terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Mini-conto: bandido bom

e a faria lima?


bandido bom é bandido morto!
desde que não seja eu...

pimenta no olho do pobre e do preto é colírio! 







Mini-conto, miniconto, mini conto... nem te conto

Saco de lixo / um marreco acuado / bandido bom / 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Massa e Poder - As Entranhas do Poder: Os Matadores Seguem Sendo os Poderosos

Elias Canetti

AS ENTRANHAS DO PODER

     Os Matadores Seguem Sendo os Poderosos

      Não foi apenas como um todo que a mão atuou como modelo e estímulo. Também os dedos, isoladamente — e, em particular, o dedo indicador estendido —, adquiriram significado. Em sua extremidade, o dedo se afila e se arma de uma unha: foi ele o primeiro a proporcionar a sensação ativa do furar. O punhal, que se desenvolveu a partir dele, é um dedo mais duro e mais bem afiado. A flecha foi um cruzamento do pássaro com o dedo. Afim de penetrar mais fundo, ela se alongou; para voar melhor, teve de afilar-se. O bico e o espinho contribuíram também em sua composição; o bico, aliás, é próprio daquilo que voa. Já o bastão a lado, por sua vez, transformou-se na lança: um braço que desemboca num único dedo. 
     Comum a todas as armas desse tipo é a concentração num único ponto. Pelo duro e longo espinho, o próprio homem foi espetado; com seus dedos, ele o extraiu. O dedo que se destaca do restante da mão e faz as vezes de um espinho, a passar adiante a espetada, constitui, psicologicamente, a origem dessa espécie de arma. O espetado espeta a si próprio, graças a seus dedos e aos dedos artificiais que, pouco a pouco, aprende a construir.
     Das habilidades da mão, nem todas conferem o mesmo poder; seu prestígio é assaz variado. Aquilo que é importante para a vida prática de um grupo de homens será altamente estimado. Do mais alto prestígio desfruta, porém, aquilo que está direcionado para matar. Tudo quanto pode chegar a matar é temido; o que não serve diretamente a esse propósito é tão somente útil. Todos os pacientes afazeres da mão conferem àqueles que a eles se limitam nada mais que submissão. Mas os outros, os que se dedicam a matar, estes detêm o poder.

continua página 331...
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Leia também:

Massa e Poder - As Entranhas do Poder: Os Matadores Seguem Sendo os Poderosos
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

Thomas Mann - A Montanha Mágica: Abundância de harmonia - [a]

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VII
Abundância de harmonia

...
     Qual foi a nova aquisição do Sanatório Berghof que salvou o nosso velho amigo da mania das cartas, para lançá-lo nos braços de uma paixão diferente, mais nobre, embora na verdade não menos estranha? A ponto de falar dessa inovação, nós mesmos sentimos o misterioso encanto que o assunto irradia, e que nos inspira o sincero desejo de comunicar os fatos ao leitor.
     Tratava-se de um acréscimo feito ao número de aparelhos de diversão que se achavam no maior dos salões da casa. A compra, cuja ideia era fruto dos incessantes cuidados da gerência, tinha sido resolvida no seio do grêmio administrativo do sanatório e exigira despesas que não queremos computar, mas devemos qualificar de generosas por parte da direção desse estabelecimento, que merece a nossa irrestrita recomendação. Seria um brinquedo engenhoso do tipo da caixa estereoscópica, do caleidoscópio em forma de luneta e do tambor cinematográfico? Sim e, sob certos aspectos, também não. Pois, em primeiro lugar não era óptico mas acústico aquele instrumento com que os pensionistas certa noite depararam no salão de música e que os fez bater as mãos em sinal de aplauso e de surpresa. Além disso, as referidas atrações levianas absolutamente não podiam ser comparadas a ele quanto à classe, ao nível e ao valor. Isso não era um espetáculo infantil, monótono, do qual todos estavam fartos e que ninguém olhava depois de mais de três semanas de permanência no sanatório. Era uma opulenta cornucópia de prazeres artísticos que alegravam ou entristeciam a alma. Era um instrumento de música. Era um fonógrafo.
     Receamos seriamente que essa palavra possa ser interpretada num sentido indigno e obsoleto, e associada a idéias que talvez correspondam aos primitivos precursores daquilo que temos em mente, não, porém, à realidade, essa realidade que a técnica consagrada ao serviço das musas desenvolvera, num infatigável esforço burilador, até a mais elevada perfeição. Não, meus amigos! Não falamos de um daqueles míseros caixotes a manivela que em tempos remotos enchiam os ouvidos pouco exigentes do público de restaurantes com seus berros fanhosos, esses caixotes coroados pelo prato giratório e pelo braço da agulha, e que pareciam apêndices de um monstruoso funil de trombeta. A arca preta, de madeira mate, um pouco mais comprida do que larga, que ali, em cima de uma estantezinha, exibia as suas linhas simples e nobres, e que um fio revestido de seda ligava a uma tomada elétrica embutida na parede, absolutamente não se parecia com aquelas máquinas toscas, antediluvianas. Abria-se a tampa graciosamente chanfrada, guarnecida no seu interior de um suporte metálico dobradiço que, ao levantar-se do fundo do aparelho, fixava-a automaticamente numa posição oblíqua, protetora; e numa concavidade pouco profunda via-se o prato giratório, forrado de pano verde, cingido de um aro niquelado, com o pino central igualmente de níquel, que se enfiaria no furo dos discos de ebonite. Notava-se, além disso, bem na frente, ao lado direito, um dispositivo cifrado à maneira de relógio, e que servia para regular a velocidade. À esquerda, havia uma alavanca, mediante a qual se podia pôr em marcha ou travar o mecanismo, e mais para trás, ao mesmo lado, o braço oco, niquelado, sinuoso e claviforme, que se movia em articulações macias e tinha na sua extremidade o diafragma redondo, achatado, com o torninho destinado a segurar a agulha. Abriam-se também os batentes da porta da frente. Atrás dela descobria-se uma espécie de gelosia, formada por fasquias enviesadas de madeira preta – e nada mais. 

– É o modelo mais recente – disse o conselheiro, que acabava de entrar. – A última conquista da técnica. Pois é, meus filhos, de primeiríssima qualidade! Ultrafino! Não há coisa melhor nesse gênero. – Procurou arremedar de maneira cômica a linguagem de um vendedor ignorante que apregoa a sua mercadoria. – Isto não é aparelho, não é máquina – continuou, enquanto tirava uma agulha de uma caixinha colorida, de lata, que se achava na mesa, e a fixava no diafragma –, isso aí é um instrumento, é um Stradivarius, um Guarneri, com ressonâncias e vibrações do mais extremo refinamento! A marca é Polyhymnia, segundo nos informa esta inscrição no interior da tampa. Fabricada na Alemanha. Nesse ramo ninguém nos ganha, sabem? O sentimentalismo musical em forma moderna, mecanizada! A alma alemã up to date! E aí está a discoteca – acrescentou, designando um pequeno armário com fileiras de álbuns volumosos. – Entrego todo esse tesouro ao uso e prazer irrestrito dos senhores e das senhoras, mas pede-se ao público que zele por ele. Que tal se ouvíssemos uma peça, a título de experiência?
    
