segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Marcel Proust - No Caminho de Swann (IV - nomes de terras: o nome, E, ai de mim, proibiu - b)

em busca do tempo perdido


volume I
No Caminho de Swann

ao senhor gaston calmette
como um testemunho de profundo e afetuoso reconhecimento
— marcel proust

nomes de terras: o nome

IV(b) 

continuando...

     E, ai de mim, proibiu também de modo absoluto, que me deixassem ir ao teatro ouvir a Berma; a artista sublime, em quem Bergotte achava gênio, fazendo-me conhecer alguma coisa que era talvez tão importante e tão belo, ter-me-ia consolado de não haver ido a Florença e a Veneza, de não ir a Balbec. Deviam contentar-se em enviar-me todos os dias aos Campos Elísios, sob a vigilância de uma pessoa que me impedisse de fatigar-me, e que no caso foi Françoise, que entrara a nosso serviço desde a morte de tia Léonie. Isso de ir aos Campos Elísios foi-me uma coisa insuportável. Se ao menos Bergotte os tivesse descrito nalgum de seus livros, por certo eu desejaria conhecê-los, como todas as coisas cujo “duplo” tinham começado por introduzir-me na imaginação. Ela as aquecia, fazia-as viver, lhes dava uma personalidade, e eu desejava reencontrá-las no mundo real; mas, naquele jardim público, nada se ligava a meus sonhos.
     Um dia, como me aborrecesse em nosso costumeiro lugar junto ao carrossel, Françoise levara-me em excursão — além da fronteira que guardam a intervalos iguais os pequenos bastiões das vendedoras de balas — naquelas regiões vizinhas mas estrangeiras, onde as caras são desconhecidas, por onde passa o carro das cabras; depois voltara para apanhar as suas coisas da cadeira junto ao maciço de loureiros; enquanto ela não vinha, eu explorava o vasto campo definhado e raso, amarelecido pelo sol, e em cujo fundo há uma fonte dominada por uma estátua, quando, da alameda, dirigindo-se a uma menina de cabelos ruivos que jogava peteca diante da fonte, uma outra, que punha o chapéu e guardava a raqueta, gritou-lhe com voz breve: “Adeus, Gilberte, vou-me embora; não te esqueças de que esta noite iremos à tua casa depois do jantar”. Esse nome de Gilberte passou por mim, evocando tanto mais a existência daquela a quem designava, visto que não a nomeava apenas como a um ausente de quem se fala, mas interpelava-a; também passou por mim em ação, por assim dizer, com uma força acrescida pela curva da sua trajetória e a proximidade de seu objetivo — transportando consigo, eu o sentia, o conhecimento, as noções que tinha daquela a quem era dirigido não eu, mas a amiga que a chamava, tudo o que, enquanto o pronunciava, ela revia, ou pelo menos possuía na memória, da sua intimidade cotidiana, das visitas que trocavam, de todo aquele desconhecido ainda mais inacessível e doloroso para mim por ser tão familiar e manejável para aquela feliz criatura, que com ele me tocava sem que eu lhe pudesse penetrar e que o lançava em pleno ar, num grito —, deixando já flutuar no espaço a emanação deliciosa (que fizera desprender-se, tocando-os com precisão, de alguns pontos invisíveis da vida da filha de Swann), da próxima noite, tal como seria, após o jantar, em casa dela, formando, passageiro celeste no meio das crianças e das criadas, uma nuvenzinha de uma cor preciosa, igual à que, arqueada acima de um belo jardim de Poussin, reflete minuciosamente como uma nuvem de ópera, cheia de cavalos e de carros, alguma aparição da vida dos deuses — lançando enfim, sobre aquele gramado ralo, no sítio em que ele era ao mesmo tempo um trecho de relva crestada e um momento da tarde da ruiva jogadora de peteca (que não cessou de arremessá-la e apará-la até que a chamasse uma governanta de pluma azul no chapéu), uma pequena faixa maravilhosa e cor de heliotrópio, impalpável como um reflexo e superposta como um tapete, sobre o qual não me cansava de passear meus passos demorados, nostálgicos e profanadores, enquanto Françoise me gritava: “Vamos! Abotoe o casaco e raspemo-nos”, quando pela primeira vez notei com irritação que a sua linguagem era vulgar e ela não tinha — que tristeza! — pluma azul no chapéu.
     Ao menos voltaria ela aos Campos Elísios? No dia imediato não estava; mas a vi nos dias seguintes; rondava todo o tempo pelo local onde ela brincava com as amigas, de sorte que uma vez em que não tinham número suficiente para uma partida de barras, ela mandou perguntar se eu queria completar o seu bando, e desde então brinquei com Gilberte sempre que ela estava presente. Mas não era todos os dias: às vezes não podia vir por causa dos estudos, do catecismo, de uma merenda, de toda aquela vida separada da minha que por duas vezes, condensada no nome de Gilberte, sentira passar tão dolorosamente por mim, na ladeira de Combray e no gramado dos Campos Elísios. Naqueles dias, avisava de antemão que não a veriam; se era por causa dos estudos dizia: “Que maçada! Não poderei vir amanhã, vocês todos vão divertir-se sem mim”, com um ar pesaroso que me consolava um pouco; mas, por outro lado, se era convidada para alguma festa e eu, ignorando-o, lhe perguntava se não viria brincar, ela respondia: “Espero que não! Creio que mamãe me deixará ir à festa de minha amiga”. Pelo menos naqueles dias, eu sabia que não a veria, mas outras vezes sua mãe a levava de improviso a fazer compras, e no dia seguinte ela dizia: “Ah!, sim, saí com mamãe”, como uma coisa muito natural e que não fosse para alguém a maior desgraça possível. Havia também os dias de mau tempo, em que a sua governanta, que temia a chuva, não queria levá-la aos Campos Elísios.
     Assim, quando o céu se apresentava duvidoso, eu desde a manhã não cessava de interrogá-lo e levava em conta os mínimos detalhes. Se via a senhora que morava em frente pôr o seu chapéu junto à janela, dizia comigo: “Aquela senhora vai sair; portanto, está fazendo um tempo em que se pode sair; por que Gilberte não poderá fazer como essa senhora?”. Mas o tempo ensombrecia, dizia minha mãe que ainda podia melhorar, que bastava para isso um raio de sol, mas que mais provavelmente choveria; e se chovesse, para que ir aos Campos Elísios? Assim, depois do almoço, os meus olhares ansiosos não mais deixavam o céu incerto e nublado. Ele permanecia sombrio. Diante da janela a sacada era cinzenta. De súbito, sobre o seu tristonho pavimento de pedra, eu não via uma cor menos baça, mas sentia como que um esforço para uma cor menos baça, a pulsação de um raio hesitante que quisesse libertar a sua luz. Um instante após, a sacada estava pálida e luminosa como uma água matinal, e mil reflexos dos ferros de suas grades tinham vindo pousar ali. Um sopro de vento os dispersava, a pedra se ensombrecera de novo, mas, como que domesticados, eles voltavam; a pedra recomeçava imperceptivelmente a clarear e, por um desses crescendos contínuos como os que, em música, no fim de uma abertura, levam uma única nota até o fortíssimo supremo, fazendo-a passar rapidamente por todos os graus intermediários, eu a via alcançar esse ouro inalterável e fixo dos belos dias, sobre o qual as recortadas sombras dos lavores de ferro se destacavam em negro como uma vegetação caprichosa, como uma tenuidade no delineamento dos menores detalhes que parecia trair uma consciência aplicada, uma satisfação de artista, e com tal relevo, tal aveludado no repouso de suas massas sombrias e felizes que na verdade aqueles reflexos largos e folhudos que repousavam naquele lago de sol pareciam saber que eram penhores de calma e de ventura.
     Hera instantânea, flora parietária e fugitiva! A mais incolor, a mais triste, pensam muitos, das que podem trepar pelo muro ou decorar a janela; mas, para mim, de todas a mais cara, desde o dia em que aparecera em nosso balcão, como a própria sombra da presença de Gilberte, que já estava talvez nos Campos Elísios e, logo que eu chegasse, me diria: “Vamos começar em seguida o jogo de barras, você está do meu lado”; hera frágil, que um sopro arrebatava, mas também em relação tão íntima não com a estação, mas com o minuto; promessa da felicidade imediata que o dia nega ou concede, e portanto da felicidade imediata por excelência, a felicidade do amor; mais suave, mais quente sobre a pedra, do que o próprio musgo; tão vivaz que lhe basta um raio para nascer, fazendo brotar a alegria, mesmo no coração do inverno.
     E até nesses dias em que desaparece qualquer outra vegetação, em que o belo ouro verde que envolve o tronco das velhas árvores fica oculto sob a neve, quando esta parava, mas o tempo continuava muito sombrio para eu esperar que Gilberte saísse, eis que de súbito, fazendo minha mãe dizer: “Olha! Acaba de clarear; quem sabe se vocês não poderiam ir mesmo aos Campos Elísios”, o sol recém-surgido, sobre o manto de neve que cobria a sacada, entrelaçava fios de ouro e bordava reflexos negros. Naquele dia não encontrávamos ninguém, ou só alguma das meninas prestes a partir, que me afiançava que Gilberte não viria. As cadeiras, abandonadas pela assembleia majestosa mas friorenta das governantas, estavam vazias. Apenas, perto do gramado, achava-se sentada uma senhora de certa idade, que vinha por qualquer tempo que fizesse sempre trajada do mesmo modo magnífico e sombrio, e a quem naquela época, se o trato fosse possível, eu teria sacrificado as maiores vantagens de minha vida futura, só para travarmos relações pessoais. Pois Gilberte ia todos os dias cumprimentá-la; ela pedia a Gilberte notícias de “seu amor de mamãe”; e parecia-me que, se a conhecesse, eu seria para Gilberte alguém muito diferente, alguém que conhecia as relações de seus pais. Enquanto os netos brincavam mais além, ela lia os Débats, a que chamava “os meus velhos Débats”[1] e, por estilo aristocrático, dizia, referindo-se ao guarda ou à alugadora de cadeiras: “Meu velho amigo o guarda”, “a alugadora de cadeiras e eu, que somos velhas amigas”. Françoise sentia muito frio para poder ficar parada, e fomos até a ponte da Concórdia ver o Sena congelado, do qual todos e até as crianças se aproximavam sem medo como de uma imensa baleia encalhada e indefesa, que fossem esquartejar. Voltávamos aos Campos Elísios; eu me consumia de dor entre os imóveis cavalos de pau e o relvado todo branco, preso na rede negra dos caminhos que haviam limpado da neve e onde a estátua agora tinha na mão uma vara adicional de gelo que parecia explicar o seu gesto. Por sua vez a velha senhora dobrou os Débats, perguntou as horas a uma ama que passava e a quem agradeceu, dizendo-lhe: “É muito amável da sua parte”; depois, pedindo ao zelador que fosse dizer a seus netos que voltassem, que ela estava com frio, acrescentou: “Será muita bondade sua. Creia que me sinto confusa”. De súbito, o ar rasgou-se: entre o teatro de fantoches e o circo, no horizonte embelecido, sobre o céu entreaberto, eu acabava de avistar, como um signo fabuloso, a pluma azul de Mademoiselle. E Gilberte já vinha correndo em disparada na minha direção, radiante e afogueada, com seu gorro de peles, animada pelo frio, a demora e o desejo do jogo; um pouco antes de alcançar-me, deixou-se deslizar sobre o gelo e, ou para conservar melhor o equilíbrio, ou porque achasse mais gracioso, ou para afetar a atitude de uma patinadora, foi de braços abertos que avançou sorrindo, como se quisesse receber-me entre eles. “Bravo! Bravo! Isso é que está bem, isso é que eu diria, como vocês, que é chique, que é fibra, se não fosse de uma outra época, do Antigo Regime”, exclamou a velha dama, tomando a palavra em nome dos Campos Elísios silenciosos, para agradecer a Gilberte por ter vindo sem deixar-se intimidar com o tempo. “Você é como eu, fiel apesar de tudo aos nossos Campos Elísios; nós somos duas valentes. Se eu dissesse que gosto dos Campos Elísios, mesmo assim? Essa neve, você vai rir de mim, essa neve me faz pensar em arminho!” E a velha dama se pôs a rir.
