sábado, 24 de janeiro de 2026

Moby Dick: 50 - O Bote e a Tripulação de Ahab - Fedallah

Moby Dick

Herman Melville

50 - O Bote e a Tripulação de Ahab - Fedallah


“Quem teria imaginado uma coisas dessas, Flask!”, exclamou Stubb; “se eu tivesse apenas uma perna, você não me veria num bote, a não ser talvez para tapar um buraco com a minha perna de pau. Ah! Ele é um velho formidável!”
“Não acho nada de surpreendente, por conta disso”, disse Flask. “Se a perna dele fosse cortada até os quadris, aí seria diferente. Isso o tornaria inválido; mas, você sabe, ele tem um dos joelhos e boa parte do outro.”
“Não sei, não, meu pequeno; nunca o vi de joelhos.”

*****

     Entre os conhecedores de baleias, discute-se muito se, considerando a importância fundamental de sua vida para o êxito da viagem, é certo um capitão baleeiro arriscar essa vida tomando parte ativa nos perigos da pesca. Assim os soldados de Tamerlão sempre discutiam, com lágrimas nos olhos, se aquela vida valiosa deveria ser exposta ao fragor da batalha.
     Mas com Ahab a questão assumia um aspecto diverso. Considerando-se que em duas pernas o homem é apenas uma criatura claudicante diante do perigo; considerando-se que a perseguição de baleias se dá sempre em grandes e extraordinárias dificuldades; que cada momento isolado, de fato, assim encerra um risco; sob tais circunstâncias será prudente um aleijado subir num bote baleeiro durante a caçada? De um modo geral, os proprietários do Pequod deveriam achar que não.
     Ahab bem sabia que seus amigos em terra não se preocupariam com o fato de ele entrar num bote em meio às vicissitudes relativamente inócuas da caçada, só para estar perto da ação e dar ordens pessoalmente, mas ter um bote exclusivamente à sua disposição para conduzir a caçada – e, além disso, equipado com cinco homens adicionais, para tripular este bote, o Capitão Ahab bem sabia que tais conceitos generosos jamais passariam pela cabeça dos proprietários do Pequod. Portanto, não havia solicitado a eles uma tripulação para o bote, nem de forma alguma havia demonstrado seus desejos nesse sentido. Não obstante, havia tomado em particular todas as providências necessárias quanto ao caso. Até se tornar pública a descoberta de Archy, os marinheiros mal poderiam imaginar tal coisa, embora pouco depois de deixarem o porto, todos tendo terminado a rotina de preparar os botes para o serviço, algum tempo depois disso, Ahab tivesse sido visto ocupado com a preparação de toletes para o bote que se considerava de reserva com as próprias mãos, e até mesmo cortando pequenos espetos de madeira, que são fixados na ranhura da proa para deixar correr a corda: quando viram tudo isso, e, em especial, sua solicitude ao colocar um forro suplementar para revestir o fundo do bote, como que para fazê-lo suportar melhor a pressão aguda de sua perna de marfim, e também a ansiedade que demonstrou ao modelar com precisão a tábua de coxa, como é chamada às vezes a peça horizontal da proa do bote para segurar o joelho quando se atira a lança contra a baleia; quando viram quantas vezes ele subia naquele bote e ficava com o seu único joelho preso na concavidade semicircular da tábua, e com um cinzel de carpinteiro tirando um pouco ali, acertando um pouco aqui; todas essas coisas, repito, despertaram muito interesse e curiosidade. Mas quase todos pensaram que esses cuidados especiais preparatórios de Ahab visavam apenas à caçada final de Moby Dick; pois ele já havia revelado sua intenção de dar caça ao monstro mortal pessoalmente. Mas tal suposição de modo algum envolvia a mais remota suspeita de que houvesse uma tripulação designada para aquele bote.
     Ora, com os fantasmas subalternos, qualquer mistério que ainda houvesse logo se dissipou; pois num baleeiro os mistérios logo mínguam. Além disso, vez por outra, chega uma indefinível miscelânea oriunda de estranhas nações, dos mais remotos tugúrios e covis da terra para guarnecer os baleeiros de foragidos flutuantes; e os próprios navios muitas vezes recolhem estranhas criaturas à deriva no mar aberto, a se debater sobre tábuas, restos de naufrágios, remos, botes, canoas, juncos japoneses destroçados, e não sei mais o quê; tanto que o próprio Belzebu poderia subir pelo costado e entrar na cabine para conversar com o capitão, que isso não causaria nenhuma comoção irrefreável no castelo de proa.
     Mas, seja como for, o certo é que logo os fantasmas subalternos encontraram seus lugares em meio à tripulação, embora ainda fossem um pouco diferentes dos outros; entretanto Fedallah, o homem do turbante na cabeça, manteve-se um mistério protegido até o fim. De onde viera até este mundo gentil, que tipo de ligação inexplicável o unia ao destino particular de Ahab, a ponto de exercer sobre este uma espécie de pressentida influência, só Deus sabe; mas parecia exercer até mesmo autoridade sobre ele. Mas não era possível manter um ar de indiferença em relação a Fedallah. Era uma dessas criaturas que as pessoas civilizadas e domésticas da zona temperada veem apenas em sonhos, e ainda assim vagamente; mas cujo tipo às vezes ocorre nas imutáveis comunidades Asiáticas, especialmente nas ilhas Orientais a leste do continente – aqueles países isolados, imemoriais e imutáveis, que mesmo nos tempos modernos ainda guardam muito do primitivo e do fantasmagórico das primeiras gerações da terra, quando a recordação do primeiro homem era uma lembrança nítida, e todos os homens seus descendentes, ignorando de onde ele veio, olhavam uns para os outros como verdadeiros fantasmas, e perguntavam ao sol e à lua por que foram criados e com qual finalidade; quando no entanto, segundo o Gênese, os anjos de fato se casavam com as filhas dos homens, e – acrescentam os rabinos não canônicos – também os demônios se entregavam a amores terrenos.

Continua na página 225...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
Moby Dick: 50 - O Bote e a Tripulação de Ahab - Fedallah / 
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.


E você com o quê se identifica?

O Sol é para todos: 2ª Parte (26)

Harper Lee

O Sol é para todos


Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB


SEGUNDA PARTE

26

      As aulas começaram, assim como nossas passagens diárias em frente à casa dos Radley. Jem estava no sétimo ano e ia para o ginásio, que ficava atrás do prédio do primário. Eu estava no terceiro ano e nossas rotinas eram tão diferentes que eu só via Jem de manhã, quando íamos juntos para a escola, e na hora das refeições. Ele entrou para o time de futebol, mas era magro e jovem demais, então apenas carregava o balde de água do time. Mas fazia isso com entusiasmo e costumava chegar em casa só depois de anoitecer.
     A casa dos Radley não me aterrorizava mais, porém continuava sombria, fria sob os grandes carvalhos e pouco acolhedora. O sr. Nathan Radley ainda era visto em dias claros, indo e voltando da cidade; sabíamos que Boo ainda estava lá, pelo mesmo motivo de sempre: ninguém o tinha visto sair carregado num caixão. De vez em quando, eu sentia uma pontada de remorso ao passar pela velha casa, arrependida de ter participado do tormento que devíamos ter causado a Arthur Radley. Que pessoa sensata e reclusa quer crianças espiando pelas janelas, entregando bilhetes na ponta de varas de pescar ou andando pelas plantações de couve à noite?
     E, no entanto, eu me lembrava. Duas moedas cunhadas com cabeças de índios, goma de mascar, bonecos esculpidos em sabão, uma medalha enferrujada, um relógio quebrado com a corrente. Jem devia ter guardado tudo aquilo em algum lugar. Uma tarde, parei e olhei para a árvore: o tronco estava crescendo por cima do cimento, que estava amarelando.
     Nós quase vimos Boo duas vezes, uma boa marca para qualquer pessoa.
     Mas eu continuava olhando quando passava por lá. Talvez um dia o víssemos. Eu imaginava como seria: ele estaria sentado no balanço e eu cumprimentaria: “Oi, sr. Arthur”, como se tivesse feito isso todas as tardes da minha vida. “Boa tarde, Jean Louise”, ele responderia, como se tivesse dito isso todas as tardes da minha vida. “Que dias bonitos tem feito, não acha?” “É verdade, bonitos mesmo”, eu concordaria, e seguiria em frente.
     Mas isso não passava de uma fantasia. Nós jamais o veríamos. Ele provavelmente saía de casa quando a lua estava baixa e ia espiar a srta. Stephanie. Eu teria escolhido espiar outra pessoa, mas isso era problema dele. Ele nunca ia nos espiar. 

