quarta-feira, 2 de abril de 2025

Stendhal - O Vermelho e o Negro: O Julgamento (XLI)

Livro II 


Ela não é galante,
não usa ruge algum.

Sainte-Beuve

Capítulo XLI

O JULGAMENTO

 A região se lembrará por muito tempo desse processo célebre. O interesse 
 pelo acusado chegava a causar agitação: é que seu crime era espantoso, mas 
 não atroz. Ainda que o tivesse sido, o jovem era tão belo! Sua alta fortuna, tão 
 cedo terminada, aumentava a comoção. Irão condená-lo? Perguntavam as 
 mulheres aos homens de suas relações, e empalideciam aguardando a 
 resposta.

SAINTE-BEUVE



     E NFIM CHEGOU O DIA TÃO TEMIDO pela sra. de Rênal e por Mathilde.
     O aspecto estranho da cidade redobrava-lhes o terror e não deixava sem emoção mesmo a alma firme de Fouqué. Toda a província acorrera a Besançon para ver o julgamento dessa causa romanesca.
     Havia vários dias os albergues estavam lotados. O presidente do tribunal era assediado por pedidos de ingressos; todas as damas da cidade queriam assistir ao julgamento; nas ruas apregoavam o retrato de Julien etc. etc.
      Mathilde havia reservado para esse momento supremo uma carta redigida pessoalmente pelo monsenhor de ***. Esse prelado, que dirigia a Igreja da França e nomeava os bispos, dignava-se pedir a absolvição de Julien. Na véspera do julgamento, Mathilde levou essa carta ao todo-poderoso vigário-geral.
     No final da entrevista, quando ela se retirava banhada em lágrimas, o sr. de Frilair disse lhe, deixando enfim sua reserva diplomática e quase comovido ele próprio:

– Respondo pela declaração do júri. Entre as doze pessoas encarregadas de examinar se o crime de seu protegido é comprovado, e sobretudo se houve premeditação, conto com seis amigos devotados, e dei-lhes a entender que dependia deles levar-me ao episcopado. O barão Valenod, que fiz prefeito de Verrières, dispõe inteiramente de dois de seus administrados, srs. de Moirod e de Cholin. Na verdade, o destino nos deu para esse caso dois jurados com ideias subversivas; mas, embora ultraliberais, são fiéis a minhas ordens nas grandes ocasiões e lhes pedi que votassem como o sr. Valenod. Fiquei sabendo que um sexto jurado, industrial muito rico e tagarela liberal, aspira em segredo a um fornecimento para o ministério da guerra, e certamente não gostaria de desagradar-me. Mandei dizer a ele que o sr. Valenod tem minha última palavra.
– E quem é esse sr. Valenod?, perguntou Mathilde, inquieta.
– Se o conhecesse, não poderia duvidar do sucesso. É um falador audacioso, impudente, grosseiro, feito para conduzir tolos. 1814 o tirou da miséria, e farei dele um governador. É capaz de bater nos outros jurados se não quiserem votar de acordo com ele.

     Mathilde ficou mais tranquila.
     Uma outra discussão a esperava à noite. Para não prolongar uma cena desagradável e cujo resultado ele considerava certo, Julien resolvera não usar a palavra.

– Meu advogado falará, é o bastante, ele disse a Mathilde. Já estarei por muito tempo exposto como espetáculo a todos os meus inimigos. Esses provincianos ficaram chocados com a fortuna rápida que lhe devo e, acredite, não há um só que não deseje minha condenação, para depois chorar como um tolo quando me conduzirem à morte.
– Eles querem vê-lo humilhado, é verdade, respondeu Mathilde, mas não os suponho cruéis. Minha presença em Besançon e o espetáculo de minha dor interessaram todas as mulheres; seu belo rosto fará o resto. Se disser uma palavra diante dos juízes, todo o auditório estará a seu favor etc. etc.

     No dia seguinte às nove horas, quando Julien desceu de sua prisão para ir até a grande sala do palácio de Justiça, foi com dificuldade que os gendarmes conseguiram afastar a imensa multidão amontoada no pátio. Julien havia dormido bem, estava muito calmo, e não experimentava outro sentimento a não ser uma piedade filosófica por essa multidão de invejosos que, sem crueldade, vinham aplaudir sua sentença de morte. Ficou muito surpreso quando, retido por mais de um quarto de hora no meio da multidão, foi obrigado a reconhecer que sua presença inspirava ao público uma terna piedade. Não escutou uma única frase desagradável. Esses provincianos são menos maldosos do que eu supunha, pensou.
     Ao entrar na sala de julgamento, ficou impressionado com a elegância da arquitetura gótica e uma quantidade de belas colunetas talhadas na pedra com o maior esmero. Acreditou estar na Inglaterra.
     Mas logo sua atenção foi absorvida por doze ou quinze belas mulheres que, colocadas defronte ao assento do réu, ocupavam os três balcões acima dos juízes e dos jurados. Ao voltar-se para o público, viu que a tribuna circular acima do anfiteatro também estava cheia de mulheres, em sua maioria jovens e que lhe pareceram muito bonitas; os olhos delas brilhavam de interesse. No resto da sala a multidão era imensa; acotovelavam-se às portas e as sentinelas não conseguiam obter silêncio.
     Quando todos os olhos que buscavam Julien perceberam sua presença, vendo-o ocupar o lugar um pouco elevado reservado ao acusado, ele foi acolhido por um murmúrio de admiração e de terno interesse.
     Teriam dito, nesse dia, que ele não tinha vinte anos; estava vestido com muita simplicidade, mas com uma graça perfeita; seus cabelos e seu rosto estavam encantadores; Mathilde cuidara ela mesma de sua toalete. A palidez de Julien era extrema. Assim que sentou no banco do réu, ele ouviu de todos os lados: Meu Deus! Como é jovem!... Mas é uma criança... É muito mais bonito que seu retrato...

– Meu acusado, disse-lhe o gendarme sentado à sua direita, está vendo as seis damas que ocupam aquele balcão? O gendarme indicava-lhe uma pequena tribuna saliente acima do anfiteatro onde ficam os jurados. É a sra. governadora, continuou o gendarme; ao lado, a sra. marquesa de M ***, essa gosta muito do senhor, escutei-a falar ao juiz de instrução. Depois, é a sra. Derville...
– A sra. Derville!, exclamou Julien, e um vivo rubor cobriu sua face. Ao sair daqui, pensou, ela irá escrever à sra. de Rênal. Ele ignorava a chegada da sra. de Rênal a Besançon. 

     As testemunhas foram rapidamente ouvidas. Desde as primeiras palavras da acusação feita pelo promotor, duas das damas que estavam no pequeno balcão, bem defronte a Julien, romperam em lágrimas. A sra. Derville não se comove assim, pensou Julien. Mas ele notou que ela estava muito corada.
     O promotor falava, com uma ênfase oratória em mau francês, da barbárie do crime cometido; Julien observou que as vizinhas da sra. Derville davam a impressão de desaprová-lo vivamente. Vários jurados, aparentemente conhecidos dessas damas, falavam-lhes e pareciam tranquilizá-las. Isso não deixa de ser de bom augúrio, pensou Julien.
     Até ali, ele sentia-se penetrado de um perfeito desprezo por todos os homens que assistiam ao julgamento. A eloquência vulgar do promotor aumentou esse sentimento de repugnância. Mas, aos poucos, a secura da alma de Julien foi se sensibilizando com as demonstrações de interesse das quais era evidentemente o objeto.
     Ficou contente com a expressão firme no rosto de seu advogado. Nada de frases de efeito, disse-lhe em voz baixa, quando este ia tomar a palavra.

– Toda a ênfase roubada de Bossuet que empregaram contra o senhor o beneficiou, disse o advogado. De fato, bastou que este falasse durante cinco minutos para que quase todas as mulheres tivessem seu lenço à mão. O advogado, encorajado, dirigiu aos jurados palavras extremamente fortes. Julien estremeceu, sentia-se a ponto de derramar lágrimas. Meu Deus! Que dirão meus inimigos?