     Os enfermos imploraram-lhe que o fizesse. E Behrens apanhou um daqueles livros mágicos, de valioso conteúdo, virou as páginas pesadas e de uma das bolsas de cartolina, cujos buracos circulares deixavam ver os rótulos multicores, tirou um disco que colocou no aparelho. Com uma única manobra acionou o prato giratório, esperou alguns segundos, até o movimento alcançar a velocidade desejada, e aplicou a delicada ponta da agulha de aço cautelosamente à beira do disco. Ouviu-se um leve chiado. O médico desceu a tampa, e no mesmo instante irrompeu pelos batentes abertos da porta, por entre as fasquias da gelosia, um turbilhão orquestral, uma melodia alegre, barulhenta, apressada, os primeiros compassos saltitantes de uma abertura de Offenbach.
     Todos escutavam, sorrindo, boquiabertos. Não podiam dar crédito a seus ouvidos, tão puros e tão naturais saíam os trinados dos sopros de madeira. Um violino, sozinho, preludiava fantasiando. Ouviam-se o toque do arco, o tremulo da mão esquerda, a suave transição de uma posição a outra. O violino encontrou a melodia que procurara, uma valsa, Ai de mim, perdi a amada. Graciosamente, a orquestra acompanhava a ária insinuante, e era delicioso quando esta, honrosamente acolhida pelo conjunto dos músicos, se repetia sob o estrondo dos tutti. Não era, naturalmente, a mesma coisa como se uma verdadeira orquestra tocasse no salão. O som não sofria a menor desfiguração, mas o seu volume estava diminuído pela perspectiva; se nos é permitido empregar diante desse fenômeno acústico uma comparação tirada do terreno da óptica: era como se olhássemos um quadro por um binóculo às avessas, de modo que aparecesse distante e reduzido, sem detrimento da nitidez do desenho e da luminosidade das cores. A peça musical, engenhosa e picante, ia sendo reproduzida com todo o brilho inerente a essa composição frívola. O final era a leveza pura e simples, um galope comicamente hesitante no começo, um lascivo cancã, evocando a visão de cartolas brandidas no ar, de joelhos sacudidos e de saias farfalhantes, e cujo desenlace humorístico-triunfal parecia não ter fim. A seguir, o mecanismo desligou-se automaticamente. Terminara tudo. Houve sinceros aplausos.
     Reclamaram mais música e receberam-na. Uma voz humana brotou da arca, voz máscula, ao mesmo tempo macia e poderosa, acompanhada por uma orquestra. Era um barítono italiano de grande fama. Desta vez já não se podia falar de distância e de véus abafadores. A magnífica voz ressoava na plenitude natural do seu volume e vigor. Quem passasse para uma das salas vizinhas, cujas portas estavam abertas, e não visse o aparelho, poderia pensar que o cantor em carne e osso estivesse presente, e cantasse com as músicas na mão. Cantava na sua língua materna, uma ária di bravura: “Sono un barbieri, di qualità, di qualità! Figaro qua, Figaro la, Figaro, Figaro, Figaro!” Os ouvintes quase morriam de riso, ao escutar o parlando em voz de falsete e ao notar o contraste entre a voz potente e a vertiginosa desenvoltura da língua. As pessoas mais competentes talvez fossem capazes de observar e de apreciar a arte do fraseado e da técnica respiratória. Mestre na apresentação irresistível, virtuose do gosto latino que exige o “da capo”, o cantor sustentou por muito tempo a penúltima nota, antes da tônica final. Parecia aproximar-se da ribalta e erguer uma das mãos, a ponto de o público bater palmas ainda antes do fim da ária. Era esplêndido.
     E isso não era tudo. Uma trompa de caça executou com escrupulosa delicadeza variações sobre uma canção popular. Um soprano fez vibrar as clarinadas, os staccati e os gorjeios de uma ária de La traviata com a mais encantadora frescura e precisão. O fantasma de um violinista de celebridade mundial tocou, como se se achasse por trás de alguns véus, uma romança de Rubinstein, com acompanhamento de um piano que soava tão duro como um cravo. A arca milagrosa fervia aos poucos, mas ainda saíam dela badaladas de sinos, glissandi de harpas, clangores de trombetas e rufos de tambores. Finalmente tocaram discos de dança. Já havia até algumas amostras da importação mais recente, ao gosto das tavernas de portos exóticos: o tango, destinado a relegar a valsa vienense ao baile dos avós. Dois pares que sabiam executar os passos da moda exibiram-se sobre o tapete. Behrens acabava de retirar-se, depois de recomendar-lhes que não usassem uma agulha mais de uma vez e que tratassem os discos como se fossem ovos frescos. Hans Castorp encarregou-se do aparelho.
     Por que justamente ele? Isso se dera com a maior naturalidade. Falando laconicamente, em voz abafada, opusera-se àqueles que, depois da saída do conselheiro, queriam tomar a si a incumbência de mudar os discos ou as agulhas e de acionar ou desligar o motor elétrico. – Deixem isto comigo! – dissera, afastando-os do aparelho, e eles, indiferentes, lhe haviam obedecido; primeiro, porque ele dava a impressão de ser entendido no assunto desde havia muito tempo, e segundo, porque não faziam questão de trabalhar na fonte do prazer, ao invés de se deixar servir comodamente e sem responsabilidade, até o momento em que isso lhes causasse tédio.
     Hans Castorp era diferente. Enquanto o conselheiro apresentava a nova aquisição, o jovem mantivera-se silenciosamente no fundo da sala; não se ria, não batera palmas, mas prestara intensa atenção às peças oferecidas, torcendo uma sobrancelha entre dois dedos, como às vezes tinha por hábito. Tomado de certa inquietação, de quando em quando mudara de lugar, sem que o público o notasse. Entrara na biblioteca, a fim de escutar ali. Mais tarde plantara-se ao lado de Behrens, com as mãos nas costas e com a cara fechada. Examinara a arca, para lhe aprender o fácil manejo. Uma voz dizia nele: “Alto! Alerta! Começa uma época! Isso veio para mim!” Estava cheio do infalível pressentimento de mais uma paixão, de outro encantamento, do peso de um novo amor. Um jovem da planície, que ao primeiro olhar lançado a uma garota sente-se ferido pela flecha farpada do amor, não experimenta sensações diferentes. Os atos subsequentes de Hans Castorp foram determinados pelo ciúme. Propriedade comum? Qual nada, a curiosidade indolente não tem nem o direito nem a força necessária para possuir! “Deixem isto comigo!”, disse Hans Castorp entre dentes, e eles pareciam muito satisfeitos. Dançaram mais um pouco ao som das músicas fúteis que ele lhes oferecia. Pediram ainda um disco de canto, um dueto de ópera, a barcarola dos Contos de Hoffmann, cuja graça lhes enfeitiçava os ouvidos, e quando Hans Castorp chaveou a tampa, recolheram-se ao repouso, tagarelando, superficialmente animados pelo novo brinquedo. Era precisamente isto o que o jovem esperava. Haviam abandonado tudo na mais completa desordem, as caixinhas de agulhas e os álbuns abertos, os discos espalhados por toda parte. Era típico! Hans Castorp fez como se os seguisse, mas, clandestinamente, separou-se deles na escada. Voltou ao salão, cerrou todas as portas e permaneceu ali durante grande parte da noite, intensamente atarefado.
     Ia se familiarizando com a inovação. Sem que ninguém o incomodasse, examinava os tesouros musicais que acompanhavam o aparelho, o conteúdo de todos os pesados álbuns. Havia doze, de dois tamanhos diferentes, e cada qual continha doze discos. Muitas dessas chapas pretas, com os angustos sulcos circulares, eram gravadas dos dois lados. Certas peças estendiam-se por sobre o disco inteiro, e não eram raros os casos em que o mesmo disco continha duas obras diferentes. Assim parecia, no início, difícil e mesmo perturbadora a tarefa de obter uma visão de conjunto desse terreno cheio de belas possibilidades, que lhe cabia conquistar. Hans Castorp experimentou aproximadamente uns vinte e cinco discos, servindo-se de certo tipo de agulhas finas que tocavam em surdina, para não molestar ninguém e para não ser ouvido através da noite. Mas isso representava apenas a oitava parte de tudo quanto se lhe oferecia e clamava por ser experimentado. Por enquanto, Hans Castorp se contentou com uma rápida leitura dos títulos, e só de vez em quando escolhia a esmo uma amostra das silenciosas gravações circulares, para incorporá-la na arca que a faria soar. Era só pelo colorido que lhes cobria a parte central, e por nada mais, que esses discos de ebonite se distinguiam à primeira vista. Um era igual ao outro. Todos estavam cobertos até quase o centro por um sem-número de círculos concêntricos, e no entanto esse lineamento delicado continha tudo o que se pudesse imaginar de música, os mais felizes achados de todas as regiões da alma, em esmerada interpretação.