     O primeiro daqueles dias — aos quais a neve, imagem das potências que podiam privar-me de ver Gilberte, dava a tristeza de um dia de separação e até o aspecto de um dia de partida, porque mudava a face e quase impedia a utilização do lugar habitual de nossos únicos encontros, agora transformado, todo envolto em capas — aquele dia, no entanto, fez progredir o meu amor, pois foi como um primeiro pesar que ela houvesse partilhado comigo. Do nosso bando, só havia nós dois, e ser assim o único que estava com ela constituía não só um começo de intimidade, mas também da sua parte — como se Gilberte tivesse vindo unicamente por minha causa por um tempo daqueles — tal coisa me parecia tão comovente como se, nos dias em que fosse convidada para uma festa, tivesse renunciado a ela para vir encontrar-me nos Campos Elísios; eu adquiria mais confiança na vitalidade e futuro de nosso afeto, que permanecia vivaz no meio do entorpecimento, da solidão e da ruína das coisas ambientes; e enquanto Gilberte me metia bolas de neve no pescoço, eu sorria com ternura à sua ideia de vir, que ao mesmo tempo me parecia um sinal de predileção, ao tolerar-me como companheiro de viagem naquele país hibernal e novo, e uma espécie de fidelidade que ela me guardava no meio da desgraça. Em breve, uma após outra, como pardais hesitantes, foram chegando as suas amigas, vultos escuros contra a neve branca. Começamos a brincar e, como aquele dia tão tristemente iniciado devia acabar em alegria, quando me aproximava, antes do jogo de barras, da amiga de voz breve que eu ouvira gritar por Gilberte no primeiro dia, ela me disse: “Não, não, é sabido que você gosta mais de jogar do lado de Gilberte, e além disso ela já lhe está fazendo sinais”. Chamava-me, com efeito, para que eu fosse para a pista de neve, para o seu campo, a que o sol, emprestando-lhe os reflexos róseos, o metálico desgaste dos brocados antigos, transformava no campo do lençol de ouro.[2]
     Aquele dia que eu tanto temera foi pelo contrário um dos poucos em que não me senti muito infeliz. 
     Pois, para mim, que só pensava em nunca passar um dia sem ver Gilberte (tanto que, uma vez que a minha avó ainda não tinha regressado à hora do jantar, não pude impedir-me de refletir que, se algum carro a tivesse esmagado, eu não poderia ir por algum tempo aos Campos Elísios; não se ama a ninguém mais quando se ama), não eram, contudo, nada felizes aqueles momentos em que me achava junto dela e que desde a véspera tão impacientemente esperara, pelos quais tremera, pelos quais teria sacrificado todo o resto; e eu bem o sabia, pois eram os únicos momentos de minha vida sobre os quais concentrava uma atenção meticulosa, encarniçada, que não descobria neles um átomo de prazer.
     Todo o tempo em que me achava longe de Gilberte, tinha necessidade de a ver, porque, procurando incessantemente representar-me a sua imagem, acabava por não mais consegui-lo e por não mais saber exatamente a que correspondia o meu amor. E depois, ela nunca me havia dito que me amava. Pelo contrário, dera muitas vezes a entender que tinha amigos que preferia a mim, que eu era um bom camarada com quem brincava de bom grado, embora muito distraído e pouco aplicado ao jogo; enfim, dera-me muitas vezes demonstrações de frieza que poderiam abalar minha crença de que eu era para ela um ser diferente dos outros, se tal crença se originasse num possível amor de Gilberte por mim e não, como acontecia, no meu amor por ela, com o que se tornava muito mais resistente, pois que isso a fazia depender da própria maneira como eu era obrigado, por uma necessidade interior, a pensar em Gilberte. Mas os sentimentos que por ela experimentava, eu próprio não lhes havia ainda declarado. É verdade que em todas as páginas de meus cadernos escrevia indefinidamente o seu nome e o seu endereço, mas, à vista daquelas vagas linhas que eu traçava sem que ela por isso pensasse em mim, que a faziam ocupar em redor de mim tanto espaço aparente sem que por isso ficasse mais ligada à minha vida, sentia-me desanimado, porque não me falavam de Gilberte, que nem sequer as veria, mas de meu próprio desejo, que pareciam apresentar-me como algo de puramente pessoal, de irreal, de fastidioso e de impotente. O mais urgente era que Gilberte e eu nos víssemos e pudéssemos fazer a confissão recíproca de nosso amor, que até esse momento não teria por assim dizer começado. As diversas razões que me tornavam tão impaciente de a ver seriam menos imperiosas, sem dúvida, para um homem maduro. Acontece mais tarde que, tornando-nos peritos no cultivo de nossos prazeres, nos contentemos com aquele que sentimos ao pensar numa mulher como eu pensava em Gilberte, sem nos inquietarmos por saber se essa imagem corresponde à realidade, e também com o prazer de amar sem ter necessidade da certeza de que ela nos ama; pode ainda suceder que renunciemos ao prazer de lhe confessar nossa inclinação por ela, a fim de manter mais vívida a inclinação que ela tem por nós, imitando esses jardineiros japoneses que, para obter uma flor mais bela, lhe sacrificam várias outras. Mas no tempo em que eu amava Gilberte, julgava ainda que o amor existia realmente fora de nós; que, permitindo, quando muito, que afastássemos os obstáculos, oferecia as suas venturas numa ordem à qual não se era livre de mudar coisa alguma; parecia-me que se eu, por conta própria, houvesse substituído a doçura da confissão pelo dissimulo da indiferença, ter-me-ia privado de uma das alegrias com que mais sonhara e também fabricado, à minha guisa, um amor fictício e sem valor, sem comunicação com o verdadeiro, renunciando assim a seguir-lhe os caminhos misteriosos e preexistentes.
     Mas quando chegava aos Campos Elísios — e logo iria confrontar meu amor, para lhe fazer as necessárias retificações, com a sua causa viva, independente de mim —, desde que me via na presença daquela Gilberte Swann com quem contara para refrescar as imagens que minha memória fatigada não mais encontrava, daquela Gilberte Swann com quem ontem brincara, e que um instinto cego acabava de fazer-me saudar e reconhecer, um instinto como esse que, na marcha, nos põe um pé diante do outro antes que tenhamos tempo de pensar, logo tudo se passava como se ela e a menina que era objeto de meus sonhos fossem duas criaturas diferentes. Por exemplo, se desde a véspera trazia eu na memória dois olhos vivos em faces cheias e brilhantes, o rosto de Gilberte me oferecia agora com insistência alguma coisa de que precisamente não me havia lembrado, certo afilamento do nariz que, associando-se instantaneamente a outros traços, tomava a importância desses caracteres que em história natural definem uma espécie, e transmutava-a numa menina do gênero das de focinho pontudo. Enquanto me dispunha a aproveitar aquele almejado instante para entregar-me, sobre a imagem de Gilberte que eu preparara antes de vir e que não encontrava mais em minha cabeça, à revisão que me permitiria, nas longas horas de solidão, ter certeza de que era mesmo Gilberte que eu recordava, de que era mesmo o meu amor por Gilberte que eu aumentava pouco a pouco como uma obra em composição, ela me jogava uma bola; e como o filósofo idealista cujo corpo se dá conta do mundo exterior em cuja realidade sua inteligência não acredita, o mesmo eu que me fizera cumprimentá-la antes de a ter identificado, apressava-se em fazer-me apanhar a bola que ela me passava (como se ela fosse uma camarada com quem viera jogar, e não uma alma irmã a quem viera reunir-me), fazia-me dizer-lhe por educação, até a hora da despedida, mil frases amáveis e insignificantes, impedindo-me assim de guardar o silêncio durante o qual poderia tocar na imagem urgente e extraviada ou de lhe dizer as palavras que imprimiriam a nosso amor o progresso decisivo e que eu sempre me via obrigado a adiar para a tarde seguinte. No entanto, ainda havia algum progresso. Um dia em que fôramos com Gilberte até a tenda de nossa vendedora, sempre muito amável conosco — pois era dela que o sr. Swann comprava o seu pão de especiarias, o qual consumia em grande quantidade, como regime, por sofrer de um eczema étnico e da prisão de ventre dos Profetas —, Gilberte mostrava-me, a rir, dois meninos que eram como o pequeno colorista e o pequeno naturalista dos livros infantis. Pois um não queria saber de um pirulito vermelho porque preferia o violeta, e o outro, com lágrimas nos olhos, recusava a ameixa que a criada queria comprar, porque, acabou por dizer num tom apaixonado: “Gosto mais da outra ameixa, porque tem um bicho!”. Comprei duas bolitas de um sou. E contemplava com admiração, luminosas e cativas numa vasilha isolada, as bolitas de ágata que me pareciam uma preciosidade, porque eram sorridentes e loiras como as raparigas e porque custavam cinquenta cêntimos cada uma. Gilberte, a quem davam muito mais dinheiro que a mim, perguntou-me qual delas eu achava mais bonita. Tinham a transparência e o matiz da vida. Não desejaria o sacrifício de nenhuma. Gostaria que ela pudesse comprá-las, libertá-las todas. No entanto, designei-lhe uma que tinha a cor de seus olhos. Gilberte a apanhou, procurou-lhe o raio dourado, acariciou-a, pagou o seu resgate, mas em seguida entregou-me a sua cativa, dizendo: “Tome, é sua, guarde-a como lembrança minha”.
     De outra feita, sempre preocupado com o desejo de ouvir a Berma numa peça clássica, perguntei-lhe se ela não possuía uma brochura em que Bergotte falava de Racine, e que já não se encontrava nas livrarias. Pediu-me que lhe lembrasse o título exato, e na mesma noite lhe dirigi um telegrama, escrevendo no envelope aquele nome de Gilberte Swann que tantas vezes traçara em meus cadernos. No dia seguinte ela me trouxe, num pacote atado com fitas cor de malva e selado a lacre branco, a brochura que mandara procurar. “Veja bem que é mesmo o que me pediu”, disse ela, tirando do regalo o telegrama que eu lhe mandara. Mas no endereço daquele pneumático — que ainda ontem não era nada mais que um bilhete expresso que eu lhe escrevera, e que, depois que um mensageiro o entregara ao porteiro de Gilberte e um criado o levara até seu quarto, se havia tornado essa coisa sem preço, um dos expressos que ela recebera naquele dia — tive dificuldade em reconhecer as linhas vagas e solitárias de minha letra sob os círculos impressos que lhe apusera o correio, sob as inscrições que acrescentara a lápis um dos carteiros, signos de realização efetiva, selos do mundo exterior, roxos anéis simbólicos da vida, que pela primeira vez vinham esposar, manter, reanimar, alegrar meu sonho.