— Não vão começar com esse negócio outra vez, vão? — perguntou Atticus uma noite, quando confessei meu desejo de dar pelo menos uma olhada em Boo Radley antes de morrer. — Se estiverem pensando nisso, já vou avisando: podem parar. Estou velho demais para ficar atrás de vocês no quintal dos Radley. Além do mais, é perigoso. Podem levar um tiro. Vocês sabem que o sr. Nathan atira em qualquer sombra, mesmo naquelas que deixam pegadas do tamanho de um pé de criança descalça. Tiveram sorte de não terem sido mortos.
     Calei a boca na hora. Ao mesmo tempo, fiquei admirada com Atticus. Era a primeira vez que ele nos mostrava que sabia muito mais do que pensávamos. E aquilo tinha acontecido anos antes. Não, tinha sido apenas no verão passado; não, no retrasado, quando… o tempo estava me pregando peças. Eu precisava perguntar a Jem.
     Tantas coisas aconteceram conosco que Boo Radley era o menor dos nossos temores. Atticus disse que não ia acontecer mais nada, que as coisas iam se acalmar e, com o tempo, as pessoas iam esquecer que um dia Tom Robinson tinha existido.
     Atticus podia ter razão, mas os acontecimentos daquele verão continuavam a pairar sobre nós como fumaça num quarto fechado. Os adultos de Maycomb jamais comentavam o caso com Jem e comigo, mas deviam conversar com os filhos, dizendo que não tínhamos culpa de sermos filhos de Atticus, e que, apesar disso, deviam ser gentis conosco. As crianças jamais teriam essa atitude por iniciativa própria: se nossos colegas de classe tivessem agido como bem entendessem, Jem e eu teríamos nos metido em algumas boas brigas e o assunto teria acabado de uma vez. Mas em vez disso éramos obrigados a erguer a cabeça e nos comportar como um cavalheiro e uma dama, respectivamente. De certa forma, era como no tempo da sra. Henry Lafayette Dubose, mas sem todos aqueles berros dela. Havia um detalhe estranho, porém, que eu nunca entendi: apesar das restrições feitas a Atticus como pai, as pessoas não tiveram escrúpulos em reelegê-lo para a Câmara estadual naquele ano, como de costume, sem oposição. Cheguei à conclusão de que as pessoas eram estranhas. Por isso, mantinha distância e só pensava nelas quando era obrigada.
     Um dia, na escola, fui obrigada. Uma vez por semana tínhamos uma atividade chamada Atualidades, em que cada aluno devia escolher uma notícia no jornal, ler e levar o recorte para a escola, onde tinha de relatar o fato para a classe. Isso, supostamente, corrigia uma série de problemas: ao ficar de pé na frente da classe o aluno adquiria boa postura e segurança; manter um pequeno diálogo estimulava a comunicação; discorrer sobre um fato recente fortalecia a memória; por fim, seu isolamento diante da classe faria com que desejasse mais do que nunca voltar ao grupo.
     A ideia era profunda, mas, como sempre, não funcionou direito em Maycomb. Primeiro, porque poucas crianças do campo tinham acesso a jornais e a tarefa passou a ser feita pelas crianças da cidade, o que fazia com que as crianças do campo tivessem ainda mais certeza de que as da cidade recebiam mais atenção. As crianças do campo que conseguiam, geralmente levavam recortes do que elas chamavam de The Grit Paper, uma publicação que a srta. Gates, nossa professora, considerava abominável. Nunca entendi porque ela não gostava quando um aluno lia algo desse jornal, mas de alguma forma isso era associado a gostar de tocar rabeca, comer biscoito de melado no almoço, ser um fanático religioso e cantar Sweetly Sings the Donkey pronunciando dunkey, todos comportamentos que o Estado pagava os professores para desencorajarem.
     Mesmo assim, poucos alunos sabiam o que era um fato atual. Chuck Little, que sabia tudo sobre os hábitos e os costumes das vacas, já estava na metade da história sobre Uncle Natchell, personagem que era garoto-propaganda de um fertilizante, quando a professora interrompeu: 

— Charles, isso que você está contando não é um fato atual, é um anúncio.

     Mas nosso colega Cecil Jacobs sabia o que era um fato atual. Quando chegou a vez dele, foi para a frente da classe e começou: 

— O velho Hitler… 
— Adolf Hitler, Cecil — corrigiu a srta. Gates. — Ninguém começa uma exposição dizendo “o velho fulano”. 
— Sim, senhora. O velho Adolf Hitler anda prosseguindo os judeus… 
— Perseguindo, Cecil… 
— Não, srta. Gates, está escrito aqui… Bem, o velho Adolf Hitler anda atrás dos judeus, prendendo eles e tirando os bens deles. Não deixa eles saírem do país e está lavando os débeis mentais e… 
— Lavando os débeis mentais? 
— Sim, srta. Gates, acho que eles não têm capacidade de se lavar, um débil mental não consegue cuidar da higiene. De todo jeito, Hitler iniciou um programa para pegar todos os meios judeus também e quer que sejam registrados para o caso de quererem causar algum problema. Acho tudo isso muito errado e esse é o meu fato atual. 
— Muito bem, Cecil — disse a professora. Ofegante, Cecil voltou para sua carteira.

     No fundo da sala, alguém levantou a mão. 

— Como ele pode fazer uma coisa dessa? 
— A que você se refere? — perguntou a srta. Gates, paciente. 
— Quer dizer, como Hitler pode prender um monte de gente assim, o governo não faz nada? — perguntou o dono da mão. 
— Hitler é o governo — respondeu a professora e, aproveitando a chance para dinamizar a aula, foi até o quadro-negro. Escreveu DEMOCRACIA em letras maiúsculas. — Alguém sabe o que é democracia? — perguntou. 
— Somos nós — respondeu alguém.

     Levantei a mão, lembrando-me de um antigo lema de campanha que Atticus uma vez me disse. 

— O que você acha que é, Jean Louise? 
— “Direitos iguais para todos, privilégios para ninguém!” — citei. 
— Muito bem, Jean Louise, muito bem — elogiou a srta. Gates, sorrindo. — Na frente da palavra DEMOCRACIA, ela escreveu NÓS SOMOS UMA. — Agora, leiam todos juntos: “Nós somos uma democracia.”

     Lemos. Depois, a professora disse: 

— Essa é a diferença entre os Estados Unidos e a Alemanha. Nós somos uma democracia e a Alemanha é uma ditadura. Di-ta-du-ra — disse, separando as sílabas. — Em nosso país ninguém é perseguido. A perseguição acontece em países onde há preconceito. Pre-con-cei-to — enunciou cuidadosamente. — Os judeus são o melhor povo do mundo, não entendo por que Hitler não acha o mesmo.

     Uma alma inquiridora no meio da sala perguntou: 

— Então, por que a senhora acha que eles não gostam dos judeus, srta. Gates? 
— Não sei, Henry. Os judeus contribuem para todas as sociedades em que vivem e são, sobretudo, um povo profundamente religioso. Hitler está querendo acabar com a religião, então pode ser que não goste deles por isso.

     Cecil se manifestou: 

— Não tenho certeza, mas eles não vivem de emprestar dinheiro ou algo assim? Só que isso não é motivo para serem perseguidos. São brancos, não são?

     A srta. Gates disse: 

— Quando você entrar no ensino médio, Cecil, vai aprender que os judeus são perseguidos desde o começo do mundo, foram expulsos até do próprio país. É um dos fatos mais terríveis da história. Está na hora de estudarmos matemática, meninos.

     Como jamais gostei de matemática, passei a aula olhando pela janela. A única vez em que eu via Atticus irritado era quando o radialista Elmer Davis dava as últimas notícias sobre Hitler. Papai desligava o rádio e dizia: “Humpf!” Uma vez, perguntei a ele por que não gostava de Hitler e ele respondeu: “Porque ele é um maníaco.”
     Isso não era suficiente, pensei enquanto a classe continuava fazendo somas. Um maníaco e milhões de alemães. Eles é que deviam trancá-lo numa cela, em vez de deixar que ele saísse prendendo as pessoas. Tinha alguma coisa errada, eu ia perguntar ao meu pai.
     Perguntei mesmo e ele disse que não podia responder porque não sabia a resposta. 

— Mas tudo bem odiar Hitler? 
— Não. Não é bom odiar ninguém. 
— Atticus, não entendi uma coisa — eu disse. — A srta. Gates disse que Hitler faz coisas horríveis, ela pareceu muito irritada com isso… 
— Tem razão em ficar. 
— Mas… 
— Mas o quê? 
— Nada, não.

     Fui embora, sem saber se conseguiria explicar a Atticus o que estava passando pela minha cabeça, sem ter certeza se poderia explicar o que não passava de um sentimento. Talvez Jem pudesse responder. Ele entendia as coisas da escola melhor do que Atticus.
     Jem estava exausto depois de passar o dia todo carregando baldes de água. Ao lado da cama dele tinha no mínimo uma dúzia de cascas de banana e uma garrafa de um litro de leite vazia. 

— Por que está comendo tanto? — perguntei. 
— O técnico do time disse que, se eu engordar dez quilos por ano, daqui a dois anos posso jogar. É a maneira mais rápida de conseguir — respondeu ele. 
— Se você não vomitar, né? Jem, quero perguntar uma coisa. 
— Manda — disse ele, largando o livro e esticando as pernas. 
— A srta. Gates é legal, não é? 
— Claro. Eu gostava de ser aluno dela. 
— Mas ela detesta Hitler… 
— E qual é o problema? 
— Bom, ela disse que ele trata os judeus muito mal. Jem, é errado perseguir alguém, não é? Quer dizer, não se deve nem pensar mal dos outros, não é? 
— Claro que não, Scout. Qual é o problema? 
— Naquela noite, quando saímos do tribunal, a srta. Gates estava descendo a escada na nossa frente, você com certeza não a viu, ela estava conversando com a srta. Stephanie Crawford. Ouvi quando ela disse que estava na hora de alguém dar uma lição neles, que estavam indo longe demais, daqui a pouco iam querer casar com brancos. Jem, como uma pessoa pode detestar tanto Hitler e depois falar isso de alguém daqui mesmo…?