     Estava cedendo ao enternecimento que o dominava quando, felizmente para ele, surpreendeu um olhar insolente do sr. barão de Valenod.
      Os olhos desse pretensioso estão flamejantes, pensou; que triunfo para essa alma mesquinha! Ainda que meu crime só tivesse provocado essa circunstância, eu deveria maldizê-lo. Sabe Deus o que ele dirá de mim à sra. de Rênal!
      Essa ideia afastou todas as outras. Logo em seguida, Julien foi chamado a si pelas demonstrações de apoio do público. O advogado acabava de terminar sua apresentação. Julien lembrou-se que era conveniente apertar-lhe a mão. O tempo havia passado rapidamente.
     Trouxeram refrescos para o advogado e o réu. Foi somente então que Julien ficou impressionado com uma circunstância: nenhuma mulher deixara o auditório para ir jantar.

– Estou morrendo de fome, disse o advogado, e o senhor?
– Eu também, respondeu Julien.
– Veja, ali está a sra. governadora recebendo seu jantar, disse-lhe o advogando, indicando o pequeno balcão. Coragem, tudo está indo bem.

     A sessão recomeçou. Quando o presidente fazia seu resumo, deu meia-noite. O presidente foi obrigado a interromper-se; em meio ao silêncio da ansiedade geral, o ressoar do sino do relógio enchia a sala.
      Eis o último de meus dias que começa, pensou Julien. Logo sentiu-se inflamado pela ideia do dever. Até então havia dominado seu enternecimento e mantido a resolução de não falar; mas quando o presidente do tribunal perguntou-lhe se tinha alguma coisa a acrescentar, ele levantou-se. Via à sua frente os olhos da sra. Derville que, às luzes, pareceram-lhe muito brilhantes. Acaso ela estaria chorando? pensou.

 “Senhores jurados,
“O horror do desprezo, que eu acreditava poder enfrentar no momento da morte, me faz tomar a palavra. Senhores, não tenho a honra de pertencer à vossa classe, vedes em mim um camponês que se revoltou contra a baixeza de sua sorte.
“Não vos peço nenhum indulto, continuou Julien, tornando mais firme a voz. Não tenho nenhuma ilusão, a morte me espera: ela será justa. Atentei contra a vida da mulher mais digna de todos os respeitos, de todas as homenagens. A sra. de Rênal foi como uma mãe para mim. Meu crime é atroz e foi premeditado. Portanto, mereço a morte, senhores jurados. Mas, mesmo se eu fosse menos culpado, vejo homens que, sem pensarem no que minha juventude possa merecer de piedade, quererão punir em mim e desencorajar para sempre esse tipo de jovens que, nascidos numa classe inferior e de certo modo oprimidos pela pobreza, têm a felicidade de obter uma boa educação e a audácia de misturar-se àquilo que o orgulho dos ricos chama a sociedade.
“Eis o meu crime, senhores, e ele será punido com tanto mais severidade quanto, em realidade, não sou julgado por meus pares. Não vejo no banco dos jurados nenhum camponês enriquecido, mas unicamente burgueses indignados...”

     Durante vinte minutos, Julien falou nesse tom; disse tudo o que sentia no coração; o promotor, que aspirava aos favores da aristocracia, agitava-se em seu assento; mas, apesar do caráter um pouco abstrato que Julien dera à discussão, todas as mulheres desfaziam-se em lágrimas. A própria sra. Derville tinha um lenço nos olhos. Antes de terminar, Julien voltou a falar da premeditação, de seu arrependimento, do respeito, da adoração filial e sem limites que, nos tempos mais felizes, tinha pela sra. de Rênal... A sra. Derville deu um grito e desmaiou.
     Soava uma hora quando os jurados retiraram-se para deliberar. Nenhuma mulher abandonara seu lugar; vários homens tinham lágrimas nos olhos. As conversas foram inicial mente muito animadas; mas aos poucos, fazendo-se demorar a decisão do júri, o cansaço geral espalhou uma calma na assembleia. O momento era solene, as luzes emitiam menos brilho. Julien, muito fatigado, ouvia discutirem, a seu redor, se aquela demora seria de bom ou de mau augúrio. Viu com prazer que todas as opiniões eram a seu favor; o júri não retornava, e no entanto nenhuma mulher deixava a sala.
     Quando acabaram de soar duas horas, um grande movimento ouviu-se. A pequena porta da sala dos jurados foi aberta. O sr. barão de Valenod avançou com um passo grave e teatral, seguido de todos os jurados. Ele tossiu e depois anunciou que a declaração unânime do júri, em sua alma e consciência, era que Julien Sorel era culpado de homicídio, e de homicídio com premeditação: essa declaração implicava a pena de morte, que foi pronunciada um instante depois.
      Julien olhou seu relógio e lembrou-se do sr. de Lavalette, eram duas horas e um quarto. Hoje é sexta-feira, pensou. Sim, mas é um dia feliz para o Valenod, que me condena... Estou muito vigiado para que Mathilde possa salvar-me como fez a sra. de Lavalette... Assim, dentro de três dias, a essa mesma hora, saberei o que esperar do grande talvez.
     Nesse momento, ele ouviu um grito e foi chamado de volta às coisas deste mundo. As mulheres a seu redor soluçavam; viu que os rostos haviam se voltado para uma pequena tribuna montada no alto de uma pilastra gótica. Mais tarde ficou sabendo que Mathilde se escondera ali. Como o grito não se repetiu, todos puseram-se a olhar para Julien, a quem os gendarmes buscavam fazer atravessar a multidão.
     Procuremos não dar motivo de riso a esse patife do Valenod, pensou Julien. Com que cara contrita e hipócrita ele pronunciou a declaração que implica a pena de morte! Enquanto o pobre presidente do tribunal, embora juiz há tantos anos, tinha lágrimas nos olhos ao condenar-me. Que alegria para o Valenod vingar-se de nossa antiga rivalidade junto à sra. de Rênal!... Então não a verei mais! Acabou-se... Sinto que um último adeus é impossível entre nós... Como ficaria feliz de dizer a ela todo o horror que tenho por meu crime! Apenas estas palavras: Vejo-me justamente condenado.

continua página 337...

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Leia também:

O Vermelho e o Negro: Uma Hora da Madrugada (XVI)
O Vermelho e o Negro: Uma Velha Espada (XVII)
O Vermelho e o Negro: O Julgamento (XLI)
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ADVERTÊNCIA DO EDITOR

Esta obra estava prestes a ser publicada quando os grandes acontecimentos de julho [de 1830] vieram dar a todos os espíritos uma direção pouco favorável aos jogos da imaginação. Temos motivos para acreditar que as páginas seguintes foram escritas em 1827.