     Existiam ali numerosas aberturas e movimentos avulsos, pertencentes ao mundo sublime da sinfonia, tocados por orquestras famosas, cujos regentes eram designados pelo nome. Seguia se uma série de Lieder cantados por membros de grandes óperas, com acompanhamento de piano; tratava-se em parte de obras elevadas, produtos do esforço consciente de artistas individuais, em parte de singelas cantigas do povo, e ainda de outras peças que, por assim dizer, constituíam um meio-termo entre ambos os gêneros: embora frutos de uma arte intelectual, representavam, quanto à inspiração e à forma, a alma e o gênio do povo no que possuía de mais puro e mais piedoso; eram canções populares artificiais, se é possível usar o epíteto “artificial” sem lhes diminuir o caráter genuíno da invenção. Referindo-nos sobretudo a uma canção que Hans Castorp conhecia desde criança, mas pela qual só agora começava a sentir um amor misterioso, rico em associações, canção essa de que falaremos noutra parte... Que mais havia, ou, para tornar a resposta mais fácil: que faltava, afinal? Havia abundância do gênero lírico. Um coro internacional de festejados cantores e cantoras, acompanhados por orquestras discretamente refreadas, empregava o dom divino das suas vozes afeitas ao bel canto, na interpretação de árias, duetos, ensembles, provenientes das mais diversas regiões e épocas do repertório operístico: a beleza meridional, com o seu arrebatamento ao mesmo tempo generoso e frívolo; o mundo dos povos germânicos, mescla de espírito brincalhão e demoníaco; a grande ópera e a ópera cômica, de origem francesa. Era tudo? Ah, não! Vinha ainda o grupo de músicas de câmara, os quartetos e os trios, os solos instrumentais de violinos, violoncelos e flautas, os cantos de concerto, com acompanhamento obligato de violino ou flauta, as peças puramente pianísticas, para não falar das diversões leves, como os couplets e os discos de serventia concreta, gravados por orquestras de dança, e que requeriam uma agulha grossa.
     Hans Castorp examinava e classificava tudo isso. Manobrando em completa solidão, entregou parte do tesouro ao instrumento que o despertava para uma vida sonora. Com a cabeça ardendo, recolheu-se ao quarto numa hora tão avançada como aquela em que terminara o primeiro festim organizado pela saudosa personalidade do majestoso e fraternal Peeperkorn. Das duas da madrugada até as sete da manhã, sonhou com a arca mágica. No seu sonho via o prato giratório dar voltas em torno do pino, tão depressa que não se podia distinguir nenhum pormenor, e todavia sem o mínimo ruído, num movimento que consistia não somente no turbilhonante fluxo circular, mas também numa estranha ondulação lateral, de maneira que ao braço articulado, portador da agulha, que passava por cima, era imprimida uma oscilação elástica, muito proveitosa, segundo tudo fazia crer, ao vibrato e ao portamento dos instrumentos de corda e das vozes humanas. Mas, tanto em sonho como em estado de vigília, continuava incompreensível por que o simples ato de acompanhar uma linha fina como um cabelo, por cima de uma caixa de ressonância, e com o único auxílio da membrana do diafragma, era capaz de reproduzir a vasta complexidade das composições que enchiam os ouvidos interiores do adormecido.
     De manhã cedo, ainda antes do café, voltou ao salão e, com as mãos postas, sentado numa poltrona, fez sair da arca a voz maravilhosa de um barítono que cantava, com acompanhamento de harpa, a ária de Wolfram von Eschenbach, da ópera Tannhäuser. A harpa tinha um som perfeitamente natural; eram arpejos autênticos, não adulterados, que partiam da arca, junto com a voz humana, ampla, suave, bem-articulada. Era pasmoso. E nada podia haver de mais terno no mundo do que um dueto de uma ópera italiana de um compositor moderno, que Hans Castorp tocou a seguir – essa aproximação sentimental, cheia de humildade e ternura, que se produz entre uma voz de tenor mundialmente famosa, que muitas vezes figurava nos álbuns, e um sopranozinho meigo, cristalino; era impossível imaginar coisa mais delicada do que esse “Dami il braccio, mia piccina...”, cantado pelo homem, e aquela pequena frase simples, doce, de melodia pressurosa com que ela lhe respondia...
     Hans Castorp sobressaltou-se, quando a porta se abriu às suas costas. Era o conselheiro, que lançava um olhar ao salão. Em avental de médico, o estetoscópio no bolso do peito, permaneceu um instante com o trinco da porta na mão, acenando para o alquimista de sons. Depois que este retribuiu o aceno por cima do ombro, o rosto do chefe, com as faces azuladas e o bigodinho torto de um lado, logo sumiu atrás da porta cerrada. E Hans Castorp tornou a dirigir a atenção ao harmonioso casalzinho de namorados invisíveis.
     Mais tarde, no decorrer do dia, após o almoço e o jantar, havia ouvintes a observar-lhe as atividades, um público que se renovava constantemente – uma vez que consideramos o próprio Hans Castorp, não como parte do auditório, senão como autor do divertimento oferecido. Também ele tendia para esse ponto de vista, e os habitantes do Berghof admitiram-no tacitamente desde o início, não se opondo ao ato enérgico com que o jovem se nomeara a si próprio administrador e guardião da nova instituição pública. Para essa gente, isso não representava nenhum sacrifício. Verdade é que manifestavam certo arrebatamento superficial quando aquele idolatrado tenor, extasiando-se em harmonia e doçura, derramava a voz que encantava o mundo, em cantilenas e efusões de paixão altamente artísticas. Mas, não obstante o seu júbilo ruidoso, faltava-lhes o verdadeiro amor, e por isso estavam muito dispostos a deixar os cuidados do aparelho a quem quisesse encarregar-se deles. Era Hans Castorp quem mantinha em ordem o tesouro dos discos; era ele quem anotava no interior da capa o conteúdo do respectivo álbum, de maneira a se poder encontrar imediatamente qualquer música desejada; era ele quem lidava com o instrumento. Dentro de pouco tempo, isso já se notava pelos seus gestos rápidos, precisos e delicados. Realmente, que teriam feito os outros? Teriam violado os discos, maltratando-os com agulhas gastas; tê-los-iam abandonado nas cadeiras, sem invólucro protetor; teriam abusado do aparelho para brincadeiras estúpidas, tocando uma peça sublime com a velocidade de cento e dez ou colocando o ponteiro em zero, de modo a tirarem da caixa ora um trilo histérico ora um grunhido sufocado... Já haviam chegado a fazer tudo isso. Embora doentes, eram rudes. Eis por que Hans Castorp, ao cabo de algum tempo, confiscou simplesmente a chave do armário que continha os álbuns e as agulhas. Daí por diante andava com ela no bolso, e quem quisesse ouvir um concerto teria de chamá-lo.
     Pela noite, depois da reunião, quando os pensionistas acabavam de se recolher, vinham as suas melhores horas. Permanecia então no salão ou voltava ali clandestinamente, para tocar músicas, sozinho, até altas horas da noite. Verificou que o perigo de perturbar com isso o sossego da casa era menor do que acreditara. O alcance desses sons espectrais era evidentemente pequeno. As vibrações, por mais surpreendente que fosse o efeito por elas causado perto da sua fonte, enfraqueciam a alguma distância, mostrando-se débeis e desprovidas de verdadeiro poder, como toda fantasmagoria. Hans Castorp achava-se entre as quatro paredes, a sós com as maravilhas da arca, com as exuberantes produções desse ataudezinho truncado, de madeira de violino. Diante dos batentes abertos desse pequeno templo de fosca negrura, instalava-se numa poltrona, com as mãos postas, inclinando a cabeça para um ombro, e com a boca entreaberta banhava-se em melodias.
     Os cantores e as cantoras que estava ouvindo – não os via. Sua forma humana encontrava-se na América, em Milão, em Viena, em São Petersburgo. Não fazia mal que não se encontrassem ali, pois aquilo que Hans Castorp possuía era o que neles havia de melhor, era a sua voz, e o jovem apreciava essa depuração e abstração que restava bastante acessível aos sentidos para permitir-lhe um bom controle humano – sobretudo quando se tratava de artistas alemães, compatriotas seus – com eliminação de todos os inconvenientes que acarretaria a excessiva proximidade física. Podia-se distinguir o dialeto, a dicção, a origem étnica dos artistas. O caráter vocal revelava fatos relacionados com a envergadura espiritual de cada um deles. Pela maneira como aproveitavam ou desperdiçavam as possibilidades de interpretação, evidenciava-se o grau da sua inteligência. Hans Castorp exasperava-se quando fracassavam. Também sofria e mordia os lábios cada vez que ocorriam imperfeições da reprodução técnica. Sentia-se como sobre brasas quando, no meio de um disco muitas vezes tocado, uma nota de canto soava estridente ou berrante, o que sucedia frequentemente com as delicadas vozes femininas. Mesmo assim se conformava, pois quem ama tem de sofrer. Às vezes se inclinava por sobre o mecanismo que girava, palpitando, como sobre um ramalhete de lilases, com a cabeça sumida numa nuvem de sons. Mantinha-se à frente da arca aberta, e saboreava o prazer soberano de um regente, enquanto com um gesto de mão, no momento preciso, dava aos clarins o sinal de ataque. Tinha alguns favoritos na coleção, números de canto e peças instrumentais, que nunca se cansava de ouvir. Não podemos deixar de citá-los.
     Um pequeno grupo de discos apresentava as cenas finais daquela ópera pomposa, transbordante de gênio melódico, que fora composta por um grande compatriota do Sr. Settembrini, o velho mestre da música dramática meridional, na segunda metade do século passado, por encomenda de um potentado oriental, e devia a sua origem à circunstância solene da entrega à humanidade de uma obra da técnica destinada a aproximar os povos. Devido à sua formação, Hans Castorp sabia pouco mais ou menos do que se tratava. Conhecia em linhas gerais os destinos de Radamés, Amnéris e Aída, que cantavam para ele em italiano, no interior da caixa, e assim entendia praticamente tudo quanto diziam o incomparável tenor, o majestoso contralto com a magnífica mudança de timbre na meia-voz, e o soprano cristalino. Não os entendia palavra por palavra, mas apanhava uma ou outra frase, graças ao seu conhecimento das situações e à simpatia que experimentava por elas, essa afeição íntima que se intensificava à medida que tocava aqueles quatro ou cinco discos, a ponto de se transformar num autêntico sentimento amoroso.