     De repente, Jem ficou uma fera. Pulou da cama, agarrou a gola da minha blusa e me sacudiu. 

— Nunca mais quero ouvir falar naquele julgamento, entendeu? Entendeu? Não diga mais uma palavra sobre isso, entendeu? Agora dá o fora!

     Fiquei tão assustada que nem consegui chorar. Saí de mansinho e fechei a porta com cuidado, para o barulho não irritá-lo outra vez. De repente, me senti cansada e precisava de Atticus. Ele estava na sala, fui até lá e tentei sentar no colo dele.
     Atticus sorriu. 

— Você está tão grande que só dá para eu abraçar uma parte. — Ele me abraçou e disse, carinhoso: — Scout, não fique chateada com Jem. Ele está passando por uma fase difícil. Ouvi vocês dois.
 
     Atticus explicou que Jem estava querendo muito tirar uma coisa da cabeça, mas, na verdade, estava guardando tudo dentro dele mesmo até que passasse o tempo necessário. Então ele poderia refletir e entender o que tinha acontecido. Quando conseguisse pensar naquilo tudo, ele voltaria a ser quem era.

continua página 177...
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Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (26) / 
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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Espumas Flutuantes - As Três Irmãs do Poeta

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

AS TRÊS IRMÃS DO POETA   
Traduzido de E. Berthoud

É noite! as sombras correm nebulosas. 
 Vão três pálidas virgens silenciosas 
 Através da procela irrequieta. 
 Vão três pálidas virgens... vão sombrias 
 Rindo colar num beijo as bocas frias... 

Na fronte cismadora do — Poeta — 
 “Saúde, irmão! Eu sou a Indiferença. 
 Sou eu quem te sepulta a ideia imensa, 
 Quem no teu nome a escuridão projeta... 
 Fui eu que te vesti do meu sudário... 
 Que vais fazer tão triste e solitário?... 

— “Eu lutarei!” — responde-lhe o Poeta.

“Saúde, meu irmão! Eu sou a Fome. 
 Sou eu quem o teu negro pão consome... 
 O teu mísero pão, mísero atleta! Boa Vista, 1867 
 Hoje, amanhã, depois... depois (qu’importa?) 
 Virei sempre sentar-me à tua porta...”  

— “Eu sofrerei!” — responde-lhe o Poeta.

“Saúde, meu irmão! Eu sou a Morte! 
 Suspende em meio o hino augusto e forte. 
 Marquei-te a fronte, mísero profeta! 
 Volve ao nada! Não sentes neste enleio 
 Teu cântico gelar-se no meu seio?!...”  

— “Eu cantarei no céu” — diz-lhe o Poeta!

São Paulo, 25 de agosto de 1868 


O VÔO DO GÊNIO 
À atriz Eugênia Câmara 

Um dia, em que na terra a sós vagava 
 Pela estrada sombria da existência, 
 Sem rosas — nos vergéis da adolescência, 
 Sem luz d’estrela — pelo céu do amor, 
 Senti as asas de um arcanjo errante 
 Roçar-me brandamente pela fronte, 
 Como o cisne, que adeja sobre a fonte 
 Às vezes toca a solitária flor. 

E disse então: “Quem és, pálido arcanjo! 
 Tu, que o poeta vens erguer do pego? 
 Eras acaso tu, que Milton cego 
 Ouvia em sua noite erma de sol? Quem és tu? 
Quem és tu? — “Eu sou o gênio” 
 Disse-me o anjo “vem seguir-me o passo, 
 Quero contigo me arrojar no espaço, 
 Onde tenho por c’roas o arrebol!” 

“Onde me levas, pois!...” — Longe te levo 
 Ao país do ideal, terra das flores, 
 Onde a brisa do céu tem mais amores 
 E a fantasia — lagos mais azuis...” 
 E fui... e fui... ergui-me no infinito, 
 Lá onde o voo d’águia não se eleva... 
 Abaixo — via a terra — abismo em treva! 
 Acima — o firmamento — abismo em luz! 

“Arcanjo! arcanjo! que ridente sonho!” 
 — “Não, poeta, é o vedado paraíso, 
 Onde os lírios mimosos do sorriso 
 Eu abro em todo o seio, que chorou, 
 Onde a loura comédia canta alegre, 
Onde eu tenho o condão de um gênio infindo, 
 Que a sombra de Molière vem sorrindo 
 Beijar na fronte, que o Senhor beijou...” 

“Onde me levas mais, anjo divino?” 
 — “Vem ouvir, sobre as harpas inspiradas, 
 O canto das esferas namoradas, 
 Quando eu encho de amor o azul dos céus, 
 Quero levar-te das paixões nos mares. 
 Quero levar-te a dédalos profundos, 
 Onde refervem sóis... e céus... e mundos... 
 Mais sóis... mais mundos, e onde tudo é meu...” 

“Mulher! mulher! Aqui tudo é volúpia: 
 A brisa morna, a sombra do arvoredo, 
 A linfa clara, que murmura a medo, 
 A luz que abraça a flor e o céu ao mar. 
 Ó princesa, a razão já se me perde
 És a sereia da encantada Sila, 
 Anjo, que transformaste-te em Dalila, 
 Sansão de novo te quisera amar! 

“Porém não paras neste voo errante! 
 A que outros mundos elevar-me tentas? 
 Já não sinto o soprar de auras sedentas, 
 Nem bebo a taça de um fogoso amor. 
 Sinto que rolo em báratros profundos... 
 Já não tens asas, águia da Tessália, 
 Maldição sobre ti... tu és Onfália, 
 Ninguém te ergue das trevas e do horror. 

“Porém silêncio! No maldito abismo, 
 Onde caí contigo criminosa, 
 Canta uma voz, sentida e maviosa, 
 Que arrependida sobe a Jeová! 
 Perdão! Perdão! Senhor, pra quem soluça, 
 Talvez seja algum anjo peregrino... ... 
Mas não! inda eras tu, gênio divino, 
 Também sabes chorar, como Eloá! 

“Não mais, ó serafim! suspende as asas! 
 Que, através das estrelas arrastado, 
 Meu ser arqueja louco, deslumbrado, 
 Sobre as constelações e os céus azuis. 
 Arcanjo! Arcanjo! basta... Já contigo 
 Mergulhei das paixões nas vagas cérulas... 
 Mas nos meus dedos — já não cabem — pérolas — 
 Mas na minh’alma — já não cabe — luz!...” 

Recife, maio de 1866  

continua pag 23...
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

Ensaio sobre o entendimento humano: Seção XII (2)