________________

[1] O Journal des Débats politiques et littéraires foi fundado em 1789. Jornal republicano conservador, moderado e respeitável, ele se torna “republicano e liberal” em 1895 e desaparece em 1944. [n. e.]
[2] Referência ao Camp du Drap d’Or, lugar de um célebre encontro entre o rei francês Francisco I e o rei inglês Henrique III, que tentavam consolidar uma aliança contra Carlos V. Lembre-se que o tema dessa rivalidade está presente no primeiro parágrafo do livro. [n. e.]


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Massa e Poder - A Massa (Massas Festivas)

Elias Canetti


MASSAS FESTIVAS


     Uma quinta espécie de massa, eu a caracterizaria como a massa festiva. Num espaço limitado, tem-se uma grande variedade de coisas, e as muitas pessoas que se movem no interior dessa área determinada podem, todas elas, compartilhar do que ali está. Os produtos, quaisquer que sejam eles, são expostos em grandes montes. Uma centena de porcos jazem atados numa fileira. Montanhas de frutas são empilhadas. Preparada em portentosos recipientes, a bebida mais apreciada espera por seus degustadores. Disponível tem-se mais do que todos juntos seriam capazes de consumir, e, afim de consumi-lo, mais e mais pessoas vão chegando. Enquanto ainda houver algo, elas se servirão; é como se a coisa jamais tivesse um fim. Há mulheres em profusão para os homens, e homens em profusão para as mulheres. Nada nem ninguém os ameaça; nada os compele à fuga; a vida e o prazer estão assegurados por toda a duração da festa. Muitas proibições e separações estão suspensas; aproximações deveras incomuns são permitidas e favorecidas. Para o indivíduo, a atmosfera não é de descarga, mas de descontração. Inexiste uma meta que seja a mesma para todos e que todos tenham de alcançar em conjunto. A própria festa é a meta, e esta já se atingiu. A densidade é bastante grande; a igualdade, por sua vez, é em boa parte aquela do arbítrio e do prazer. As pessoas se movem não com as outras, mas por entre as outras. As coisas que ali jazem aos montes e das quais as pessoas se servem constituem parte essencial da densidade: são o seu cerne. Elas são reunidas primeiro, e somente então é que os homens reúnem-se em torno delas. Anos podem ser necessários até que tudo esteja ali, e as pessoas podem ter suportado uma longa privação em troca dessa breve fartura. Vivem, porém, voltadas para esse momento, e o produzem como uma meta deliberada. Pessoas que em geral raramente se veem são solenemente convidadas em grupos. A chegada dos diversos contingentes é vigorosamente marcada, intensificando aos saltos a alegria geral.
     Intervém nesse estado o sentimento de que, desfrutando conjuntamente dessa festa, está-se cuidando para que muitas outras ocorram no futuro. Por meio de danças rituais e representações dramáticas, recordam-se ocasiões anteriores de natureza semelhante. A tradição formada por estas está contida no presente da festa em curso. Quer as pessoas comemorem o promotor primordial dessas festas, o mítico causador de todas as maravilhas de que os homens se comprazem, os antepassados ou, como nas sociedades posteriores e mais frias, apenas os ricos donatários — seja como for, uma futura repetição de ocasiões semelhantes parece garantida. As festas chamam outras festas, e, graças à densidade de coisas e pessoas, a vida se multiplica.

continua página 95...
____________________

Leia também:

Massa e Poder - A Massa (Massa Aberta e Massa Fechada)
Massa e Poder - A Massa (Massas Festivas)
____________________


ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
_______________________

Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Marcel Proust - No Caminho de Swann (IV - nomes de terras: o nome, Dentre os quartos - a)

em busca do tempo perdido


volume I
No Caminho de Swann

ao senhor gaston calmette
como um testemunho de profundo e afetuoso reconhecimento
— marcel proust

nomes de terras: o nome

IV(a) 