continua pág 424...
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Leia também:

Capítulo I / A Chegada
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo VI / Transformações (a)  
Capítulo VII
Abundância de harmonia - [a]
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

Moby Dick: 46 - Conjecturas

Moby Dick

Herman Melville

46 -  Conjecturas
      
     Embora, consumido pelo fogo ardente de seu propósito, Ahab sempre tivesse presente, em todos os seus pensamentos e ações, a captura definitiva de Moby Dick; embora parecesse disposto a sacrificar todos os interesses mortais àquela sua única paixão; no entanto, por natureza ou por hábito longamente adquirido, talvez estivesse por demais comprometido com a carreira de baleeiro irascível para abandonar todos os outros interesses concomitantes da viagem. Ou, se não fosse por isso, não faltavam motivos que exercessem influência maior sobre ele. Talvez seja discorrer com excesso de sutileza, mesmo levando em conta sua monomania, insinuar que seu desejo de desforra contra a Baleia Branca pudesse ter se estendido, em certa medida, a todos os cachalotes, e que quanto mais monstros ele matasse tanto mais multiplicaria as possibilidades de que cada baleia encontrada subsequentemente fosse a odiada que ele perseguia. Mas, se tal hipótese fosse objetável, ainda haveria alguns motivos adicionais que, sem se aproximar tanto da selvageria de sua paixão hegemônica, poderiam tê-lo influenciado.
     Para atingir seu objetivo, Ahab necessitava de ferramentas; e, de todas as ferramentas usadas à sombra da lua, os homens são os mais dados à falha. Ele sabia por exemplo que, por maior que fosse sua ascendência sobre Starbuck em alguns aspectos, essa ascendência não abrangia sua pessoa espiritual inteira, do mesmo modo que a simples superioridade material não implica o domínio intelectual; pois, para o puramente espiritual, as coisas do intelecto se apresentam apenas numa espécie de relação material. O corpo de Starbuck e a vontade coagida de Starbuck estavam em poder de Ahab apenas enquanto Ahab mantivesse sua força magnética sobre o cérebro de Starbuck; mas sabia que, a despeito disso, o primeiro imediato, no fundo da alma, abominava a busca do capitão e, se pudesse, teria se desassociado dela com prazer, ou mesmo a impedido. Era possível que se passasse muito tempo antes que a Baleia Branca fosse avistada. Durante esse longo período, era sempre possível que Starbuck tivesse recaídas de rebeldia contra a autoridade de seu capitão, a menos que influências comuns, judiciosas e constantes fossem exercidas sobre ele. Não apenas isso, mas a loucura sutil de Ahab em relação a Moby Dick de nenhum modo se manifestava mais significativamente do que em sua extraordinária compreensão e sagacidade ao prever que, naquele momento, era necessário despojar a busca daquela impiedade fantasiosa e estranha de que era naturalmente investida; que o terror absoluto da viagem deveria recolher-se à sombra de um segundo plano (pois são poucos os homens cuja coragem resiste à reflexão prolongada sem o alívio da ação); que nas longas vigílias noturnas seus oficiais e marinheiros tinham que pensar em coisas mais imediatas do que Moby Dick. Pois, a despeito da ansiedade e da impetuosidade com que a feroz tripulação havia saudado a proclamação de sua busca; no entanto, todo marinheiro, de qualquer tipo, é mais ou menos caprichoso e pouco confiável vivem ao relento do ar livre e mutável e inalam sua inconstância –, e quando são reservados para um objetivo remoto e distante, ainda que repleto de vida e de paixão, é necessário acima de tudo que interesses e ocupações temporárias intervenham para mantê-los saudavelmente em suspenso para o ataque final.
     Tampouco Ahab se descuidava de uma outra coisa. Nos momentos de emoções fortes, o homem despreza as considerações humildes; mas tais momentos são efêmeros. A condição permanente do homem tal como é fabricado, pensava Ahab, é a sordidez. Pressupondo que a Baleia Branca incite os corações dessa minha feroz tripulação, e imaginando que sua ferocidade até produza neles uma espécie de brio generoso, todavia, enquanto dão caça a Moby Dick por prazer, é necessário alimentar também seus apetites comuns e rotineiros. Pois mesmo os enlevados e cavalheirescos Cruzados de outrora não se contentavam em atravessar duas mil milhas de terra para lutar por seu Santo Sepulcro sem pilhar, roubar e obter outras pias vantagens pelo caminho. Tivessem eles se limitado a seu único objetivo último e romântico – daquele objetivo último e romântico, muitos teriam desistido por desgosto. Não tirarei desses homens, pensou Ahab, a esperança do dinheiro – sim, dinheiro. Poderiam menosprezar o pagamento agora; mas deixasse passar alguns meses, sem nenhuma promessa em perspectiva de paga, e então esse mesmo capital se amotinaria todo de uma vez dentro deles e decapitaria Ahab.
     Também não faltava ainda outro motivo para cautela, mais relacionado a Ahab pessoalmente. Tendo impulsivamente, o que é provável, e talvez de certa forma prematuramente revelado o propósito principal, contudo particular, da viagem do Pequod, Ahab era agora consciente de que, ao agir assim, havia indiretamente se exposto à acusação inquestionável de usurpação; e com total impunidade, tanto moral quanto legal, sua tripulação, se assim quisesse, pois tinha competência para isso, poderia não só se recusar a obedecer-lhe, como até mesmo tirar-lhe o comando à força. Da mais tênue insinuação de uma usurpação, e das possíveis consequências de uma tal impressão suprimida ganhando terreno, Ahab devia estar logicamente ansioso por se proteger. Essa proteção só podia consistir em seu próprio cérebro, coração e mão dominantes, sustentados por uma atenção diligente e rigorosamente calculada às mínimas influências atmosféricas a que a sua tripulação estava sujeita.
     Por todas essas razões, então, e outras talvez demasiadamente analíticas para serem desenvolvidas aqui verbalmente, Ahab via claramente que ainda devia se manter sempre fiel ao propósito nominal e natural da viagem do Pequod; observar as praxes costumeiras; e não apenas isso, mas também forçar-se a patentear todo o seu interesse apaixonado e notável no desempenho genérico de sua profissão.
     Seja lá como for, sua voz agora era escutada amiúde saudando os marinheiros nos três topos de mastro, exortando-os a manter a vigilância ativa e não omitir nem mesmo uma marsopa. Essa vigilância não tardou a ser recompensada.

Continua na página 208...
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Leia também:

Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações
Moby Dick: 1  - Miragens
Moby Dick: 46 - Conjecturas
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{a} Depois que isso foi escrito, a afirmação foi felizmente confirmada por uma circular oficial, emitida pelo Tenente Maury, do Observatório Nacional, de Washington, em 16 de abril de 1851. Segundo a circular, parece que justamente tal carta está em via de ser terminada; e trechos dela são apresentados na circular. “Esta carta divide o oceano em distritos de cinco graus de latitude por cinco graus de longitude; perpendicularmente, através de cada uma dessas regiões há doze colunas para cada um dos doze meses; e horizontalmente, através de cada região há três linhas; uma para mostrar o número dos dias que foram gastos por mês em cada região, e as outras duas para mostrar o número de dias durante os quais baleias, cachalotes ou francas foram vistos.” [N. A.]
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.


E você com o quê se identifica?

O Sol é para todos: 2ª Parte (22)

Harper Lee

O Sol é para todos

Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB

SEGUNDA PARTE

22

     Foi a vez de Jem chorar. Seu rosto estava riscado de amargas lágrimas de raiva enquanto passávamos pela multidão exultante.

— Não está certo — Jem resmungou até chegarmos à esquina da praça onde Atticus nos aguardava. Atticus estava embaixo de um poste e dava a impressão de que nada tinha acontecido: o colete estava abotoado, o colarinho e a gravata estavam no lugar, a corrente do relógio brilhava. Tinha voltado a ser o homem impassível de sempre. 
— Não está certo, Atticus — repetiu Jem. 
— Não, filho, não está.

     Fomos para casa.
     Tia Alexandra estava acordada, nos esperando. Estava de penhoar e eu podia jurar que, por baixo, usava espartilho. 

— Sinto muito, meu irmão — ela murmurou.

     Como nunca tinha ouvido tia Alexandra chamar Atticus de “irmão”, dei uma olhada para Jem, mas ele não estava ouvindo. Olhava para Atticus, depois para o chão, e fiquei pensando se achava que de alguma forma Atticus era o culpado pela condenação de Tom Robinson. 

— Ele está bem? — perguntou a tia, referindo-se a Jem. 
— Daqui a pouco ele melhora. Foi um pouco demais para ele — Atticus respondeu com um suspiro. — Vou dormir. Se eu não acordar de manhã, não me chamem... 
— Desde o início não achei sensato deixar que eles... 
— Esta é a cidade deles, minha irmã — disse Atticus. — Nós a fizemos assim, e eles precisam aprender a viver nela. 
— Mas não precisam ir ao tribunal e chafurdar naquela… 
— O tribunal diz tanto sobre o condado de Maycomb quanto os chás das missionárias. 
— Atticus… — Tia Alexandra tinha um olhar ansioso. 
— Você é a última pessoa que eu achava que fosse ficar amarga por causa disso. 
— Não estou amargo, só estou cansado. Vou dormir. 
— Atticus… — chamou Jem, desolado.

     Ele se virou, já na porta. 

— O que foi, filho? 
— Como eles puderam fazer isso? Como? 
— Não sei, mas fizeram. Já fizeram antes, fizeram hoje e vão fazer de novo, e quando uma coisa assim acontece… parece que só as crianças choram. Boa noite.

     Mas as coisas sempre parecem melhores de manhã. Atticus madrugou como de hábito e estava na sala lendo o Mobile Register quando nós entramos, sonolentos. Na cara amassada de Jem estava estampada a pergunta que sua boca sonolenta não conseguia fazer. 

— Não é hora de se preocupar ainda — garantiu Atticus enquanto íamos para a sala de jantar. — Ainda não terminamos. Vamos entrar com um recurso, pode ter certeza. Meu Deus, Cal, o que é isso?