Ensaio sobre o entendimento humano

David Hume


Seção XII

DA FILOSOFIA ACADÊMICA OU CÉTICA
SEGUNDA PARTE

     Destruir a razão mediante argumentos e raciocínios lógicos pode parecer uma tentativa muito extravagante dos céticos; todavia, esta é a principal finalidade de todas as suas investigações e debates. Esforçam-se por encontrar objeções contra os nossos raciocínios abstratos, como também contra os referentes às questões de fato e de existência.
     A principal objeção contra todos os raciocínios abstratos deriva das ideias de espaço e de tempo; ideias que na vida diária e para quem as considera descuidadosamente são muito claras e inteligíveis, mas quando examinadas pelas ciências profundas — elas constituem o principal objeto destas ciências — revelam princípios que parecem repletos de absurdos e contradições. Nenhum dogma sacerdotal, inventado com o propósito de domar e subjugar a rebelde razão humana, abalou tanto o bom senso como a doutrina e as consequências da infinita divisibilidade da extensão, tal como nos são mostradas pomposamente por todos os geômetras e metafísicos, com uma espécie de triunfo e de exultação. Uma quantidade real, infinitamente menor que qualquer quantidade finita, contendo quantidades infinitamente menores que ela mesma, e assim por diante ao infinito: eis uma formulação tão audaciosa e prodigiosa que é demasiado pesada para apoiar-se em alguma pretendida demonstração, porque repugna aos mais claros e naturais princípios da razão humana.[1] Mas o que torna o assunto mais extraordinário refere-se ao fato de que estas opiniões aparentemente absurdas estão apoiadas por uma cadeia de raciocínios muito claros e naturais, sendo-nos, pois, impossível aceitar as premissas sem admitir suas consequências. Nada pode ser mais convincente e satisfatório que todas as conclusões acerca das propriedades dos círculos e dos triângulos, e, uma vez que as aceitamos, como podemos negar que o ângulo formado pelo círculo e sua tangente é infinitamente menor que um ângulo retilíneo; que à medida que se aumenta o diâmetro do círculo ao infinito, este ângulo de contato se torna ainda menor, inclusive ao infinito, e que o ângulo de contato compreendido entre outras curvas e suas tangentes deve ser infinitamente menor que os formados por qualquer círculo e sua tangente, e assim por diante, ao infinito? A demonstração destes princípios parece tão irrepreensível como aquela que prova serem três ângulos de um triângulo iguais a dois retos, embora esta última noção seja natural e fácil, ao passo que a primeira está repleta de contradição e absurdo. A razão parece aqui lançada a um estado de assombro e de vacilação que, sem que ela tenha necessidade das sugestões de nenhum cético, lhe ensina a desconfiar de si mesma e do terreno em que pisa. Visualiza uma luz clara iluminando certos lugares, mas esta luz está cercada pela mais profunda escuridão. Entre as duas, a razão fica tão ofuscada e confundida que raramente pode pronunciar-se com certeza e segurança sobre algum objeto.  
     O absurdo destas conclusões audazes das ciências abstratas torna-se — se isto é possível — ainda mais patente em relação ao tempo do que ao espaço. Um número infinito de partes reais de tempo que se sucedem e se esgotam umas depois das outras parece uma contradição tão evidente que ninguém, cujo juízo, em vez de corrompido, se tenha aperfeiçoado pelas ciências, seria capaz de admiti-lo.
     Portanto, é preciso ainda que a razão permaneça agitada e in quieta, mesmo a respeito deste ceticismo para o qual a dirigem estes aparentes absurdos e contradições. Como uma ideia clara e distinta pode conter circunstâncias que a contradizem ou que contradizem uma outra ideia clara e distinta, isto é absolutamente incompreensível, e é talvez tão absurdo como qualquer proposição que se possa formular. De maneira que nada pode ser mais cético ou mais repleto de dúvida e de hesitação que este próprio ceticismo, engendrado por algumas das conclusões paradoxais da geometria ou da ciência da quantidade.[2]
     As objeções céticas à certeza moral ou aos raciocínios acerca dos fatos são populares ou filosóficas. As objeções populares derivam da franqueza do entendimento humano; das opiniões contraditórias sustentadas em diferentes épocas e nações; das variações de nossos julgamentos quando estamos doentes ou sadios, na mocidade e na velhice, na prosperidade e na adversidade; da perpétua contradição entre as opiniões e os sentimentos de cada homem particular, assim como muitos outros temas deste gênero. Não há necessidade de insistirmos por mais tempo a este respeito. Estas objeções são certamente fracas. Com efeito, na vida diária raciocinamos a todo momento sobre o fato e a existência e, certamente, não poderíamos subsistir se não empregássemos continuadamente este gênero de raciocínio, e quaisquer objeções populares que daí decorrem são necessariamente insuficientes para destruir esta evidência. A ação, o trabalho e as ocupações da vida diária são os principais destruidores do pirronismo, isto é, dos excessivos princípios céticos. Estes princípios podem florescer e triunfar nas escolas, nas quais é certamente difícil, senão impossível, refutá-los. Mas, uma vez que os céticos abandonam as sombras e se defrontam com os mais poderosos princípios de nossa natureza — decorrentes da presença dos objetos reais — que movem nossas ações e sentimentos, seus princípios desvanecem como fumaça e equiparam o mais resoluto cético ao mesmo nível dos outros mortais.
     O cético estaria melhor, portanto, se permanecesse em sua própria esfera e desenvolvesse estas objeções filosóficas que nascem das pesquisas mais profundas. Parece que é aqui que ele tem amplo campo para triunfar, pois insiste, legitimamente, que toda nossa evidência a favor de um fato, distanciado do atual testemunho dos sentidos ou da memória, procede inteiramente da relação de causa e efeito; que não temos outra ideia desta relação senão a de dois objetos que têm estado frequentemente ligados; que não temos argumento para nos convencer de que os objetos experienciados por nós constantemente ligados mostrar-se-ão em outros casos igualmente ligados; e que nada nos conduz a esta inferência a não ser o costume ou um outro instinto de nossa natureza que é difícil de resistir, mas que, como os outros instintos, pode ser errôneo e enganador. Enquanto o cético persiste com estes argumentos, revela sua força, ou melhor, revela tanto sua como nossa debilidade e, ao menos no momento, parece destruir toda segurança e convicção. Poder-se-iam desenvolver extensamente estes argumentos se deles adviessem um bem e um benefício perduráveis para a sociedade.
     Eis aqui, todavia, a objeção principal e mais embaraçosa contra o ceticismo extremado: nenhum bem durável pode jamais resultar dele, embora conserve toda sua força e todo o seu vigor. Necessitamos apenas perguntar a um tal cético: Qual é a sua intenção? Qual é o propósito de todas estas curiosas pesquisas? Ele fica imediatamente perplexo e não sabe o que contestar. Um coperniciano ou um ptolomaico pode, cada um argumentando a favor de seu específico sistema de astronomia, aspirar a estabelecer entre seus ouvintes constante e durável convicção. Um estoico ou um epicureu desenvolve princípios que não devem ser duráveis, mas que têm efeito sobre a conduta e os costumes. Mas um pirrônico não pode esperar que sua filosofia tenha uma influência constante sobre o espírito ou, se ela tivesse, que esta influência fosse benéfica à sociedade. Pelo contrário, deve reconhecer, se quiser admitir alguma coisa, que toda a humanidade pereceria se seus princípios prevalecessem universal e constantemente. Todo discurso e toda ação cessariam imediatamente, e os homens ficariam em total letargia, até que as necessidades da natureza, não sendo satisfeitas, pusessem fim à sua miserável existência. Em verdade, não se deve temer demasiadamente um evento tão fatal. A natureza sempre é mais forte que os princípios.[3] E, embora um pirrônico possa lançar-se a si mesmo ou a outrem em estupefação e confusão momentâneas, em virtude de seus raciocínios profundos, o primeiro e o mais banal evento da vida porá em revoada todas as suas dúvidas e escrúpulos, e o situará no mesmo nível, com referência à ação e à especulação, aos filósofos de todas as outras seitas e aos homens que nunca se preocuparam com pesquisas filosóficas. O pirrônico, ao ser despertado de seu sonho, será o primeiro a se incorporar ao riso que o ridiculariza e a admitir que todas as objeções não passavam de mero divertimento e não tinham, portanto, outra intenção senão revelar a peculiar condição do ser humano que, devendo agir, raciocinar e crer, não é capaz, pela mais diligente investigação, de se esclarecer sobre o fundamento destas operações ou de remover as objeções que se poderiam levantar contra elas.

Ensaio sobre o entendimento humano: Seção XII (1)
Ensaio sobre o entendimento humano: Seção XII (2)
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Notas:
[1] Qualquer que seja a disputa acerca dos pontos matemáticos, devemos admitir que há Pontos físicos, isto é, partes da extensão que não podem ser divididas ou diminuídas, nem pela visão e nem pela imaginação. Estas imagens, portanto, que se acham presentes na fantasia ou nos sentidos, são completamente indivisíveis. Por conseguinte, os matemáticos devem admitir que são menores que qualquer parte real da extensão. Sem dúvida, nada parece mais seguro à razão que um número infinito destes pontos compondo uma extensão infinita. E deve ser ainda mais certo que um número infinito daquelas partes infinitamente pequenas que devem supor-se infinitamente divisíveis (Hume).
     Hume, em conformidade com Bayle, assumindo que a doutrina dos pontos matemáticos é indefensável, recorre à hipótese dos pontos físicos, entendendo por físicos os pontos qualitativamente caracterizados em termos visíveis e tangíveis. (Bayle, Dictzonnaire historique et critique, 5ª ed., Amsterdã, 1734, verbete “Zenon”.) O conhecimento que Hume tinha da obra de Bayle pode ser constatado pelas notas que ele mantinha durante a feitura do Tratado em que o nome de Bayle aparece mencionado cinco vezes. (Veja-se, de E. C. Mossner, “Hume’s Early Memoranda”, 1729-1740, Journal of the History of Ideas, vol. IX, n 4, outubro, 1948, pp. 492-518.) [N. do T.]
[2] Não me parece impossível evitar estas contradições e absurdos se se admite, propriamente falando, que não há idéias gerais ou abstratas, mas que todas as idéias são, na realidade, particulares, aderidas a um termo geral que evoca, em certas ocasiões, a outros particulares que se parecem, em certas circunstâncias, com a idéia presente no espírito. Assim, quando usamos o termo ‘cavalo”, imediatamente vem em nossa mente a idéia de um animal branco ou preto, de determinado tamanho ou forma; mas como o termo “cavalo” é geralmente aplicado a animais de outras cores, formas e tamanho, estas idéias, embora não estejam agora presentes na imaginação, são facilmente recordadas pelo nosso raciocínio e as conclusões [que fazemos] procedem da mesma maneira, isto é, como se elas realmente estivessem presentes. Se se admite isto — como parece razoável — conclui-se que todas as idéias de quantidade, acerca das quais raciocinam os matemáticos, não são mais que particulares e semelhantes às sugeridas pelos sentidos e a imaginação e, por conseguinte, não podem ser indefinidamente divisíveis. E suficiente levar isto em consideração, sem desenvolver mais o assunto, o que é decerto coerente com o fato de todos os amantes da ciência não se exporem ao ridículo e ao desprezo dos ignorantes por suas conclusões. Esta parece ser a solução mais fácil de todas estas dificuldades (Hume).
[3] Ao contrário de Bayle, que define o pirronismo como “a arte de debates sobre todas as coisas sem jamais assumir qualquer posição, a não ser a suspensão do juízo” (Bayle, ob. cit., verbete “Pyrrhon”, tomo IV, pp. 669-674), Hume não o considera como uma “arte”, mas como uma série de argumentos que implica o desenvolvimento de um certo tipo de atitude acerca de todos os problemas práticos e teóricos. O núcleo da tese pirrônica consiste em destacar que acerca de qualquer problema não há base racional para determinar que tipo de solução deve ser dada ao objeto em discussão. Quando, por exemplo, dois juízos entram em conflito, não há base racional para se optar por um dos dois. Portanto, nenhuma área prática ou teórica é possível de ser alçada ao nível do conhecimento seguro e indispensável. Hume concorda que a análise pirrônica não pode ser racionalmente refutada, mas admite que ninguém jamais acreditou ou pode acreditar nela, pois, segundo ele, a natureza destrói os argumentos céticos a tempo, e os impede de exercer qualquer considerável influência sobre o entendimento” (Tratado, I, ii, IV, p. 187). A aderência de Hume ao naturalismo (em verdade, o loco de sua atitude positiva), constitui o antídoto mais adequado contra as investidas pirrônicas. Isto porque o mesmo tipo de fatores naturais que formam nossa existência biológica determina igualmente nossa existência psicológica e exige de nós que mantenhamos, por vezes, opiniões sem considerarmos sua evidência. (Vejam-se, de Popkin, “David Hume: His Pyrrhonism and His Critique of Pyrrhonism”, in Chapeil, ob. cit. p. 54; de N. K. Smith, ob. cit., passim, e “The Naturalism of Hume”, Mind, 1906.) [N. do T.]