     Dentre os quartos cuja imagem eu mais seguidamente evocava em minhas noites de insônia, nenhum se parecia menos com os quartos de Combray, polvilhados de uma atmosfera granulosa, polinizada, comestível e devota, do que o do Grande Hotel da Praia, em Balbec, cujas paredes esmaltadas continham, como as de uma piscina onde a água azuleja, um ar puro, azul e salino.[1] O tapeceiro bávaro encarregado do arranjo daquele hotel tinha variado a decoração das peças e, naquela que eu habitava, estendera ao longo de três paredes umas estantes baixas, com vidraças, nas quais, segundo o lugar que ocupavam, e por um efeito que ele não previra, vinha refletir-se tal ou tal parte do cenário mutável do mar, desenrolando assim um friso de claras marinhas, apenas interrompido pela armação de acaju. Tanto assim que toda a peça tinha o aspecto de um desses dormitórios modelos que se apresentam nas exposições de móveis modern style, ornados com obras de arte que se supõe alegrarão os olhos de quem ali dormir e cujos motivos são adequados ao local onde deve encontrar-se a habitação.
     Mas também nada se assemelhava menos ao Balbec real do que aquele com que eu tantas vezes sonhara, nos dias de tempestade, quando o vento era tão forte que Françoise, levando-me aos Campos Elísios, me recomendava não andasse muito perto das paredes para que não me caísse uma telha na cabeça e falava lamuriosamente dos grandes sinistros e naufrágios que vinham nos jornais. O meu maior desejo era ver uma tempestade no mar, não tanto como um belo espetáculo, mas como a revelação de um instante da verdadeira vida da natureza; ou antes, para mim só eram belos os espetáculos que eu sabia não terem sido artificialmente arranjados para me agradar, mas que eram necessários e imutáveis — a beleza das paisagens ou das grandes obras de arte. Apenas tinha curiosidade e avidez daquilo que julgava mais verdadeiro que o meu próprio ser, aquilo que tinha para mim o valor de me mostrar um pouco do pensamento de um grande gênio, ou da força ou graça da natureza, tal qual se manifesta quando entregue a si mesma sem intervenção humana. Assim como o lindo som de uma voz, isoladamente reproduzido pelo fonógrafo, não nos consolaria da perda de nossa mãe, uma tempestade mecanicamente imitada me deixaria tão indiferente como as fontes luminosas da Exposição.[2] Desejaria também, para que a tempestade fosse absolutamente verdadeira, que a própria costa fosse uma costa natural, e não um dique recentemente criado por alguma municipalidade. Aliás, a natureza, por todos os sentimentos que despertava em mim, me parecia o que havia de mais oposto às produções mecânicas dos homens. Quanto menos trazia a sua marca, mais espaço oferecia à expansão de minha alma. E sucedia que eu conservava o nome de Balbec, que nos citara Legrandin, como o de uma praia muito próxima daquelas “costas fúnebres, famosas por tantos naufrágios, envoltas durante seis meses do ano pela mortalha das brumas e a espuma das vagas”.[3]

“Ainda sentimos sob os pés”, dizia ele, “muito mais que no próprio Finisterra (e ainda mesmo que os hotéis ali se superponham agora, sem poder modificar a mais antiga ossatura da terra), ali sentimos o verdadeiro fim da terra francesa, europeia, da Terra antiga. E é o último acampamento de pescadores, semelhantes a todos os pescadores que viveram desde o começo do mundo, em face do reino eterno das névoas e das sombras”.