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Henri-Marie Beylemais conhecido como Stendhal (Grenoble, 23 de janeiro de 1783 — Paris, 23 de março de 1842) foi um escritor francês reputado pela fineza na análise dos sentimentos de seus personagens e por seu estilo deliberadamente seco.
Órfão de mãe desde 1789, criou-se entre seu pai e sua tia. Rejeitou as virtudes monárquicas e religiosas que lhe inculcaram e expressou cedo a vontade de fugir de sua cidade natal. Abertamente republicano, acolheu com entusiasmo a execução do rei e celebrou inclusive a breve detenção de seu pai. A partir de 1796 foi aluno da Escola central de Grenoble e em 1799 conseguiu o primeiro prêmio de matemática. Viajou a Paris para ingressar na Escola Politécnica, mas adoeceu e não pôde se apresentar à prova de acesso. Graças a Pierre Daru, um parente longínquo que se converteria em seu protetor, começou a trabalhar no ministério de Guerra.
Enviado pelo exército como ajudante do general Michaud, em 1800 descobriu a Itália, país que tomou como sua pátria de escolha. Desenganado da vida militar, abandonou o exército em 1801. Entre os salões e teatros parisienses, sempre apaixonado de uma mulher diferente, começou (sem sucesso) a cultivar ambições literárias. Em precária situação econômica, Daru lhe conseguiu um novo posto como intendente militar em Brunswick, destino em que permaneceu entre 1806 e 1808. Admirador incondicional de Napoleão, exerceu diversos cargos oficiais e participou nas campanhas imperiais. Em 1814, após queda do corso, se exilou na Itália, fixou sua residência em Milão e efetuou várias viagens pela península italiana. Publicou seus primeiros livros de crítica de arte sob o pseudônimo de L. A. C. Bombet, e em 1817 apareceu Roma, Nápoles e Florença, um ensaio mais original, onde mistura a crítica com recordações pessoais, no que utilizou por primeira vez o pseudônimo de Stendhal. O governo austríaco lhe acusou de apoiar o movimento independentista italiano, pelo que abandonou Milão em 1821, passou por Londres e se instalou de novo em Paris, quando terminou a perseguição aos aliados de Napoleão.
"Dandy" afamado, frequentava os salões de maneira assídua, enquanto sobrevivia com os rendimentos obtidos com as suas colaborações em algumas revistas literárias inglesas. Em 1822 publicou Sobre o amor, ensaio baseado em boa parte nas suas próprias experiências e no qual exprimia ideias bastante avançadas; destaca a sua teoria da cristalização, processo pelo que o espírito, adaptando a realidade aos seus desejos, cobre de perfeições o objeto do desejo.
Estabeleceu o seu renome de escritor graças à Vida de Rossini e às duas partes de seu Racine e Shakespeare, autêntico manifesto do romantismo. Depois de uma relação sentimental com a atriz Clémentine Curial, que durou até 1826, empreendeu novas viagens ao Reino Unido e Itália e redigiu a sua primeira novela, Armance. Em 1828, sem dinheiro nem sucesso literário, solicitou um posto na Biblioteca Real, que não lhe foi concedido; afundado numa péssima situação económica, a morte do conde de Daru, no ano seguinte, afetou-o particularmente. Superou este período difícil graças aos cargos de cônsul que obteve primeiro em Trieste e mais tarde em Civitavecchia, enquanto se entregava sem reservas à literatura.
Em 1830 aparece sua primeira obra-prima: O Vermelho e o Negro, uma crónica analítica da sociedade francesa na época da Restauração, na qual Stendhal representou as ambições da sua época e as contradições da emergente sociedade de classes, destacando sobretudo a análise psicológica das personagens e o estilo direto e objetivo da narração. Em 1839 publicou A Cartuxa de Parma, muito mais novelesca do que a sua obra anterior, que escreveu em apenas dois meses e que por sua espontaneidade constitui uma confissão poética extraordinariamente sincera, ainda que só tivesse recebido o elogio de Honoré de Balzac.
Ambas são novelas de aprendizagem e partilham rasgos românticos e realistas; nelas aparece um novo tipo de herói, tipicamente moderno, caracterizado pelo seu isolamento da sociedade e o seu confronto com as suas convenções e ideais, no que muito possivelmente se reflete em parte a personalidade do próprio Stendhal.
Outra importante obra de Stendhal é Napoleão, na qual o escritor narra momentos importantes da vida do grande general Bonaparte. Como o próprio Stendhal descreve no início deste livro, havia na época (1837) uma carência de registos referentes ao período da carreira militar de Napoleão, sobretudo a sua atuação nas várias batalhas na Itália. Dessa forma, e também porque Stendhal era um admirador incondicional do corso, a obra prioriza a emergência de Bonaparte no cenário militar, entre os anos de 1796 e 1797 nas batalhas italianas. Declarou, certa vez, que não considerava morrer na rua algo indigno e, curiosamente, faleceu de um ataque de apoplexia, na rua, sem concluir a sua última obra, Lamiel, que foi publicada muito depois da sua morte.
O reconhecimento da obra de Stendhal, como ele mesmo previu, só se iniciou cerca de cinquenta anos após sua morte, ocorrida em 1842, na cidade de Paris.

Marcel Proust - À Sombra das Moças em Flor (Nomes de Lugares: o Lugar - k)

em busca do tempo perdido


volume II
À Sombra das Moças em Flor

Segunda Parte
Nomes de Lugares: o Lugar


(k)

continuando...

      Pensei que, ao convidar-nos assim para o apartamento de sua tia, sem dúvida a prevenira de nossa visita, o Sr. de Charles teria desejado reparar a descortesia com que me tratara no passeio daquela manhã. Mas, quando entramos o sobrinho estava no salão da Sra. Villeparisis; quis cumprimentá-lo, porém por mais voltas que desse a seu redor, não pude atrair o seu olhar, pois ele contava, em voz aguda, uma história bem malévola sobre um de seus parentes; quis cumprimentá-lo com voz bem forte, para adverti-lo de minha presença, mas, compreendi que havia reparado nela, pois, antes mesmo que meus lábios dissesse uma só palavra, no momento em que me inclinava, vi seus dois dedos estendidos para que os apertasse, sem que ele tivesse desviado os olhos ou interrompido a conversa. Evidentemente me vira, mas sem dá-lo a perceber, e só então verifiquei que seus olhos, que jamais se fixavam no interlocutor, passeavam permanentemente em todas as direções, como os de certos animais assustados, ou os desses vendedores ambulantes que, enquanto declamam seu palavreado e exibem mercadoria ilícita, perscrutam, sem todavia virar a cabeça, os diferentes pontos no horizonte de onde poderia vir a polícia. Com a nossa chegada, parecia surpresa por nos ver a Sra. de Villeparisis; parecia não estar prevenida; e fiquei mais assombrado ainda ao ouvir o Sr. de Charles dizer à minha avó:

- É encantador, não é mesmo? Disse à tia. "Ah, foi uma ideia muito boa a que tiveram.'' Sem dúvida havia reparado na surpresa de sua tia; e que lhe bastaria para transformar, homem acostumado a dar o tom, como esta surpresa em alegria, indicando que também se achava surpreso e que esse calculava bem, o efeito do sentimento que a nossa chegada deveria causar. Levava em muita consideração o seu sobrinho, e a Sra. de Villeparisis, sabia quanto era difícil contentá-lo, pareceu de súbito achar novas qualidades em minha avó. Não podia compreender que o Sr. de Charles não cessou de agradá-la. Mas eu não entendia que aparentemente se esquecesse, em poucas horas, o convite tão breve que nos fez naquela manhã – denominava tão premeditado, que me parecia que fizera aquilo intencionalmente parecer a ideia de minha avó, uma ideia que era somente sua. Disse com um escrúpulo de precisão que até certa idade, foi que percebi que a gente não se certifica que se conserve verdadeiras intenções de uma pessoa pelo simples fato de lhe fazer uma pergunta e que é menor o risco de um mal entendido que certamente passará em brancas nuvens, do que insistir ingenuamente:
- Mas, senhor - disse-lhe -, deve estar lembrado de que me pediu que viéssemos esta noite, não é? - Nenhum movimento, nenhum som revelou que o Sr. de Charles tivesse ouvido minha pergunta. De modo que a repeti, como os diplomatas ou os jovens que estão brigados e que, com inútil e incansável boa vontade, procuram obter esclarecimentos que o adversário decidiu não dar. Pareceu-me ver flutuar em seus lábios o sorriso dos que, de muito alto, julgam o caráter e a educação dos outros. Já que ele se recusava a uma explicação, tentei elaborar uma, e apenas cheguei a hesitar entre várias, nenhuma das quais podia ser a verdadeira. Talvez não se lembrasse, ou então fora eu quem não compreendera bem o que me havia dito pela manhã... Mais provavelmente por orgulho, não queria dar a impressão de ter procurado atrair pessoas que desdenhava, e preferia lançar sobre elas a iniciativa de sua vinda. Mas então, se nos desdenhava, por que fizera questão que viéssemos, ou melhor, que minha avó viesse, pois de nós dois foi somente a ela que o Sr. de Charles dirigiu a palavra naquela noite, e nem uma só vez a mim? Conversando com ela na maior animação, assim como com a Sra. de Villeparisis, de algum modo escondido atrás delas como se estivesse no fundo de um camarote, contentava-se apenas em desviar por vezes o olhar inquiridor de seus olhos penetrantes e pousá-lo em meu rosto, com a mesma seriedade e o mesmo ar de preocupação que teria se estivesse lendo um manuscrito difícil de entender. Sem dúvida, a não ser por esses olhos, o rosto do Sr. de Charles seria idêntico ao de muitos homens bonitos. E, quando Saint-Loup, falando-me de outros Guermantes, disse mais tarde:
- "Ora, eles não têm esse ar de raça, de grão-senhor até a ponta dos dedos, como o tio Palamede", confirmando que o ar de raça e a distinção aristocrática não continham nada de novo e misterioso, mas eram constituídos de elementos que eu facilmente reconhecia sem que me causassem maior impressão. Percebi que se dissipava uma de minhas ilusões. Mas naquele rosto, que se parecia um pouco ao rosto de um ator devido à leve camada de pó-de-arroz que o recobria, por mais que o Sr. de Charles lhe fechasse hermeticamente a expressão, seus olhos eram como uma fenda, uma seteira que não pudera tapar e por onde, segundo a posição que a gente ocupava quanto a ele, saíam reflexos que bruscamente nos atravessavam, provindos de alguma arma interior que parecia assustadora até para aquele que, sem dominá-la, carregava-a dentro de si em estado de equilíbrio instável e sempre a ponto de explodir; e a expressão circunspecta e constantemente intranquila desses olhos, com todo o cansaço que provocava no rosto, por mais composto e arrumado que estivesse, expresso nas olheiras muito caídas, fazia pensar num incógnito, num homem poderoso que corresse perigo e por isso se disfarçasse, ou pelo menos num sujeito perigoso, porém trágico. Gostaria de adivinhar que segredo era aquele que os outros homens não possuíam e que tornara tão enigmático o olhar do Sr. de Charles; quando o havia visto de manhã, perto do cassino. Mas agora, que já sabia a que família pertencia, não mais continuara crer que fosse o olhar de um ladrão, nem, já que o ouvira, o de um louco. Se se mostrava frio para comigo, enquanto era tão amável à minha avó, isto talvez não se devesse a uma antipatia pessoal, pois de um modo geral era benevolente para com as mulheres, de cujos defeitos falava habitualmente com muita indulgência; mas, quanto aos homens, principalmente os rapazes, tratava com um ódio violento que lembrava o de certos misóginos pelas mulheres, dois ou três gigolôs, que eram da família ou da intimidade de Saint-Loup, e cujos nomes este citara casualmente, disse: 
- São uns pequenos canalhas.- com a expressão quase feroz que contrastava com sua frieza costumeira. Compreendi o que censurava acima de tudo nos jovens de hoje era o serem muito efeminados.
- São verdadeiras mulheres - dizia com desprezo. Mas qual vida não teria parecido efeminada em comparação com a que ele desejava que levasse um homem, e ainda assim lhe parecia pouco enérgica e viril? (Ele mesmo, em suas viagens, depois de horas de caminhada, todo afogueado, lançava-se em rios gelados.) Nem sequer admitia que um homem usasse anel. Porém esse preconceito da virilidade não o impedia de possuir as mais finas qualidades de homem sensível. A Sra. de Villeparisis, que lhe pedia descrevesse para minha avó um castelo onde a marquesa da Sévigné passara um dia, acrescentando que achava um pouco literário o seu gênero de se ver separada de uma pessoa tão aborrecida como sua filha, a Srta. Grignan, respondeu:
- Pelo contrário, a mim me parece bastante verdadeiro. Aliás, era uma época em que esses sentimentos eram muito bem compreendidos. O habitante de Monomotapa, de La Fontaine, correndo à casa do amigo porque em sonho pareceu triste, o pombo achando que o maior dos males é a ausência de pombo, talvez lhe pareçam, minha tia, tão exagerados como a Sra. de Sévigné, não podia aguardar o momento em que estaria a sós com a filha. E é tão belo ela diz quando se separam: "Esta separação me faz doer tanto a alma que é como se fosse dor no corpo. Durante a ausência não poupamos horas. Adiava por um tempo que é a nossa aspiração." 

     Minha avó ficou encantada de ouvir as cartas da Sra. de Sévigné da mesma forma como o teria feito. Assombra que um homem pudesse compreendê-las tão bem. Encontrava no Sr. de Charles delicadezas e sensibilidade femininas. Mais tarde, quando estávamos a sós, avó e eu falamos dele, concordando em que devia ter sofrido a influência de uma mulher, sua mãe, ou, mais tarde, de sua filha se tinha filhos. Quanto pensava: "Uma amante", reportando-me à influência que a de Saint-Loup pudesse ter sobre ele, o que me fazia notar até que ponto pode requintar um homem à uma mulher com quem ele convive.

- E, uma vez junto da filha, ela provavelmente nada teria a dizer. - respondeu a Sra. de Villeparisis.
- Claro que sim; mesmo que fossem aquelas coisas que dizia serem "tão insignificantes que só tu e eu sabemos apreciar". E, em todo caso, estava ao lado dela. E La Bruyere diz que isso é tudo: "Se estamos junto dos seres queridos, tanto faz falar-lhes ou não." 
- Tem razão; é a única felicidade - acrescentou o Sr. de Charles com voz melancólica-, e infelizmente a vida é tão mal arranjada que essa felicidade muito raramente podemos desfrutá-la. A Sra. de Sévigné é muito menos digna de compaixão que os outros, pois passou grande parte de sua vida junto de quem amava.
- Esqueces que não se trata de amor e sim da filha.
- O importante na vida, entretanto, não é o que se ama e sim sentir o amor, -replicou ele num tom peremptório, compenetrado e quase categórico.- O que a Sra. de Sévigné sentia pela filha pode parecer-se, com maior propriedade, à paixão que Racine pintou em Andrômaca ou na Pedra e não às frívolas relações do jovem Sévigné com suas amantes. Da mesma forma, o amor de alguns místicos por Deus. Os limites muito exíguos que traçamos em torno do amor decorrem apenas da nossa grande ignorância da vida.
- Gosta muito da Andrômaca e da Fedra? - perguntou Saint-Loup ao tio, num tom levemente desdenhoso.
- Há mais verdade numa tragédia de Racine do que em todos os dramas de Victor Hugo. respondeu o Sr. de Charles.- 
- A sociedade é absolutamente medonha. - sussurrou-me Saint-Loup ao ouvido. - Preferir Racine a Victor Hugo, afinal, é terrível! - 

     Estava sinceramente entristecido com as palavras do tio, mas o prazer de dizer "afinal" e sobretudo "terrível" o consolava.
     Nessas reflexões sobre a tristeza de viver separado daquilo que se ama (reflexões que fizeram minha avó dizer que o sobrinho da Sra. de Villeparisis compreendia certas obras bem melhor que a tia, e principalmente que estava em nível muito superior ao da maioria das pessoas da sociedade), o Sr. de Charles não deixava apenas transparecer uma finura de sentimento que, de fato, os homens raramente mostram; sua própria voz, semelhante a certas vozes de contralto em que não está suficientemente cultivado o registro médio, e cujo canto parece o dueto alternado de um rapaz e de uma mulher, colocava-se nas notas altas no momento em que exprimia estes pensamentos tão delicados, adquirindo uma doçura imprevista, como se contivesse coros de vozes de noivas, de irmãs, que disseminassem a sua ternura. Mas o bando de donzelas que o Sr. de Charles, com todo o seu horror por qualquer tipo de efeminamento, ficaria tão aflito de abrigar em sua voz, não se limitava à interpretação, à modulação dessas passagens sentimentais. Muitas vezes, enquanto conversava, o Sr. de Charles deixava ouvir o seu riso agudo e fresco de colegiais de pensionato ou de moças coquetes, que troçavam do próximo com malícias de pícaras e espertalhonas.
      Contou que uma casa que pertencera à família, onde uma vez dormiu Maria Antonieta, e cujo parque fora desenhado por Le Nôtre, era propriedade - dos ricos financistas Israel, que o tinham comprado.