     Ele estava olhando para o prato de café da manhã. 

— O pai de Tom Robinson mandou essa galinha para o senhor hoje cedo. Eu preparei. 
— Diga a ele que fico muito honrado, aposto que na Casa Branca eles não têm galinha no café da manhã. E aquilo ali, o que é? 
— Brioches. Foi Estelle do hotel que mandou — disse Calpúrnia.

     Atticus olhou para ela, confuso, e Cal disse: 

— É melhor o senhor ir até a cozinha, sr. Finch.

     Fomos atrás dele. Na mesa da cozinha tinha comida suficiente para um batalhão: carne de porco salgada, tomates, ervilhas até uvas. Atticus sorriu quando viu um vidro com joelho de porco na salmoura. 

— Será que a tia nos deixa comer isso no jantar?

     Calpúrnia acrescentou: 

— Estava tudo na escada de trás quando cheguei de manhã. Eles… ficaram agradecidos pelo que o senhor fez, sr. Finch. Eles… não estão abusando, estão?

     Atticus ficou com os olhos cheios de lágrimas. Ficou calado um instante. 

— Diga a eles que fico muito grato. Diga… que não devem fazer isso de novo, os tempos estão muito difíceis...

     Saiu da cozinha, foi até a sala de jantar, pediu licença para a tia Alexandra, pôs o chapéu e foi para a cidade.
     Ouvimos os passos de Dill no corredor, então Calpúrnia deixou o café da manhã que Atticus não tinha tomado na mesa. Entre uma garfada e outra, Dill nos contou a reação da srta. Rachel aos fatos da noite anterior, que foi a seguinte: se um homem como Atticus Finch quer bater com a cabeça na parede, o problema é dele. 

— Eu queria contar tudo a ela — resmungou Dill, mordendo uma coxa de frango —, mas ela não queria muita conversa hoje de manhã. Disse que passou quase a noite toda acordada, imaginando onde eu estava, que ia mandar o xerife atrás de mim, mas ele estava no tribunal. 
— Dill, você não pode continuar saindo de casa sem avisar. Isso só deixa sua tia ainda mais irritada — disse Jem.

     Dill deu um suspiro resignado. 

— Cansei de dizer a ela aonde eu ia… Mas ela vê coisa onde não tem. Aposto que ela bebe meio litro de uísque no café da manhã… Eu sei que ela bebe dois copos cheios. Eu vi. 
— Não fale assim, Dill — zangou tia Alexandra. — Não fica bem para uma criança. É… cínico. 
— Não sou cínico, srta. Alexandra. Dizer a verdade não é cinismo, é? 
— Do jeito que você fala, é.

     Jem olhou para ela, mas disse a Dill: 

— Vamos. Pode levar essa coxa de galinha.

     Quando chegamos na varanda da frente, a srta. Stephanie Crawford estava entretida contando tudo para a srta. Maudie e o sr. Avery. Olharam para nós e continuaram falando. Jem rosnou alto. Eu desejei ter uma arma. 

— Detesto quando os adultos ficam olhando pra gente — disse Dill. — Parece que a gente fez alguma coisa errada.

     A srta. Maudie chamou Jem.
     Jem resmungou e se levantou do balanço.

— Nós vamos com você — disse Dill.

     A srta. Stephanie franziu o nariz de curiosidade. Ela queria saber quem tinha dado permissão para entrarmos no tribunal. Não tinha nos visto lá, mas, naquela manhã, a cidade toda sabia que estávamos no balcão dos negros. Será que Atticus tinha nos colocado lá para fazer alguma espécie de…? Não era direito ficar lá com todos aqueles... Scout tinha entendido todo o...? Não ficamos arrasados ao ver nosso pai perder a causa?

— Fica quieta, Stephanie. — O tom da srta. Maudie era mortal. — Tenho mais o que fazer do que passar a manhã inteira aqui na varanda… Vim até aqui, Jem Finch, para saber se você e seus parceiros querem comer um bolo. Levantei às cinco para prepará-lo, então é melhor vocês quererem. Com licença, Stephanie. Tenha um bom dia, sr. Avery.

     Na mesa da cozinha da srta. Maudie tinha um bolo grande e mais dois bolinhos. Deviam ser três pequenos. Não era do feitio da srta. Maudie esquecer Dill e nossa cara deve ter demonstrado isso. Mas entendemos tudo quando ela cortou uma fatia do bolo grande para Jem.
     Enquanto comíamos, nos demos conta de que aquele era o jeito da srta. Maudie de dizer que, para ela, nada tinha mudado. Ficou numa cadeira da cozinha, olhando para nós, em silêncio.
     De repente, ela disse:

— Não se preocupe, Jem. As coisas nunca são tão ruins quanto parecem.

     Quando a srta. Maudie queria dizer algo importante em casa, colocava as mãos espalmadas sobre os joelhos e ajeitava a ponte móvel na boca. Foi o que ela fez, e nós aguardamos. 

— Quero dizer apenas que há homens neste mundo que nasceram para fazer o trabalho duro para nós. O pai de vocês é um desses. 
— Ah, entendi — concordou Jem. 
— Não venha com “ah, entendi” — retrucou a srta. Maudie, identificando uma reação fatalista de Jem. — Você não tem idade para entender o que eu disse.

     Jem olhava para o bolo, que estava pela metade. 

— É como ser uma lagarta no casulo — disse ele. — Uma coisa adormecida, toda enrolada num lugar quente. Eu sempre achei que as pessoas de Maycomb eram as melhores pessoas do mundo, pelo menos pareciam ser. 
— Somos as pessoas mais seguras do mundo — ajuntou a srta. Maudie. — Raramente se exige que sejamos cristãos mas, quando isso acontece, temos homens como Atticus para nos representar.

     Jem deu um sorriso amargo. 

— Gostaria que todo o condado pensasse assim. 
— Ficaria surpreso se soubesse quantos de nós pensam assim. 
— Quem? — Jem elevou a voz. — Quem nessa cidade fez alguma coisa para ajudar Tom Robinson? 
— Em primeiro lugar, os amigos negros dele, e pessoas como nós. Como o juiz Taylor. Como o sr. Heck Tate. Pare de comer e comece a pensar, Jem. Não passou pela sua cabeça que o juiz não indicou Atticus para defender aquele rapaz por acaso? Que talvez ele tivesse razões para fazer isso?

     É mesmo. Quando o tribunal tinha de designar um advogado, em geral o caso era entregue a Maxwell Green, o mais novo advogado do condado, que não tinha experiência. Ele deveria ter assumido o caso de Tom Robinson. 

— Pense nisso — disse a srta. Maudie. — Não foi por acaso. Na noite passada, fiquei na varanda, esperando. Esperei horas vocês virem pela calçada e enquanto esperava pensei que Atticus Finch não ia ganhar a causa, ele não podia ganhar, mas é o único homem das redondezas que consegue fazer o júri deliberar por tanto tempo num caso assim. E pensei com meus botões: bom, estamos dando um passo à frente; pequeno mas, mesmo assim, um passo. 
— Tudo bem, mas será que não tem juízes e advogados cristãos que possam compensar esses jurados ignorantes? — resmungou Jem. — Quando eu crescer… 
— Isso é uma coisa que você vai ter que discutir com o seu pai — disse a srta. Maudie.

     Descemos os degraus frios da escada nova da srta. Maudie e fomos para o sol. O sr. Avery e a srta. Stephanie continuavam conversando. Tinham seguido pela calçada e estavam em frente à casa da srta. Stephanie. A srta. Rachel estava indo ao encontro deles. 

— Quando crescer, acho que vou ser palhaço — disse Dill.

     Jem e eu paramos. 

— Isso mesmo, palhaço. A única coisa que sei fazer na vida é rir das pessoas, então vou entrar para o circo e rir à beça — explicou Dill. 
— Você está se confundindo, Dill. Os palhaços são tristes, o público é que ri deles — disse Jem. 
— Bom, vou ser um novo tipo de palhaço. Vou ficar no meio do picadeiro e rir de todo mundo. Olha ali — ele apontou. — Eles deviam estar montados em vassouras voadoras. A tia Rachel já tem a dela.

     As srta. Stephanie e srta. Rachel acenavam exageradamente para nós, de um jeito que parecia confirmar o que Dill tinha dito. 

— Ai, meu Deus, acho que fica feio fazer de conta que não vimos as duas — murmurou Jem.

     Tinha algo errado. O sr. Avery estava vermelho de tanto espirrar e quase nos soprou para fora da calçada quando nos aproximamos. A srta. Stephanie tremia de excitação e a srta. Rachel pegou no ombro de Dill. 

— Vão para o quintal dos fundos e não saiam de lá. A situação vai ficar perigosa — ela avisou. 
— O que aconteceu? — perguntei. 
— Ainda não sabem? A cidade inteira está comentando…

     Nesse momento, tia Alexandra apareceu na porta e nos chamou, mas era tarde demais. A srta. Stephanie teve o prazer de nos contar que, naquela manhã, o sr. Bob Ewell parou Atticus na esquina do correio, cuspiu na cara dele e disse que ia acabar com ele, nem que levasse a vida inteira.

continua página 156...
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Leia também:

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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

domingo, 28 de dezembro de 2025

Edith Piaf

A Pequena Pardal

Non, je ne regrette rien

Não, nada de nada... 
Não, eu não lamento nada, 
Nem o bem que me fez, 
Nem a dor, tudo isso me é indiferente!