Hannah Arendt - Origens do Totalitarismo: Parte III Totalitarismo (O Movimento Totalitário - 3.2a - A Polícia Secreta)

Origens do Totalitarismo

Hannah Arendt

Parte III 
TOTALITARISMO

Os homens normais não sabem que tudo é possível. 
David Rousset 

3. O Totalitarismo no Poder
     3.2 - A Polícia Secreta

          Até hoje conhecemos apenas duas formas autênticas de domínio totalitário: a ditadura do nacional-socialismo, a partir de 1938, e a ditadura bolchevista, a partir de 1930. Essas formas de domínio diferem basicamente de outros tipos de governo ditatorial, despótico ou tirânico; e embora tenham emanado, com certa continuidade, de ditaduras partidárias, suas características essencialmente totalitárias são novas e não podem resultar de sistemas unipartidários. O objetivo dos sistemas unipartidários não é apenas apoderar-se da administração" do governo, mas, sim, através do preenchimento de todos os postos com membros do partido, atingir uma completa amálgama de Estado e partido, de sorte que, após a tomada do poder, o partido se torna uma espécie de organização de propaganda do governo. O sistema é "total" somente no sentido negativo, isto é, o partido governante não tolera outros partidos nem oposição, nem admite liberdade de opinião política. Uma vez no poder, a ditadura partidária deixa intacta a antiga relação de poder entre o Estado e o partido; o governo e o Exército têm o mesmo poder de antes, e a "revolução" consiste apenas no fato de que todas as posições governamentais são agora ocupadas por membros do partido. Em todos esses casos, o poder do partido reside num monopólio garantido pelo Estado, e o partido já não possui um centro de poder próprio.
     De natureza consideravelmente mais radical é a revolução iniciada pelos movimentos totalitários após a tomada do poder. Desde o começo, procuram conscientemente manter todas as diferenças essenciais entre o Estado e o movimento e evitar que as instituições "revolucionárias" do movimento sejam absorvidas pelo governo.[86] O problema de apoderar-se da máquina estatal sem se fundir a ela é resolvido permitindo-se que ascendam na hierarquia do Estado somente aqueles membros do partido cuja importância seja secundária para o movimento, o poder verdadeiro é investido nas instituições do movimento, fora da estrutura do Estado e do Exército. Todas as decisões são tomadas dentro do movimento, que permanece como o centro de ação do país. Os serviços públicos oficiais muitas vezes nem são informados do que está acontecendo, e aqueles membros do partido que têm a ambição de subir ao nível de ministros pagam sempre por esse desejo "burguês" com a perda da influência sobre o movimento e até da confiança dos líderes.
     O totalitarismo no poder usa o Estado como fachada externa para representar o país perante o mundo não-totalitário. Como tal, o Estado totalitário é o herdeiro lógico do movimento totalitário, do qual deriva a sua estrutura organizacional. Os governantes totalitários tratam os governos não-totalitários da mesma forma como tratavam os partidos parlamentares ou as facções intrapartidárias antes de terem tomado o poder e, num cenário maior porque internacional, têm de encarar mais uma vez o duplo problema de proteger o mundo fictício do movimento (ou do país totalitário) contra o impacto da realidade, e de manter a aparência de normalidade e de bom senso perante o mundo normal de fora.
     Acima do Estado e por trás das fachadas do poder ostensivo, num labirinto de cargos multiplicados, por baixo de todas as transferências de autoridade e em meio a um caso dê ineficiência, está o núcleo do poder do país, os supereficientes e supercompetentes serviços da polícia secreta.[86a] A importância da polícia como único órgão do poder e o desprezo em relação ao poder do Exército, que caracterizam os regimes totalitários, podem ainda ser parcialmente explicados pela aspiração totalitária de domínio mundial e pela consciente abolição da diferença entre um país estrangeiro e o país de origem, entre assuntos externos e assuntos domésticos. As forças militares, treinadas para lutar contra um agressor estrangeiro, sempre constituíram instrumento duvidoso para fins de guerra civil; mesmo em condições totalitárias, sentem dificuldades em olhar o próprio povo com os olhos do conquistador estrangeiro.[87] Mais importante a esse respeito, porém, é que os seus valores se tornam duvidosos mesmo em tempo de guerra. Como o governante totalitário conduz a polícia no pressuposto de que haverá um governo mundial, trata as vítimas da sua agressão como se fossem rebeldes, culpados de alta traição e, consequentemente, prefere dominar os territórios ocupados por meio da polícia, e não de forças militares. Mesmo antes de galgar o poder, o movimento dispõe de polícia secreta, de serviço de espionagem com ramificações em vários países. Mais tarde, os seus agentes recebem mais dinheiro e autoridade que o serviço de espionagem militar convencional, e tornam-se muitas vezes chefes secretos de embaixadas e de consulados no exterior.[88] São encarregados principalmente de formar quintas-colunas, dirigir as ramificações do movimento, influenciar a política doméstica dos respectivos países e prepará-los de modo geral para o dia em que o governante totalitário — após a derrubada do governo ou uma vitória militar — possa abertamente sentir-se em casa. Em outras palavras, as ramificações internacionais da polícia secreta transformam a política ostensivamente externa do Estado totalitário no assunto potencialmente doméstico do movimento totalitário.
     Contudo, essas funções, que a polícia secreta exerce para preparar a utopia totalitária do futuro domínio global, são secundárias em relação àquelas exigidas para pôr em prática, no presente, a ficção totalitária em determinado país. O papel dominante da polícia secreta na política doméstica dos países totalitários muito contribuiu para que fosse errônea a concepção comum do totalitarismo. Todos os despotismos dependem grandemente de serviços secretos e sentem-se muito mais ameaçados por seu próprio povo do que por qualquer povo estrangeiro. Contudo, essa analogia entre o totalitarismo e o despotismo só se verifica nos primeiros estágios do governo totalitário, quando ainda existe oposição política. Nesse ponto como em outros, o totalitarismo explora e apoia conscientemente as noções erradas não-totalitárias, por mais desfavoráveis que sejam. Himmler, no famoso discurso perante o estado-maior do Reichswehr em 1937, assumiu o papel de um tirano comum quando explicou a constante expansão das forças policiais pela suposição de que a Alemanha seria um campo de batalha interno em caso de guerra.[89] Do mesmo modo e quase ao mesmo tempo, Stálin convenceu a velha guarda bolchevista, de cujas "confissões" precisaria, de uma ameaça de guerra contra a União Soviética e, consequentemente, de uma emergência na qual o país devia permanecer unido, mesmo sob um despotismo. O aspecto mais surpreendente dessas declarações é que ambas foram feitas depois que toda oposição política havia sido extinta, e que os serviços secretos estavam sendo ampliados quando na verdade não havia mais oponentes a vigiar. Quando veio a guerra, Himmler nem precisou nem usou das tropas da SS na própria Alemanha, a não ser para o funcionamento dos campos de concentração e o policiamento dos trabalhadores estrangeiros escravizados; o grosso da SS armada serviu na frente oriental, onde foi empregada em "tarefas especiais" — geralmente homicídios em massa — e para a execução de normas que frequentemente colidiam com a hierarquia militar e a hierarquia nazista civil. Tal como a polícia secreta da União Soviética, as formações da SS geralmente chegavam depois que as forças militares haviam pacificado o território conquistado e eliminado a oposição política aberta. Nos primeiros estágios do regime totalitário, porém, a polícia secreta e as formações de elite do partido ainda desempenham um papel semelhante àquele que as caracteriza em outras formas de ditadura e nos antigos regimes de terror; e a excessiva crueldade dos seus métodos não tem paralelos na história dos países ocidentais modernos. O primeiro estágio, de desencavar os inimigos secretos e caçar os antigos oponentes, geralmente coincide com a arregimentação de toda a população em organizações de vanguarda e a reeducação dos velhos membros do partido para serviços voluntários de espionagem, de sorte que os escalões especialmente treinados da polícia não precisam preocupar-se com as duvidosas simpatias dos simpatizantes arregimentados. É durante esse estágio que um vizinho gradualmente se torna mais perigoso para os que nutrem "pensamentos perigosos" que os agentes policiais oficialmente nomeados. O fim do primeiro estágio advém com a liquidação da resistência aberta e secreta sob qualquer forma organizada; isso ocorreu por volta de 1935 na Alemanha e em aproximadamente 1930 na União Soviética.