- Israel é, pelo menos, o nome que usam essas pessoas, e me parece um vocábulo genérico, étnico, em nome próprio. Não se sabe; talvez essa casta de gente nem tenha nome é designada apenas pela coletividade a que pertencem. Dá no mesmo! Ter sido a moradia dos Guermantes e ser propriedade dos Israel!!! - gritou. - Isto me lembra aquele quarto do castelo de Blois, do qual me dizia o guarda que me guiava, visita: - Era aqui que Maria Stuart rezava; e agora é onde guardo minhas vassoura - Naturalmente, nunca mais quero saber dessa casa, que está desonrada, como não quero saber da minha prima, Clara de Chimay, que largou o marido. Mas conservo a fotografia da casa quando ainda estava intacta, como a da princesa num quartel, seus grandes olhos só viviam para meu primo. A fotografia ganha um pouco a dignidade que lhe falta quando deixa de ser reprodução da realidade e nos mostra coisas que já não existem. Poderia lhe dar uma, visto que esse tipo de arquitetura lhe interessa - disse à minha avó. Nesse momento, percebendo que o lenço bordado que trazia no bolso deixava entrever a orla colorida, empurrou-o mais para dentro, com o rosto assustado de uma mulher pudica, mas não inocente, que dissimula atrativos físicos que, por excesso de escrúpulo, julga indecentes. - Imagine a senhora continuou que tais pessoas começaram por destruir o parque do Nôtre, o que é tão criminoso quanto estraçalhar um quadro de Poussin. Por esse motivo, esses Israel deveriam estar na cadeia. É verdade - acrescentou com sorriso, após um momento de silêncio - que sem dúvida há muitos outros motivos para que devessem ser presos! Em todo caso, imagine o efeito que faz desses prédios um jardim à inglesa.

- Mas a casa é do mesmo estilo do Petit Trianon - disse a Sra. de Villeparisis -, e Maria Antonieta mandou fazer ali um jardim inglês.
- Que, da mesma forma, põe a perder a fachada de Gabriel. - respondeu o Sr. de Charles. - Evidentemente, seria um ato de selvageria mandar desmanchar agora o Hameau. Mas, sejam quais forem os gostos de hoje, duvido muito esse respeito, um capricho da Sra. Israel tenha o mesmo prestígio que a lembrança da rainha.

     Nesse meio tempo, minha avó me fizera sinal para que subisse para deitar, apesar da insistência de Saint-Loup que, para grande vergonha minha, dissera, diante do Sr. de Charles, à tristeza que eu sentia muitas vezes de noite, antes de dormir, e que seu tio deveria considerar algo bem pouco viril. Demorei ainda instantes, depois saí; e fiquei muito espantado quando, logo após, tendo ouvido bater a porta do quarto e perguntado quem era, percebi a voz do Sr. de Charles que dizia em tom seco:

- É Charles. Posso entrar, senhor? Senhor continuou no mesmo tom, tão logo fechou a porta -, há pouco meu sobrinho contava que o senhor estaria um tanto aborrecido antes de dormir, e, por outro lado, que é admirador dos livros de Bergotte. Como tenho na mala um deles, que o senhor provavelmente não conhece, estou trazendo-o para que o ajude a passar esses momentos em que não se sente feliz.

     Agradeci ao Sr. de Charles, emocionado, e lhe disse que, pelo contrário, receara que o que Saint-Loup havia dito acerca do meu mal-estar com a aproximação da noite me tivesse feito parecer a seus olhos mais estúpido ainda do que era.

- Claro que não respondeu ele num tom mais suave. - O senhor talvez não tenha méritos pessoais, tão poucas pessoas o têm! Mas, ao menos por algum tempo, será jovem, o que e sempre uma sedução. Além disso, senhor, a maior das asneiras é achar ridículos ou censuráveis os sentimentos que não se tem. Gosto da noite e o senhor me diz que ela o atemoriza; gosto do aroma das rosas e tenho um amigo a quem o seu cheiro provoca febre. Julga que, por isso, acho que ele valha menos que eu? Esforço-me por compreender tudo, e evito condenar seja o que for. Enfim, não se lamente muito, não digo que essa tristeza não seja penosa; sei o que se pode sofrer por determinadas coisas que os outros não compreenderiam. Mas pelo menos o senhor empregou bem o seu afeto em sua avó. Sempre a vê. E, depois, é uma afeição lícita, isto é, bem correspondida. E há tantas outras de que não se pode dizer o mesmo!

     Andava de um lado para o outro, no quarto, olhando um objeto, pegando outro para examiná-lo. Tinha a impressão de que desejava anunciar-me algo e não sabia em que termos fazê-lo.

- Tenho um outro livro de Bergotte aqui, vou mandar buscá-lo - acrescentou, tocando a campainha. Apareceu um groom dentro de instantes. - Vá chamar o mordomo. Só ele é capaz de cumprir um recado com inteligência - disse o Sr. De Charles com altivez. 
- O senhor Aimé, senhor? indagou o groom. 
- Não sei o seu nome, mas sim, lembro-me de ter ouvido que o chamavam de Aimé. Vá depressa, não tenho tempo a perder.
- Num instante ele estará aqui, senhor; acabei de vê-lo lá embaixo. - respondeu o groom, que desejava mostrar-se a par de tudo. Passou-se algum tempo. O groom voltou. 
- O Sr. Aimé já está deitado, senhor. Mas posso me encarregar do recado. 
- Não, o que tem a fazer é acordá-lo. 
- Não posso, senhor, ele não dorme aqui. 
- Então, deixe-nos em paz. 
- Mas, senhor. - disse eu quando o groom se retirou-, é muito amável comigo; é suficiente um livro de Bergotte.
- Sim, tem razão. 

     O Sr. de Charles continuava a andar pelo quarto. Passaram-se alguns minutos desse modo. Depois, após uns instantes de hesitação, recomeçando várias vezes o ato interrompido, girou sobre si mesmo, lançou-me um:

- Boa-noite, senhor. - Num tom novamente áspero, e foi embora.

     Na manhã seguinte, o Sr. De Charles, que deveria partir nesse mesmo dia, aproximou-se de mim na praia num momento em que eu ia tomar meu banho, a fim de me dizer, da parte de minha avó que ela me esperava tão logo saísse da água; e, depois dos nobres sentimentos - o ouvira expressar na noite anterior, fiquei muito espantado ao ouvi-lo dizer beliscando-me o pescoço com uma familiaridade e um riso bem vulgares:

- Afinal, você está se lixando para a velha vovó, hein, malandrão!
- Como, senhor, eu a adoro!
- O Senhor. - replicou, recuando um passo e com ar glacial - é jovem ainda deve aproveitar para aprender duas coisas: a primeira é abster-se de expressar sentimentos muito naturais, por serem subentendidos; a segunda é não responder de pronto ao que lhe dizem sem ter penetrado bem o seu sentido. Se tomasse cuidados há pouco, teria evitado dar a impressão de falar a torto e a direito como um surdo e, com isso, acrescentar um ridículo a mais ao ridículo de usar âncoras bordadas no seu traje de banho. Emprestei-lhe um livro de Bergotte o qual estou precisando. Mande-o trazer dentro de uma hora por esse mordomo, nome risível que tão mal lhe assenta; suponho que a estas horas já não esteja deitado. Lembro-me que ontem à noite, cedo demais talvez, lhe falei das seduções da juventude, e lhe teria prestado maior favor se lhe apontasse a leviandade; as inconsequências e incompreensão. Espero, senhor, que esta pequena ducha seja mais salutar que o seu banho. Mas não fique aí parado, pois poderia sentir frio. Adeus, senhor.
  
      Com certeza se arrependeu dessas palavras, pois logo depois recebi numa encadernação em marroquim em cuja capa trazia embutida uma placa de couro que representava, em meio relevo, um ramo de miosótis o livro que emprestara e que lhe fizera chegarás mãos não por Aimé, que se achava de férias, mas pelo ascensorista.
     Tendo partido o Sr. de Charles, Robert e eu pudemos enfim ir jantar à casa dos Bloch. Durante essa pequena recepção, compreendi que aquelas histórias que Bloch julgava tão engraçadas sem o serem, e as pessoas a quem considerava "curiosíssimas", eram histórias e amigos do Sr. Bloch pai, que os julgava desse modo. Há um certo número de pessoas a quem admiramos na infância: um mais inteligente que o resto da família, um professor que exalta a nossos olhos a metafísica que nos revela, um colega mais velho que nós (o que Bloch foi para mim) que despreza o Musset da Esperança em Deus quando ainda a aprecia que, em compensação, quando tivermos chegado ao bom Leconte ou a Claude se extasiará como em:

A Saint-Claise, na Zuecca, 
Vós estareis, vós estareis bem à vontade...acrescentando: 
Pádua é um lugar bem bonito onde insignes doutores em Direito... Porém prefiro a polenta 
Passa em seu dominó preto 
A Toppatelle e de todas as "Noites" só retém: 
No Havre, em frente ao Atlântico, 
Em Veneza, no horrível Lido, 
Onde vem, na grama de um túmulo, 
Morrer o pálido Adriático. 