     Um dia, em Combray, quando eu falava diante do sr. Swann naquela praia de Balbec, a fim de saber dele se era o lugar mais adequado para assistir às tempestades mais violentas, ele respondeu: “Creio que conheço Balbec! A igreja de Balbec, dos séculos XII e XIII, ainda metade romana, é talvez a mais curiosa amostra do gótico normando, e tão singular… dir-se-ia arte persa”. E aqueles lugares que até então me haviam parecido natureza imemorial, ainda contemporânea dos grandes fenômenos geológicos — e tão fora da história humana como o Oceano ou a Ursa Maior, com aqueles selvagens pescadores, para quem, tanto como para as baleias, não existira Idade Média —, foi para mim um grande encanto vê-los entrar de súbito na série dos séculos, tendo conhecido a época romana, e saber que o trevo gótico viera nervurar aqueles rochedos selvagens na hora devida, como essas plantas franzinas mas vivazes que, ao chegar a primavera, quebram aqui e ali a neve polar. E se o gótico trazia àqueles lugares e àqueles homens certa fixação que lhes faltava eles também lhe conferiam outra em retorno. Eu procurava imaginar como tinham vivido aqueles pescadores, o tímido e insuspeitado ensaio de relações sociais que ali haviam tentado, durante a Idade Média, amontoados num ponto das costas do Inferno, ao pé dos penhascos da morte; e mais vivo me parecia o gótico, agora que, separado das cidades onde até então o imaginara, eu podia ver como, num caso particular, sobre selvagens rochedos, havia germinado e florescido num fino campanário. Levaram-me a ver reproduções das mais famosas estátuas de Balbec, os apóstolos de cabelo crespo e nariz curto, a Virgem do pórtico, e, de pura alegria, parava-me a respiração no peito quando eu pensava que poderia vê-los modelarem-se em relevo sobre o fundo da bruma eterna e salgada. Então, pelas noites tempestuosas e frescas de fevereiro, o vento — soprando em meu coração, a que não fazia estremecer menos que a lareira de meu quarto, o projeto de uma viagem a Balbec — mesclava em mim o desejo da arquitetura gótica como o de uma tempestade no mar.
     Desejaria tomar logo no dia seguinte o belo e generoso trem da uma e vinte e dois, cujo horário de partida eu não podia ler nos prospectos das companhias ferroviárias sem que o meu coração palpitasse: essa hora parecia abrir num ponto preciso da tarde uma saborosa incisão, um signo misterioso a partir do qual as horas desviadas, embora conduzissem à noite e à manhã seguintes, já não transcorreriam em Paris, mas sim numa das cidades por onde o trem passa e entre as quais ele nos permitia fazer uma escolha; pois parava em Bayeux, Coutances, Vitré, Questambert, Pontorson, Balbec, Lannion, Lamballe, Benodet, Pont-Aven, Quimperlé, e avançava magnificamente sobrecarregado de nomes que me oferecia e entre os quais eu não sabia qual escolher, na impossibilidade de sacrificar um só que fosse.[4] Mas, mesmo sem esperá-lo, poderia, vestindo-me às pressas, partir pelo noturno, se meus pais deixassem, e chegar a Balbec quando a madrugada se erguesse sobre o mar furioso, de cuja espuma arrebatada eu me iria refugiar na igreja de estilo persa. Mas a aproximação das férias da Páscoa, que meus pais me prometeram fazer passar uma vez no Norte da Itália, eis que a esses sonhos de tempestade, que inteiramente me haviam enchido a alma, só desejosa de não ver mais que vagas acorrendo de todos os pontos, cada vez mais alto, sobre a costa mais selvagem, perto de igrejas escarpadas e rugosas como rochedos, em cujas torres gritassem os pássaros marinhos, eis que de súbito, apagando-os, tirando-lhes todo encanto, excluindo-os porque lhe eram opostos e só poderiam enfraquecê-los, vinha substituí-los o sonho contrário da mais irisada primavera, não a primavera de Combray, ainda acremente picada de todas as agulhas da geada, mas aquela que já cobria de lírios e anêmonas os campos de Fiesola e ofuscava Florença com fundos de ouro como os de Fra Angelico.[5] Desde então, só me pareciam ter algum valor os raios de luz, os perfumes, as cores; pois a alternância das imagens produzira em mim uma mudança de face do desejo e — tão brusca como as que às vezes há em música — uma completa mudança de tom em minha sensibilidade. Depois acontecia que uma simples variação atmosférica rica bastasse para provocar em mim essa modulação sem que houvesse necessidade de aguardar o retorno de uma estação do ano. Pois muitas vezes encontramos perdido em uma delas um dia de outra estação, à qual nos transporta e cujos prazeres particulares nos evoca e faz desejar, e nos vem interromper os sonhos que formávamos, colocando, aquém ou além do seu lugar, no calendário interpolado da Felicidade, essa folha arrancada de um outro capítulo. Mas em breve, como esses fenômenos naturais de que só podemos tirar um proveito acidental e assaz minguado para a nossa saúde ou conforto até o dia em que a ciência deles se apodera e, produzindo-os à vontade, coloca em nossas mãos a possibilidade do seu aparecimento, enfim subtraído à tutela e capricho do acaso, assim a produção daqueles sonhos de Atlântico e de Itália deixou de estar unicamente submetida às mudanças das estações e do tempo. Para fazê-los renascer, bastava-me pronunciar estes nomes: Balbec, Veneza, Florença, no interior dos quais acabara por se acumular o desejo que me haviam inspirado os lugares que eles designavam. Mesmo na primavera, encontrar nalgum livro o nome de Balbec era o suficiente para me despertar o desejo das tempestades e do gótico normando; mesmo num dia de tempestade, o nome de Florença ou de Veneza me dava o desejo do sol, dos lírios, do palácio dos Doges e de Santa Maria das Flores.
     Mas se esses nomes absorveram para sempre a imagem que eu formava dessas cidades, assim o fizeram transformando-as e submetendo às suas próprias leis o seu reaparecimento em mim; tiveram por consequência tornar essa imagem mais bela, mas também mais diferente daquilo que as cidades da Normandia e da Toscana podiam ser na realidade, e agravar a futura decepção de minhas viagens com o incremento que davam às alegrias arbitrárias de minha imaginação. Exalçavam a ideia que eu fazia de certos lugares da Terra, tornando-os mais particulares e por conseguinte mais reais. Não imaginava então as cidades, as paisagens, os monumentos, como quadros mais ou menos agradáveis, recortados aqui e ali numa mesma matéria, mas cada um deles como um desconhecido, essencialmente diferente dos outros, por que minha alma ansiava e que lhe seria proveitoso conhecer. E quanto não adquiriam de mais individual ainda, por serem designados por nomes, nomes que eram só para eles, nomes como os têm as pessoas! O que as palavras nos apresentam das coisas é uma imagem clara e usual como essas que se dependuram nas paredes das escolas para dar às crianças o exemplo do que é um banco, um pássaro, um formigueiro, coisas tidas como semelhantes a todas as do mesmo gênero. Mas os nomes apresentam das pessoas — e das cidades que nos habituam a julgar individuais e únicas como pessoas — uma imagem confusa que extrai deles, da sua sonoridade deslumbrante ou sombria, a cor com que vem uniformemente pintada, como nesses cartazes, inteiramente azuis ou inteiramente vermelhos, em que, devido aos limites do processo empregado ou a um capricho do cenógrafo, são azuis ou vermelhos, não somente o céu e o mar, mas os barcos, a igreja, os transeuntes. Como o nome de Parma, uma das cidades aonde eu mais desejava ir desde que lera La Chartreuse, me aparecia compacto, liso, malva e suave, quando me falavam de uma casa qualquer de Parma onde eu seria hospedado, davam-me o prazer de pensar que habitaria uma casa lisa, compacta, malva e suave, que nada tinha de comum com as moradias de nenhuma cidade da Itália, pois a imaginava somente com o auxílio dessa pesada sílaba do nome de Parma, onde não circula nenhum ar, e de tudo o que eu lhe fizera absorver de doçura stendhaliana e do reflexo das violetas. E quando pensava em Florença, era como numa cidade miraculosamente perfumada e semelhante a uma corola, porque se chamava a cidade dos lírios, e sua catedral, Santa Maria das Flores. Quanto a Balbec, era um desses nomes em que ainda se viam pintar, como sobre uma velha cerâmica normanda que conserva a cor da terra de que foi tirada, a representação de algum costume abolido, algum direito feudal, o antigo aspecto de um lugar, uma pronúncia obsoleta, causada por suas sílabas heteróclitas e que eu não duvidava encontrar até no estalajadeiro que me serviria café com leite à minha chegada e me levaria a ver o mar encapelado à frente da igreja e a quem eu emprestava o aspecto disputador, solene e medieval de uma personagem de fabliau.
     Se minha saúde se firmasse e meus pais me permitissem, se não uma estada em Balbec, ao menos, a fim de conhecer a arquitetura e as paisagens da Normandia ou da Bretanha, que tomasse uma vez aquele trem da uma e vinte e dois, no qual tantas vezes já embarcara em imaginação, eu desejaria de preferência parar nas cidades mais belas; mas, por mais que as comparasse, como escolher, tal como entre indivíduos que nos é impossível trocar um por outro, como escolher entre Bayeux, tão alta nas suas nobres rendas de tom vermelho e cujo cimo era iluminado pelo ouro velho da sua última sílaba; Vitré, cujo acento agudo losangava de madeira negra a antiga vidraria; a suave Lamballe, que, no seu branco, vai do amarelo casca de ovo ao gris-pérola; Coutances, catedral normanda, a que o ditongo final, gorduroso e amarelo, coroava de uma torre de manteiga; Lannion, com o rumor, em seu silêncio aldeão, do coche seguido pela mosca; Questambert, Pontorson, risíveis e ingênuas, penas brancas e bicos amarelos espalhados pela estrada daqueles lugares fluviais e poéticos; Benodet, nome quase sem amarras, que o rio parece querer arrastar para o meio de suas algas; Pont-Aven, voo branco e róseo da asa de uma leve touca que tremulamente se reflete numa água esverdinhada de canal; Quimperlé, este mais preso, e desde a Idade Média, entre os arroios com que murmura e se emperla numa grisalha igual à que desenham, através das teias de aranha de um vitral, os raios de sol transformados em desgastadas pontas de prata brunida?
     Essas imagens eram falsas ainda por outro motivo; é que eram forçosamente muito simplificadas; sem dúvida, aquilo a que minha imaginação aspirava e que meus sentidos só percebiam no presente de modo incompleto e sem prazer nenhum, eu o havia encerrado no refúgio dos nomes; e como eu ali acumulara sonho, esses nomes imantavam agora os meus desejos; mas os nomes não são muito vastos; quando muito, podia introduzir neles duas ou três das “curiosidades” principais da cidade, onde elas se justapunham sem nada de permeio; no nome de Balbec, como no vidro de aumento das canetas que a gente compra de lembrança nas praias, eu percebia vagas alvorotadas em torno de uma igreja de estilo persa. Pode ser até que a simplificação dessas imagens fosse uma das causas do domínio que tomaram sobre mim. Quando meu pai resolveu, um ano, que fôssemos passar as férias da Páscoa em Florença e em Veneza, não tendo como fazer entrar no nome de Florença os elementos que habitualmente compõem as cidades, fui obrigado a tirar uma cidade sobrenatural da fecundação, por certos aromas primaveris, do que eu supunha constituir, em essência, o gênio de Giotto. Em suma — e visto que não se pode fazer com que caiba em um nome muito mais duração que espaço —, como em certos quadros de Giotto que apresentam em dois momentos diversos da ação uma mesma personagem, aqui deitada no leito, ali preparando-se para montar a cavalo, o nome de Florença achava-se dividido em dois compartimentos. Num deles, sob um dossel arquitetônico, eu contemplava um afresco a que estava parcialmente superposta uma faixa de sol matinal, poeirenta, oblíqua e progressiva; no outro (pois não considerando os nomes como um ideal inacessível e sim como uma ambiência real em que iria mergulhar, a vida ainda não vivida, a vida intata e pura que eu neles encerrava dava aos prazeres mais materiais, às cenas mais simples, essa atração que têm nas obras dos primitivos) atravessava eu rapidamente — para acorrer mais depressa ao almoço que me esperava com frutas e vinho de Chianti, a Ponte Vecchio entulhada de junquilhos, narcisos e anêmonas. Era isso (embora me achasse em Paris) o que eu via, e não o que estava em redor de mim. Mesmo sob um simples ponto de vista realista, as terras que desejamos ocupam a cada momento muito mais espaço em nossa vida verdadeira do que a terra onde efetivamente nos achamos. Se eu mesmo tivesse prestado mais atenção, naquela época, ao que havia em meu pensamento quando pronunciava as palavras “ir a Florença, a Parma, a Pisa, a Veneza”, por certo me daria conta de que aquilo que eu via não era absolutamente uma cidade, mas alguma coisa de tão diferente de tudo quanto conhecia, de tão delicioso, como o poderia ser para uma humanidade cuja vida sempre houvesse decorrido em fins de tardes de inverno esta maravilha desconhecida: uma manhã de primavera. Aquelas imagens irreais, fixas, sempre iguais, enchendo-me as noites e os dias, diferenciaram aquela época de minha vida das que a precederam (e que poderiam confundir-se com ela aos olhos de um observador que só vê as coisas de fora, isto é, que não vê nada), como um motivo melódico introduz numa ópera uma novidade que a gente não poderia suspeitar se se limitasse a ler o libreto, e menos ainda se ficasse fora do teatro a contar os quartos de hora que passavam. E ainda, mesmo do ponto de vista puramente quantitativo, em nossa vida os dias não são iguais. Para percorrer os dias, as naturezas um pouco nervosas, como era a minha, dispõem, como os automóveis, de “velocidades” diferentes. Há dias montuosos e difíceis, que se leva um tempo infinito a subir, e dias em declive, que se deixam descer num ímpeto, cantando. Durante aquele mês — em que eu repassava como uma melodia, sem poder saciar-me, aquelas imagens de Florença, de Veneza e de Pisa, e em que o desejo que despertavam em mim tinha alguma coisa de tão profundamente individual como se se tratasse de um amor, um amor por uma pessoa — não deixei de acreditar que correspondiam a uma realidade independente de mim, e deram-me a conhecer uma esperança tão bela como a que poderia alimentar um cristão dos primeiros tempos na véspera de entrar no paraíso. Assim, sem me importar com a contradição que havia em querer olhar e tocar, com os órgãos dos sentidos, o que fora elaborado pelo sonho e não percebido por eles — e tanto mais tentador para os sentidos por ser diferente de tudo o que eles conheciam —, era isso mesmo que me lembrava a realidade daquelas imagens e que mais me inflamava o desejo, porque era como uma promessa que seria cumprida. E embora a minha exaltação tivesse por motivo um desejo de gozo artístico, os guias o alimentavam ainda mais que os livros de estética e, mais que os guias, os indicadores das estradas de ferro. O que me comovia era pensar que aquela Florença que eu via próxima mas inacessível, em minha imaginação, se o trajeto que a separava de mim, em mim mesmo, não era viável, eu poderia atingi-la por um atalho, por um desvio, tomando o “caminho de terra”. Por certo, quando me repetia, dando assim tanto valor ao que ia ver, que Veneza era “a escola de Giorgione, a morada de Ticiano, o mais completo museu de arquitetura doméstica da Idade Média”,[6] sentia-me feliz. Era-o no entanto ainda mais quando, saindo para uma caminhada, e andando depressa por causa do tempo que, depois de alguns dias de primavera, se tornara de novo um tempo de inverno (como o que encontrávamos habitualmente em Combray na Semana Santa) — ao ver nos bulevares os castanheiros que, mergulhados num ar glacial e líquido como água, nem por isso deixavam, convidados pontuais, já preparados, a quem nada desanima, de ir arredondando e cinzelando em seus blocos congelados a irresistível verdura cujo progressivo ímpeto o poder abortivo do frio contrariava mas não conseguia refrear —, eu pensava que já a Ponte Vecchio estava juncada de jacintos e anêmonas e que o sol da primavera já tingia as ondas do Grande Canal de um azul tão sombrio e tão nobres esmeraldas que, vindo quebrar-se ao pé das pinturas de Ticiano, podiam com elas rivalizar em riqueza de colorido. Não mais pude conter a alegria quando meu pai, consultando o barômetro e deplorando o frio, começou a procurar quais seriam os melhores trens, e quando compreendi que, penetrando após o almoço no laboratório fumoso, na sala mágica que se encarregava de operar a transmutação em redor de si, poderia a gente acordar no dia seguinte na cidade de mármore e ouro “recamada de jaspe e calçada de esmeraldas”.[7] Assim, ela e a cidade dos lírios não eram apenas quadros fictícios que a gente pusesse à vontade diante da imaginação, mas existiam a certa distância de Paris que urgia absolutamente franquear se quiséssemos vê-las, em certo lugar determinado da terra, e em nenhum outro, numa palavra, eram bem reais. E ainda mais reais se tornaram para mim quando meu pai, ao dizer-nos: “Em suma, podem ficar em Veneza de 20 a 29 de abril e chegar a Florença na manhã de Páscoa”, fê-las sair a ambas, não só do Espaço abstrato, mas desse tempo imaginário onde situamos não uma única viagem de cada vez, mas outras, simultâneas e sem grande emoção, por serem apenas possíveis — esse Tempo que tão bem se refabrica que o podemos passar numa cidade depois de o ter passado em outra — e consagrou a elas esses dias particulares que são o significado de autenticidade dos objetos nos quais os empregamos, pois esses dias únicos se gastam com o uso, já não podemos vivê-los aqui depois de os ter vivido acolá; senti que era para a semana a iniciar-se na segunda em que a lavadeira devia trazer o colete branco que eu manchara de tinta, que se dirigiam, a fim de ali se absorverem, ao sair do tempo ideal onde ainda não existiam, aquelas duas Cidades Rainhas cujos domos e torres eu ia inscrever, na mais emocionante das geometrias, dentro do plano da minha própria vida. Mas ainda me achava a caminho do auge da alegria; atingi-o afinal (pois só nesse momento tive a revelação de que, pelas ruas marulhosas, avermelhadas pelo reflexo dos afrescos de Giorgione, não eram, como eu continuara a imaginar apesar de tantas advertências, os homens majestosos e terríveis como o mar, trazendo, sob as dobras do manto sangrento, a sua armadura de reflexos de bronze” que passeariam em Veneza na semana próxima, às vésperas da Páscoa, mas de que poderia ser eu a minúscula personagem que, numa grande reprodução de São Marcos que me haviam emprestado, o ilustrador representara de chapéu-coco, diante dos pórticos), quando ouvi meu pai dizer-me: “Ainda deve fazer frio no Grande Canal; farias bem em pôr na mala, para o que der e vier, o teu sobretudo e o teu casaco grosso”. A estas palavras, elevei-me a uma espécie de êxtase; e, o que até então julgara impossível, senti que verdadeiramente penetrava entre aqueles “rochedos de ametista semelhantes a um recife do mar das Índias”; numa ginástica suprema e acima de minhas forças, despindo-me, como de uma carapaça sem utilidade, do ar de meu quarto que me cercava, substituí-o por partes iguais de ar veneziano, aquela atmosfera marinha, indizível e particular como a dos sonhos que minha imaginação encerrara no nome de Veneza; senti operar-se em mim uma miraculosa desencarnação; veio juntar-se-lhe em seguida essa vaga ânsia de vômito que se sente ao apanhar uma forte dor de garganta, e tiveram de meter-me no leito com uma febre tão tenaz, que o doutor declarou que era preciso renunciar, não só a deixar-me partir agora para Florença e Veneza, mas, mesmo quando estivesse inteiramente restabelecido, evitar-me, pelo menos durante um ano, qualquer projeto de viagem e qualquer causa de agitação.
 