     Só depois do completo extermínio dos reais inimigos e após o início da caça aos "inimigos objetivos" é que o terror se torna o verdadeiro conteúdo dos regimes totalitários. A pretexto de instalar o socialismo num país, ou de usar certo território como campo de prova para uma experiência revolucionária, ou de realizar a Volksgemeinschaft, a segunda pretensão do totalitarismo — a do domínio total — é posta em prática. E, embora teoricamente o domínio total seja possível apenas nas condições de domínio mundial, os regimes totalitários já demonstraram que essa parte da utopia totalitária pode ser realizada quase com perfeição, porque temporariamente independe de derrota ou vitória. Assim, Hitler podia exultar, mesmo em meio a reveses militares, com o extermínio dos judeus e a criação das fábricas da morte em massa; qualquer que fosse o resultado final, nunca teria sido possível, sem a guerra, "queimar as pontes" e realizar alguns dos objetivos do movimento totalitário.[90]
     As formações de elite do movimento nazista e os "quadros partidários" do movimento bolchevista são úteis para fins de domínio total e não para a segurança do regime no poder. Da mesma forma como a pretensão totalitária de domínio mundial apenas aparentemente equivale à expansão imperialista, também a pretensão de domínio total apenas parece familiar a quem estuda o despotismo. Se as diferenças principais entre o totalitarismo e a expansão imperialista estão no fato de que o primeiro não distingue entre o país de origem e um país estrangeiro, então a principal diferença entre a polícia secreta despótica e a totalitária é que a última não se dedica à caça de pensamentos secretos nem emprega o velho método da provocação peculiar dos serviços secretos.[91]
     Uma vez que a polícia secreta totalitária inicia a sua carreira após a pacificação do país, qualquer observador de fora julga-a inteiramente desnecessária, ou então, pelo contrário, supõe erradamente que de fato exista alguma resistência secreta.[92] A superfluidade dos serviços secretos não é novidade; sempre foram atormentados pela necessidade de demonstrar a sua utilidade e de conservar-se no emprego depois de cumprida a tarefa original. Os métodos que usam para esse fim dificultam o estudo da história das revoluções. Parece, por exemplo, que não houve um único ato contra o governo de Luís Napoleão que não tivesse sido inspirado pela própria polícia.[93] Do mesmo modo, o papel dos agentes secretos infiltrados em todos os partidos revolucionários da Rússia czarista sugere fortemente que, sem a "inspiração" dos seus atos provocadores, a marcha do movimento revolucionário russo teria tido muito menos sucesso.[94]  Esse papel duvidoso da provocação pode ter sido um dos motivos pelos quais os governantes totalitários o abandonaram. Além disso, a provocação só é claramente necessária quando se admite que a suspeita não é suficiente para que alguém seja preso e punido. Naturalmente, nenhum dos líderes totalitários jamais sonhou com uma situação em que tivesse de recorrer à provocação para apanhar alguém que considerasse inimigo. Mais importante que essas considerações técnicas é o fato de que o totalitarismo define os seus inimigos ideologicamente antes de tomar o poder, de sorte que não há necessidade de informações policiais para que se estabeleçam categorias de "suspeitos". Assim, os judeus da Alemanha nazista ou os descendentes das antigas classes governantes da União Soviética não estavam realmente sob suspeita de ação hostil alguma; tinham sido declarados inimigos "objetivos" do regime em decorrência da sua ideologia, e isso bastava para serem eliminados. A principal diferença entre a polícia secreta despótica e a totalitária reside na distinção entre inimigo "suspeito" e inimigo "objetivo". Este último é definido pela política do governo e não por demonstrar o desejo de derrubar o sistema.[95] Nunca é um indivíduo cujos pensamentos perigosos tenham de ser provocados ou cujo passado justifique suspeita, mas é um "portador de tendências", como o portador de uma doença.[96] Na prática, o governante totalitário age como alguém que persistentemente insulta outra pessoa até que todo o mundo saiba que ela é sua inimiga, a fim de que possa — com certa plausibilidade — matá-la em autodefesa. É, sem dúvida, um método meio grosseiro, mas funciona, como o sabe quem quer que tenha visto como certos carreiristas bem sucedidos eliminam os concorrentes.
     A introdução da noção de "inimigo objetivo" é muito mais decisiva para o funcionamento dos regimes totalitários que a definição ideológica das respectivas categorias. Se fosse apenas uma questão de odiar os judeus ou os burgueses, os regimes totalitários poderiam, após cometerem um crime gigantesco, como que retornar às regras normais de vida e de governo. Mas sabemos que acontece exatamente o oposto. A categoria dos inimigos objetivos sobrevive aos primeiros inimigos do movimento, ideologicamente determinados; e novos inimigos objetivos são encontrados segundo as circunstâncias: os nazistas, prevendo o fim do extermínio dos judeus, já haviam tomado as providências preliminares necessárias para a liquidação do povo polonês, enquanto Hitler chegou a planejar a dizimação de certas categorias de alemães;[97] os bolchevistas, tendo começado com os descendentes das antigas classes governamentais, dirigiram todo o seu terror contra os kulaks (no começo da década de 30), que por sua vez foram seguidos pelos russos de origem polonesa (entre 1936 e 1938), os tártaros e os alemães do Volga (durante a Segunda Guerra), os antigos prisioneiros de guerra e unidades das forças de ocupação do Exército Vermelho (depois da guerra), e finalmente a população judaica tachada de cosmopolita (depois do estabelecimento de um Estado judaico). A escolha dessas categorias nunca é inteiramente arbitrária; uma vez que são divulgadas e usadas para fins de propaganda do movimento no exterior, devem parecer plausíveis como possíveis inimigos; a escolha de uma determinada categoria pode até ser motivada por certas necessidades de propaganda do movimento em geral — como, por exemplo, o repentino surgimento do antissemitismo governamental na União Soviética, inteiramente sem precedentes, cuja finalidade pode ter sido a de angariar simpatias para a União Soviética nos países satélites europeus. Os julgamentos ostensivos, que exigem confissões subjetivas de culpa por parte de inimigos "objetivamente" identificados têm a mesma finalidade; podem ser melhor encenados com aqueles que receberam doutrinação totalitária, pois esta lhes permite compreender "subjetivamente" a sua própria nocividade "objetiva" e confessar "pelo bem da causa".[98] O conceito de "oponente objetivo", cuja identidade muda de acordo com as circunstancias do momento — de sorte que, assim que uma categoria é liquidada, pode declarar-se guerra à outra —, corresponde exatamente à situação de fato reiterada muitas vezes pelos governantes totalitários, isto é, que o seu regime não é um governo no sentido tradicional, mas um movimento, cuja marcha constantemente esbarra contra novos obstáculos que têm de ser eliminados. Se é que se pode falar de algum raciocínio legal dentro do sistema totalitário, o "oponente objetivo" é a sua ideia central.