     Ora, dessas pessoas a quem admiramos sem hesitar, se recolhem e citam coisas bastante inferiores a outras que recusaríamos severamente caso nos deixássemos guiar pelo nosso próprio gosto, assim como um escritor emprega num romance, sob a alegação de que são verdadeiras, "frases" e personagens que, num conjunto vivo, são um peso morto, parcela medíocre. Os retratos de Saint-Simon, que ele escreveu sem admirar-se, são sem dúvida admiráveis; mas os rasgos, que considera deliciosos, das pessoas de espírito que conheceu hoje em dia nos parecem medíocres ou ininteligíveis. Ele teria desdenhado inventar coisas, que registra como sendo tão finas ou pitorescas, da Sra. Comuel ou de Luís XIV, o que afinal é fato que se observar em outros escritores e comporta diversas interpretações, das quais basta neste momento a seguinte; que, quando o escritor se acha no estado de espírito daquele que "observa", encontra-se no estado de espírito de nível muito inferior ao daquele que cria.
      Portanto, havia, encravado dentro do meu colega Bloch, um pai Bloch que se atrasava 40 anos em relação ao filho, contava anedotas insossas das quais ria, no fundo do filho, assim como fazia o pai Bloch exterior e verdadeiro, pois ao riso que este último soltava, não sem repetir duas ou três vezes à última frase para que o público saboreasse bem a história, acrescentava-se a gargalhada ruidosa com que o filho, à mesa, não deixava de saudar as anedotas do pai. Assim é que, depois de haver dito coisas muito inteligentes, o jovem Bloch, manifestando a herança recebida da família, nos contava pela trigésima vez alguns desses gracejos que o pai dava a luz (juntamente com a casaca) somente nos dias solenes em que o filho trazia alguém que valia a pena deslumbrar: um de seus professores, um colega que obtinha todos os prêmios, ou, naquela noite, Saint-Loup e eu. Por exemplo: "Um militar muito culto, que deduzira sabiamente, com base em provas, por que motivos infalíveis os japoneses, na guerra russo-japonesa, seriam vencidos e os russos vitoriosos", ou então: "É um homem eminente que passa por ser grande financista nos meios políticos e por um grande político nos meios financeiros." Essas histórias eram intercambiáveis com uma anedota relativa ao barão de Rothschild e referente a sir Rufus Israel, personagens postos em evidência de forma equívoca, que podia dar a entender que o Sr. Bloch os conhecera pessoalmente.
      Também caí na armadilha e, pela maneira que o Sr. Bloch pai falava, Bergotte, julguei que era um de seus velhos amigos. Ora, Bloch pai só conhecia pessoas célebres "sem conhecê-las", por tê-las visto de longe no teatro, nos bulevares. Aliás, imaginava que seu rosto, seu nome e sua personalidade não eram estranhos a elas, e que, ao vê-lo, eram muitas vezes obrigadas a reprimir um profundo desejo de saudá-lo. As pessoas da aristocracia conhecem diretamente os homens de talento, levam-nos para jantar, e nem por isso os compreendem melhor. Quando se viveu nesse ambiente, a estupidez das pessoas que o constituem inspira desejos de frequentar círculos mais modestos, onde se conhecem homens de talento "sem conhecê-los", e os supomos mais inteligentes que são. Eu acabara de comprová-lo, falando de Bergotte. O Sr. Bloch pai não era o único a obter êxito na casa. Meu colega ainda mais o obtinha com as irmãs; não cessava de as entreter em tom resmungão, metendo o nariz no prato; assim, as fazia rir até às lágrimas. Além do mais, elas haviam adotado a língua do irmão, que falavam correntemente como se fosse obrigatória e o único objetivo de pessoas inteligentes. Quando chegamos, a mais velha disse a uma das menores:

- Vai avisar nosso sábio pai e nossa mãe venerável.
- Cadelas - disse-lhes Bloch - Apresento-lhes o cavalheiro Saint-Loup, o de dardos rápidos, que veio por uns dias de Boncieres, a de casa de pedra polida, fecunda em cavalos.

     Como era tão vulgar como letrado, o discurso terminava habitualmente com um gracejo menos homérico:

- Vamos, feches um pouco mais esses belos broches. Que escândalo é esse? Afinal, não sei o que querem com isso.

     E as senhoritas Bloch se estorciam numa tempestade de risos. Disse à elas quantas alegrias o irmão me havia proporcionado ao me recomendara a leitura de Bergotte, cujos livros adorava.

ontinua na página 150...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Primeira Parte
Segunda Parte
À Sombra das Moças em Flor (Nomes de Lugares: o Lugar - k)
Volume 3
Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7

terça-feira, 1 de abril de 2025

A Montanha Mágica - Temor nascente. Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo (b)

Thomas Mann


A Montanha Mágica 


Capítulo IV

Temor nascente. Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo

continuando...

     Mas havia ainda esse Settembrini, o oposicionista doidivanas e “homo humanus”, como se definia a si próprio, o homem que o censurara com abundantes palavras enfáticas, porque qualificara a combinação de estupidez e enfermidade, de contradição e de dilema para o sentimento humano. Que tal era ele? Era proveitoso ocupar-se com esse homem? Hans Castorp sabia ainda muito bem o quanto, em diversos daqueles sonhos excessivamente agitados que aqui em cima lhe enchiam as noites, exasperara-se por causa do sorriso fino e seco do italiano, que se esboçava sob a bonita curva do bigode; recordava-se de o ter tratado de tocador de realejo e de haver procurado afastá-lo do lugar, porque lhe parecia demais ali. Mas isso se passara num sonho, e Hans Castorp acordado era diferente, menos livre de inibições do que quando sonhava. Em estado de vigília, tudo isso podia ser de outro modo; talvez fizesse bem tentando conformar-se intimamente com essa maneira de ser, completamente nova para ele, que representava Settembrini; quem sabia se não eram dignas de ser estudadas sua rebeldia e sua crítica, posto fossem choramingueiras e gárrulas? O próprio Settembrini chamara-se de pedagogo. Evidentemente desejava exercer influência, e o jovem Hans Castorp anelava por alguém que o influenciasse. Naturalmente não era preciso levar a docilidade a ponto de se deixar induzir por Settembrini a arrumar as malas e a partir antes do tempo, conforme a sugestão que este lhe dera recentemente com toda a seriedade.
     Placet experiri, pensou sorrindo: pois, para isso, sabia bastante latim, ainda que não se pudesse qualificar de homo humanus. Assim, não perdia Settembrini de vista e escutava com gosto, embora com atenção crítica, tudo quanto o italiano produzia no decorrer das entrevistas que se realizavam ocasionalmente, durante os comedidos passeios prescritos pelo regime, até o banco na encosta da montanha ou até Davos-Platz. Havia também outras oportunidades para fazê-lo, quando Settembrini, após a refeição, era o primeiro a levantar-se e, com as suas calças xadrez e com um palito entre os dentes, atravessava indolentemente a sala, a fim de fazer, em completo desacordo com o regulamento e os costumes, uma visitinha à mesa dos dois primos. Postava-se então diante deles, numa atitude graciosa, com os pés cruzados, e palestrava gesticulando com o palito. Ou talvez puxasse uma cadeira, para instalar-se num canto entre Hans Castorp e a professora, ou então entre o jovem e Miss Robinson, e para observar como os nove comensais comiam a sobremesa à qual ele mesmo parecia ter renunciado.