continua na página 255...
________________

Leia também:

Volume 1
No Caminho de Swann (IV - nomes de terras: o nome, Dentre os quartos - a)
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7
___________________

[1] A menção à futura viagem à praia de Balbec, presente nos diálogos do pai do herói com Legrandin em “Combray”, aparece aqui sob a forma da antecipação do quarto que muito mais tarde o herói encontrará naquele hotel. [n. e.]
[2] Referência às fontes instaladas no Campo de Marte por Bechmann para a Exposição Universal de Paris, no ano de 1889. [n. e.]
[3] Citação quase literal das palavras de Legrandin, retomando uma referência do livro Pierre Nozière, de Anatole France, e do livro Souvenirs d’enfance et de jeunesse, de Renan. [n. e.]
[4] A enumeração de nomes de cidades da região da Normandia e da Bretanha contém o nome “Balbec”, cidade fictícia a que o herói vai ainda duas vezes. Além disso, nenhuma linha de trem conseguiria passar pela sequência de todas as cidades enumeradas. [n. e.] 
[5] Guido di Fra Angelico (1400?-55), célebre por seus “fundos de ouro”, decorou o convento de San Marco, em Florença. [n. e.] 
[6] Citação quase literal de passagens dos livros Modern painters e Stones of Venice, do crítico inglês John Ruskin. Este último, traduzido para o francês por Mathilde Crémieux, recebeu resenha feita por Proust. [n. e.]
[7] Novo empréstimo a Ruskin, em Stones of Venice. A passagem está semeada de referências à obra daquele que mobilizou grande parte do interesse artístico de Proust sobre arquitetura e pintura e de quem ele traduziu e publicou duas obras em parceria com sua mãe e com sua amiga Marie Nordingler. [n. e.]

Victor Hugo - Os Miseráveis: Cosette, Livro Primeiro - Waterloo / XVII — Deve achar-se que Waterloo foi bom?

Victor Hugo - Os Miseráveis


Segunda Parte - Cosette

Livro Primeiro — Waterloo

XVII Deve achar-se que Waterloo foi bom?
     