     Intimamente ligada a essa transformação do suspeito em inimigo objetivo é a nova posição da polícia secreta no Estado totalitário. Os serviços secretos já foram chamados corretamente de um Estado dentro do Estado, e isto não se aplica apenas aos despotismos, mas também aos governos constitucionais ou semiconstitucionais. A simples posse de informes secretos sempre lhes deu nítida superioridade sobre todas as outras agências do serviço público, e constituiu franca ameaça aos membros do governo.[99] A polícia totalitária, ao contrário, é totalmente sujeita ao desejo do Líder, que é o único a decidir quem será o próximo inimigo em potencial e, como o fez Stálin, pode dizer até quais os escalões da própria polícia secreta devem ser liquidados. Como a provocação não é mais permitida, a polícia perde o único meio ao seu dispor de perpetuar-se independentemente do governo, e depende inteiramente das autoridades superiores para a manutenção do seu cargo. Como o Exército num Estado não-totalitário, a polícia nos países totalitários apenas executa as normas políticas, e já não tem nenhuma das prerrogativas que tinha nas burocracias despóticas.[100]
     O dever da polícia totalitária não é descobrir crimes, mas estar disponível quando o governo decide aprisionar ou liquidar certa categoria da população. Sua principal distinção política é que somente ela confidencia com a mais alta autoridade e sabe que linha política será adotada. Isso não se aplica somente a questões de alta política, como a liquidação de toda uma classe ou todo um grupo étnico (só os oficiais da GPU conheciam o verdadeiro objetivo do governo soviético no início da década de 30, como só as formações da SS sabiam que os judeus iriam ser exterminados no início da década de 40); o que caracteriza a vida diária nas condições do regime totalitário é que somente os agentes da NKVD numa indústria são informados do que pretende Moscou quando, por exemplo, ordena que se intensifique a produção de canos — se realmente deseja mais canos, ou a ruína do diretor da fábrica, ou a liquidação de toda a gerência, ou a eliminação da fábrica, ou, finalmente, a repetição dessa ordem em todo o país para que um novo expurgo possa começar.
     Um dos motivos da duplicação dos serviços secretos, cujos agentes se desconhecem entre si, é que o domínio total precisa da mais ampla flexibilidade: para usar o nosso exemplo, ao pedir canos, Moscou pode ainda não saber se deseja canos — coisa que sempre é necessária — ou se visa a um expurgo. A multiplicação dos serviços secretos possibilita mudanças de última hora, de sorte que um setor governamental pode estar planejando condecorar o diretor da fábrica com a Ordem de Lenin enquanto outro toma providências para a sua prisão. A eficiência da polícia reside no fato de que essas tarefas contraditórias podem ser planejadas simultaneamente. No regime totalitário, como em outros regimes, a polícia secreta tem o monopólio de certas informações vitais. Mas há uma importante diferença quanto ao tipo de conhecimento que só a polícia pode ter: já não lhe interessa saber o que se passa na cabeça das futuras vítimas, mas é a depositária dos maiores segredos do Estado. Isso significa automaticamente uma grande melhoria de posição e prestígio, embora seja acompanhado da perda do verdadeiro poder. Os serviços secretos já não sabem de coisa alguma que o Líder não saiba melhor que eles. Em termos de poder, a polícia desceu à categoria do carrasco. Do ponto de vista legal, a substituição totalitária da ofensa presumível pelo crime possível é ainda mais interessante que a transformação do inimigo suspeito em inimigo objetivo. O crime possível não é mais subjetivo do que o inimigo objetivo. Enquanto o suspeito é preso porque se presume que ele é capaz de cometer um crime que mais ou menos se ajusta à sua personalidade (ou ao que se suspeita corresponder à sua personalidade),[101] a versão totalitária do crime possível baseia-se na previsão lógica de fatos objetivos. Os Julgamentos de Moscou da velha guarda bolchevista e dos chefes do Exército Vermelho foram exemplos clássicos de punição de crimes possíveis. Das acusações fantásticas e falsificadas, depreende-se o seguinte cálculo lógico: os acontecimentos na União Soviética podiam levar a uma crise, uma crise podia levar à derrubada da ditadura de Stálin, o que poderia enfraquecer o poderio militar do país e possivelmente gerar uma situação em que o novo governo poderia ter de assinar uma trégua ou até uma aliança com Hitler.[102]
     Consequentemente, Stálin passou a denunciar um complô para derrubar o governo e uma conspiração em que Hitler estava envolvido. Contra essas possibilidades "objetivas", embora inteiramente improváveis, só existiam fatores "subjetivos", como a fidelidade dos acusados, sua fadiga, sua incapacidade de compreender o que estava acontecendo, sua firme convicção de que, sem Stálin, tudo estaria perdido, seu sincero ódio ao fascismo — isto é, um número de detalhes reais que, naturalmente, não tinham a consistência do crime fictício, lógico e possível. O pressuposto central do totalitarismo — de que tudo é possível — leva assim, através da constante^ eliminação de restrições reais, à consequência absurda e terrível de que todo crime que o governante possa conceber como viável deve ser punido, tenha sido cometido ou não. O crime possível, como o inimigo objetivo, está, naturalmente, fora da alçada da polícia, que não pode descobri-lo, nem inventá-lo, nem provocá-lo. Mais uma vez, os serviços secretos dependem inteiramente das autoridades políticas. Sua independência como um Estado dentro do Estado já não existe.
     Apenas num ponto a polícia secreta totalitária ainda lembra os serviços secretos dos países não totalitários. A polícia secreta tradicionalmente tirava proveito das vítimas, suplementando o orçamento oficial autorizado pelo Estado por meio de certas fontes não ortodoxas, associando se simplesmente a atividades que deveria combater, como o jogo e a prostituição.[103] Esses métodos ilegais de autofinanciamento, que iam desde a cordial aceitação de subornos até a franca chantagem, muito contribuíram para que os serviços secretos se libertassem das autoridades públicas, fortalecendo a sua posição como um Estado dentro do Estado. É curioso verificar que o financiamento das autoridades policiais com a renda proveniente de suas vítimas sobreviveu a todas as outras mudanças. Na Rússia soviética, a NKVD depende quase exclusivamente da exploração do trabalho escravo que, na Verdade, parece não produzir outro lucro nem servir economicamente para outra coisa senão para financiar o enorme aparelho secreto.[104] No início Himmler financiou suas tropas SS, constituídas ainda de quadros de oficiais da polícia secreta nazista, com o confisco de propriedades judaicas; depois, fez um acordo com Darré, o ministro da Agricultura, segundo o qual reverteriam a Himmler os lucros de Darré — várias centenas de milhões de marcos — ganhos anualmente com a compra de produtos agrícolas a baixo preço no exterior e sua venda a preços prefixados na Alemanha.[105] Após o início da guerra, essa fonte de renda "regular" naturalmente acabou; Albert Speer, o sucessor de Todt e o maior empregador de mão-de-obra na Alemanha após 1942, propôs a Himmler um arranjo semelhante em 1942: se Himmler concordasse em lhe entregar os trabalhadores escravos importados, até então colocados sob a jurisdição da SS, a organização de Speer daria à SS certa porcentagem dos lucros.[106] A essas fontes de renda mais ou menos regulares, Himmler acrescentava os velhos métodos de chantagem dos serviços secretos em tempos de crise financeira: em cada comunidade, as unidades da SS fundavam grupos de "Amigos da SS" que tinham de prover "voluntariamente" os fundos para as necessidades dos homens da SS local.[107]  É digno de nota o fato de que, em suas várias operações financeiras, a polícia secreta nazista não explorava os prisioneiros. Exceto nos últimos anos de guerra, quando o uso do material humano nos campos de concentração já não era determinado apenas por Himmler, o trabalho nos campos "não tinha outra finalidade racional a não ser a de aumentar as provações e a tortura dos infelizes prisioneiros".[108]
     