– Peço que me admitam nesta roda ilustre – dizia, apertando as mãos dos primos e abrangendo as demais pessoas numa única reverência. – Esse cervejeiro aí... para nem mencionar o aspecto desolador da senhora cervejeira... Mas esse Sr. Magnus acaba de fazer uma conferência etnopsicológica. Querem saber pormenores? “Nossa querida Alemanha é um grande quartel; não há dúvida. Mas ela encerra muita energia, e eu não trocaria as nossas sólidas virtudes pela cortesia dos outros. Que me adianta a cortesia, se me enganam pela frente e por trás?” E outras coisinhas nesse estilo, que simplesmente não aguento mais. Além disso, tenho à minha frente uma pobre criatura com rosas de cemitério nas faces, uma solteirona da Transilvânia, que não para de falar de seu “cunhado”, um homem do qual ninguém sabe nada nem quer saber. Numa palavra, não aguentei mais. Preferi bater em retirada. 
– Pois é, em debandada, o senhor se pôs a fugir – disse a Srª. Stöhr. – Posso imaginar. 
– Exatamente! – exclamou Settembrini. – Fugi! Estou vendo que aqui sopram outros ventos. Não há dúvida, cheguei a bom porto. Sim, senhora, em debandada... Ah, se todos soubessem cunhar frases assim!... Posso informar-me dos progressos da saúde da prezada senhora?

     Era horroroso observar a afetação da Srª. Stöhr. – Ah, meu Deus! – disse ela. – É sempre a mesma coisa; o senhor sabe muito bem. Damos dois passos para a frente e três para trás. Cada vez que a gente acaba de cumprir cinco meses da pena, vem o velho acrescentar mais meio ano. Ai de mim, são verdadeiros suplícios de Tântalo! Vai-se empurrando, empurrando, e quando se pensa que a pedra está em cima... 

– Ah, como a senhora é gentil! Concede a esse coitado do Tântalo uma pequena mudança de ocupação. Para variar, deixa-o rolar o famoso bloco de mármore. É o que se pode chamar de genuína bondade da alma... Bem, talvez me possa explicar uma coisa: passam-se histórias misteriosas em torno da senhora. Já ouvi falar de sósias, de corpos astrais, mas nunca acreditei nessas coisas. No entanto, o caso da senhora me faz duvidar... 
– Parece-me que o senhor quer se divertir à minha custa. 
– Nem um pouquinho. Não penso nisso. A senhora me tranqüilize, antes de mais nada, quanto a certas facetas obscuras da sua existência e logo poderemos pensar em diversões. Ontem à noite, entre as nove e meia e dez horas, saí ao jardim, para fazer um pouco de exercício. Meus olhos vagaram ao longo da fachada, e notei que a lampadazinha elétrica na sacada da senhora luzia através da escuridão. Concluí que a senhora estava observando o repouso, como ordenam o dever, a razão e o regulamento. “Ali jaz a nossa bela doente”, disse eu de mim para mim, “obedecendo fielmente às prescrições, para que possa o mais depressa possível voltar aos braços do Sr. Stöhr.” E, faz poucos minutos, que ouço? Que àquela mesma hora e senhora foi vista no cinematógrafo – o Sr. Settembrini pronunciava essa palavra à italiana, com o acento na quarta sílaba – no cinematógrafo da colunata do estabelecimento termal, e depois na confeitaria, com vinho doce e merengues, e dizem...  

     A Srª. Stöhr retorcia os ombros de tanto rir; afogava risinhos no guardanapo; dava cotoveladas em Joachim Ziemssen e no taciturno Dr. Blumenkohl; piscava um olho de modo entre astucioso e petulante, e demonstrava de todas as formas possíveis a mais idiota satisfação consigo própria. Para esquivar-se do controle, costumava colocar na sacada a lampadazinha acesa. Então fugia em busca de algumas distrações no bairro inglês. Enquanto isso, seu marido, em Cannstatt, estava à sua espera. Por outro lado, não era ela a única paciente que tinha esse hábito.

– ... e dizem – continuou Settembrini – que a senhora saboreava esses merengues em companhia... de quem? Em companhia do Capitão Miklosich, de Bucareste. Há quem afirme que ele usa espartilho, mas, meu Deus, que importância pode ter isto, no nosso caso? Por amor de Deus, madame, onde estava a senhora? É acaso capaz de se desdobrar? Sem dúvida, achava-se dormindo, e enquanto a parte terrestre da sua existência se entregava ao repouso solitário, a parte espiritual espairecia em companhia do Capitão Miklosich e de outras coisas doces... 

     A Srª. Stöhr requebrava-se e gesticulava como se alguém lhe fizesse cócegas.

– Não se sabe se convém desejar o contrário – acrescentou Settembrini –, quer dizer, que a senhora tivesse saboreado sozinha aquelas coisas doces e feito o repouso com a assistência do Capitão Miklosich... 
– Hi, hi, hi... 
– Conhecem os senhores a história de anteontem? – perguntou o italiano, sem transição. – Alguém foi raptado, levado pelo Diabo, ou mais precisamente pela senhora sua mãe, uma dama muito enérgica, que me agradou bastante. Trata-se do jovem Schneermann, Anton Schneermann, que tinha o seu lugar ali na mesa da Srta. Kleefeld. Como os senhores veem, está vazio. Será preenchido daqui a pouco; não me preocupo com esse problema. Mas Anton desapareceu nas asas da tempestade, num abrir e fechar de olhos e bem de repente. Achava-se aqui havia um ano e meio, com as suas dezesseis primaveras, e justamente agora acabavam de impor-lhe mais seis meses. E que aconteceu então? Não sei quem teria dado certas informações à Srª. Schneermann. Em todo caso, ela ficou sabendo das relações de seu filhinho com Baco etcceteris. Sem aviso prévio entra em cena uma matrona, três palmos mais alta do que eu, encanecida e furiosa. Administra, sem dizer nada, uma porção de bofetadas ao Sr. Anton, segura-o pelo pescoço e mete-o no trem. “Se ele deve ir a pique”, grita ela, “pode muito bem fazê-lo na planície.” E lá se vão...  

