ficaria mais deslumbrado do que ficou se naquela sala vesse entrado a estrela Sírio.
     Ao mesmo tempo que a graciosa jovem ia desatando a trouxa, desdobrando a roupa e os cobertores, e fazendo perguntas com bondade à doente e com enternecimento à pequena que se cortara, Mário observava-lhe todos os movimentos e tentava ouvir todas as palavras que ela proferia. Conhecia-lhe os olhos, a fronte, a beleza, a cintura, o andar, só não lhe conhecia o som da voz. Julgara uma ocasião no Luxemburgo que lhe ouvira algumas palavras, mas não tinha a certeza disso. De bom grado dava dez anos da sua vida para a ouvir falar, para poder levar na alma um bocado desta música. Tudo, porém, que a jovem dizia era abafado pelos lamentosos queixumes de Jondrette e pelos seus guinchos, com o que o transportado jovem muito se encolerizava. Mário fitava-lhe os olhos com a maior ternura. Não podia capacitar-se de que era, realmente, aquela criatura divina que ele divisava no meio daqueles imundos entes, naquela mansarda monstruosa. Parecia-lhe um colibri entre sapos.
     Quando ela saiu, o seu pensamento foi segui-la, não a perder de vista, acompanhá-la até saber onde ela morava, ou ao menos não a tornar a perder, depois de a haver encontrado tão miraculosamente. Saltou, pois, abaixo da cômoda e pegou no chapéu, mas, ao deitar a mão ao fecho da porta para sair, suspendeu-o uma reflexão. O corredor era comprido, a escada empinada, Jondrette falador, por isso o senhor Leblanc ainda de certo não se tinha medo na carruagem, e se ele no corredor ou na escada ou no limiar da porta se voltasse, avistá-lo-ia naquela casa, e decerto se assustaria e acharia modo de lhe escapar de novo, e lá ia outra vez tudo. Que fazer? Esperar um bocado? Mas, durante esse tempo de espera, podia a carruagem ir-se embora. Mário estava perplexo. Afinal, aventurou-se a sair do quarto.
     Como no corredor já não encontrasse ninguém, dirigiu-se para a escada, onde também não encontrou vivalma. Desceu, portanto, apressadamente, e chegou ao boulevard a tempo de ver um carro a voltar a esquina da Rua do Petit-Banquier e encaminhar-se para Paris.
     Mário precipitou-se naquela direção, e, chegado ao ângulo do boulevard, tornou a avistar o carro, que seguia rapidamente pela rua Mouffetard; já ia muito distante, tornando-se impossível apanhá-lo; mesmo que ele tentasse isso, deitando a correr com toda a força atrás dele, decerto o avistariam de dentro e o velho o conheceria. Neste momento, porém, singular e maravilhoso acaso, Mário avistou um cabriole de aluguer, que ia a passar pelo boulevard sem ninguém dentro. O único expediente, pois, que tinha a tomar era meter-se no cabriole e seguir o carro. Era uma coisa certa, eficaz e sem perigo.
     Mário fez sinal ao cocheiro para que parasse e gritou-lhe: 

— Por hora!

     Mário estava sem gravata, com o fato velho com que trabalhava, ao qual faltavam alguns botões, e uma camisa rota numa das pregas do peito.
     O cocheiro parou, piscou o olho e estendeu a mão para Mário, esfregando brandamente o índex com o polegar. 

— Que é? — perguntou Mário. 
— Pague adiantado — respondeu o cacheiro.

     O rapaz lembrou-se então de que não trazia consigo senão dezesseis soldos. 

— Quanto? — indagou. 
— Quarenta soldos. 
— Eu pago na volta.

     O cocheiro, por única resposta, pôs-se a assobiar a cantiga de La Palisse e fustigou os cavalos.
     Mário viu partir o cabriole com gesto desvairado. Por vinte e quatro soldos que lhe faltavam, perdia a sua alegria, a sua ventura, o seu amor, ficava outra vez nas trevas, tornava a cegar, depois de ter visto! Lembrou-se então amargamente, e, devemos dizê-lo, com profundo pesar, dos cinco francos que pela manhã dera à miserável rapariga, filha do seu vizinho Jondrette. Se ele ali tivesse esses cinco francos, estava salvo, renasceria, sairia dos limbos e das trevas, sairia do isolamento, do spleen, da viuvez, tornaria a atar o fio negro do seu destino àquele belo fio de ouro que há um instante lhe flutuara diante dos olhos, quebrando-se ainda outra vez!
     Mário entrou em casa no cúmulo do desespero.
     Pudera servir-lhe de lenitivo a lembrança, de que o senhor Leblanc prometera voltar de tarde e que então tomaria melhor as suas precauções para o seguir; o jovem, porém, alheado na sua contemplação, mal ouvira a promessa do velho.
     Na ocasião em que ia a subir a escada, avistou do outro lado do boulevard, junto da parede deserta da rua da Barreira dos Gobelinos, Jondrette, vestido com o sobretudo do «filantropo», a falar com um desses homens de aspecto pouco tranquilizador, a quem por convenção chamamos vagabundos das barreiras; homens de rostos equívocos e monólogos suspeitos, que têm ar de más intenções e que de ordinário dormem de dia, o que faz supor que trabalham de noite.
     Estes dois homens parados a conversar, apanhando a neve que caía em espessos flocos, formavam um grupo, que um agente de polícia com certeza se poria a observar, mas em que Mário mal fez reparo.
     Não obstante, porém, a grande preocupação que o agitava, não pôde deixar de notar que aquele vagabundo das barreiras com quem Jondrette estava a falar se parecia com um certo Panchaud, conhecido também pelo nome de Printanier ou Bigrenaille, que Courfeyrac uma vez lhe mostrara, e que passava no bairro por um perigoso passeante noturno. O leitor já no livro precedente viu o nome deste homem. O tal Panchaud, conhecido também pelo nome de Printanier ou Bigrenaille, veio depois a figurar em muitos processos criminais, o que o tornou célebre entre os gatunos. Neste tempo não passava de um famoso gatuno. Hoje apenas resta dele uma vaga tradição entre os salteadores e ratoneiros. Fazia escola pelos fins do último reinado. Ao cair da noite, à hora em que se formam os grupos falando em voz baixa, conversava-se a respeito dele na Force, na Cova dos Leões. Podia-se até, na prisão, justamente no sítio em que por baixo do caminho de circunvalação passava o cano das latrinas, por onde em 1843 conseguiram evadir-se, em pleno dia, trinta presos, podia-se ler, logo por cima, o seu nome — PANCHAUD — audaciosamente gravado por ele no muro de circunvalação, numa das suas tentativas de evasão.
     Em 1832 já a polícia o vigiava, porém ainda ele não tinha feito a sua estreia de um modo sério.

continua na página 571...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - X — Tarifa dos cabrioles de aluguer¹: dois francos por hora
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
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[1] "Aluguer"... significa a cedência provisória do uso de um bem mediante pagamento, equivalente a aluguéis ou arrendamentos. A palavra "aluguer" refere-se à cedência temporária do uso ou usufruto de um bem, que pode ser um imóvel, veículo, objeto ou serviço, mediante pagamento de um valor previamente acordado, ou seja, trata-se de aluguel ou arrendamento. "Alugueres" é o plural de "aluguer" e é mais comum em Portugal e em contextos jurídicos. No Brasil, a forma equivalente é "aluguéis," plural de "aluguel," sendo a forma mais usada no português brasileiro. Ambas as formas são corretas gramaticalmente, mas a escolha depende da variante do português utilizada.