     Existe uma escola liberal assaz respeitável que não odeia Waterloo. Não pertencemos a ela. Para nós, Waterloo não é mais do que a data estupefata da liberdade. Que uma tal águia saia de semelhante ovo, é, sem dúvida, uma coisa imprevista.     
     Waterloo, examinando-se do ponto culminante da questão, é intencionalmente uma vitória contra-revolucionária. É a Europa contra a França, Petersburgo, Berlim e Viena contra Paris. Paris, é o statu quo contra a iniciativa, é o 14 de Julho de 1789, atacado através de 20 de Março de 1815, é o «toca a postos» das monarquias contra a indomável sublevação francesa. Aniquilar, enfim, este grande povo, cuja erupção durava havia vinte e seis anos, era o grande sonho Solidariedade dos Brunswick, dos Nassau, dos Romanoff, Hohenzollern e Habsburgs com os Bourbons.
     Waterloo conduz pela mão o direito divino. É verdade que tendo o império sido despótico, devia a realeza, pela reação das coisas, ser forçosamente liberal, e que Waterloo, ainda que contra a vontade e com grande pesar dos vencedores, saiu uma ordem de coisas constitucional. É que a revolução não pode ser verdadeiramente vencida e que, sendo providencial e absolutamente fatal, reaparece sempre, antes de Waterloo, em Bonaparte derrubando os velhos tronos, depois de Waterloo, em Luís XVIII, outorgando e sofrendo a carta. Bonaparte põe um postilhão sobre o trono de Nápoles e um sargento sobre o da Suécia, querendo provar a igualdade. Luís XVIII, em Saint Ouen, assina em contrário a declaração dos direitos do homem. Quereis explicar-vos o que é a revolução, chamai-lhe progresso; quereis saber o que é o progresso, chamai-lhe Amanhã. Amanhã leva irresistivelmente a cabo a obra começada hoje. É extraordinário, mas nunca deixa de chegar ao seu fim. Emprega Wellington em fazer de Foy, que não era mais do que um soldado, um orador Foy cai em Hougomout e ergue-se na tribuna. É assim que procede o progresso. Para um tal operário não há ferramenta má. Adapta ao seu trabalho divino, sem se perturbar, o homem, que galgou os Alpes, e o bom velho e doente Eliseu. Serve-se tanto do gotoso como do conquistador; deste no exterior, do primeiro no interior.
     Waterloo, obstando por uma vez a demolição dos tronos europeus pela espada, não teve por efeito senão continuar o trabalho revolucionário por outro lado. Os acutiladores acabaram: chegou a vez aos pensadores. O século que Waterloo pretendia fazer parar, passou-lhe por cima e continuou o seu caminho. Esta sinistra vitória foi vencida pela liberdade. 
     Em suma, e incontestavelmente, o que triunfava em Waterloo, o que se sorria por trás de Wellington, o que lhe dava todos os bastões de marechal da Europa, compreendendo, segundo dizem, o marechal de França, o que fazia rolar alegremente as carretas de terra cheias de ossadas para elevar o cabeço do leão, o que triunfantemente escrevia sobre o pedestal a data: 18 de Junho de 1815, o que animava Blucher a acutilar a derrota, o que do alto da planície de Mont-Saint-Jean se debruçava sobre a França como sobre uma presa, era a contrarrevolução.
     Era a contrarrevolução que murmurava a infame palavra: desmoronamento. 
     Chegada a Paris viu a cratera de perto, sentiu que a cinza lhe queimava os pés e modificou-se. Segurou-se, balbuciando uma Carta. 
     Não vejamos em Waterloo senão o que ele foi. De liberdade intencional, nada. A contrarrevolução era involuntariamente liberal, do mesmo modo que, por um fenômeno correspondente, Napoleão era revolucionário. O dia 18 de Junho de 1815 apeou Robespierre do cavalo em que montava.

continua na página 269...
______________

Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
_________________________


Segunda Parte
Os Miseráveis: Cosette, Livro Primeiro - XVII — Deve achar-se que Waterloo foi bom?
_______________________
 
Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

Dostoiévski - O Idiota: Segunda Parte (9b) - Estava em uma terrível excitação

O Idiota


Fiódor Dostoiévski

Tradução portuguesa por José Geraldo Vieira

Segunda Parte

9.

continuando

     Estava em uma terrível excitação. Atirou a cabeça para trás. ameaçadoramente e, com os olhos em chama, e um ar ativo e feroz desafio, encarou um por um, já não podendo distinguir amigos de inimigos. Atingira aquele auge de ódio longamente contido mas por fim irreprimível em que a avidez pelo conflito imediato e pelo ataque súbito cria, em dada pessoa, o impulso que tudo comanda. Aqueles que conheciam a Sra. Epantchiná logo sentiram que lhe sobreviera algo fora do comum. Iván Fiódorovitch disse no dia seguinte ao Príncipe Chtch...: “Ela tem desses ataques de vez em quando, mas acessos como o de ontem jamais lhe vêm a não ser de três em três anos. No máximo!” - acrescentou enfaticamente. - Chega, Iván Fiódorovitch. Deixa-me sozinha - gritou Lizavéta Prokófievna. - Tira esse braço daí, não me ofereças o braço. Ou achas que me vais conduzir para fora? És o marido, o chefe da família, mas só me pegarias pela orelha e me levarias lá para fora se eu fosse néscia demais para te obedecer e seguir. Devias mais é pensar em tuas filhas, isso sim! Agora já sabemos o caminho sem ti. Tive vergonha suficiente para me conter um ano. Espera, não vês que tenho de agradecer ao príncipe? Muito obrigada, príncipe, pelo divertimento. Permaneci de propósito para ouvir o que esses rapazes diziam. E é uma desgraça! Uma desgraça! Que caos, que infâmia! Pior do que um sonho. Há muita gente como eles? É? Fique quieta, Agláia! Deixe-me, Aleksándra, vocês não têm nada com isto! Saia da minha frente, Evguénii Pávlovitch, não me incomode!... Então, meu caro, você lhe está pedindo desculpas? - dirigia-se agora a Míchkin. - “A culpa foi minha”, diz ele, “de ousar vos oferecer uma fortuna...” E, escute aqui, de que é que você se está rindo aí, seu fanfarrão? - apontava para o sobrinho de Liébediev. - “Nós recusamos a fortuna”, diz o outro. “Nós exigimos, não pedimos!” Como se não soubessem que amanhã este idiota se porá de rastros para lhes oferecer sua amizade e seu dinheiro, outra vez. É, ou não é, você aí?

- É, sim, senhora! - disse o príncipe, com voz tênue e humilde.
- Ouviram? Vocês já contavam com isso! - e voltada para Doktorénko: - É o mesmo que o dinheiro já estar no bolso de vocês! E aí está por que vocês tentam impressionar-nos... Não, meu rico tipo, não me venha com manhas, eu o conheço... estou vendo o seu jogo... 
- Lizavéta Prokófievna! - exclamou o príncipe.
- Vamos embora, Lizavéta Prokófievna, já é tempo de nos irmos, e levemos o príncipe conosco - disse o Príncipe Chtch... procurando sorrir, para aparentar calma.
 
     As moças estavam de pé, ao lado, meio espantadas; o General Epantchín permanecia boquiaberto; os demais presentes, admirados. Os que se achavam mais para o lado de fora cochichavam entre si, sorrindo às escondidas. A cara de Liébediev estava estarrecida, em uma expressão de perfeito êxtase.

- Caos e infâmia podem ser encontrados em qualquer lugar, senhora! - disse o sobrinho de Liébediev, nem com isso perdendo o embaraço em que estava. 
- Ruim, assim, não! Ruim assim, como entre os senhores, não, caro senhor - retorquiu Lizavéta Prokófievna em um ar de vingança histérica. - Larguem-me! - gritava para os que tentavam persuadi-la - Ora, pois não disse você ainda agora, Evguénii Pávlovitch, que até um advogado, no tribunal, declarara ser muito natural que um pobre sangre seis pessoas? Isso significa o fim de tudo; nunca ouvi tamanha coisa. Está tudo mais do que claro agora! E este sujeito gago, quem não vê que mataria qualquer um? (e apontava para Burdóvskii, que a ficou fitando atarantadamente). Estou pronta a apostar que ele matará alguém! Talvez, de fato, não aceite o seu dinheiro, talvez não queira os seus dez mil rublos, talvez não o aceite por causa da consciência; mas irá à noite matar você e tirar o dinheiro do cofre; e fará isso por causa da consciência. Então não será desonestidade, para ele. Será apenas uma erupção de “nobre indignação”, será um “protesto”, ou Deus sabe o quê... Arre! Tudo está de pernas para o ar, tudo está de cambalhotas! Uma rapariga cresce em casa e repentinamente, no meio da rua, se mete em um fiacre, dizendo: “Mamãezinha, no outro dia me casei com um tal Kárlitch, ou Ivánitch, adeusinho!” E está direito, um comportamento desta ordem, respondam?! É natural, demonstra respeito? A questão “mulher”? Este fedelho - apontou para Kólia - ainda no outro dia estava argumentando sobre o significado da questão “mulher”. Mesmo que a mãe seja maluca, qualquer de vocês tem de se comportar como um ser humano, perante ela. Por que chegar a casa com a cabeça no ar? “Abra caminho, não vê que estou entrando? Restitua-nos os nossos direitos e não dê um pio sequer! Preste-nos toda espécie de respeito, como até aqui nunca nos foi prestado e nós a trataremos pior do que ao mais ínfimo lacaio”. Exigem justiça, repisam em seus direitos, e ainda o caluniam como pérfidos no artigo de um jornaleco. “Exigimos, não pedimos e não lhe dispensaremos gratidão porque o senhor está agindo em satisfação à própria consciência!” Isso é raciocínio de gente? Pois bem, se vocês lhe não demonstram gratidão, o príncipe lhes pode responder que também não a dispensa a Pavlíchtchev, porque Pavlíchtchev também agiu direito em satisfação à sua consciência. E vocês bem sabem que estão contando justamente com a gratidão dele por Pavlíchtchev! Ele não lhes pediu dinheiro emprestado, não lhes deve nada; com que é então que vocês estão contando, senão com a sua gratidão? E como é então que vocês repudiam isso? Lunáticos Encaram a sociedade como selvagem e inumana, porque ela expõe a donzela seduzida à vergonha; mas se vocês cuidam que a sociedade é inumana, devem vocês também pensar que a pobre moça sofre pela censura da sociedade! E, se assim é, por que a expõem vocês à sociedade, através dos jornais, e acham que ela não deva sofrer? Lunáticos! Ordinários! Não acreditam em Deus, não creem em Cristo! Ora, vocês, estão tão comidos pelo orgulho e pela vaidade que acabarão se entredevorando, eis o que desde já lhes profetizo. Não é isso caos, infâmia e pandemônio! E depois de tudo ainda esta desventurada criatura precisa lhes ir pedir perdão, também! Há mais gente como vocês? E de que é que se estão rindo? De eu não ter me sabido conter e explodir contra vocês? Sim, explodi sim, e agora não há outro jeito! Que é que está arreganhando os dentes, você aí, seu “limpa-chaminés”? - apontou para Ippolít. - Está quase a botar a alma pela boca e ainda tenta corromper os outros! Foi você quem pôs a perder este fedelho aqui - apontava para Kólia - que não faz outra coisa senão besteiras por sua causa; você lhe prega ateísmo, você que não crê em Deus, você que não está ainda assim tão velho para uma surra! Você não se enxerga? Então, vai procurá-los, amanhã, Príncipe Liév Nikoláievitch? - perguntou ela, de novo, ao príncipe, com a respiração suspensa.
-Vou. 
- Então não quero mais saber de você. - virou-se, para se ir, mas tornou a voltar. - E irá ver este ateu, também? - apontou para Ippolít. - Tem a coragem de se rir de mim? - gritou ela, em um verdadeiro berro, e avançou para Ippolít, não suportando seu esgar sarcástico. 
- Lizavéta Prokófievna! Lizavéta Prokófievna! Lizavéta Prokófievna! - ouviu-se de todos os lados, ao mesmo tempo.
- Mãe, isso é vergonhoso! - disse Agláia, alto.
- A Senhorita Agláia Ivánovna não se inquiete - respondeu Ippolít, calmamente.