     Riram-se todos os que podiam ouvir o Sr. Settembrini, pois contara a história com muita graça. Manifestou-se que o italiano andava bem informado sobre as últimas notícias, ainda que considerasse com crítico sarcasmo a vida coletiva dali de cima. Estava a par de tudo. Conhecia os nomes e grande parte do passado dos recém-chegados. Relatou que ontem Fulano ou Fulana sofrerá uma ressecção de costelas. Sabia de fonte fidedigna que a partir do outono próximo já não seriam admitidos doentes que tivessem temperaturas acima de 38,5°. Segundo a sua afirmação, dera-se à noite passada o seguinte incidente: o cachorrinho da Srª. Kapatsoulias, de Mitilene, sentara-se sobre o botão do sinal luminoso no criado-mudo da sua dona. Desse fato haviam resultado muitas correrias e grande tumulto, tanto mais que a Srª. Kapatsoulias não fora encontrada sozinha, mas sim em companhia do assessor Düstmund, de Friedrichshagen. Nem sequer o Dr. Blumenkohl pôde deixar de sorrir ao escutar essa história. A bela Marusja esteve a ponto de se asfixiar com o seu lencinho perfumado de flor de laranjeira, e a Srª. Stöhr soltou uns gritos estridentes, comprimindo o seio esquerdo com ambas as mãos.
     Mas, aos dois primos, Lodovico Settembrini falava bem de si próprio e da sua origem, quer nos passeios, quer por ocasião das reuniões noturnas ou depois do almoço, quando a maioria dos pensionistas já saíra da sala e os três cavalheiros permaneciam ainda sentados por alguns instantes à extremidade da mesa, enquanto as criadas tiravam os pratos e Hans Castorp fumava o Maria Mancini, cujo sabor, no decorrer da terceira semana, tornara a agradar-lhe um pouco. Com atenção crítica e frequentemente com estranheza, embora disposto a aceitar a influência do italiano, escutava o jovem essas palavras que lhe abriam um mundo singular, completamente novo.
     Settembrini falava de seu avô, que fora advogado em Milão, mas antes de tudo grande patriota, uma mistura de agitador público, orador e publicista. Também ele pertencera à oposição, tal qual o neto, mas praticara a coisa num estilo mais elevado, mais audacioso. Ao passo que Lodovico, como ele mesmo observava com amargura, via-se reduzido a escarnecer a vida e a condição do pessoal do Sanatório Internacional Berghof, a castigá-las com críticas zombeteiras e protestar contra elas em nome de uma humanidade bela e cheia de atividade, dera o avô muito que fazer aos governos, conspirando contra a Áustria e a Santa Aliança, que naquela época haviam oprimido a sua despedaçada pátria, reduzindo-a a uma pesada servidão. Fora ele membro fervoroso de certas sociedades secretas, difundidas na Itália – um carbonário, como explicou Settembrini, abaixando de repente a voz, como se ainda fosse perigoso falar dessas coisas. Numa palavra, segundo os relatos do neto, afigurava-se esse Giuseppe Settembrini aos dois ouvintes como um indivíduo sombrio, apaixonado, insurgente, um rebelde e um conjurado. Não obstante o respeito que os primos, por motivos de cortesia, procuravam sentir, não conseguiram apagar por completo das suas feições uma expressão de antipatia desconfiada e até de repugnância. Verdade é que se tratava de um caso especial: o que ouviam passara-se numa época remota, fazia quase cem anos, pertencia à história, e do ensino de história, sobretudo da antiga, era-lhes teoricamente familiar a mentalidade em questão, o fenômeno do apego desesperado à liberdade e do ódio inflexível à tirania, se bem que nunca esperassem entrar em contato tão direto com esse espírito. Além disso houvera, como ficaram sabendo, na natureza revolucionária e conspiradora desse avô, um grande amor à pátria, que ele desejava ver livre e unida. Com efeito, a sua atividade sediciosa fora o fruto e a emanação desse sentimento respeitável, e por estranha que parecesse a cada um dos primos essa mistura de rebeldia e patriotismo – já que estavam acostumados a identificar o espírito patriótico com um senso de ordem conservador –, tinham de admitir, no seu íntimo, que, sob as circunstâncias especiais daquela época e daquele país, podia ter havido identidade entre insurreição e dever cívico, de um lado, e do outro entre comedimento leal e indiferença preguiçosa, quanto à causa pública.
     Mas o avô de Settembrini não fora somente um patriota italiano, senão também um concidadão e um irmão em armas de todos os povos sedentos de liberdade. Pois, após o malogro de certa tentativa de golpe de mão e de golpe de Estado, empreendida em Turim, e da qual ele participara com palavras e ações, escapando só por milagre aos esbirros do Príncipe Metternich, empregara seus anos de desterro a lutar e derramar seu sangue, ora na Espanha, em prol da Constituição, ora na Grécia, para a independência do povo helênico. Ali é que viera ao mundo o pai de Settembrini – talvez fosse por isso que ele chegara a ser um grande humanista e adorador da Antiguidade clássica. Nascera, aliás, de mãe de sangue alemão, pois Giuseppe casara-se com uma moça suíça e levara-a consigo em todas as suas andanças ulteriores. Mais tarde, depois de dez anos de exílio, pudera regressar à sua terra. Exercera em Milão a profissão de advogado, mas absolutamente não renunciara ao direito de concitar a nação pela palavra falada e escrita, em versos e em prosa, à liberdade e à instauração da república unida, de esboçar, com um brio passional e imperioso, programas revolucionários, e de proclamar, num estilo claro, a unificação dos povos libertados em prol da felicidade universal. Um pormenor mencionado por Settembrini, o neto, impressionou sobremaneira o jovem Hans Castorp: durante toda a sua vida, o avô Giuseppe mostrara-se aos seus compatriotas vestido de preto, alegando que usava luto pela Itália, sua pátria, que definhava na miséria e na escravidão. Ao ouvir isso, Hans Castorp voltou a fazer uma comparação que já fizera diversas vezes mentalmente: lembrou-se de seu próprio avô, que também, durante todo o tempo em que o neto o conhecera, sempre usara roupas pretas, mas com um espírito totalmente diferente do que animara esse outro avô; recordou os trajes fora de moda, mediante os quais a natureza genuína de Hans Lorenz Castorp, aquela que pertencia a uma época remota, se adaptara ao presente, a título provisório e com acentuação da antipatia que os tempos modernos lhe inspiravam, até o dia em que, no seu leito de morte, assumira solenemente a sua forma verdadeira e própria, com a golilha pregueada do tamanho de um prato. Havia deveras uma profunda diferença na maneira de ser dos dois avôs. Hans Castorp refletia sobre ela, enquanto o seu olhar se fixava no vazio, e meneava a cabeça de uma forma cautelosa que tanto podia significar um sinal de admiração por Giuseppe Settembrini quanto uma manifestação de surpresa e desgosto. Por outro lado, esforçava-se lealmente para não condenar o que lhe parecia estranho, procurando não ir além da comparação e do exame dos fatos. Diante dele, na sala, surgia o rosto comprido do velho Hans Lorenz, que, pensativo, se inclinava sobre a concavidade redonda, levemente dourada, da pia batismal, a relíquia da família na sua progressão imutável; e a boca do avô formara as sílabas “bis, tris, tetra”, esses sons surdos e piedosos que evocavam a lembrança de lugares onde as pessoas avançavam num andar reverente, cadenciado. E ao mesmo tempo via Hans Castorp como Giuseppe Settembrini, segurando a bandeira tricolor numa das mãos e brandindo um sabre na outra, erguia, num juramento sagrado, os olhos negros ao céu e se lançava à frente de um grupo de defensores da liberdade contra a falange do despotismo. Ambas essas atitudes tinham, sem dúvida, sua beleza e seu valor, pensava Hans Castorp, empenhando-se em ser justo, tanto mais que, pessoalmente, ou com parte do seu ser, se sentia um pouco parcial. Pois o avô de Settembrini combatera com o fim de obter direitos políticos, ao passo que a seu próprio avô ou, pelo menos, aos antepassados dele, haviam pertencido, originariamente, todos os direitos, e fora a canalha que os arrancara no decorrer de quatro séculos, por meio da violência e de chavões... Eis que um e outro tinham andado vestidos de preto, o avô do norte e o do sul, cada qual com o objetivo de interpor uma rigorosa distância entre si mesmo e o malvado presente. Mas um agira assim por piedade, em homenagem ao passado e à morte, para os quais pendia a sua natureza; o outro, ao contrário, por rebeldia, a fim de honrar um progresso inimigo da piedade. “Certamente, isto são dois mundos, dois pontos cardeais”, disse Hans Castorp de si para si, e enquanto o Sr. Settembrini prosseguia contando, o jovem viu-se, por assim dizer, colocado entre eles, lançando olhares examinadores ora a um ora a outro. Parecia-lhe então que uma coisa semelhante já lhe ocorrera antes. Recordou um solitário passeio de barca, ao crepúsculo, num lago de Holstein, passeio que fizera em fins de verão, alguns anos atrás. Fora perto das sete horas; o sol já se pusera e a lua quase cheia se elevara a leste, por cima das margens do lago cobertas de arbustos. E durante dez minutos, enquanto Hans Castorp sulcava, remando, as águas silenciosas, reinara uma constelação perturbadora, fantástica qual um sonho. A oeste resplandecera, como em pleno dia, uma luz vítrea, prosaica, decidida; mas bastara voltar a cabeça para deparar com uma paisagem de luar, igualmente típica, entremeada de brumas úmidas e cheia de mágico encanto, Esse contraste esquisito durara um quarto de hora, pouco mais ou menos, antes de se completar o triunfo da noite e da lua. Com um pasmo alegre, os olhos deslumbrados e confundidos de Hans Castorp haviam passado de uma iluminação e de uma paisagem à outra, do dia para a noite e da noite para o dia. E nesse instante, ao comparar os dois avôs, não pôde deixar de se lembrar daquela impressão.

continua pág 101...
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Leia também:

Capítulo I
A Chegada
Capítulo III
Capítulo IV
Temor nascente. Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo (b)
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.