Não, nada de nada...
Não, eu não lamento nada,
Está pago, varrido, esquecido
Eu me lixo para o passado!

Com minhas recordações
Eu acendi o fogo
Minhas aflições, meus prazeres
Eu não preciso mais deles

Varridos meus amores
Com seus tremores,
Varridos para sempre
Eu recomeço do zero!

Não, nada de nada...
Não, eu não lamento nada,
Nem o bem que me fez,
Nem a dor, tudo isso me é indiferente!

Não, nada de nada...
Não, eu não lamento nada.
Porque minha vida, minhas alegrias, hoje, começam com você!





Uma história que nos deu um hino de amor



Piaf, Um Hino ao Amor 
(Trailer)



Os últimos dias de um ícone: 
Edith Piaf




Édith Piaf 
- Hymne à L'amour



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Gente do Mundo
Paco de LucíaEdith Piaf

sábado, 27 de dezembro de 2025

Espumas Flutuantes - HEBREIA

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

HEBREIA 
 Flos campi et lilium convalium
 Cântico dos Cânticos

     Pomba d’esp’rança sobre um mar d’escolhos! 
 Lírio do vale oriental, brilhante! 
 Estrela vésper do pastor errante! 
 Ramo de murta a rescender cheirosa!...

Tu és, ó filha de Israel formosa... 
 Tu és, ó linda, sedutora Hebréia... 
 Pálida rosa da infeliz Judéia 
 Sem ter o orvalho, que do céu deriva! 

Por que descoras, quando a tarde esquiva 
 Mira-se triste sobre o azul das vagas? 
 Serão saudades das infindas plagas, 
 Onde a oliveira no Jordão se inclina? 

Sonhas acaso, quando o sol declina, 
 A terra santa do oriente imenso? 
 E as caravanas no deserto extenso? 
 E os pegureiros da palmeira à sombra?!...

Sim, fora belo na relvosa alfombra, 
 Junto da fonte, onde Raquel gemera, 
 Viver contigo qual Jacó vivera 
 Guiando escravo teu feliz rebanho...  

Depois nas águas de cheiroso banho 
 — Como Susana a estremecer de frio — 
 Fitar-te, ó flor do Babilônio rio, 
 Fitar-te a medo no salgueiro oculto... 

Vem pois!... Contigo no deserto inculto 
 Fugindo às iras de Saul embora, 
 Davi eu fora, — se Micol tu foras, 
 Vibrando na harpa do profeta o canto... 

Não vês?... Do seio me goteja o pranto 
 Qual da torrente do Cedrón deserto!... 
 Como lutara o patriarca incerto 
 Lutei, meu anjo, mas caí vencido. 

Eu sou o Lótus para o chão pendido. 
 Vem ser o orvalho oriental, brilhante!... 
 Ai! guia o passo ao viajor perdido, 
 Estrela vésper do pastor errante!...
Bahia, 1866


QUEM DÁ AOS POBRES, EMPRESTA A DEUS
Ao Gabinete Português de Leitura, por ocasião de oferecer o produto de um
benefício às famílias dos soldados mortos na guerra

Eu, que a pobreza de meus pobres cantos 
 Dei aos heróis — aos miseráveis grandes —, 
 Eu, que sou cego, — mas só peço luzes... 
 Que sou pequeno, — mas só fito os Andes... 
 Canto nest’hora, como o bardo antigo 
 Das priscas eras, que bem longe vão, 
 O grande NADA dos heróis, que dormem 
 Do vasto pampa no funéreo chão...

Duas grandezas neste instante cruzam-se! 
 Duas realezas hoje aqui se abraçam!... 
 Uma — é um livro laureado em luzes... 
 Outra — uma espada, onde os lauréis se enlaçam. 
 Nem cora o livro de ombrear co'o sabre... 
 Nem cora o sabre de chamá-lo irmão... 
 Quando em loureiros se biparte o gládio 
 Do vasto pampa no funéreo chão. 

E foram grandes teus heróis, ó pátria, 
 — Mulher fecunda, que não cria escravos —,  
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos: 
 “Parti — soldados, mas voltai-me — bravos!” 
 E qual Moema desgrenhada, altiva, 
 Eis tua prole, que se arroja então, 
 De um mar de glórias apartando as vagas 
 Do vasto pampa no funéreo chão. 

E esses Leandros do Helesponto novo 
 Se resvalaram — foi no chão da história... 
 Se tropeçaram — foi na eternidade... 
 Se naufragaram — foi no mar da glória... 
 E hoje o que resta dos heróis gigantes?... 
 Aqui — os filhos que vos pedem pão... 
 Além — a ossada, que branqueia a lua, 
 Do vasto pampa no funéreo chão. 

Ai! quantas vezes a criança loura 
 Seu pai procura pequenina e nua, 
 E vai, brincando co'o vetusto sabre, 
 Sentar-se à espera no portal da rua... 
 Mísera mãe, sobre teu peito aquece 
 Esta avezinha, que não tem mais pão!...
Seu pai descansa — fulminado cedro — 
 Do vasto pampa no funéreo chão. 

Mas, já que as águias lá no Sul tombaram 
 E os filhos d’águias o Poder esquece... 
 É grande, é nobre, é gigantesco, é santo!... 
 Lançai — a esmola, e colhereis — a prece!... 
 Oh! dai a esmola... que, do infante lindo 
 Por entre os dedos da pequena mão, 
 Ela transborda... e vai cair nas tumbas 
 Do vasto pampa no funéreo chão. 

Há duas coisas neste mundo santas: 
 — O rir do infante, — o descansar do morto... 
 O berço — é a barca, que encalhou na vida, 
 A cova — é a barca do sidéreo porto... 
 E vós dissestes para o berço — Avante! — 
 Enquanto os nautas, que ao Eterno vão, 
 Os ossos deixam, qual na praia as âncoras, 
 Do vasto pampa no funéreo chão. 

É santo o laço, em qu’hoje aqui se estreitam 
 De heroicos troncos — os rebentos novos —! 
 É que são gêmeos dos heróis os filhos 
 Inda que filhos de diversos povos! 
 Sim! me parece que n’est'hora augusta 
 Os mortos saltam da feral mansão...  
E um “bravo!” altivo de além-mar partindo 
 Rola do pampa no funéreo chão!...

São Salvador, 31 de outubro de 1867 
continua pag 8...
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Prólogo / Hebreia / Laço de fita
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871, Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

Paco de Lucía

Violão flamenco

Sevilla

o maior violonista flamenco de todos os tempos!


Paco de Lucía se apresentando ao vivo no concerto da Expo '92 em Sevilha, Espanha.






Descubra "O Legado Oculto de Paco de Lucía", uma história fascinante sobre o gênio que revolucionou o flamenco, mas deixou profundas questões em aberto. O que seus filhos herdam quando o sobrenome é imortal, mas o pai estava ausente? Junte-se a nós nesta jornada que revela os amores, sacrifícios e complexas batalhas judiciais que moldaram a vida dos cinco herdeiros do maior guitarrista de flamenco de todos os tempos. De um amor proibido que desafiou a aristocracia espanhola a um triunfo em uma batalha pelos direitos autorais, esta é uma história de família, arte e a árdua responsabilidade de proteger um legado cultural incomparável. Não perca esta comovente crônica que mudará sua perspectiva sobre o mito de Paco de Lucía e seu impacto duradouro!





Paco De Lucía - Tico Tico no fubá



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Gente do Mundo
Paco de Lucía / Edith Piaf


Ensaio sobre o entendimento humano: Seção X - Segunda Parte(a)

Ensaio sobre o entendimento humano

David Hume

Seção X

DOS MILAGRES[1*]
SEGUNDA PARTE
 
.