     Lizavéta Prokófievna tinha-se arremessado contra ele e lhe segurara o braço. E, por qualquer motivo inexplicável, ainda o estava segurando com força. Ficou diante dele, com os olhos coléricos presos nele.

- Não se inquiete, a sua mamãe já se dará conta de que não pode atacar um agonizante... Se ela quer que eu explique por que me ri, eu explico. E terei muito gosto se ela me der permissão para isso. - nisto começou a tossir terrivelmente, e não podia parar.

- Ele está a morrer e ainda quer pronunciar discursos - gritou Lizavéta Prokófievna largando-lhe o braço e olhando quase com terror para o sangue que ele limpava dos lábios. - Você não tem de falar nada. Deve mais é ir se deitar.
- É o que farei - respondeu Ippolít, em uma voz rouca, muito baixa, quase um sussurro. - Assim que chegar a casa me deitarei... Nestes quinze dias vou morrer, já sei. B... já me disse isso na semana passada. De maneira que, se me permite, lhe quero dizer umas palavras, ao nos separarmos.
- Está maluco? Deixe de bobagem! Precisa mais é de enfermeira; agora não é hora de falar. Vá já para a cama!
- Se me meto na cama nunca mais me levantarei até morrer - disse Ippolít, sorrindo. - Ontem, por exemplo, pensei em me deitar não me levantar mais; mas decidi deixar isso para até depois de amanhã, caso pudesse me aguentar nas pernas... e assim poder vir eles até aqui... O que há é que me sinto terrivelmente cansado.
- Sente-se, sente-se, por que há de estar de pé? Tem uma cadeira aqui! - e Lizavéta Prokófievna correu e lhe ajeitou ela própria uma cadeira.
- Mas a senhora também vai se sentar, diante de mim, e nós vamos conversar, Lizavéta Prokófievna; faço questão disso, agora... - e sorriu outra vez. - Pense bem, esta é a última vez que saio a apanhar ar e ver gente. Em quinze dias certamente estarei debaixo da terra. De modo que será uma espécie de despedida à humanidade e à natureza. Não sou lá muito sentimental, a senhora já deve ter reparado, mas estou bastante contente que tudo isso se passe em Pávlovsk; aqui, seja lá como for, ainda se podem ver as árvores cheias de folhas.
- Você não pode falar agora - insistiu Lizavéta Prokófievna cada vez mais sobressaltada – Está mais é com febre. Esteve para aí a dar guinchos e agora nem pode tomar a respiração! Está sufocado! Isso passa, em um minuto.
- Por que teima a senhora em contrariar o meu último desejo? Quer saber de uma coisa? Há muito tempo que eu sonhava em vir a conhecê-la Lizavéta Prokófievna. Kólia me falava tanto na senhora! Ele foi o único que não me largou a mão... A senhora é uma criatura original, uma criatura excêntrica e quer saber de uma coisa, eu já estava gostando da senhora, mesmo.
-Deus meu! E não é que estive a ponto de agredi-lo?
- Foi Agláia Ivánovna quem não deixou. Não estou enganado não é? Esta é Sua filha Agláia Ivánovna? É tão bonita que logo, à primeira vista, adivinhei que era ela, apesar de nunca a haver visto, Que ao menos me seja dado olhar para uma mulher bonita pela última vez na minha vida. - e Ippolít sorriu com uma espécie de sorriso crispado e sem graça. - O príncipe está aqui, e o marido da senhora; todo o mundo. Por que não consente no meu derradeiro desejo?
- Vejam uma cadeira! - gritou Lizavéta Prokófievna; ela mesma porém, agarrou a primeira que estava à mão e se sentou defronte de Ippolít. - Kólia - ordenou ela -, você hoje deve ir com ele, deve levá-lo. E amanhã certamente, irei eu até lá...
- Se a Senhora dá licença, vou pedir ao príncipe uma xícara de chá... Sinto- me muito cansado. É verdade Lizavéta Prokófievna ainda há pouco, creio eu, a senhora deu a entender que queria levar o príncipe a tomar chá em sua casa; em vez disso, fique conosco um pouco mais; o príncipe nos fará servir chá a todos, aqui. Desculpe esta minha ideia... Mas como sei que a senhora é de boa índole e o Príncipe também como, afinal, de boa índole somos todos...

     O príncipe apressou-se em dar ordens nesse sentido. Liébediev saiu quase a voar, precipitadamente da sala; Vera acompanhou-o.

- Então, está bem - decidiu repentinamente a generala. - Pode falar, mas fale devagar, sem se excitar. Você, afinal, abrandou o meu coração. Príncipe, o senhor não merece que eu tome chá aqui. Mas.., seja. Ficarei; não pensem que me vou desculpar perante quem quer que seja! Absolutamente! Era só o que faltava! Ainda assim, príncipe, peço perdão se ralhei com o senhor; vá lá por esta vez. Mas não estou prendendo ninguém - voltou-se com uma expressão de extraordinária raiva para o esposo e as filhas, como se a tivessem desconsiderado. Eu sei voltar para casa sozinha.

     Mas não a deixaram acabar. Prontamente todos a rodearam. O príncipe logo começou a insistir com todos para que ficassem para o chá, pedindo desculpas por não ter pensado nisso antes. Até o General Epantchín assumiu um ar cordial, chegando a murmurar algo convincente; e perguntou a Lizavéta Prokófievna se na varanda estaria muito frio para ela. Esteve quase a indagar de Ippolít quanto tempocursara a Universidade, por um nada deixando de o fazer. Evguénii Pávlovitch e o Príncipe Chtch... tornaram-se inesperadamente em extremo cordiais e bem-humorados. Uma expressão de prazer começou a se misturar à de espanto nos rostos de Adelaída e Aleksándra; de fato todos pareciam radiantes por ter acabado o paroxismo de Lizavéta Prokófievna. Somente Agláia continuava amuada lá no seu canto, sentada a pouca distância. odos resolveram ficar; ninguém quis ir embora, nem mesmo o General Ívolguin, depois que Liébediev lhe segredou qualquer coisa decerto não muito agradável, apenas se retirando para um canto. O príncipe estendeu o seu convite a Burdóvskii e aos amigos deste, sem exceção. Balbuciaram, com ar constrangido, que esperariam por Ippolít e logo se retiraram para a ponta extrema da varanda, onde sentaram enfileirados. Provavelmente o chá já tinha sido providenciado, antes, por Liébediev, pois foi trazido quase imediatamente. Soaram as onze horas.

O Idiota: Segunda Parte (9b) - Estava em uma terrível excitação
___________________ 


___________________