Parte III Totalitarismo (O Movimento Totalitário - 3.2a - A Polícia Secreta)
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[86] Hitler frequentemente fazia comentários sobre a relação entre o Estado e o Partido e sempre acentuava que não o Estado, mas a raça, ou a "comunidade popular unida", era a mais importante (cf. o discurso citado acima, publicado como anexo a Tischgespràche). Em seu discurso no Parteitag de 1935, em Nuremberg, ele exprimiu essa teoria do modo mais sucinto: "Não é o Estados que nos comanda, mas nós que comandamos o Estado". Na prática, é axiomáticos que tais poderes de comando somente serão possíveis se as instituições do partido permanecerem independentes das do Estado.
[86a] Otto Gauweiler, Rechtseinrichtungen und Rechtsaufgaben der Bewegung, 1939, observa expressamente que a posição especial de Himmler como Reichsfuehrer-SS e chefe da policia alemã repousava no fato de que a administração da polícia havia produzido "uma genuína unidade do partido e Estado", que não havia nem sido tentada em outros setores do governo.
[87] Durante as revoltas camponesas dos anos 20 na Rússia, Voroshilov recusou o apoio do Exército Vermelho, o que levou à introdução de divisões especiais da GPU para tarefas punitivas. Ver Ciliga, op. cit., p. 95.
[88] Em 1935, os agentes da Gestapo no exterior receberam 20 milhões de marcos, enquanto o serviço de espionagem regular do Reichswehr tinha de contentar-se com um orçamento de 8 milhões. Ver Pierre Dehillotte, Gestapo, Paris, 1940, p. 11.
[89] Ver Nazi conspiracy, IV, 616 ss.
[90] Ver nota 62.
[91] Maurice Laporte, Histoire de 1'Okhrana, Paris, 1935, diz, com justiça, que o método de provocação é "a pedra fundamental" da polícia secreta (p. 19).
     Na Rússia soviética, a provocação, longe de ser a arma secreta da polícia secreta, tem sido usada como, o método público e largamente divulgado pelo qual o regime sonda a opinião pública. A relutância da população em tirar proveito desses convites periódicos à critica, ou em reagir a interlúdios "liberais" no regime do terror, mostra que esses gestos são compreendidos como provocação em massa. Realmente, a provocação tornou-se a versão totalitária das pesquisas de opinião pública.
[92] Nesse ponto, é interessante notar as tentativas feitas pelos funcionários civis nazistas para reduzir a competência e o pessoal da Gestapo, argumentando que a nazificação do país já havia sido conseguida, de sorte que Himmler, que, ao contrário, desejava expandir os serviços secretos àquela altura (cerca de 1934), teve de exagerar o perigo proveniente dos "inimigos internos". VetNaziconspiracy, II, 259; V, 205; III, 547.
[93] Ver Gallier-Boissière, Mysteries ofthe French secretpolice, 1938, p. 234.
[94] Afinal, parece que não foi por acaso que a fundação da Okhrana em 1880 trouxe um período de atividade revolucionária sem precedentes na Rússia. Para demonstrar sua utilidade, a Okhrana tinha às vezes de organizar assassinatos, e os seus agentes, "a despeito de si próprios, serviam às ideias daqueles a quem denunciavam. (...) Que um panfleto antigovernamental ou a execução de um ministro fossem obras da polícia ou de um Azev — o resultado era o mesmo" (M. Laporte, op. cit., p. 25). Além disso, as execuções mais importantes parecem realmente ter sido obra da polícia — Stolypin e Von Plelwe. O fato de que, em tempos de calma, os agentes policiais tinham de "reavivar as energias e estimular o zelo" dos revolucionários, foi decisivo, para a tradição revolucionária (ibid., p. 71).
     Ver também Bertram D. Wolfe, Three who made a revolution: Lenin, Trotski, Stálin, 1948, que chama esse fenômeno de "socialismo policial".
[95] Hans Frank, que mais tarde tornou-se governador-geral da Polônia, fez uma típica diferenciação entre a pessoa que é "perigosa para o Estado" e a que é "hostil ao Estado '. A primeira categoria implica uma qualidade objetiva independente da vontade e da conduta; a policia política dos nazistas se interessa não apenas por atos hostis ao Estado, mas por "todas as tentativas — qualquer que seja o seu objetivo — cujos efeitos possam acarretar perigo para o Estado". Ver Deutsches Verwaltungsrecht [Direito administrativo alemão], pp. 420-30. Tradução citada emNazy conspiracy, IV, 881 ss. Nas palavras de Maunz, op. cit., p. 44: "Através da eliminação da pessoa perigosa, a medida de segurança (...) pretende evitar um estado de perigo à comunidade nacional, independentemente de qualquer ofensa cometida pela pessoa. [É uma questão de] evitar um perigo objetivo".
[96] R. Hoehn, jurista nazista e membro da SS, disse num obituário de Reinhard Heydrich, que, antes de governar a Boêmia ocupada, havia sido um dos mais íntimos colaboradores de Himmler, que considerava os seus oponentes "não como indivíduos, mas como portadores de tendências que traziam perigo para o Estado e, portanto, como tais, estavam além do âmbito da comunidade nacional". Em Deutsche AllgemeineZeitung, de 6 de junho de 1942; citado por E. Kohn-Bramstedt, Dictatorship andpoliticalpolice, Londres, 1945.
[97] Já em 1941, durante uma reunião de dirigentes no quartel-general de Hitler, apresentou-se uma proposta de impor à população polonesa os mesmos regulamentos com os quais os judeus haviam sido preparados para os campos de extermínio: mudança de nomes, se estes fossem de origem alemã (como os judeus foram obrigados a apor a seus prenomes, obrigatoriamente, Israel ou Sara), sentenças de morte pelas relações sexuais entre alemães e poloneses (Rassenschande); obrigação de usar um sinal com a letra "P" na Alemanha, semelhante à estrela amarela com a letra "J" dos judeus. Ver Nazi conspiracy, VIII, 237 ss, e o diário de Hans Frank em Trial, op. cit., XXI, 683. Quanto aos planos de Hitler com referência ao povo alemão, ver a nota 80.
[98] Beck e Godin, op. cit., p. 87, falam das "características objetivas" que mais facilmente levavam à prisão na Rússia: entre elas, está o fato de pertencer à NKVD (p. 153). Era mais fácil aos ex-membros da polícia secreta compreenderem subjetivamente a necessidade objetiva da prisão e da confissão. Nas palavras de um ex-agente da NKVD: "Os meus superiores conhecem-me a mim e ao meu trabalho bastante bem e, se o partido e a NKVD exigem agora que eu confesse essas coisas, devem ter boas razões para isso. Meu dever como um leal cidadão soviético é não lhes negar a confissão exigida de mim" (ibid., p. 231).
[99] Bem conhecido é o caso da França, onde os ministros viviam em constante pavor dos "dossiers" secretos da polícia. Quanto à situação na Rússia czarista ver Laporte, op. cit., pp. 22-3: "Chegará o dia em que a Okhrana exercerá um poder muito superior ao das autoridades mais regulares.(...) A Okhrana (...) só deixará o czar saber aquilo que ela quiser''.
[100] "Em contraste com a Okhrana, que havia sido um Estado dentro do Estado, a GPU é um departamento do governo soviético; (...) e as suas atividades são muito menos independentes" (RogerN. Baldwin, "Politicalpolice", na Encyclopedia of social sciences).
[101] Típica do conceito de suspeito é a seguinte história, contada por C. Pobiedonostzev em L'autocratie russe: mémoires politiques, correspondance officielle et documents inédits ... 1881-1894, Paris, 1927: "Pediram ao general Cherevin, da Okhrana, que interviesse a favor de uma senhora que estava para perder um processo, no qual a outra parte havia contratado um advogado judeu. Disse o general: 'Na mesma noite, mandei prender o maldito judeu e meti-o na prisão como pessoa politicamente suspeita. (...) Afinal, não posso tratar da mesma forma os meus amigos e um judeu sujo, que pode ser inocente hoje, mas que foi culpado ontem ou pode vir a ser culpado amanhã'".
[102] As acusações dos julgamentos de Moscou "baseavam-se (...) numa previsão grotescamente brutalizada e distorcida de possíveis acontecimentos. O raciocínio [de Stálin] provavelmente se processou como segue: querem derrubar-me numa crise — acusá-los-ei de terem-no tentado. (...) Uma mudança de governo pode enfraquecer a capacidade bélica da Rússia; e, se eles forem bem-sucedidos, podem ser obrigados a assinar a trégua com Hitler, e talvez até concordem em ceder algum território. (...) Acusá los-ei de já haverem feito uma traiçoeira aliança com a Alemanha e de terem concordado em ceder território soviético". Esta é a brilhante explicação de Isaac Deutscher sobre os julgamentos de Moscou, op. cit., p. 377.
     Um bom exemplo da versão nazista do crime possível pode ser encontrado em Hans Frank, op. cit.: "É impossível fazer um rol completo dos atos 'perigosos para o Estado' porque nunca se pode prever aquilo que virá a constituir um risco para a liderança e para o povo em alguma data futura". (Tradução citada em Nazi conspiracy, IV, 881.) 
[103] Os métodos criminosos da polícia secreta são conhecidos na França de Fouchet. Na Áustria, por exemplo, a temida policia política sob o reino de Maria Teresa foi organizada por Kaunitz com os elementos dos chamados "comissários da castidade", que viviam de chantagem. Ver Moritz Bermann, Maria Theresia und Kaiser Joseph II, Vienna-Leipzig, 1881. Devo esta referência a Robert Pick.
[104] Não há dúvida de que a enorme organização policial é paga com os lucros do trabalho escravo; o que é surpreendente é que o orçamento da polícia não parece ser inteiramente coberto dessa forma; Kravchenko, op. cit., menciona impostos especiais, cobrados pela NKVD dos cidadãos condenados que conseguem sobreviver e que trabalham em liberdade.
[105] Ver FritzThyssen, 1941.
[106] Ver Nazi conspiracy, I, 916-7. A atividade econômica da SS era centralizada num escritório para assuntos econômicos e administrativos. Para o Tesouro e para o Imposto de Renda, a SS declarava seus haveres financeiros como "propriedade do partido reservada para fins especiais" (carta de 5 de maio de 1943, citada por M. Wolfson, Uebersicht der Gliederung verbrecherischer Nazi-Organisationen [Panorama da estrutura das organizações criminais nazistas], Omgus, dezembro de 1947).
[107] Ver Kohn-Bramstedt, op. cit., p. 112. A chantagem fica bem caracterizada se considerarmos que esse tipo de coleta de dinheiro era sempre organizado pelas unidades SS nas próprias localidades onde operavam. Ver Der Weg der SS, publicado pelo SS-Hauptamt-Schulungsamt (sem data), p. 14.
[108Ibid., p. 124. Faziam-se certas exceções no tocante às necessidades de manutenção dos campos e às necessidades pessoas da SS. Ver Wolfson, op. cit., carta de 19 de setembro de 1941, de Oswald Pohl, chefe do WVH (Wirtschafts- und Werwaltungs-Hauptamt) ao Reichskommissar parece controle de preços. Parece que todas essas atividades econômicas surgiram nos campos de concentração apenas durante a guerra e devido à aguda escassez de mão-de-obra.