     No raciocínio precedente supusemos que o testemunho sobre o qual se baseia o milagre pode talvez equivaler a uma prova completa e que a falsidade deste testemunho seria um verdadeiro prodígio. Mas é fácil mostrar que temos sido muito generosos em nossa concessão e que jamais houve um evento miraculoso estabelecido[1] sobre uma evidência tão completa.
     Porque, em primeiro lugar, não se pode encontrar em toda a história nenhum milagre testificado por número suficiente de homens de tão indubitável bom senso, educação e instrução que nos assegurassem contra todo logro de sua parte; de tão indubitável integridade que os pusesse fora de qualquer suspeita de querer enganar os outros; de tal crédito e de tal reputação aos olhos dos homens que perderiam muito se fossem descobertos em alguma falsidade; e, ao mesmo tempo, testificando fatos realizados de um modo tão público e numa parte do mundo tão famosa que seria inevitável a descoberta da falsidade; todas essas circunstâncias são necessárias para fornecer-nos completa segurança no testemunho humano.  
     Em segundo lugar, podemos observar na natureza humana um princípio que, se examinado com rigor, diminuirá extremamente a segurança que poderíamos ter acerca de algum gênero de prodígio, devido ao testemunho humano. O princípio que geralmente nos orienta em nossos raciocínios estipula que os objetos dos quais não temos nenhuma experiência se assemelham àqueles de que temos experiência; que o que temos visto e é o mais usual é sempre o mais provável; e que, se houver oposição de argumentos, devemos dar preferência aos que se fundam sobre maior número de experiências passadas. Porquanto, procedendo segundo esta regra, rejeitamos rapidamente um fato raro e inacreditável em escala ordinária; ao avançar mais, contudo, o espírito nem sempre respeita a mesma regra; admitindo apressadamente, ao contrário, algo que se afirma completamente absurdo e miraculoso, em virtude da mesma circunstância que deveria destruir toda a sua autoridade. A paixão da surpresa e da admiração resultantes dos milagres, é uma emoção agradável que produz uma tendência sensível para que acreditemos nos eventos dos quais derivam. Isto vai tão longe que mesmo aqueles que não podem usufruir imediatamente deste prazer, nem podem acreditar nos eventos miraculosos que lhes comunicam, sentem indubitavelmente prazer em participar de uma satisfação de segunda mão ou por ricochete, e sentem orgulho e deleite a seguir em excitar a admiração dos outros.
     Com que avidez se recebem os relatos miraculosos dos viajantes, suas descrições de monstros marinhos e terrestres, suas narrações de aventuras maravilhosas, de homens e costumes estranhos? Entretanto, se o espírito religioso se liga ao amor do maravilhoso, acaba se todo o bom senso, e o testemunho humano, nestas circunstâncias, perde todas as suas pretensões de autoridade. O beato pode ser um entusiasta e imagina que vê coisas que são irreais; pode estar ciente de que sua narrativa é falsa e assim mesmo persiste nela com as melhores intenções do mundo, a fim de promover uma causa tão sagrada. Ou mesmo, se esta ilusão não ocorre, a vaidade excitada por uma tentação tão forte atua nele mais poderosamente do que nos outros homens em outras circunstâncias; ademais, o interesse pessoal age com igual força. Seus ouvintes podem não ter, e geralmente não têm, argumentos suficientes para debater seu testemunho; renunciam por princípio a todo senso crítico em relação aos assuntos misteriosos e sublimes; ou, se tivessem grande desejo em empregá-lo, a paixão e uma imaginação ardentes perturbariam a regularidade de suas operações. Sua credulidade aumenta sua imprudência e sua imprudência subjuga sua credulidade.
     A eloquência, no seu mais alto grau, sobrepuja a razão e a reflexão; mas como ela se dirige inteiramente à fantasia ou aos afetos, cativa os ouvintes condescendentes e subjuga seu entendimento. Felizmente, é raro que alcance esta culminância. Mas o que um Cícero ou um Demóstenes raramente podiam realizar sobre um auditório romano ou ateniense, qualquer capuchinho, qualquer predicador itinerante ou sedentário pode desempenhar em maior grau sobre a maioria dos homens, atingindo semelhantes paixões grosseiras e vulgares.
     Os numerosos exemplos de milagres forjados, de profecias e de eventos sobrenaturais que, em todas as épocas, têm sido revelados por testemunhas que se opõem ou que se retratam a si mesmos por seu absurdo, são provas suficientes da forte tendência humana para o extraordinário e o maravilhoso e deveriam razoavelmente engendrar suspeitas contra todos os relatos deste gênero. Pois esta é nossa maneira natural de pensar, inclusive em relação aos eventos mais comuns e mais críveis. Não há, por exemplo, gênero de relato que surja tão facilmente e se propague tão depressa, especialmente no campo e nas aldeias de província, como aqueles que se referem aos casamentos; de tal modo que, se duas pessoas jovens de igual condição social são vistas um par de vezes juntas, toda a vizinhança pensa imediatamente em uni-las. O prazer de contar uma novidade tão interessante, de propagá-la e de ser o primeiro a informá-la, invade a inteligência. E isto é tão conhecido que nenhuma pessoa de bom senso presta atenção a tais relatos, até que os veja confirmados por alguma maior evidência. A maioria dos homens não é levada, devido às paixões e outras causas mais fortes, a crer e a transmitir, com a máxima veemência e segurança, todos os milagres religiosos?[2]
     Em terceiro lugar, o fato de que os relatos sobrenaturais proliferam principalmente entre as nações ignorantes e bárbaras constitui forte suspeita contra eles; e se um povo civilizado tem admitido alguns destes relatos, decorre do fato de tê-los recebido de ancestrais ignorantes e bárbaros, que os transmitiram com a sanção e a autoridade invioláveis que sempre acompanham as opiniões recebidas. Quando examinamos as primeiras histórias de todas as nações, sentimo-nos inclinados a imaginar-nos transportados a um novo mundo, onde toda a trama da natureza está desarticulada e todos os elementos efetuam suas operações de uma maneira diferente que fazem na atualidade. As batalhas, as revoluções, a peste, a fome e a morte não são nunca efeitos de causas naturais que experimentamos. Prodígios, presságios, oráculos e punições divinas ocultam completamente os poucos eventos naturais que se misturam a eles. Mas, como o seu número diminui a cada página, à medida que nos aproximamos das épocas das luzes, rapidamente compreendemos que não há nada de misterioso ou de sobrenatural no assunto, mas que tudo decorre da tendência natural dos homens para o maravilhoso, e que, embora esta inclinação às vezes possa ser refreada pelo bom senso e pela instrução, não pode ser jamais extirpada da natureza humana.
     É estranho, tende a dizer um leitor judicioso, depois de ler atentamente estes historiadores maravilhosos, que tais eventos prodigiosos não ocorram jamais em nossos dias! Mas creio eu que não há nada de estranho que os homens mintam em todas as épocas. Deveis, certamente, ter encontrado muitos exemplos desta debilidade. Haveis, vós mesmos, ouvido muitos destes relatos maravilhosos que, desprezados por todas as pessoas sábias e sensatas, têm sido finalmente abandonados até pelo homem comum. Podeis estar seguros de que estas famosas mentiras, que se têm difundido e florescido até alcançarem uma altura tão monstruosa, tiveram origens análogas; mas, como foram semeadas num solo mais propício, cresceram até se tomarem prodígios quase tão grandes como os que aqueles narram.
     Teve aguda sagacidade o falso profeta[3] Alexandre — atualmente esquecido, embora outrora fosse tão famoso — de estrear suas imposturas na Paflagôma, onde, como nos diz Luciano, o povo era extremamente ignorante e simplório e propenso para absorver mesmo a mais grosseira impostura. Pois as pessoas que habitam regiões distantes e sem possibilidade de se informarem melhor, são também induzidas por esta fraqueza a crer que o assunto é o menos digno de investigação. Recebem assim as histórias acrescidas de cem pormenores. Enquanto os tolos propagam rapidamente a impostura, os sábios e os doutos contentam-se geralmente em mofar-se de seu absurdo, sem se informarem dos fatos particulares, que permitiriam refutá-las claramente. E, assim, o impostor acima mencionado estava capacitado para proceder, começando por seus ignorantes paflagônios e atraindo sectários até mesmo entre os filósofos gregos e os homens da mais eminente e distinta posição em Roma; além disso, conseguiu atrair a atenção do sábio imperador Marco Aurélio, a ponto de fazer-lhe confiar no êxito de uma expedição militar sobre suas profecias enganadoras.
     São tão grandes as vantagens de lançar uma impostura entre um povo ignorante que, mesmo quando a fraude é muito grosseira para se impor à generalidade dos homens — embora raramente isto ocorra —, tem mais possibilidade de triunfar em países longínquos do que se seu primeiro teatro tivesse sido numa cidade renomada por suas artes e conhecimentos. Os mais ignorantes e os mais bárbaros destes bárbaros levam o relato para o estrangeiro. Nenhum de seus compatriotas tem extensas vinculações no exterior, reputação ou autoridade suficiente para desmentir e destruir o logro. A inclinação dos homens para o maravilhoso tem plena oportunidade de revelar-se. E, assim, uma história completamente desacreditada no lugar onde nasceu passará por certa a mil milhas de distância. Mas, se Alexandre tivesse fixado residência em Atenas, os filósofos deste célebre centro de saber teriam imediatamente difundido, por todo o Império Romano, sua opinião sobre o assunto; e sua opinião, apoiada por tamanha autoridade demonstrada com todas as forças da razão e da eloquência, teria aberto por completo os olhos dos homens. E verdade que Luciano, ao passar por acaso por Paflagônia, teve oportunidade de realizar estes bons ofícios. Porém, por mais que se deseje, nem sempre ocorre que todo Alexandre se encontre com um Luciano disposto a revelar e desmascarar suas imposturas.[4]
     Como quarta razão[5] diminuindo a autoridade dos prodígios, posso acrescentar que não há testemunho favorável a nenhum prodígio, mesmo em relação àqueles que não foram expressamente desmascarados, que não seja contradito por um número infinito de testemunhas, de modo que não apenas o milagre destrói o crédito do testemunho, mas o testemunho destrói-se a si mesmo. Para tornar isto mais compreensível, consideremos que em questões religiosas tudo o que é diferente é contraditório, e que é impossível que as religiões da antiga Roma, da Turquia, do Sião e da China estejam todas estabelecidas em base sólida. Portanto, todo milagre que se pretende que tenha ocorrido em quaisquer dessas religiões — e todas estão repletas de milagres — tem como finalidade direta estabelecer o sistema particular ao qual ele se refere, de modo que tem a mesma força para destruir, embora indiretamente, qualquer outro sistema. Destruindo um sistema, destrói-se igualmente o crédito naqueles milagres sobre os quais estava fundado o sistema, de modo que todos os prodígios de diferentes religiões devem considerar-se como fatos contraditórios, e as evidências destes prodígios, quer fracas quer fortes, como opostas umas às outras. De acordo com este método de raciocínio, quando cremos em algum milagre de Maomé ou de seus sucessores, temos como garantia o testemunho de alguns árabes bárbaros. E, por outro lado, devemos considerar a autoridade de Tito Lívio, de Plutarco, de Tácito e, numa palavra, o testemunho de todos os autores gregos, chineses e católicos romanos que relataram algum específico milagre de sua religião, e devemos considerar seu testemunho, digo eu, do mesmo modo como se houvessem mencionado o milagre maometano, e que o houvessem contradito em termos claros, com a mesma certeza conferida aos milagres que rela tam. Este argumento pode parecer demasiado sutil e refinado, mas em realidade não difere do modo de raciocinar de um juiz que supõe que o crédito de duas testemunhas, acusando de um crime a uma outra pessoa, é destruído pelo depoimento contrário de duas testemunhas que afirmam haver visto esta mesma pessoa a duzentas léguas de distância no momento exato em que o crime, diz-se, foi cometido.
     Um dos milagres, o mais bem testificado em toda a história profana, é aquele que Tácito conta de Vespasiano, que curou a um cego em Alexandria por meio de sua saliva e a um coxo apenas tocando-lhe com o seu pé. Estes homens, obedecendo a uma ordem do deus Serapis, recorreram ao imperador para essas curas milagrosas. A descrição deste evento pode ser lida neste grande historiador,[6] onde cada pormenor parece valorizar o testemunho, e poderia ser desenvolvida à vontade, com toda a força de argumento e eloquência, se alguém se preocupasse atualmente em reforçar a evidência desta superstição desacreditada e idolátrica. A gravidade, a solidez, a idade e a probabilidade de tão grande imperador, que, durante o transcurso de sua vida, conversou familiarmente com seus amigos e cortesãos e não afetou jamais estes ares extraordinários de divindade que assumiam Alexandre e Demétrio. O historiador era escritor da época, célebre por sua franqueza e veracidade e, além disso, dotado talvez do maior e do mais penetrante gênio de toda a Antiguidade, e tão isento de qualquer tendência para a credulidade, sendo, ao contrário, acusado de ateísmo e profanidade; as personagens a cuja autoridade se referia o milagre eram de caráter indiscutível para o julgamento e a veracidade, como muito bem o podemos presumir; havia testemunhas oculares do fato, confirmando seu testemunho mesmo depois que a família dos Flávios foi despojada do império e não podia mais recompensar uma mentira. Utrum que, qui interfuere, nunc quo que memorant, postquam nulium mendacio pretium.[7] E se acrescentarmos o aspecto público dos fatos, como relata a história, parecerá que não se pode supor evidência mais poderosa a favor de uma falsidade tão grosseira e tão palpável.
     Há também uma história memorável, contada pelo cardeal de Retz, merecedora de nossa consideração. Quando este político intrigante se refugiou na Espanha para escapar à perseguição de seus inimigos, passando por Saragoça, capital de Aragão, mostraram-lhe na catedral um homem que durante sete anos havia servido de porteiro e que era bem conhecido na cidade por todos os devotos da igreja local. Ele foi visto, por muito tempo, desprovido de uma de suas pernas; contudo, havia recuperado este membro pela fricção de óleo santo sobre o coto; e o cardeal nos assegura que o viu com as duas pernas. Este milagre foi confirmado por todos os cânones da Igreja; todos os habitantes da cidade foram chamados para confirmar o fato; e o cardeal verificou que todos criam, com ardente devoção, inteiramente no milagre. Aqui também o narrador foi contemporâneo do suposto prodígio; era de caráter incrédulo, libertino e também possuidor de grande talento; o milagre era de natureza tão singular que dificilmente poderia admitir contrafação, e as testemunhas muito numerosas, e quase todas espectadoras do fato ao qual deram o seu testemunho. E o que aumenta poderosamente a força dos testemunhos e pode duplicar nossa surpresa nesta conjuntura diz respeito ao fato de que o próprio cardeal, narrando o evento, parece não aferir-lhe nenhum crédito e, por conseguinte, não se pode suspeitar de sua participação nesta fraude sagrada. Considerava justamente que não era necessário, para rejeitar um fato desta natureza, refutar o testemunho com exatidão e revelar sua falsidade através de todas as circunstâncias de velhacaria e credulidade que o produziram. Sabia que, se isto era em geral completamente impossível, por mais perto que se estivesse no tempo e no espaço, era extremamente difícil para quem estivesse imediatamente presente, devido ao fanatismo, à ignorância, à astúcia e à patifaria dos homens. Portanto, concluía, como bom raciocinador, que semelhante testificação levava sua falsidade em sua própria face, e que um milagre apoiado pelo testemunho dos homens era mais propriamente objeto de escárnio que de argumentação.

Ensaio sobre o entendimento humano: Seção X(2a)
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Notas:
[1*] Da interessante entrevista que Hume concedeu a James Boswell, em 7 de julho de 1776, é conhecida a célebre passagem do primeiro: “nunca mais nutri qualquer crença pela Religião desde que comecei a ler Locke e Clarke” (Boswell, “An Account ol my last interview with David Rume”, cit. por N. K. Smith, Dialogues Concerning Natural Religion, de Hume, Liberal Arts, 1947, p. 76). Hume pretende, talvez, mostrar sua intenção de criticar a base racional da teologia natural, defendida tanto por Locke e Clarke como por outros metafísicos do século XVIII, e aceita quase universalmente pelos pensadores da Ilustração. De modo geral, podemos dizer que os argumentos da teologia natural abrangem dois momentos: a) com base no “argumento do desígnio” (seção XI), a teologia natural defende a tese de que tanto a existência como todos os atributos de Deus podem ser conhecidos pela razão natural e b) esta visão da religião da natureza pode ser suplementada pela revelação, cuja validade é garantida pela ocorrência de milagres, que, por seu turno, são apoiados por abundante evidência histórica (seção X). As seções X e XI constituem, de acordo com Stephen, partes de um único argumento, que julgamos ter sido elaborado por Hume para mostrar a inviabilidade dos momentos (a e b) da teologia natural. (Stephen, L. English Thought ín the Eighteenth Century Londres, 1902, vol. I, p. 310). [N. do T.]
[1] Nas edições K a L lê-se: “em qualquer história”.
[2] As edições de K e N apresentam este parágrafo como nota.
[3] Nas edições de k a N lê-se astucioso impostor.
[4] Sem dúvida, pode-se objetar aqui que procedo temerariamente e formo minhas opiniões a propósito de Alexandre apenas pelo relato do assunto feito por Luciano, seu declarado inimigo. Certamente, seria desejável que tivessem sido conservados alguns dos relatos publicados por seus discípulos e cúmplices. A opinião e o contraste que existem sobre o caráter e a conduta de um mesmo homem, quando descritos por um amigo ou inimigo, são tão grandes, mesmo na vida cotidiana e muito mais ainda nestas questões religiosas, como entre dois homens de fama mundial, por exemplo, Alexandre e São Paulo. Veja-se uma carta a Gilbert West, Esq., acerca da “Conversão e apostolado de São Paulo” (Hume).
[5] Parece-nos que os argumentos de Hume contra a viabilidade dos milagres mostraram: 1) que é entre as nações ignorantes e bárbaras que a ocorrência de milagres é mais comum e abundante, 2) que as paixões da surpresa e da admiração são tendências universais da natureza humana e quando ligadas ao sentimento religioso impelem os homens a uma conduta descontrolada, 3) que cada milagre tem a finalidade específica de estabelecer um sistema religioso e, como em religião tudo o que é diferente é contraditório, os milagres de uma religião são evidências contra os milagres das outras, e 4) que o milagre importa naviolentação do curso normal da natureza e, como apenas a experiência confere autoridade ao testemunho humano e segurança acerca das leis da natureza, nenhum testemunho humano se nivela a uma prova, ou atinge o grau de provável. [N. do T.]
[6] Na edição L Hume anota: Hist., livro 4, cap. 8. Na edição N ele anota: Hist., livro 5, cap. 8. Em verdade, a passagem ocorre em Histórias, livro IV, cap. 81. Suetônio apresenta quase o mesmo relato na Vida de Ve pasiano (Hume).
[7] “Aqueles que estavam presentes continuam a mencionar os dois episódios, quando já deixou de ser compensatório propagar uma mentira.” [Trad. por Anoar Aiex].